humanaesfera básica

Reunimos abaixo os links para nossos textos mais básicos:


– Teoria comunista telegráfica
 (2018)  (English versionTelegraphic communist theory) Uma apresentação telegráfica da teoria comunista. Conceitos básicos: propriedade privada, capital, proletariado, luta de classes e comunismo.

– Propriedade privada, escassez e democracia (2014)  (English versionPrivate property, scarcity and democracy) Descrição básica da sociedade comunista a partir das condições concretas atualmente presentes. Originalmente escrito como uma resposta aos (pseudo)”libertários” que vêem a escassez como uma consagração natural, objetiva e eterna da propriedade privada e do mercado, também descreve uma perspectiva sobre as limitações da democracia em relação à transformação das condições materiais de existência.


– Contra a metafísica da escassez, copiosidade prática 
(2016)  (English versionAgainst the metaphysics of scarcity, for the practical copiousness) Descrição básica da sociedade comunista e de como chegar a ela hoje. Uma resposta à seguinte objeção: “A abundância (superação da escassez) é impossível, uma vez que vivemos em um universo com recursos limitados, não só econômica mas fisicamente; portanto superar a escassez é uma exigência metafísica, absurda, que necessitaria uma automatização total do universo infinito para entregar à cada indivíduo, elevado ao status de um deus, a realização de seus menores caprichos e arbitrariedades.”

– Condições de existência universalmente interconectadas/interdependentes (2015)   (English translationUniversally interconnected / interdependent conditions of existence; traduction française: Conditions d’existence universellement interconnectées/interdépendantes) Este texto procura demonstrar que defender “identidades”, “nações”, “zonas étnicas”, “comunidades”, “países”, “autarquias”, “territórios autônomos” ou “áreas autogeridas” é o mesmo que reivindicar o estabelecimento novas propriedades privadas e, consequentemente, novos capitais e novos estados.O artigo também aborda a questão da irrupção da comunidade humana mundial que suprime a propriedade privada simultaneamente em todo o mundo.

– Propriedade privada, substância do Estado (2016)  (English versionPrivate property, substance of state) Uma análise detalhada e concisa do que é o estado e como ele funciona. Também apresenta uma história do Estado. 

– Contra o patriotismo – abaixo as fronteiras nacionais! (2012)   (English translationAgainst patriotism – against nationalism – down with the national boundaries!) “Se a corja vil, cheia de galas, nos quer à força canibais, logo verão que as nossas balas são para os nossos generais.” (A Internacional)

– Contra o familismo novo e velho – abaixo a família! (2015)   (English translationAgainst the (new and old) familism – down with the family!) Uma crítica à família, bem como às idéias de reformá-la. O artigo também trata das mudanças da família na sociedade capitalista, nas quais há uma crescente subsunção real da reprodução humana ao capital.

PRÁTICA

– Greve e produção livre (2014)  (English versionStrike and free production) Quando a maioria dos trabalhadores está no setor de serviços, será que a tática de greve ainda faz sentido se o proletariado usa esses serviços em suas vidas cotidianas? Como podemos incentivar a solidariedade de classe neste caso?

– Contra a estratégia (2016)  (English versionAgainst the strategy) Crítica da ideologia da estratégia a partir da perspectiva do conceito de composição de classe.

– Por que as greves e manifestações são hoje sistematicamente derrotadas em todo o mundo? (2017)  Por que? 

ANÁLISES DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO:

– Luta de classes na empresa Cuba (2016)  (English translation: Class struggle in the Cuba enterprise) Sobre o capitalismo nacionalizado de Cuba.

– Inteligência artificial, desemprego e renda básica universal: mais uma panaceia da classe proprietária (2017)  (English translationArtificial intelligence, unemployment and universal basic income: another panacea of the owner class) Sobre as ilusões quanto à inteligência artificial e renda básica universal.

– A internet: uma história de invocação, bolhas e subsunção ao capital (2018)   (English translationA social history of the internet. Part 1and Part 2; Traduzione italiana: Internet: una storia di evocazione, di bolle e di sussunzione del capitale) História social da internet. Também sobre a “internet das coisas”, gameficação do comando, UBERização, etc. E as mudanças radicais das condições sociais de vida e de produção que estão acontecendo.

