O engatilhamento das inércias está na raiz da força?

Anteriormente, no texto Conceito qualitativo de energia, força e inércia, vimos que a interação entre inércias é que determina o que chamamos de força e que o conceito de energia é simplesmente uma estimativa da capacidade de exibir força de um conjunto de inércias numa duração de tempo, isto é, da capacidade das inércias passarem a interagirem entre si a partir de algum instante até outro instante.

Assim, uma bateria elétrica, quando está com seus dois terminais abertos (chave desligada), está impedida de exibir força, ou seja, impedida de iniciar a interação de suas duas inércias químicas internas (íons e cátions, cargas negativas e positivas, perseveram enquanto tais, logo, possuem inércia), mas quando os terminais forem curto-circuitados, as duas inércias se cruzam, interagem, exibindo força e alterando suas inércias reciprocamente, e interagem também com a inércia do metal condutor que causou o curto-circuito, alterando-a, fazendo o metal se aquecer e, talvez até explodir, alterando a seguir as inércias mecânicas de outras coisas em volta da bateria em curto que foram atingida pela explosão.

Mas percebemos que nem todas as inércias interagem indiscriminadamente entre si. Por exemplo, se empurrarmos uma bateria, alteraremos sua inércia mecânica (no vácuo, ela perseverar-se-ia nesse movimento indefinidamente), mas não alteraremos as inércias elétricas que a bateria contém. Parece então que a bateria possui dois “planos” de inércia, o plano das inércias químicas e o plano das inércias mecânicas, que só passam a interagir em situações muito específicas – quando a inércia mecânica de um metal condutor ( ou seja, que também apresenta a inércia química de se perseverar como um metal) leva o próprio metal ao encontro dos terminais da bateria.

Isso nos leva de volta ao caso da mosca que destrói um carro que falamos há quase um ano, no texto Uma arkhé Acidental?. A interação discriminada (isto é, não indiscriminada) entre inércias de planos diferentes parece explicar o “efeito gatilho” ou “efeito fagulha”, isto é, a existência de causas que acarretam efeitos desproporcionais, quer dizer, uma causa de pouca força gerar um efeito de grande força na mesma duração de tempo (logo, energia maior), como na explosão da bateria no exemplo anterior que, para ser causada, bastou encostar um metal nos terminais. Não-linearidade causal.

Mas, para que o “efeito gatilho” ocorra, os planos de inércias não precisam ser diferentes entre si (como no exemplo dos planos químico e mecânico). Por exemplo, no próprio plano das inércias mecânicas, o “trombamento” delas (a oportunidade de exibir força) sempre é não-linear, já que duas inércias mecânicas podem trombar ou não, interagir ou não:  uma inércia pode passar “raspando sem encostar” em outra inércia e essa mera diferença espacial “de uma raspinha infinitesimal” impede o choque de acontecer. Perceba: Um infinitésimo de milímetros de distância. É  desproporcional a energia necessária para uma infinitesimal inércia-gatilho tangente poder deslocar uma inércia “só uma raspinha infinitesimal pro lado”, ajeitando-a para ir de encontro com outra inércia, em comparação com a energia do choque resultante. E a “raspinha”, esse infinitesimal, pode ser também no tempo: um infinitésimo de segundos de atraso determina um choque ou não. Parece que num mesmo plano de inércias, há vários planos internos, angulados, parelos, tangentes, etc, mas o plano máximo dos gatilhos são tangentes. Na realidade, onde quer que passe a haver interação entre inércias em seja qual plano for (mecânico, químico, gravitacional…), a interação, que é a força, ocorre graças ao “efeito gatilho”, como não-linearidade. 

E os próprios planos mecânico, químico, gravitacional, etc., formam certamente um mesmo plano universal de inércias, pois só poderiam ser planos independentes se não pudessem  interagir entre si, e consequentemente nem mesmo interagir  com nossos sentidos, o que acarretaria que nunca saberíamos a existência deles, o que seria absurdo, já que só sabemos deles porque sabemos que eles interagem com nossos sentidos.

