Teste de realidade: estamos vivendo em um mundo imaterial?

Por Steve Wright, 

(Traduzido por Humanaesfera de  Mute Vol 2 Nº 1  de novembro de 2005)

Um padre certa vez encontrou um mestre zen e, para deixá-lo embaraçado, desafiou: “Sem usar som e  nem silêncio, você pode me revelar a realidade?” O mestre zen socou-lhe a cara [1].

As persistentes afirmações de que hoje vivemos numa economia ou sociedade do conhecimento levantam muitas questões para reflexão. Nas próximas linhas, quero discutir alguns aspectos dessas afirmações, principalmente no que se refere à noção de trabalho imaterial. Este termo foi desenvolvido dentro do campo de pensamento que é em geral denominado “pós-obreirista” [“postworkerist”], cujo expoente mais conhecido é certamente Antonio Negri. Enquanto suas raízes se situam no ramo do marxismo italiano do pós-guerra conhecido como operaismo(obreirismo), esse campo repensou e reelaborou muitos preceitos desenvolvidos durante o auge de 1968-78 da nova esquerda italiana. Na verdade, foi a própria derrota dos sujeitos sociais que o operaismoidentificava – primeiro e sobretudo, o assim chamado “operário massa” engajado na produção de bens de consumo duráveis através do trabalho repetitivo “semi-qualificado” – que levou Negri e outros a insistir que embarcamos numa nova era além da modernidade [2].

Para essa visão de mundo, hoje, um tipo muito diferente de trabalho ou teria se tornado hegemônico entre aqueles que não tem nada a vender exceto sua capacidade de trabalhar,  ou estaria em vias de alcançar tal hegemonia. A dependência crescente do capital por esse trabalho diferente – imaterial – teria trazido sérias implicações para o processo de auto-expansão do trabalho abstrato (valor) que define o capital como uma relação social. Enquanto Marx sustentava que o “tempo de trabalho socialmente necessário” associado com sua produção fornece os meios pelos quais o capital pode medir o valor das mercadorias (e assim a massa de mais-valor que ele espera realizar com sua venda), Negri, pelo contrário, é da opinião de que com um tempo de trabalho crescentemente complexo e qualificado, e de uma jornada de trabalho que cada vez menos se separa (e no fim coloniza) do restante de nossas horas acordados, o valor não pode mais ser calculado. Conforme ele declarou há uma década, em tais circunstâncias, a exploração do trabalho continua, mas “fora de qualquer medida econômica: sua realidade econômica é fixada exclusivamente em termos políticos” [3].

Isso é algo muito esotérico, particularmente os argumentos sobre a mensurabilidade (ou não) do valor. Devemos perder tempo com isso? O que espero mostrar é que, apesar de toda sua aparente obscuridade, esse debate é importante. Porque levanta questões sobre como entender nosso contexto imediato, inclusive como interpretar as possibilidades latentes na composição de classe contemporânea. Será que um setor da composição de classe é capaz de dar a marcação do ritmo e o tom nas lutas contra o capital, ou, ao invés, devemos olhar para a emergência de “estranhos loops… curto-circuitos e estranhas conexões entre vários setores da classe” (como Midnight Notes sugeriu uma vez) como uma condição necessária para ir além do “atual estado de coisas”?

Desembrulhando o trabalho imaterial

A discussão de Maurizio Lazzarato sobre “Trabalho imaterial” foi, talvez, o primeiro tratamento extenso do assunto a aparecer em inglês. Parte de uma antologia de importantes textos italianos publicados em meados dos anos 90, o texto de Lazzarato definia o termo trabalho imaterial como “trabalho que produz o conteúdo informacional e cultural da mercadoria” [4]. As formas “clássicas” deste trabalho são representadas em áreas como “produção audiovisual, publicidade, moda, produção de software, fotografia, atividades culturais, e assim por diante”, e aqueles que executam tal trabalho geralmente encontram-se em circunstâncias de alta casualidade, precariedade e exploração, como parte daquilo que, mais recentemente e em certos círculos radicais da Europa Ocidental, veio a ser chamado de “precariado” [5].