FILOSOFIA

– Autonomia e cotidiano – Espinosa e o imperativo de Kant: “Tratar os outros e a si mesmo como fins, jamais como meios” (2015)  (English translationAutonomy and daily life – Spinoza and Kant’s imperative: “Treat others and yourself as ends, never as means”) Um breve texto sobre os princípios da ética materialista, nosso poder de mudar as circunstâncias da vida cotidiana e criar e desenvolver nossas capacidades e necessidades.

– Dissecando a metafísica da escassez (2017)  (English versionA dissection of the metaphysics of scarcity) Artigo filosófico que critica a metafísica da escassez, amplamente utilizada (como “pressuposto inquestionável”) para justificar o status quo, a repressão, a troca de mercadorias, o Estado, a exploração, etc. – como uma verdadeira teodicéia, uma justificativa imaginária dos sofrimentos e males do mundo. Mostra como a economia e a ecologia são variações dessa mesma metafísica, radicalizadas pelo fetichismo da mercadoria que permeia a subjetividade na sociedade capitalista moderna. E há um adendo que trata da “dádiva” pré-capitalista.

– Contra as recompensas e punições (contra a meritocracia, contra a coerção) (2014)  (English translationAgainst rewards and punishments (against meritocracy, against coercion)) Texto curto abordando a questão das recompensas e punições, lei, estado de direito, meritocracia e trabalho assalariado.

Brochura Humanaesfera #7 – Tecnologia (história social da internet, inteligência artificial, gameficação do comando, internet das coisas)

Saiu Humanaesfera #7. Sétima brochura (livreto) com conteúdos deste site. Este número contém três textos de análise crítica das tecnologias que estão hoje afetando profundamente as relações humanas e sociais, formantando-as e determinando-as sob o comando cada vez mais intensificado e acelerado do capital. Este livreto contém os seguintes textos:

A internet: uma história de invocação, bolhas e subsunção ao capital 

Inteligência artificial, desemprego e renda básica universal: mais uma panaceia da classe proprietária 

A gamificação do comando: “Crédito social”

Neste link, está o PDF com a brochura, que consiste de 11 folhas A4 para serem impressas frente-e-verso (em impressoras que imprimem em frente-e-verso automaticamente, selecione “borda curta” ou “no sentido da borda menor”, ou ainda “Frente e verso, orientação vertical”), dobradas e grampeadas no meio. 

Também nos formatos:

Versão e-book EPUB ou versão e-book PDF.

Para outras brochuras, ver este link: Imprensa autônoma humanaesfera

O senhor Puntila e seu criado Matti, de Bertolt Brecht (arquivo PDF)

Clique aqui para baixar o arquivo PDF da peça de teatro de Bertolt Brecht, O senhor Puntila e seu criado Matti.

Trechos da apresentação:

“Foi em 1940, na emigração, enquanto se encontrava na Finlândia, que Bertolt Brecht escreveu O senhor Puntila e seu criado Matti, baseando-se num esboço dramático e em narrações da escritora Hella Wuolijoki, em cuja casa se hospedara. Entre as grandes obras da maturidade, Puntila é a de cunho mais popular e humorístico.[…]

Seu motivo central, ao mesmo tempo jocoso e profundo, já fora explorado anteriormente por Chaplin (Luzes da cidade) a quem Brecht muito admirava. Não é, portanto, novo o caso dos dois caracteres de Puntila, homem afetuoso quando embriagado, homem egoísta quando sóbrio. Nova é a maneira de como Brecht aproveita a curiosa duplicidade que desintegra a personalidade do fazendeiro. A partir dela analisa a dialética inerente às relações entre senhor e criado tão bem exposta por Hegel — e, concomitantemente, procura elucidar certos aspectos da sociedade de classes.

