Maio de 68: a "juventude" e a destruição épica do fordismo pelo proletariado

Há 50 anos, Maio de 68 aconteceu simultaneamente no mundo todo, do Japão até o Chile, Itália, México, Espanha, EUA, etc e perdurou até meados dos anos 1970. Enquanto em cada lugar ele teve características e limitações diferentes, o que importa para nós são as potencialidades internacionalistas e comunistas libertárias que surgiram por toda parte  mas que, por não conseguirem se afirmar nem se desdobrar, abriram caminho à derrota do movimento, permitindo à sociedade capitalista, nas décadas seguintes, uma reação que a reconfigurou profundamente.

Para acontecer maio de 1968, várias dimensões confluíram. Do ponto de vista das relações de produção, o modelo fordista de dominação e exploração se esgotou, graças a poderosos métodos de resistência rapidamente se generalizando: o absenteísmo se tornou rotina, greves de ocupação (grève sur le tassit-down strike, em que simplesmente se cruzava os braços no meio do trabalho, interrompendo algumas linhas de montagem fordistas, o que, pelo encadeamento delas, interrompia fábricas inteiras ou mesmo várias fábricas), desprezo pelos chefes, pelos burocratas, pelo trabalho e pelo empresariado…

Outra dimensão foi a “juventude”, criada pela primeira vez como categoria (ou até como o próprio tipo-ideal da sociedade capitalista) pelas necessidades de acumulação do capital (educação universitária se tornando comum e não mais apenas para as elites, assim como os “jovens” se tornando importantes consumidores de mercadorias específicas, cada vez mais produzidas em rápida rotação, devido às “modas”), nos anos 1960. Com esse novo produto, a “juventude”, a sociedade capitalista invocou forças que ela não pôde controlar, principalmente quando essa juventude rebelde se juntou com os proletários que estavam destruindo o modelo fordista de exploração. Tudo indica que essas foram as duas dimensões cruciais que convergiram naquele momento para desatar maio de 68.

Essas duas dimensões se combinaram, se potencializando mutuamente, produzindo uma perspectiva apaixonante de transformação total da sociedade em que os indivíduos se libertam de todos os papéis, particularidades e hierarquias, e afirmam seus desejos curto-circuitando o singular e o universal, a vida cotidiana e a história mundial.

DERROTA E REAÇÃO

O movimento foi derrotado porque o proletariado, com a “juventude”, não conseguiu atacar as relações de produção de uma maneira suficiente para criar um novo modo de produção capaz de se generalizar rapidamente por todo o mundo e nutrir tanto seu poder contra a classe capitalista e o Estado, quanto potencializar sua capacidade de criar uma nova sociedade. [1] Ao se prolongar no tempo sem alcançar isso, eles terminaram tendo que confiar em sindicatos e na social-democracia, instituições cuja razão de ser é controlar tudo que ameace a exploração, mediando e negociando com o Estado e os capitalistas. Esse prolongamento no tempo foi desmoralizando a luta nas relações de produção, canalizando a energia social para a pseudo-luta na esfera do simbólico, do espetacular, da representação, o que se consumou na completa desintegração do movimento nas categorias reificadas da sociedade capitalista: “juventude”, “trabalhadores”, “consumidores”, “estudantes”, “minorias”, “cidadãos lutando por direitos civis”… Até que no fim dos anos 1970 e nos anos 1980, no plano das relações de produção, veio o brutal ataque contra os trabalhadores por parte dos capitalistas, que substituíram o modelo fordista pelo modelo em que a terceirização é o principal elemento, dividindo e hierarquizando os trabalhadores ao máximo… enquanto que as outras categorias reificadas citadas acima, imaginariamente separadas das relações de produção, foram fadadas a reivindicar “direitos civis”, ou seja, fortalecer o poder alienado da sociedade, o Estado e o capital,  a polícia, como garantidores de “espaços” para suas “identidades” (“representatividade”) no inferno da competição pela sobrevivência na sociedade capitalista, a  competição generalizada pela submissão à classe proprietária dos meios de vida.

