Sobre a greve dos caminhoneiros

(english translation)

 

O QUE ACONTECEU

A causa imediata, o motivo inicial da greve foram os aumentos causados pela política de preços do óleo diesel, que passou a ser diretamente ligada à volatilidade especulativa do petróleo do mercado internacional (isto é, a variação do preço ficou parecendo uma bitcoin) e também à taxa de câmbio do Dólar frente ao Real.

Os caminhoneiros (46% são autônomos e 53% são empregados) foram brutalmente afetados, porque o abastecimento dos caminhões é pago do bolso deles. A greve é gigantesca, afeta o país inteiro, literalmente.

Mas no início, os empresários das transportadoras participaram ou até dirigiram a greve, porque eles também tem interesses na competição inter-capitalista com as petrolíferas. Por isso, havia muita dúvida se era lockout ou greve, até porque, estranhamente, a mídia burguesa e a polícia pareciam até apoiá-la, diferentemente de todo e qualquer outro tipo de greve, que são sempre apresentados na televisão como vandalismo ou mesmo crime. A greve então foi manipulada como objeto de barganha para atender os interesses dos empresários (por exemplo, reduzir o pagamento de direitos trabalhistas, como contra a “reoneração da folha de pagamento”) .

Até que, no dia 24, os sindicatos patronais (ou os sindicatos vendidos dos trabalhadores) fizeram um acordo com o governo para acabar com a greve, ganhando algumas reivindicações (como o reajuste dos preços por mês e não mais a todo o instante, e uma redução de 10%).

Mas com o acordo, os empresários não conseguiram parar com a greve, porque os trabalhadores resolveram continuar. Embora ainda haja alguns empresários que continuam a participar, agora ela se tornou predominantemente uma luta contra os patrões, luta de classes. Por exemplo, as revindicações são sobre o baixíssimo preço dos fretes pagos aos trabalhadores pelas transportadoras, pelos patrões. E então a mídia burguesa agora apresenta a greve como vandalismo e crime, e o governo está mobilizando as forças armadas contra a greve, etc.

NOSSA POSIÇÃO

Evidentemente que apoiamos qualquer luta autônoma dos trabalhadores por melhorar suas condições. O que podemos contribuir é com uma perspectiva quanto aos prováveis efeitos na sociedade, avaliando-os com o critério de se afirmam ou não a solidariedade entre todos os trabalhadores, oprimidos, proletários contra a classe dominante, não só em um país, mas do mundo.

Nossa avaliação é a que as greves no setor de serviços e no transporte afetam fortemente os outros proletários que usam esses serviços e não só os patrões e o governo, que as vezes nem sofrem nada porque praticam “diversificação dos investimentos” (por exemplo, muitas vezes os capitalistas são acionistas de diversas empresas de vários setores, até de vários países, etc.). Assim, no caso dessa greve de caminhoneiros, o proletariado em todo lugar sofre com a falta de alimentos, fica com muitas necessidades fundamentais não atendidas, devido ao aumento dos preços, que sobem às alturas nessas situações.  Para sair desse impasse que, no fim das contas, leva a um conflito entre os trabalhadores, a saída lógica é a substituição da greve pela produção livre, que afirma a satisfação das necessidades humanas contra o capital, o dinheiro e o Estado, impulsionando a solidariedade de classe por toda parte. Isso tem o potencial de se generalizar para o mundo a ponto de criar um novo modo de produção em que as forças produtivas são submetidas aos desejos, necessidades e capacidades humanas e não mais ao lucro nem à dominação de classe. Para mais detalhes quanto a essa proposta, ver o texto greve e produção livre.

humanaesfera, 26 de maio de 2018

ATUALIZAÇÃO 28 DE MAIO:

O atrativo do bonapartismo entre os caminhoneiros

O pedido de “intervenção militar” que, aparentemente, ocorre com muita frequência nesta greve dos caminhoneiros, é preocupante. Mas é importante observar que esse pedido parece ter se tornado predominante quando o governo federal convocou as forças armadas contra a greve. Então, nesta circunstância específica, parece ter o sentido bastante pragmático de fraternização entre soldados e caminhoneiros.

A categoria dos caminhoneiros é ambígua, porque, especialmente entre os autônomos, que são donos de seus próprios caminhões (ou até de mais caminhões, explorando outros trabalhadores), o aspecto pequeno-burguês acarreta uma vacilação entre posições burguesas e proletárias, mesmo que predomine entre eles o trabalho precário. Isso significa que essa categoria, enquanto sua luta for isolada, é incapaz de afirmar um projeto social próprio, o que geralmente se traduz no apelo a algum poder externo, extraterrestre, algum tipo de bonapartismo ou caudilhismo que traria a “ordem” pela força. Daí o atrativo da retórica de direita, saudosista da ditadura militar. O mesmo aspecto pequeno-burguês ocorre nos taxistas, motoboys, trabalhadores da Uber…

Isso permanecerá assim enquanto a luta deles não se espalhar. Se todo o resto do proletariado começar a lutar de maneira generalizada – e o próprio impacto do desabastecimento e a piora das condições de vida que acarreta pode o impelir a isso -, a burguesia e a burocracia (inclusive a militar) se revelarão claramente como inimigos. Nessa situação, é muito provável que haverá uma inflexão geral para afirmar a fraternização pela luta autônoma: constituir, por exemplo, “sovietes de soldados, caminhoneiros e trabalhadores”, em que nenhum poder é concedido incondicionalmente a ninguém, e em que os mandatos são revogáveis a qualquer momento pelas assembleias.

Porém, enquanto o proletariado como um todo apenas assiste passivamente o que está acontecendo, a greve dos caminhoneiros está condenada a servir as facções da classe dominante que competem por explorar o proletariado.

humanaesfera, 28 de maio de 2018

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