[…]

Com horror na voz, Puntila confessa que no estado vil da sobriedade é um homem responsável, forçado a prestar conta de seus atos. Por isso mesmo é então uma pessoa de quem se podem esperar as piores coisas. Paradoxalmente, ser responsável implica ser imoral. Daí o seu empenho heroico em beber e em tornar-se deste modo irresponsável, isto é, virtuoso. […] Puntila está em constante contradição consigo mesmo, produzindo na própria pessoa o distanciamento, já que os dois caracteres se refutam e estranham, se criticam e ironizam mutuamente. É no estado irresponsável — quando é um animal irracional — que se torna humano e é no estado racional, isto é, humano, que passa a ser desumano. […] Puntila é, portanto, associal em todas circunstâncias. A sua maldade é “normal”, isto é, típica, institucional, e sua bondade é “anormal”, isto é, particular e caprichosa e por isso sem valor, sem conseqüência. De fato, nos estados maldosos anula tudo quanto fez de bom nos estados generosos. Tudo fica na mesma e às vezes até piora.

[…]

Os momentos estruturais apontados, totalmente contrários à unidade e continuidade do drama aristotélico — com início, meio e fim — tornam esta peça em uma das mais conseqüentes do teatro épico, cuja teoria Brecht então já levara ao amadurecimento. Duas razões fundamentais fizeram com que a elaborasse. A primeira decorre da convicção antropológica de que a pessoa humana é o conjunto de todas as relações sociais. Cabe integrá-la, pois, num mundo amplo, mostrando não só os “navios inclinados” — como se fazia no teatro clássico — mas também a “tempestade que os inclina”, isto é, as fôrças anônimas que atuam sôbre o indivíduo. Esta razão do teatro épico encontra ampla expressão em Puntila. […]

A segunda razão do teatro épico decorre dos objetivos didáticos de Brecht, do seu desejo de apresentar um palco capaz de esclarecer o público sobre a nossa sociedade e o dever de transformá-la. Êste fim didático impõe eliminar o efeito hipnótico do teatro tradicional. Impõe anular a sua função de sedativo e evasão. Por isso mesmo convém montar uma estrutura em curvas, episódica, dialética — a afetuosidade de Puntila se chocando com a sua aspereza — para romper a continuidade linear da dramaturgia tradicional. Esta, mercê do seu encadeamento rigoroso, prende o espectador no avanço ininterrupto da ação tensa, enreda-o no enredo, não lhe concedendo liberdade crítica. Coloca-lhe o jugo da identificação com as situações e os personagens, de modo que vive com estes o seu destino inexorável, em vez de, vivendo embora emocionalmente o seu destino, ter ao mesmo tempo a possibilidade de distanciar-se o suficiente para, pela objetivação, chegar ao raciocínio. Assim compreenderá que êste destino de maneira alguma é eterno e inexorável, mas conseqüência de uma situação histórica, de um sistema social (p. ex. o da relação senhor-criado). O homem, sem dúvida, é determinado pela situação histórica; mas pode, por sua vez, determiná-la. O fito principal do teatro épico e do distanciamento é, portanto, estudar o comportamento do homem em certas condições e mostrar que estas podem e devem ser modificadas. É, pois, a “desmistificação”, a revelação de que as desgraças humanas não são eternas e sim históricas, podendo por isso ser superadas. O distanciamento, mais exatamente, procura tornar estranha a nossa situação habitual, anular-lhe a familiaridade que a torna corriqueira e “natural” e por isso incompreensível na sua historicidade. Pois tudo que é habitual apresenta-se como fenômeno natural e por isso imutável. Temos que ver o nosso mundo e comportamento objetivados, por uma momentânea alienação deles, para vê-los na sua relatividade e para, dêste modo, conhecê-los melhor. Todo conhecimento inicia-se com a perplexidade diante de um fenômeno. Distanciar, tornar estranho é, portanto, tornar ao mesmo tempo mais conhecido.

[…]

Brecht não visa a apresentar com Puntila um homem mau ou um homem bom, mas simplesmente um fazendeiro que, para ele, representa uma organização social. É um “modelo” proposto para demonstrar exemplarmente a atitude do superior que, não importa se com sinceridade ou para disfarçar a realidade, “concede” ao inferior paternalmente ocasionais benefícios, enquanto de fato, como vimos, tudo fica na mesma. […] O fazendeiro seria provavelmente um “sujeito ótimo” […] mas as condições não permitem que o seja (e se o fosse, perderia a fazenda, sem grande benefício para ninguém). O problema, para Brecht, não é, portanto, moral e sim social. Puntila quer ser bom, é por isso que se embriaga, pois “terrível é a sedução da bondade” e é duro ser mau […]

Entretanto, por mais que Puntila se esforce por evitar este esforço, as suas tentativas de ser cordial se corrompem ante o “vício da responsabilidade”. […] Todos os esforços do fazendeiro de ser generoso, por mais autênticos que sejam, fracassaram. A situação torna-os ambíguos, contamina-os de suspeitas, ao ponto de poderem ser interpretados como artimanha para desarmar os criados. “Se (os patrões) tivessem corpo de urso, ou cobra, a gente tomava mais cuidado”, diz a telefonista. A bondade chega a revestir-se de aspectos quase ameaçadores.