Em suma, depois da derrota, os capitalistas recuperaram o descontentamento e os desejos de maio de 1968, canalizando-os para a reprodução da sociedade capitalista: ter dinheiro seria a própria realização da “autonomia” e “afirmação da individualidade e dos desejos”. O toiotismo foi adotado (mas transformado, pois no toiotismo original no Japão dos anos 1950 até recentemente, o emprego era vitalício) como afirmação de cada trabalhador como empresário de si mesmo, “capital humano” (suposta realização da “autogestão”) e como terceirização desses empresários de si mesmos numa rede de infinitas camadas “meritocráticas” selecionadas, é dito, pela competição impessoal no mercado e não mais pelo comando desse ou daquele patrão… enquanto a “questão social” se degradou em mera luta por “afirmação de identidades”, isto é, de estereótipos (“etnia”, “gênero”, “cultura” etc) buscando “representatividade” no mercado, na empresa e no Estado.

Mas a destruição do modelo fordista de dominação e exploração pelo proletariado merece uma exposição mais detalhada. É o que tentaremos fazer a seguir:

COMO OCORREU A DESTRUIÇÃO DO MODELO FORDISTA DE DOMINAÇÃO E EXPLORAÇÃO

O capital tende sempre à transformar os meios de produção de modo a fazer com que sua operação seja simplificada, abstratizada e homogeneizada ao máximo (e, é claro, feita pelo mínimo de pessoas), com o objetivo de depender cada vez menos de trabalhadores que possuam uma qualificação específica e que, por isso, tem algum poder de impor seus interesses contra os capitalistas.

O fordismo foi isso: a linha de montagem, junto com a automação, buscava retirar dos trabalhadores o conhecimento e o controle sobre o processo produtivo, e tornou o trabalho homogêneo e simples, intenso e frenético, mas fácil de ser feito por trabalhadores não qualificados, por exemplo, migrantes que vieram de regiões rurais desempregados. Na época em que foi implantado e generalizado, nos anos 1930-1950,  muitos acreditaram no fim absoluto da luta de classes enquanto força capaz de transformar radicalmente a sociedade (era o que pregava Marcuse, por exemplo), principalmente no pós-guerra, quando a Europa e os EUA viviam o maior período de prosperidade da história da sociedade capitalista, em que, graças a acordos de produtividade (entre sindicatos e patrões sob a chancela do Estado, atrelando o aumento dos lucros e o aumento dos salários, conforme a política keynesiana), tudo parecia neutralizar e prevenir qualquer radicalização dos trabalhadores ao integrá-los na “sociedade de consumo”.

Porém, essa simplificação e homogeneização acarretada pelo fordismo teve o efeito colateral de os trabalhadores, pouco a pouco, desde suas lutas iniciais muito tímidas, irem percebendo que suas condições eram as mesmas por toda parte, se solidarizando não mais como capital variável qualificado que tem interesses corporativos frente a outros trabalhadores (como era antes do fordismo e como era a estrutura “trabalhista” que foi herdada das lutas desses antigos trabalhadores qualificados que se orgulhavam de seu trabalho que ainda era bastante artesanal), mas se solidarizando enquanto proletários, ou seja, com qualquer explorado, inclusive desempregados, todos desqualificados que viam e viviam o trabalho como negação da vida e da individualidade, como transformação do ser humano em máquina, em objeto nas linhas de montagem. Essa situação culminou em maio de 1968, com a prática, que se tornou corriqueira, de “recusa do trabalho”, o absenteísmo, a sabotagem, e a exigência, nos momentos mais radicalizados, de “abolição do trabalho”  [2] (obs.: nos anos 1990, o grupo Krisis, com seu “Manifesto contra o trabalho”, chegou 30 anos atrasado quanto a essa questão, com o agravante de silenciar e não fazer referência ao fato de ela ter surgido graças à luta autônoma dos proletários 30 anos antes, ou seja, de propagar a ignorância).

Buscando minar as bases desse movimento de recusa e desprezo pelo trabalho que tinha culminado em maio de 68 e que perdurou por alguns anos, em que ocorreu uma crise de lucratividade que marcou o fim dos “anos dourados” do pós-guerra, o capital foi pouco a pouco abandonando o fordismo e adotando e generalizando uma variação de toiotismo, isto é, terceirização dos trabalhadores de modo a isolá-los, dispersá-los e hierarquizá-los, no processo produtivo, em inúmeras camadas subterceirizadas com salários extremamente variados e condições diferentes, o que minou a solidariedade deles.