Talvez a não-linearidade que condiciona toda oportunidade de ocorrência de força seja uma “disposição intrínseca”  do próprio espaço e do tempo, do mesmo modo como a inércia é uma “disposição intrínseca” de perseverar das coisas.

Conclusão: talvez gatilho e inércia sejam os dois fundamentos de tudo o que existe. É o engatilhamento das inércias por si mesmas que produz força, energia e, consequentemente, tudo o mais que existe no universo. O esquema básico, mínimo, para um evento no universo, portanto, envolve, ao menos, três inércias: uma inércia é o gatilho (idealmente tangente) que permite ou impede que outras duas inércias, de proporções totalmente diferentes do gatilho,  venham interagir entre si e exibir força e energia.

Parece que temos agora elementos mais básicos para pensar o que seria a determinação do acaso ou o acaso da determinação, ou acaso necessário.  E talvez eles expliquem o que chamamos de “causalidade” ou “determinação”, que é, aliás, o próprio campo sobre o que se aplica o pensamento, já que só pensamos quando buscamos apreender a maneira específica na qual os eventos, coisas, etc. se relacionam e surgem. Um pensamento que não busca a determinação daquilo que pensa pode ser tudo menos um pensamento.

Humana Esfera, 8/2011

Conceito qualitativo de energia, força e inércia

Definições:

Inércia é aquilo que faz uma coisa qualquer perseverar em sua velocidade, direção, formato etc.

Força é aquilo que altera a inércia (muda velocidade, direção, formato de alguma coisa).

Energia é a capacidade de uma força para alterar a inércia.

Dadas essas definições, e tendo em vista construir uma concepção filosófica/física imanente (i.e. que não recorre a algo fora da física, fora da matéria), fica claro que a inércia é que é “substancial”, pois é perseverando em sua velocidade, direção, formato etc. que as coisas são levadas a se cruzarem acidentalmente no espaço e tempo, quando então, nesse cruzamento, as coisas alteram reciprocamente sua velocidade, direção, formato, etc., manifestando assim o que chamamos de força. A inércia é a “causa substancial”, enquanto a força é um “efeito acidental”.

Enquanto a inércia é o que faz as coisas perseverarem (em sua velocidade, direção, formato etc.), a energia é a capacidade das coisas (que se perseveram) para se cruzarem acidentalmente e se alterarem reciprocamente, manifestando o que chamamos de força. Como capacidade de exibir força, a energia é apenas um constructo teórico, uma expectativa, a energia não é algo com realidade própria.

Na troca de energia, a conservação de energia significa apenas que a “capacidade de cruzamento” das coisas, no total, se persevera: ou seja é apenas outra expressão da inércia.

Resumo/conclusão: 

Só há força quando há o “cruzamento ao acaso” das inércias das próprias coisas. A força não é algo “intrínseco” a nada, mas relativo, ela é um “acidente”, já que as coisas só mostram força quando se encontram com outras coisas, ou seja, quando se “trombam” no espaço graças à própria inércia de cada uma. Em suma: a força só existe quando as inércias se “trombam”. Do mesmo modo, a energia não possui substância própria, e não só é relativa, como também é teórica, já que ela é a a nossa expectativa teórica ou estimativa da capacidade maior ou menor para que a inércia de uma coisa qualquer “trombe” com a inércia de outra coisa qualquer. Ao trocar energia, as coisas alteram sua disposição espacial, isto é, mudam sua capacidade de se “trombarem”; algumas ganham mais capacidade e outras perdem, mas no somatória total, a capacidade de se trombarem é conservada, e isso explicaria o princípio de conservação de energia, que seria então mais uma consequência da inércia.

A inércia é que é fundamental.

Assim, surgem novos elementos para repensar o que foi dito anteriormente no texto “Uma arkhé Acidental?” . Tarefa futura.

Humana Esfera, 8/2011

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