É nesta desconfiança que vive Matti, o criado cético, solidário com os seus colegas, que tem a sabedoria e um pouco também a esperteza dos oprimidos. Apesar de ser um “operário consciente”, tem dificuldade em resistir ao encanto de Puntila. Mas pelo menos sabe desta falha. “Ele é familiar demais”, assegura, desfamiliarizando a nossa familiaridade com essa familiaridade. […]

Na dialética de suas relações, bem de acordo com Hegel, o senhor se torna cada vez mais dependente de quem dele depende, e quando Matti abandona Puntila a perda será maior para o patrão do que para o criado.

[…]

Mais que o esquema didático, exposto nesta apresentação, importa compreender o humanismo de Brecht. É verdade, a peça não visa a uma tese moral. Para Brecht, as soluções supremas pressupõem as humildes. Os valores sociais, embora inferiores aos morais, são precisamente por isso os básicos. Sem a realização do inferior, mas básico, não se desenvolve e frutifica o superior. Só depois de estabelecida a justiça social podem revelar-se o amor e a bondade na sua pureza e autenticidade. Toda a ênfase de Puntila é humanista. No horizonte da obra, não visível mas onipresente, espécie de imagem sugerida pelos contornos negativos da sombra que projeta no universo ambíguo da peça, pressente-se um mundo mais generoso em que Puntila pode ser bom e Matti, seu amigo.”

Anatol Rosenfeld (A Cordialidade Puntiliana)

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Revertério

Parece que há um padrão que sempre se repetiu na história do capital: quando há crise geral de lucratividade na produção, os capitalistas desinvestem ou liquidam a produção para investir no capital financeiro. Esperam que este último encontre algo novamente lucrativo para colocar seu dinheiro. Mas na medida em que a crise geral de lucratividade continua, surgem apenas bolhas e mais bolhas especulativas que estouram sucessivamente. Por fim, só resta ao capital financeiro investir nos Estados, o garantidor último do capital (o “porto seguro”). Cada Estado compete com os demais para atrair capitais, e, nesse momento, o principal sinal de ser um destino atrativo é ser um Estado mais forte (logo, mais “seguro”) do que outros. A corrida armamentista se acelera assustadoramente, uma economia de guerra aos poucos vai se formando quase imperceptivelmente. Até que um evento insignificante (real ou provocado) dispara uma guerra de alcance mundial. Segundo alguns historiadores, esse padrão se repetiu desde Veneza e Gênova no século XIV (que foi a primeira vez na história que o capital, ainda comercial, se tornou poderoso) a cada mudança do centro hegemônico do capital no mundo (Gênova->Espanha->Holanda->Inglaterra->EUA).

Porém, a crise de lucratividade atual (que perdura desde a década de 1970) decorre de uma composição orgânica do capital imensamente mais alta do que já se viu no passado. É uma crise estrutural da produção de valor e da acumulação do capital, i.e não parece ter solução que repita padrões anteriores da história. E a medida que o proletariado, como classe autônoma (i.e. com o projeto de uma sociedade sem Estado, sem fronteiras, sem exploração, que suprima a dominação do homem pelo homem), está há 40 anos tão derrotado que desapareceu da cena histórica (a ponto de hoje quase todos imaginarem que ele não existe mais), estamos muito provavelmente rumando para um longo período de neo-feudalismo, neo-barbárie, sob domínio de neo-aristocracias de gangsteres, de máfias, grupos de extermínio, fundamentalismos religiosos, etnicismos… Tudo aponta para um certo tipo de guerra de todos contra todos que abra espaço permanente para uma redução drástica da composição orgânica do capital (restaurando a lucratividade), devido ao imenso trabalho humano (portanto valor) que uma situação de barbárie extra-econômica generalizada exige. Esse gigantesco novo “campo de trabalho” que lida não mais com a “natureza”, mas com a “segunda natureza” técnico-social enlouquecida dejetada pela própria barbárie da passagem do capital, seria a nova base da exploração do trabalho e, consequentemente, da valorização do capital. Já hoje, esse espírito de salve-se quem puder, de maneira inconsciente, toma a sociedade como único futuro imaginável (e esta é exatamente a “utopia” abertamente defendida pela nova direita proto ou neo-fascista, os Bolsonaros da vida, e também a esquerda nacionalista, identitária etc, que se espalham pelo mundo). Assim, a antecipação desse único futuro imaginado, sua preparação, já coloca todos nós no meio do que se supõe que estaria por vir (mesmo que não venha, como desejamos).

