O crepúsculo das personificações (1972) – Fredy Perlman

O Flautista de Hamelin traduziu e nós fizemos a revisão para publicação  desse grande texto de Fredy Perlman:


O crepúsculo das personificações

Alguns trechos:
“Os produtores criam uma tecnologia industrial que elimina a necessidade material do trabalho forçado enquanto reproduzem as condições sociais do trabalho forçado. As forças produtivas que eliminam as condições materiais de escassez tornam-se instrumentos sociais para a manutenção de escassez. A pobreza deixa de ser uma função da natureza e torna-se uma função das relações sociais.”

“O paradoxo consiste no fato de que, tão logo os indivíduos abdicam de seus poderes autônomos [self-powers] para personificações destes poderes, os indivíduos se tornam vítimas das personificações; eles se tornam instrumentos, ou meios, pelos quais os poderes da personificação são executados. Assim é possível para os mesmos indivíduos envenenar o ar durante o dia e respirar o ar envenenado ao descansar a noite, uma vez que não são estes indivíduos que envenenam o ar – é a General Motors. Assim é possível para os mesmos indivíduos produzir armas em tempos de paz e massacrar uns aos outros com as armas em tempos de guerra, uma vez que não são esses indivíduos que produzem as armas ou combatem nas guerras; as armas são produzidas pela General Dynamics e a guerra é combatida pelo General Eisenhower, o Marechal de Campo Rommel e o Marechal Stalin.”

Uma vez que as forças produtivas da sociedade são alienadas dos produtores, apropriadas por outra classe, e representadas por “pessoas” que ocupam as funções [offices] para as quais o poder é delegado, parece aos produtores que são, não os produtores, mas as personificações que produzem. Isso é uma aparência, uma alucinação, mas é difícil para alguém ver além das alucinações de sua própria época quando se nasce nela. Em uma época anterior, quando foi dito que a França conquistou a Borgonha em um campo, o evento real foi o encontro militar entre dois exércitos recrutados entre as populações da França e da Borgonha, mas essa afirmação descrevia o encontro entre dois indivíduos, a personificação da França e a personificação da Borgonha. Em outras palavras, parece que as capacidades, os poderes, não estão nos indivíduos que o possuem, mas nas personificações.


Essa alucinação não poderia surgir se o poder atribuído à personificação se apoiasse na força bruta ou coerção. Se o poder da personificação consistisse na força bruta, no caso da conquista pela França da Borgonha, a história desse período antigo seria estupenda, pois de forma a conquistar o Duque, o Rei deveria primeiro ter conquistado a França – um único indivíduo contra uma multidão de camponeses. Se este fosse o caso, a conquista dos camponeses pelo Rei seria tão mais espetacular que a conquista do Duque que este último evento não seria sequer registrado na história.


Mas nesse caso o Rei deveria ter sido descrito em termos de seus próprios poderes autônomos [self-powers], não importa quão grande estes fossem, e não como uma personificação, como um Rei, como França.


O poder da personificação reside precisamente nessa alucinação, e não no indivíduo que ocupa a função . Certas palavras pronunciadas por um indivíduo específico não são uma declaração política ou declaração de guerra a menos que o indivíduo seja visto como a autoridade que tenha o direito de ditar uma política ou declarar guerra; as palavras do indivíduo não podem ter conseqüências a menos que outros seres humanos se submetam a essa autoridade e considerem seu dever obedecer. A personificação é apta a deter o poder delegado a uma função específica apenas quando a legitimidade da função é aceita. A legitimidade não é uma propriedade possuída pela função ou por um ocupante específico da função. A legitimidade é uma propriedade conferida à função e à sua pessoa por todos os outros indivíduos.”