Porém, a história certamente ainda não acabou. A tendência de homogeneização e simplificação do trabalho faz parte de uma necessidade inescapável do capital, que não pode existir sem buscar desqualificar ao máximo, tornando facilmente intercambiável a força de trabalho, para cortar o máximo de custos com ela (i.e., para pagar o menor salário possível), de modo que, como efeito colateral, há sempre a tendência correspondente de os trabalhadores, junto com os desempregados, se encontrarem como iguais, constituindo-se como proletariado que busca se auto-abolir, e portanto abolir o capital, afirmando a comunidade humana mundial, o comunismo.

Talvez essa tendência de homogeneização e simplificação do trabalho (que se vê hoje levada ao extremo em “aplicativos” como o Uber e, agora, a “uberização” de cada vez mais trabalhos, inclusive de profissões que antes se viam como protegidas do ataque capitalista, até as mais esnobes, como os acadêmicos e os engenheiros) seja o verdadeiro pressuposto não só da fraternização global da classe, mas também, no momento em que essa fraternização conseguir se estender, intensificar sua potência e derrotar o capital por toda parte, o pressuposto para simultaneamente  suprimir a divisão do trabalho (já que tende a fazer com que qualquer um consiga operar qualquer maquinismo) e, consequentemente, o pressuposto da abolição do trabalho em si, por uma livre associação dos indivíduos em escala mundial, na qual qualquer um tem livre acesso às forças produtivas mundiais conforme as suas necessidades (e a partir disso, é claro, transformando todos os meios de produção herdados da sociedade capitalista, que foram feitos sob medida pela ditadura do dinheiro e do lucro, para que sejam submetidos às necessidades, desejos e capacidades humanas como fins em si).

humanaesfera, maio de 2018

NOTAS:
[1] Em Paris, o momento chave da derrota e do prolongamento arrastado que se seguiu foi testemunhado in loco por Fredy Perlman enquanto estava acontecendo:
“[…]Na Sorbonne, no Censier, em Nanterre, e em outros lugares, a universidade foi proclamada uma propriedade social; os prédios ocupados tornaram-se ex-universidades. Os prédios foram abertos para toda a sociedade – estudantes, professores, trabalhadores – para qualquer um que desejasse ir lá. Além do mais, as ex-universidades foram geridas pelos seus ocupantes, fossem eles estudantes ou não, trabalhadores, camponeses. No Censier, de fato, a maioria dos ocupantes não era “estudante”. Essa socialização foi acompanhada por uma ruptura da divisão do trabalho, da divisão entre “trabalhadores” e “intelectuais”. Em outras palavras, a ocupação representou a abolição da universidade como uma instituição especializada restrita a um segmento específico da sociedade (estudantes). A ex-universidade se tornou socializada, pública, aberta a todos.

As assembleias gerais nas universidades foram momentos de auto-organização pelas pessoas dentro de um prédio específico, independente de suas  especializações anteriores. Elas não foram momentos de auto-organização a respeito de “seus próprios” assuntos.

Entretanto, isso foi o mais longe que a “escalada” foi. Quando as pessoas que organizavam as atividades dentro da universidade ocupada foram “aos trabalhadores”, fosse nas barricadas ou nas fábricas, e quando eles disseram para os “trabalhadores”: VOCÊS devem tomar SUAS fábricas”, eles mostravam uma completa falta de entendimento sobre o que eles já estavam fazendo nas ex-universidades.

Nas ex-universidades, a divisão entre “estudantes” e “trabalhadores” foi abolida na ação, na prática cotidiana dos ocupantes; não havia mais “tarefas de estudantes” e “tarefas de trabalhadores”. Entretanto, a ação foi mais longe que a consciência. Ao ir aos “trabalhadores” as pessoas viam os trabalhadores como um setor especializado da sociedade, eles aceitaram a divisão de trabalho.

A escalada foi tão longe a ponto da formação de assembleias gerais de seções da população dentro das universidades ocupadas. Esses ocupantes organizaram suas próprias atividades.