A abordagem taylorista da produção que confrontou o operário massa tinha decretado: “vocês não são pagos para pensar”. Lazzarato argumentou que, com o trabalho imaterial, o projeto gerencial mudou. De fato, ele se tornou ainda mais totalitário do que a rígida divisão anterior entre trabalho intelectual e trabalho manual (ideias e execução), porque o capitalismo procura envolver até mesmo a personalidade do trabalhador no âmbito da produção do valor [6].

Ao mesmo tempo, Lazzarato acreditava que essa nova abordagem administrativa traria riscos reais para o capital, uma vez que a própria existência do capital foi colocada nas mãos de uma força de trabalho posta a exercer sua criatividade através de empenhos coletivos. E, diferente de há um século atrás, quando uma camada de trabalhadores qualificados ficava igualmente no centro de indústrias-chave, mas em grande parte isolada das “massas” desorganizadas, o “trabalho imaterial” de hoje  não pode ser entendido como atributo distintivo de um estrato dentro do força de trabalho. Ao contrário, a mão de obra qualificada está presente (ainda que apenas de forma latente) em amplos setores do mercado de trabalho, começando pelo jovem.

O livro Império, de Michael Hardt e Antonio Negri – um livro considerado (com ou sem razão) como a peça central do pensamento pós-obreirista – foi construído com a obra de Lazzarato e a modificou. Aceitando a premissa de que o trabalho imaterial passou a ser central para a sobrevivência do capital (e, por extensão, para projetos que visem a sua extinção), Hardt e Negri identificaram três segmentos do trabalho imaterial:

  1. a) os exemplos transformados de produção industrial que abraçaram a comunicação como um fluido vital; b) a realização de “análise simbólica e resolução de problemas” por trabalhadores do conhecimento; c) o trabalho afetivo encontrado sobretudo no setor de serviços [7].

Essas experiências, admitia-se, podiam ser muito díspares: os trabalhadores do conhecimento, por exemplo, foram divididos entre profissionais “high-end”, com considerável controle sobre suas condições de trabalho, enquanto outros são envolvidos em “empregos de manipulação rotineira de símbolos, de baixo valor e baixa qualificação” [8]. Porém, um fio comum ligaria os três elementos. Como exemplos de trabalho em serviços, nenhum deles produz um “bem material ou durável”. Além disso, dado que o produto é fisicamente intangível enquanto objeto discreto, então o trabalho que o produziu poderia ser designado como “imaterial” [9].

Como podemos cosiderar tais argumentos? Doug Henwood elogiou Império pela verve e otimismo de visão, porém acrescentou:

“Hardt e Negri são frequentemente acríticos e crédulos em face da propaganda ortodoxa sobre a globalização e a imaterialidade… Eles afirmam que o trabalho imaterial – o trabalho nos serviços, basicamente – hoje prevalece sobre o antiquado trabalho material, mas não cita nenhuma estatística: a acreditar neles, você nunca esperaria que houvesse mais americanos que são motoristas de caminhão  do que profissionais de informática. E nem passaria pela cabeça que três bilhões de pessoas, metade da população da Terra, vive no terceiro mundo rural, onde a ocupação principal continua sendo cultivar a terra” [10].

Nick Dyer-Witheford também registrou várias críticas à abordagem de Hardt e Negri sobre a composição de classe [11]. Para ele,  Império omite as tensões entre os três fragmentos de classe que ele identifica, enquanto, em última análise, lê o trabalho imaterial só através das lentes de sua manifestações “high-end”. E tudo isso é realmente tão novo quanto Hardt e Negri insinuam? É como se o “trabalho afetivo”, por exemplo, já não fosse algo fundamental para a reprodução social no passado, mesmo que ele passasse despercebido – devido a sua ampla composição de gênero, talvez – em muitas análises sociais.

Outra questão diz respeito à insistência de Império de que “o aspecto cooperativo do trabalho imaterial não é imposto ou organizado de fora” [12]. Novamente, talvez isso seja verdade para algum trabalho no “high-end”. Mas a obrigação de perguntar: “Você quer batatas fritas com que?” realmente representa uma ruptura com os regimes de trabalho fordistas? Ou muitos dos “McJobs” [empregos como os do McDonalds] que predominam no fundo das profundezas da chamada produção imaterial  não poderiam ser melhor caracterizados como “os descendentes taylorisados, desqualificados de antigas formas trabalho de escritório” e outros trabalho nos serviços [13]?