“[…] A violência acompanha o poder exercido por uma personificação, mas não torna essa personificação legítima. A função e sua pessoa tornam-se legítimas apenas quando a autoridade da função e de seus ocupantes são internalizadas por todos os outros indivíduos. Ao aceitar a legitimidade de uma função para exercer um poder social específico, os indivíduos abdicam de seu próprio poder sobre essa parte da vida social. […] A abdicação não é um evento histórico que ocorreu num tempo específico do passado; ela é um evento cotidiano que toma forma toda vez que as pessoas se submetem à autoridade.


Ao transformar o poder produtivo da sociedade em uma mercadoria alienável, em atividade vendida por um salário, o capitalismo estendeu a personificação do poder alienado a todos os campos da vida social. Tão logo um indivíduo consente em vender energia produtiva por uma dada soma de dinheiro, essa soma de dinheiro se torna “equivalente” à energia produtiva, o dinheiro possui a potência da energia produtiva. O dinheiro se torna o representante do poder produtivo, dos instrumentos de produção e dos produtos. Assim que todos os indivíduos consentem em vender sua própria energia produtiva, o dinheiro se torna o representante universal do poder produtivo da sociedade. É nesse ponto que as forças produtivas da sociedade se tornam Capital, que é apenas outro nome para o poder das forças produtivas representadas por uma soma de dinheiro. Tão logo essas forças produtivas assumem a forma de Capital, os possuidores de grandes somas de dinheiro são Capitalistas, personificações do poder produtivo representado por sua soma de dinheiro, personificações das forças produtivas da sociedade. É a venda do poder produtivo que torna o dinheiro o agente histórico universal. Nesse ponto, cidades são criadas e destruídas, ambientes são transformados, a história é feita, pelo gasto de somas de dinheiro. Nesse ponto, os indivíduos, ou mesmo comunidades, abdicaram de seu poder de construir ambientes que os satisfaçam. Apenas os investidores, personificações de toda construção social, cujo poder reside na potência criativa de seu dinheiro, são capazes a construir ambientes.


Cada ato que ocorre na esfera de influência de uma personificação está fora de alcance para um indivíduo. Os indivíduos não apenas veem a ação de seus próprios poderes sobre o ambiente como ilegítima, moralmente errada; eles se sentem inaptos para exercer tais poderes: as personificações são capazes de fazer tudo; o indivíduo é incapaz de fazer qualquer coisa.


Entretanto, a criação da impotência universal não é a única conquista histórica do capitalismo. O outro lado da figura é uma democracia verdadeiramente representativa na qual cada indivíduo é apto para participar em ao menos um fragmento do poder personificado da sociedade. Essa democracia é tornada possível por duas características dos representantes universais das forças produtivas da sociedade: ela é líquida, e assim pode correr de mão em mão independentemente da posição ou função social, e ela é infinitamente divisível, permitindo a todos tê-la. Assim enquanto todos são privados de poderes autônomos [self-powers] sobre o ambiente social, ninguém é excluído de uma partilha dos poderes personificados.”


“Por exemplo, um “bom eletricista” é aquele que faz nem mais nem menos do que é prescrito à função, ou técnica, dos “eletricistas”. O propósito de um “bom eletricista” não é sob qualquer circunstância o resultado singular de um encontro particular de um indivíduo específico com certos instrumentos. O “serviço” é o resultado padrão esperado dessa função. Qualquer outro “bom eletricista” deverá efetuar exatamente o mesmo resultado. Em outras palavras, os poderes residem na função, e o indivíduo é meramente um instrumento mais ou menos eficiente da função. Consequentemente, a medida que o ser humano se torna uno com uma função, identifica seus próprios poderes com os poderes da função, ao ponto de os seres humanos se tornarem uma personificação de certos poderes sociais e negarem a si mesmos ou si mesmas como seres humanos. Um indivíduo que se torna o que “nós os eletricistas”, “nós os doutores” ou “nós os professores” são, se torna uma coisa que responde de um modo padrão específico, que executa sua rotina especial esperada, sempre que ela é ativada pelo dinheiro. Essa internalização dos poderes personificados é o cimento que mantém coesas as relações sociais.”

Link para o texto completo:
O crepúsculo das personificações

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