Entretanto, as pessoas que “socializaram” as universidades não viram as fábricas como meios SOCIAIS de produção; elas não perceberam que essas fábricas não foram criadas pelos trabalhadores empregados lá, mas por gerações de trabalhadores.Tudo que eles viram, dado que isso é visível na superfície, é que os capitalistas não fazem a produção mas os trabalhadores fazem. Mas isso é uma ilusão. A Renault, por exemplo, não é em nenhum sentido um “produto” dos trabalhadores empregados na Renault, ele é um produto de gerações de trabalhadores (não apenas na França), incluindo mineiros, produtores de máquinas, produtores de comida, pesquisadores, engenheiros. Pensar que as fábricas automobilísticas da Renault “pertencem” às pessoas que hoje trabalham lá é uma ilusão. Porém, essa ficção foi aceita por pessoas que rejeitaram a especialização e a “propriedade” nas universidades ocupadas.

Os “revolucionários” que transformaram as universidades em espaços públicos, e consequentemente em propriedade de ninguém, não estavam conscientes do caráter SOCIAL das fábricas. O que eles contestaram foi o “sujeito” que controlava a propriedade, o “proprietário”. A concepção dos “revolucionários” era que “os trabalhadores da Renault devem gerir as fábricas ao invés dos burocratas do estado; os trabalhadores da Citroen devem gerir a Citroen no lugar dos proprietários capitalistas”.  Em outras palavras, as propriedades privada e estatal devem ser transformadas em propriedade do grupo: a Citroen deve se tornar uma propriedade dos trabalhadores empregados na Citroen. E visto que essa “corporação” de trabalhadores não existe no vácuo, ela deve estabelecer maquinarias para se ligar a outras corporações, “externas”, de trabalhadores. Consequentemente, eles devem estabelecer uma administração, uma burocracia, que “representa” os trabalhadores de uma fábrica particular. Um elemento dessa concepção corporativista foi afetado pelo “modelo” das universidades ocupadas.Tão logo o sindicato estudantil foi rejeitado como o “porta-voz” dos estudantes que ocuparam a universidade, o sindicato tradicional (A Confederação Geral do Trabalho) foi rejeitado como o “porta-voz” dos trabalhadores incorporados: ”os trabalhadores devem ser representados não pela CGT; eles devem ser representados por eles mesmos,” quer dizer, por uma nova burocracia eleita democraticamente.

Assim, mesmo na perspectiva dos ocupantes da universidade, as fábricas não deveriam ser socializadas. Desse modo, as “assembleias Gerais” dentro das fábricas não possuíam o mesmo significado que nas universidades. As fábricas deveriam se tornar uma propriedade de grupo, como as empresas iugoslavas. Tais empresas não são socialmente controladas; elas são geridas por burocracias dentro de cada empresa.[…]

A ideia de que “os meios de produção pertencem aos trabalhadores” foi traduzida como significando que os trabalhadores são donos da fábrica em particular na qual eles trabalham. Essa é uma vulgarização extrema. Tal interpretação implicaria que a atividade particular à qual a luta pelo salário condenou alguém na sociedade capitalista é a atividade a que esse alguém estaria condenado quando a sociedade é transformada. E se alguém que trabalha nas fábricas de automóveis quisesse pintar, plantar, voar ou fazer pesquisa no lugar de produzir numa linha de montagem de carros? Uma revolução deveria significar que os trabalhadores, a partir desse momento, poderiam ir a toda a sociedade, e é duvidoso que muitos deles retornassem para a fábrica de carro particular que o capitalismo os tinha condenado a trabalhar.”(Fredy Pelrman, Comitês de ação dos trabalhadores e estudantes. França, maio de 68 – Parte 2. Avaliação e Crítica. Limites da escalada).

[2] Ver, por exemplo: A recusa do trabalho – Comitato Operaio di Porto Marghera

BIBLIOGRAFIA

Link com várias referências: Referências Bibliográficas – Maio de 68 – Francês

Dossiê com vários textos: MISCELÂNEA: 1968 & depois…

Sobre a Internacional Situacionista, o movimento radical mais avançado naqueles anos, ver: DOSSIÊ: INTERNACIONAL SITUACIONISTA

Sobre os efeitos de Maio de 1968 e a reação contra ele (cultural, produtiva, social, subjetiva, etc.), reação  que perdura até hoje, ver:
Os estilhaços do capital – Eric Alliez e Michel Feher

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