Trechos de "Notas sobre composição de classe" (2002), de Kolinko

Abaixo selecionamos alguns trechos de “Notas sobre composição de classe” (do grupo Kolinko). O texto integral pode ser encontrado neste link.

[A INSUFICIÊNCIA DO CONCEITO FORMAL DE LUTA DE CLASSES]

“Em geral, as várias correntes [leninismo, anarco-sindicalismo, comunismo de Conselhos etc.] criticam o “capital” somente como uma relação formal de exploração: o sobretrabalho é apropriado por mãos privadas ou pelo estado. O real processo material de exploração/trabalho é negligenciado. Essa noção formal de capital leva a uma noção formal de classe operária: uma massa de explorados que devem vender sua força de trabalho devido à sua “despossessão” dos meios de produção. Dessa noção de classe operária diferentes conclusões políticas foram extraídas: os leninistas enfatizam a necessidade de um partido político capaz de unir as massas, cuja única coerência é a semelhança formal dos não-proprietários. O partido deve dar uma direção estratégica para as lutas espontâneas dos explorados. Os comunistas de conselhos apenas observam que a massa de explorados cria suas próprias formas de organização na luta. Eles negligenciam a questão da estratégia e vêem como sua principal tarefa difundir as experiências de auto-organização entre os proletários.
[…]
A noção formal de exploração (sobretrabalho expropriado) é incapaz de revelar a potência de auto-emancipação que os proletários podem desenvolver. Enquanto “não-proprietários” dos meios de produção, sua potência não pode ser explicada. O mero fato de que todos são explorados não cria uma coerência real entre os indivíduos. A possibilidade de auto-organização deriva apenas do fato de que os proletários têm uma relação prática entre si e com o capital: eles trabalham juntos no processo de produção e são parte da divisão social do trabalho. Como produtores, além de se oporem ao capital como “trabalhadores assalariados” formais, em sua prática específica eles produzem o capital. Somente emergindo dessa relação, as lutas operárias podem desenvolver seu poder. O isolamento dos proletários, em empresas, categorias etc., não pode ser superado “artificialmente”, tomando a semelhança na condição de “explorado” como fundamento para uma organização. Essa tentativa geralmente termina em outra organização sindical (dita “de base”): sempre haverá a necessidade de uma instituição exterior se a coerência dos proletários não está baseada em sua real cooperação social, mas somente na “coerência formal” do trabalho assalariado. O leninismo não compreende essa profunda razão das formas sindicais das lutas operárias. Ele encara o problema como uma mera questão de direção: a coerência externa é construída pelos sindicatos ou pelo partido comunista? A crítica ao leninismo geralmente se limita a questionar a forma dessa coerência externa: ela é “anti-democrática”, não é criada pelos próprios operários etc. As críticas esquerdistas muito raramente analisam o processo de produção em termos de fundamento para a coerência da luta operária. Portanto, eles tendem a apenas seguir a espontaneidade das lutas, sem compreender ou contribuir com uma direção estratégica interna. Por que se desenvolvem correntes políticas diferentes, apesar da semelhança de suas noções de classe?”

[CRÍTICA MATERIALISTA AO LENINISMO]

“Os comunistas de conselhos e outros criticam principalmente o caráter autoritário e anti-democrático do Partido leninista. Pensamos que a crítica mais profunda ao leninismo consiste na análise de como a forma bolchevique de partido emergiu das condições materiais específicas na Rússia, no final do séc. XIX e início do séc. XX. Uma sociedade agrária com aldeias dispersas e isoladas, e alta taxa de doenças endêmicas e poucas zonas industrializadas só poderia ser unida politicamente por uma organização de massas externa. Portanto, a crítica mais profunda dos comunistas de conselhos é a de que essa espécie de organização não era útil nem apropriada para sua situação histórica: nas regiões industrializadas do Oeste Europeu durante a década de 1920. Eles perceberam que as fábricas já haviam unido os operários e que a criação dos conselhos operários durante o período revolucionário de 1918-23 foi a resposta política da classe operária. Hoje, poucas críticas ao leninismo refletem esse “núcleo material”. A crítica geralmente permanece num nível político, não tocando nas raízes materiais do leninismo e outras correntes. Hoje, devemos recolocar a crítica em seu devido lugar, analisando as mudanças na organização da exploração e da luta operária. Esta é a pré-condição para o desenvolvimento de novas estratégias políticas. A noção de composição de classe pode nos ajudar nisto.”