Mais recentemente, em 2004, Hardt e Negri tentaram responder a alguns de seus críticos no livro Multidão, a sequência de Império. A primeira coisa a notar aqui é que, enquanto o trabalho imaterial continua a ser o pivô central para os argumentos do livro, ele é apresentado de uma forma um tanto mais cautelosa e qualificada do que antes. De fato, Hardt e Negri têm o cuidado de afirmar que:

  1. a) “Quando afirmamos que o trabalho imaterial tende para a posição hegemônica, não estamos dizendo que a maioria dos trabalhadores no mundo de hoje estão produzindo principalmente bens imateriais”, b) “O trabalho envolvido em toda produção imaterial, devemos enfatizar, permanece material – ele envolve nossos corpos e cérebros como qualquer trabalho. O que é imaterial é seu produto”[14].

Portanto, tal como a ascensão da Multidão, aqui a hegemonia do trabalho imaterial como ponto de referência, ou mesmo vanguarda, para “a maioria dos trabalhadores no mundo de hoje” é considerada como uma tendência, embora inexorável. No final da discussão de Multidão sobre trabalho imaterial, Hardt e Negri falam no que eles chamam de “teste de realidade” – “que evidências temos para verificar nossa afirmação de uma hegemonia do trabalho imaterial” [15]?  É o momento que todos estávamos esperando, e infelizmente a meia página da discussão que eles oferecem é decepcionante: uma alusão ao US Bureau of Statistics [Secetaria de Estatísticas Laborais dos EUA] que indica que o trabalho em serviços está em ascensão; o deslocamento da produção industrial “para partes subordinadas do mundo”, que sinalizaria o privilégio da produção imaterial no coração do Império; a importância crescente das “formas imateriais de propriedade”; e, finalmente, a disseminação de formas de organização em rede específicas ao trabalho imaterial [16]. Chame-me de velho antiquado, mas é necessário algo mais do que isso em um livro de mais de 400 páginas dedicadas a explicar suas declarações sobre a última manifestação do proletariado como sujeito revolucionário…

A referência ao aumento da atividade no setor de serviços é interessante por várias razões. Huws argumenta que o aumento implacável do trabalho em serviços no ocidente pode tomar outro significado se o emprego doméstico tão comum há 100 anos fosse levado em conta na equação [17]. Escrevendo uma década antes, Sergio Bologna sugeriu que certas formas de trabalho só passaram a aparecer como “serviços” nas estatísticas oficiais após terem sido terceirizadas; anteriormente, quando eram realizadas “em casa”, elas apareciam como “manufatura” [18]. Nenhum autor está tentando negar que mudanças importantes ocorreram na economia global, a começar por países como a Grã-Bretanha, Austrália, Canadá e Estados Unidos. No entanto, eles pedem cautela na interpretação das mudanças, e cuidado nas categorias usadas para explicá-las. Bolonha – um antigo colaborador de Negri em vários projetos políticos nos anos 60 e 70 – é particularmente cáustico sobre a noção de trabalho imaterial, chamando-a um “mito” que, mais do que qualquer outra coisa, oculta o aumento da jornada de trabalho [19].

Fim do valor enquanto medida?

Como mencionado anteriormente, uma das características distintivas do pós-obreirismo é a rejeição da assim chamada “lei do valor” de Marx. George Caffentzis nos lembra que o próprio Marx raramente falava de uma tal lei, mas que também não há dúvida sobre sua opinião de que, sob o domínio do capital, a quantidade de tempo de trabalho socialmente necessário para produzir mercadorias em última instância determina seu valor [20]. Rompendo com Marx a este respeito, os pós-obreiristas se inspiram em uma passagem dos Grundrisse conhecida como “Fragmento sobre as Máquinas”. Este prevê uma situação, alinhada com a tentativa perene do capital de se livrar da sua dependência do trabalho, onde o conhecimento se tornou o fluido vital do capital fixo, e o input direto de trabalho na produção é meramente incidental. Nestas circunstâncias, Marx argumenta, o capital efetivamente destrói a base que o sustenta, pois “Tão logo o trabalho na sua forma direta deixou de ser o grande fonte de riqueza, o tempo de trabalho deixa e deve deixar de ser sua medida e, portanto, o valor de troca [deve deixar de ser a medida] do valor de uso” [21].