Essa situação está tendo um efeito sobre nós. Os textos de nosso site, humanaesfera, são feitos a partir de contatos e conversas na vida cotidiana com muitas pessoas, inclusive desconhecidos aleatórios. O site é um projeto não-autoral de reunir ideias e argumentos ouvidos na vida cotidiana que vão na direção da atualização para o século XXI do programa radical do proletariado de transformação da sociedade, buscando reunir de modo coerente essas ideias em uma teoria que pode ser tomada livremente e desenvolvida por qualquer proletário, conforme suas necessidades e capacidades de pensar e de lutar. Desde cerca de 2016, essas conversas na vida cotidiana se tornaram cada vez mais difíceis. Depois da derrota de junho de 2013 e a consequente desmoralização cada vez maior da solidariedade entre os explorados que, confiando cada vez menos em si mesmos, competem entre si para ser “salvos” por sua “própria” classe dominante, tudo aquilo que escrevemos são palavras que cada vez mais não dizem nada para os explorados derrotados. Desse modo, a fonte de nosso site está secando. O que nos restou é reunir o que aprendemos ao longo desses vários anos sob a forma de perspectiva teórica para tentar analisar e compreender o que está acontecendo hoje e transmitir a chama acesa para as próximas gerações. Espero que ainda consigamos fazer isso.

Há também outra questão muitas vezes menosprezada: e nosso coração neste mundo que parece sem coração definitivamente? Como proletários, o coração é tudo que temos: nossas capacidades, desejos, necessidades, nossa vida, rodeada e confrontada a condições objetivadas como uma força hostil voltadas contra nós mesmos, isto é, propriedade privada, o capital. Apesar de tudo, com um pouco de arte, agente vai levando. No vídeo abaixo, Nelson Cavaquinho cantando a música Revertério (Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito) em um documentário de 1969.

Nina Simone – Ain’t got no / I got life :

humanaesfera, agosto de 2019

Brochura humanaesfera #6 – Marx comunista individualista! (trechos sobre o indivíduo)




Saiu Humanaesfera #6Sexta brochura (livreto) com conteúdos deste site. Este número contém extratos sortidos de Marx sobre o indivíduo, a abolição do trabalho, do Estado , do capital e das classes pelos indivíduos livremente associados como fins em si, que se expressam com as forças produtivas histórico-mundiais. São os trechos que já publicamos no link: Marx comunista individualista! (trechos sobre o indivíduo, 1843-1858) e no link Comentários sobre James Mill (trechos) (Karl Marx, 1844).

Neste link, está o PDF com a brochura, que consiste de 5 folhas A4 para serem impressas frente-e-verso (em impressoras que imprimem em frente-e-verso automaticamente, selecione “borda curta” ou “no sentido da borda menor”, ou ainda “Frente e verso, orientação vertical“), dobradas e grampeadas no meio. 

Também nos formatos:
Versão e-book EPUB ou versão e-book PDF.