[COMPOSIÇÃO TÉCNICA DE CLASSE & COMPOSIÇÃO POLÍTICA DE CLASSE]

“Na análise da coerência entre modo de produção e luta operária, distinguimos duas noções diferentes de composição de classe:

– a “composição técnica de classe” descreve como o capital reúne a força de trabalho; ou seja, as condições no processo imediato de produção (por exemplo, a divisão do trabalho em diferentes departamentos, separação entre “administração” e produção, uso de maquinário especial) e a forma de reprodução (modo de vida, estrutura familiar etc.)

– a “composição política de classe” descreve como os operários voltam a “composição técnica” contra o capital. Eles fazem de sua coesão, como força de trabalho coletiva, o ponto de partida para sua auto-organização e usam os meios de produção como meios de luta. Ainda estamos discutindo qual ponto particular, no processo de luta dos proletários, pode ser descrito em termos de “composição política de classe”. 
[…]

Alguns exemplos de como as específicas condições de produção influenciam o conteúdo político da luta operária – e sua relação com o capital como um modo de produção:

Relação com a forma-salário:

No capitalismo, a relação assalariada, aparecendo como “a troca individual de dinheiro por trabalho”, oculta o fato de que o capital explora a força de trabalho coletiva dos proletários. Um operário que é assalariado com uma centena de outros, que devem fazer o mesmo trabalho, está mais apto para observar que os “contratos individuais” são uma farsa do que, por exemplo, um artesão que “possui” habilidades especiais e portanto “trabalho para vender” especial.

Relação com o trabalho:

O trabalho no capitalismo é abstrato. As tarefas específicas que realizamos não são importantes, mas o fato de que o trabalho acrescenta mais-valia ao produto é. Um trabalhador que deve fazer um trabalho “não qualificado” junto com outros terá uma relação com o trabalho diferente da do trabalhador especializado. O primeiro realmente experimentará o trabalho como abstrato e será menos propenso a glorificá-lo e a se organizar dentro dos limites de sua profissão.

Relação com outros proletários:

Uma noção formal de classe não vai muito longe. Isso se revela quando vemos a composição da força de trabalho no chão da fábrica. Poderíamos afirmar que o capataz, o chefe de equipe e o gerente são também “trabalhadores assalariados” e portanto explorados, mas quase toda luta deve se impor contra esses “patrõezinhos”. A divisão (hierárquica) do trabalho no processo de produção social é o fundamento para as divisões sexistas e racistas dentro da classe operária. Assim, por um lado, o capital divide os proletários, mas por outro, ele une proletários de todas as cores de pele, gênero, nacionalidade etc., no processo de produção. Se as divisões entre os operários são questionadas ou fortalecidas é geralmente decidido na luta. Fábricas, setores específicos etc. com uma composição “colorida” são especialmente decisivos nesse processo.

Relação com os meios de produção:

O capital é o processo e o resultado de um modo de produção no qual o trabalho morto (máquinas, trabalho materializado) domina a força de trabalho viva. Um operário que deve obedecer o rítmo das máquinas e observa que, apesar do progresso tecnológico, sua situação não melhora, está mais propenso a atacar o capital como um modo de produção antagônico. Os que atuam num processo de trabalho artesanal, e que são ainda “senhores” de suas ferramentas, serão mais propensos a ver o “patrão” como o símbolo da exploração.