Negri, entre outros, tem insistido há muitos anos, e de várias maneiras, que o capital hoje atingiu esse estágio.  Conclui que nada além da pura dominação mantém o domínio do capital: “a lógica do capital não mais funciona para o desenvolvimento, ela é simplesmente comando para sua própria reprodução” [22]. Na verdade, uma série de comentaristas sociais têm evocado o “Fragmento sobre as Máquinas” nos últimos tempos – aparte tudo o mais, tem mantido uma certa popularidade entre aqueles (como o futurólogo reacionário Jeremy Rifkin) que nos dizem que vivemos em uma sociedade cada vez mais livre do trabalho. É uma pena, então, que, destes escritores, pouquíssimos seguiram a lógica do argumento de Marx nos Grundrisse até suas conclusões. Pois enquanto ele indica que o capital, de fato, busca “reduzir o tempo de trabalho a um mínimo”, Marx também nos lembra de que o próprio capital não é nada mais do que o tempo de trabalho acumulado (trabalho abstrato enquanto valor) [23]. Em outras palavras, o capital é obrigado pela sua própria natureza, e durante o tempo que estamos presos a ele, a por o “tempo de trabalho … como única medida e fonte de riqueza”.

Em seu esforço para escapar do trabalho, o capital tenta uma série de coisas que, cada uma à sua maneira, alimenta os argumentos que fazem o tempo de trabalho parecer como irrelevante como a medida do desenvolvimento do capital. Considerada com mais cuidado, no entanto, cada uma dessas coisas pode ser vista de um modo um tanto diferente. Para começar, o capital tenta externalizar ao máximo seus custos laborais: para dar um exemplo banal (embora não tão banal se você é um ex-empregado de banco), incentivando o serviço bancário online e máquinas de autoatendimento e desativando o atendimento de balcão. Quanto ao nosso próprio cotidiano de trabalho, muitos de nós levam para casa cada vez mais trabalho (até mesmo para o trem, ou o carro). Parecemos ter que ficar numa prontidão cada vez maior, acessíveis através da internet ou telefone. Somadas, estratégias desse tipo (que, para acrescentar confusão a tudo isso, pode muito bem cruzar com nossas próprias aspirações individuais por mais flexibilidade) ajudam em grande medida a explicar esse apagamento da separação entre os componentes “trabalho” e “não trabalho” em nosso cotidiano. Por outro lado, elas mostram essa separação sob uma perspectiva diferente da do colapso do tempo de trabalho como medida do valor, uma perspectiva em que – precisamente porque a quantidade de tempo de trabalho é crucial para a existência do capital – o máximo de trabalho possível passa a ser executado na sua forma não paga.

Em segundo lugar, na tentativa de diminuir os custos laborais dentro de organizações individuais, o capital também reformula o processo pelo qual os lucros são distribuídos em uma escala setorial e global. Em uma série de ensaios nos últimos 15 anos, George Caffentzis delineou a ideia, primeiramente elaborada no terceiro volume de O Capital de Marx, de que as taxas médias de lucro sugam a mais-valia dos setores trabalho-intensivos para aqueles com um investimento maior em capital fixo:

“Para que haja uma taxa média de lucro em todo o sistema capitalista, os ramos da indústria que empregam muito pouco trabalho, mas muita maquinaria devem ser capazes de ter o direito de reivindicar a reserva de valor que os ramos com baixa tecnologia e muito trabalho criam. Se não houvesse tais ramos ou tal direito, então a taxa média de lucro seria tão baixa nas industrias de alta tecnologia e pouco trabalho que todo o investimento pararia e o sistema chegaria ao fim. Consequentemente, “novos cercamentos” no campo devem acompanhar o aumento de “processos automáticos” na indústria, o computador requer o sweat shop, e a existência do ciborgue se sustenta na do escravo” [24].