Para outras brochuras, ver este link: Imprensa autônoma humanaesfera

"Cadastro Positivo": o pesadelo que está por vir

Segundo a notícia Senado aprova cadastro positivo, que vai à sanção presidencial, o “cadastro positivo” vai passar a englobar automaticamente toda a população do Brasil. Na China isso já existe em estado avançado: o “Sesame Credit” é um sistema que cruza informações de cada pessoa (desde suas postagens nas redes sociais, as pessoas com quem se relaciona, os lugares que visita, as compras que faz, seu comportamento na vida cotidiana etc.) para liberar ou não o crédito (que é o dinheiro em si) em todas as coisas que cada pessoa faz, inclusive o acesso ao transporte público, acesso a estabelecimentos, serviços, compras etc.
O Incrível é que Marx, estudando as entranhas mais viscerais do sistema creditício no século XIX, já percebia exatamente isso:
O crédito é o julgamento que a Economia Política realiza sobre a moralidade de um homem. No crédito, em lugar do metal ou do papel, é o próprio homem que se torna o mediador da troca – não como homem, mas como modo de existência de um capital e de seus juros. Assim, deixando sua forma material, sem dúvida o meio de troca retornou ao homem e se reincorporou ao homem, mas unicamente porque o próprio homem lançou-se para fora de si e se tornou para si mesmo uma forma material. Não é o dinheiro que se suprime no homem no interior do sistema creditício; é o próprio homem que se converte em dinheiro ou, noutra expressão, é o dinheiro que se encarna no homem. A individualidade humana, a moral humana, transformam-se, simultaneamente, em artigo de comércio e na existência material do dinheiro. Em lugar do dinheiro, do papel, é a minha existência pessoal, a minha carne e o meu sangue, a minha virtude social e a minha reputação social que se tornam a matéria e o corpo do espírito do dinheiro. O crédito calcula o valor monetário não em dinheiro, mas em carne e coração humanos. Este é o ponto em que todos os progressos e todas as inconsequências ocorrentes no interior de um sistema falso constituem a suprema regressão e a suprema consequência da abjeção.
No interior do sistema creditício, a natureza alienada do homem se afirma duplamente sob a aparência do máximo reconhecimento econômico do homem:
1º) entre o capitalista e o trabalhador, entre o grande capitalista e o pequeno capitalista, aprofunda-se a oposição, porque o crédito só é concedido a quem já possui, constituindo para o rico uma nova oportunidade de acumulação, enquanto o pobre – cuja existência depende dessa oportunidade – a vê assegurada ou negada segundo o arbítrio do rico ou conforme a opinião casual formada sobre ele;
2º) a mistificação, a hipocrisia e a vigarice recíprocas são levadas ao cúmulo; quanto àquele que não recebe crédito, não é julgado apenas como um pobre, mas também moralmente, como quem não merece confiança nem estima, um pária, um homem mau – à miséria do pobre soma-se a humilhação de rastejar para mendigar crédito ao rico;
3º) dada essa existência completamente ideal ao dinheiro, o homem pode praticar a falsificação monetária não só sobre qualquer matéria, mas ainda sobre a sua pessoa: o próprio homem, forçado a falsificar sobre si mesmo, deve simular, mentir etc. para obter crédito; assim, o crédito se torna – tanto para quem o concede quanto para quem o solicita – objeto de tráfico, de engano e de abuso mútuos. Aqui se revela, com toda a clareza, como, na base dessa confiança econômica, estão: a desconfiança, o cálculo suspeitoso para conceder ou negar o crédito; a espionagem em busca dos segredos da vida privada do solicitante; a denúncia de dificuldades momentâneas de um concorrente para desacreditá-lo etc. – todo esse sistema de falências e empresas falsas… No crédito público, o Estado ocupa a mesma posição que acabamos de caracterizar para o homem particular. Na especulação com os valores públicos, vê-se muito bem como o Estado se tornou o joguete dos comerciantes etc;
4º) enfim, o sistema creditício encontra seu acabamento no sistema bancário. A criação do banqueiro, o poder público da banca, a concentração da fortuna nessas mãos, este areópago econômico da nação, eis a digna coroação do sistema monetário. Quando, no sistema creditício, a avaliação moral de um homem, assim como a confiança no Estado etc, toma a forma do crédito, o mistério que se oculta sob a mentira dessa avaliação, a infâmia imoral dessa moralidade, tanto como a hipocrisia e o egoísmo dessa confiança no Estado – tudo isso emerge e aparece à luz do dia tal como é na realidade.” (Karl Marx, Cadernos de Paris, 1844)