Relação com o produto

Os proletários nas esferas da produção em massa compreendem que a qualidade dos produtos tem um papel secundário e que o importante é a quantidade. Geralmente, não conhecemos o valor de uso do produto, porque só vemos uma parte do processo de produção e num estágio em que o produto ainda não tem valor de uso. Muitos proletários não trabalham com um produto material, mas sob condições industriais semelhantes para realizar “serviços”. Devemos discutir como essa “imaterialidade” dos produtos repercute na luta dos operários.

Fica em aberto para nós a questão de como as lutas dos “artesãos”, trabalhadores rurais e outros proletários que não trabalham sob condições “industriais” podem desenvolver um caráter anticapitalista. É uma questão decisiva a de como essas lutas podem se unir com as lutas do “proletariado industrial”, apesar das diferentes condições e sem uma mediação externa (como o assim chamado movimento “Anti-Globalização”, “Ação Global dos Povos”, os “Zapatistas” e outras organizações que pretendem ligar diferentes “movimentos sociais”).”

[A QUESTÃO DA DIVISÃO HIERÁRQUICA DOS TRABALHADORES EM CORES DE PELE, GÊNERO, NACIONALIDADE…]

“No processo social de produção, o capitalismo cria e conecta desenvolvimento e subdesenvolvimento como uma reação à contradição de classe, que explica o caráter dinâmico do sistema. Nas fábricas hi-tech existem departamentos de diferentes níveis “tecnológicos”. Essas fábricas são conectadas a fornecedores de diferentes padrões de desenvolvimento, até os de trabalho intensivo (sweat-shops) no “terceiro mundo”. Os diferentes níveis de desenvolvimento são o fundamento material para as divisões e a desigualdade da luta de classes. As lutas operárias que podem se generalizar ao longo das linhas de “desenvolvimento desigual” levam as condições de produção a se tornarem similares. As lutas dos operários nas fábricas de automóveis nos anos 60-80 tiveram como resultado que as condições nas fábricas principais se tornaram similares em todo mundo, incluindo antigas “zonas de subdesenvolvimento” (México, Brasil etc.): no nível de tecnologia e também para os proletários (relação similar entre salário e produto). O capital reage à “composição política de classe” (generalização da luta de classes) com uma “recomposição técnica”, com a reprodução do desenvolvimento desigual em um nível mais alto: as regiões são “desindustrializadas”; em outras, o capital faz um grande avanço tecnológico; velhas fábricas “centrais” são divididas em diferentes unidades de uma cadeia de produção; a produção é “globalizada” etc. O capital cria novos centros de desenvolvimento que podem se tornar novos pontos de generalização dos futuros movimentos da classe operária. Dessa forma, a coerência interna dos movimentos proletários vindouros é antecipada. Sua estratégia não surge separada nas cabeças dos revolucionários, mas reside no processo de desenvolvimento material (de divisão do trabalho, maquinário etc.) enquanto tal.”

[A FUNÇÃO ESPECÍFICA DOS REVOLUCIONÁRIOS]

“A função específica dos revolucionários não pode ser explicada por uma “consciência política” que a luta de classes não alcançaria por si mesma. Ela só pode ser derivada de uma visão e interpretação geral das coisas que acontecem. O poder, as possibilidades de auto-organização, de expansão e generalização são colocados pelas condições de produção. A tarefa dos revolucionários é mostrar a coerência entre as condições materiais e práticas e a perspectiva das lutas. O movimento da classe ocorrerá na rede de desenvolvimento e subdesenvolvimento. Portanto, devemos mostrar a conexão das diferentes partes dessa rede e as razões políticas da desigualdade. A análise do fundamento material das lutas operárias também determina onde devemos intervir.[…] “

Link para o texto completo:  Notas sobre composição de classe – Kolinko

Outro texto sobre composição de classe:

Definição de composição de classe – Zerowork
A rede de lutas na Itália – Romano Alquati
A logística e a fábrica sem muros – Brian Ashton

Teste de realidade: estamos vivendo em um mundo imaterial? – Steve Wrigh

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2 comentários em “Trechos de "Notas sobre composição de classe" (2002), de Kolinko”

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