Neste exemplo, se não parece haver correlação imediata entre o valor de uma mercadoria individual e o lucro que ela retorna do mercado, a resposta pode bem ser que não há nenhuma: o quebra-cabeça só pode ser resolvido através da análise do setor como um todo, em uma extensão que vai muito além dos horizontes do trabalho imaterial. Aqui também, é uma questão de quais parâmetros escolhemos para emoldurar nossa investigação.

Em terceiro lugar, e em sequência, a divisão do trabalho em muitas organizações, indústrias e empresas atingiu um ponto em que é difícil – e provavelmente sem sentido – determinar a contribuição de um empregado individual para a massa de mercadorias que ele ajuda a produzir [25]. Novamente, isso pode favorecer a sensação de que o tempo de trabalho envolvido na produção de tais mercadorias (tangíveis ou não) é irrelevante para o valor que elas contém. Marx, por sua vez, argumentou que para tratar tudo isso, a questão central é de perspectiva:

“Se considerarmos o trabalhador agregado, ou seja, se tomarmos em conjunto todos os membros que compõem a oficina, então vemos que a atividade combinada deles resulta materialmente num produto agregado que é ao mesmo tempo uma quantidade de bens. E aqui é totalmente indiferente se o trabalho de um operário em especial, que é meramente um membro desse trabalhador agregado, está a uma distância maior ou menor do trabalhador manual real” [26].

Sobre isso, a crítica de Ursula Huws da noção de “economia sem peso” [“weightless economy”] merece cuidadosa atenção. Como Doug Henwood em sua desconstrução impetuosa da “nova economia” [27], Huws traz a nossa atenção de volta não só para a enorme infra-estrutura que sustenta a “economia do conhecimento”, mas também para “o fato de que pessoas reais, com corpos reais, contribuíram com tempo real para o desenvolvimento dessas mercadorias ‘sem peso'” [28]. Com relação a determinar a contribuição do trabalho humano no âmbito da produção de mercadorias imateriais, Huws argumenta que, enquanto pode “ser difícil fazer um modelo”, isso “não torna a tarefa impossível”. Ou, nas palavras de David Harvie, “todos dia, as personificações do capital – privadas ou estatais – fazem julgamentos sobre o valor e sua medida” em seu esforço “para reforçar a conexão entre valor e trabalho “, Ele acrescenta:

“Hardt e Negri podem acreditar na ‘impossibilidade de o poder conseguir calcular e ordenar a produção em nível global’, mas ‘o poder’ nunca parou de tentar, e a ‘impossibilidade’ de seu projeto deriva diretamente de nossas próprias lutas contra a redução da vida à medida [29].”

Outros rumos?

Há não muito tempo atrás, Dr. Woo me indicou uma apresentação de Brian Holmes, intitulada “Deriva continental ou o outro lado da globalização neoliberal” [30]. Em grande parte, seu discurso é uma reflexão sobre os argumentos de Império de Hardt e Negri , aproveitando o retrospecto fornecido por cinco anos de eventos desde a publicação do livro. Para Holmes, muitos dos argumentos apresentados em Império foram importantes para desafiar os lugares comuns sobre como elaborar a “visada ampla” das relações de poder global, forçando uma reconsideração de termos tais como globalização e imperialismo. Mas se o livro ajudou a desfazer alguns equívocos, ele praticamente não teve êxito em suplantá-los com pontos de vistas mais adequados.

“Deriva Continental” aborda uma série de questões, mas Holmes levanta três pontos que têm grande relevância para a nossa discussão atual. Primeiramente, um foco privilegiado no “trabalho imaterial” é cada vez mais insatisfatório para os esforços de entender o que está acontecendo na composição de classe contemporânea. Em segundo lugar, os eventos globais, desde a publicação do Império, lançam dúvidas sobre a utilidade de ver a dominação do capital como um espaço liso que não tem centro(s). E em terceiro lugar, é preciso dar mais atenção para as razões pelas quais o mundo das finanças tornou-se um aspecto crucial do domínio do capital em nosso tempo. Quanto ao primeiro ponto, Holmes oferece algumas críticas semelhantes àquelas feitas por Dyer-Witheford. Se o conceito de trabalho imaterial é importante para analisar certos tipos de trabalho “nos chamados setores terciários ou de serviço das economias desenvolvidas”, falar de sua hegemonia pode obscurecer não apenas “a divisão global do trabalho” e, assim, “a precisa condição em que as pessoas trabalham e se reproduzem “, mas também como “elas concebem sua subordinação e sua ação possível, ou seus desejos de mudança”. Quanto ao segundo ponto, Holmes argumenta que o capitalismo global é melhor compreendido através da análise de “blocos regionais”, como a União Européia ou o envolvimento cada vez maior entre a China, o Japão e o Sudeste Asiático. Finalmente, ele acredita que é necessário uma compreensão muito melhor do papel do dinheiro – e das finanças, acima de tudo – no esforço do capital para manter o controle nos níveis internacional e individual (a esse respeito, ver também os escritos de Loren Goldner sobre capital fictício ) [31].

As explorações mais ricas dos blocos regionais que encontrei são aquelas desenvolvidas pelos analistas de “sistemas mundiais, como Immanuel Wallerstein, Giovanni Arrighi e Silver Beverly. Curiosamente, seus esforços para explicar o surgimento de um novo ciclo de acumulação global com epicentro na Ásia estão intimamente ligados com uma tentativa de entender por que a expansão do capital-dinheiro tomou o primeiro plano ao longo dos últimos 30 anos. Para eles, a predominância da expansão financeira é sintomática de uma fase necessária no ciclo de acumulação, quando, a medida que incertezas vão se acumulando sobre a lucratividade da produção, indústrias são realocadas, o capital fica ocioso e os trabalhadores são pilhados, e “uma acentuada aceleração da polarização econômica [ocorre] a nível mundial e dentro dos estados” [32]. Nos últimos tempos, Arrighi (que também escreveu um dos comentários mais considerados de Império) dedicou grande parte de seus esforços para compreender as fortunas minguantes do estado e do capital nos EUA nesse processo [33], enquanto  Silver tem se concentrado nas perspectivas que  os trabalhadores  contemporâneos enfrentam em uma época de fuga de capitais [34]. A obra desses autores (muitas estão na internet) vale uma olhada: em parte pelos desafios que oferecem a várias ortodoxias radicais, mas também pela profundidade de análise que eles realizam dos conflitos entre e dentro das forças do trabalho e do capital hoje.

Há ainda muito por desemaranhar nas questões abordadas aqui. Ao mesmo tempo, existem algumas pistas úteis sobre aonde ir. Por exemplo, a centralidade atual do dinheiro como capital, com todas as peculiaridades que ela implica, pode oferecer uma outra razão pela qual pode parecer que o tempo de trabalho socialmente necessário já não tem qualquer influência sobre a existência do capital como valor em busca de maior valor. Aventuras especulativas – abundantes na última década – parecem fazer dinheiro do nada. Mas, na verdade, eles não fazem nada para aumentar a reserva total de valor gerado pelo capital. Na melhor das hipóteses, eles redistribuem o que já existe. De modo duvidoso, eles procuram contornar a esfera da produção para, ao invés, fazer dinheiro “da aposta na futura exploração do trabalho” [35]. Enquanto isso, o débito continua a inchar, desde a micro escala do indivíduo e do cartão de crédito familiar, até o macro nível dos orçamentos públicos e dos déficits em conta corrente. Quaisquer que sejam as formas engenhosas pelas quais o fardo dessa dívida será redistribuído, os termos da aposta não podem ser antecipados para sempre. Quando forem finalmente cobradas, as coisas vão se realmente tornar muito interessantes. No mínimo, podemos então descobrir finalmente se, como Madonna cantou:

The boy with the cold hard cash Is always Mister Right, ’cause we are Living in a material world.

Steve Wright <pmargin@optusnet.com.au> trabalha na Monash University e é o autor deStorming Heaven: Class Composition and Struggle in Italian Autonomist Marxism, London: Pluto Press

Veja também:

A logística e a fábrica sem muros (Brian Ashton, 2006)

A escassez artificial em um mundo de superprodução: uma saída impossível(Sander, 2010)

Serviços: subsunção formal (Endnotes, 2010)

A rede de lutas na Itália (Romano Alquati, anos 1970)

Notas

1 Agradeço a Hobo por me contar esta história. Agradeço também a Angela Mitropoulos e Nate Holdren pelas úteis sugestões a este texto. Todos os erros são meus, etc.

2 Para a melhor introdução sobre o pós-obreirismo, ver Generation Online website http://www.generation-online.org

3 Negri, A. (1994) ‘Oltre la legge di valore’, DeriveApprodi 5-6, Winter

4 Lazzarato, M. (1996) ‘Immaterial Labour’, in P. Virno & M. Hardt (eds.) Radical Thought in Italy: A Potential Politics. Minneapolis: University of Minnesota Press, p.133

5 Ibid, p.137

6 Ibid, p.136

7 Hardt, M. & Negri, A. (2000) Empire. Cambridge: Harvard University Press, p.30

8 Ibid, p.292

9 Ibid, p.290

10 Henwood, D. (2003) After the New Economy. New York: New Press, pp.184-5

11 Dyer-Witheford, N. (2005) ‘Cyber-Negri: General Intellect and Immaterial Labour’, in Murphy, T. & Mustapha, A. (eds.) Resistance in Practice: The Philosophy of Antonio Negri. London: Pluto Press, pp.151-55

12 Hardt & Negri (2000), op. cit., p294

13 Huws, U. (2003) The Making of a Cybertariat. New York: Monthly Review Press, p.138

14 Hardt, M. & Negri, A. (2004) Multitude: War and Democracy in the Age of Empire. New York: Penguin, p.109

15 Ibid, p.114

16 Ibid, p.115

17 Huws, op. cit, p.130

18 Bologna, S. (1992) ‘Problematiche del lavoro autonomo in Italia (I)’, Altreragioni 1, June, pp.20-1

19 Ibid, pp.22-4

20 Caffentzis, G. (2005) ‘Immeasurable Value?: An Essay on Marx’s Legacy’, The Commoner 10, Spring/Summer

21 Marx, K. (1973) Grundrisse. Hardmondsworth: Penguin, p.705

22 Negri, (1994), op. cit., 28

23 Marx, op. cit., 706

24 Caffentzis, G. (1997) ‘Why Machines Cannot Create Value or, Marx’s Theory of Machines’, in J. Davis, T. Hirschl & M. Stack (eds.) Cutting Edge: Technology, Information, Capitalism and Social Revolution. London: Verso

25 Harvie, D. (2005) ‘All Labour is Productive and Unproductive’, The Commoner 10, Spring/Summer

26 Marx, K. (1976) ‘Results of the Immediate Process of Production’, now in Capital Vol. I. Hardmondsworth: Penguin, quoted in H. Cleaver, H. Cleaver (2001) Reading Capital Politically. Second Edition. Antithesis

27 Henwood, op. cit.

28 Huws, op. cit., pp.142-3

29 Harvie, op. cit., pp.151-154

30 Holmes, B. (2005) ‘Continental Drift Or, The Other Side of Neoliberal Globalization’, http://info.interactivist.net/article.pl?sid=05/09/27/131214&mode=nocomment&tid=90

31 Goldner, L. (2005) ‘China In the Contemporary World Dynamic of Accumulation and Class Struggle’, http://home.earthlink.net/~lrgoldner/china.html, and L. Goldner (2005) ‘Fictitious Capital and the Transition out of Capitalism’, http://home.earthlink.net/%7Elrgoldner/program.html

32 Wallerstein, I. (2003) The Decline of American Power. New York: The New Press, p.275

33 Arrighi, G. (2005a) ‘Hegemony Unravelling – 1’, New Left Review 32, March-April, and, Arrighi, G. (2005b) ‘Hegemony Unravelling – 2’, New Left Review 33, May-June

34 Silver, B. (2002) Forces of Labour. Cambridge: Cambridge University Press

35 Bonefeld, W. & Holloway, J. (1995) ‘Conclusion: Money and Class Struggle’, in Bonefeld, W. & Holloway, J. (eds.) Global Capital, National State, and the Politics of Money. New York: St. Martin’s Press, pp.213-4 

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