Greve e produção livre

(English translation)

Dado que:

a) as greves nos serviços deixam mais em apuros o resto do proletariado do que os próprios patrões. Por exemplo, na saúde, nos transportes (de cargas e passageiros), supermercados, etc.

b) isso acarreta que o resto do proletariado tende a considerar estas greves não como afirmações de sua classe, mas de interesses corporativos, pequeno-burgueses, mesquinhos. (Apenas muito indiretamente, por uma longa e tortuosa cadeia de raciocínios, alguns proletários chegam à conclusão de que os apuros são efeito colateral de uma luta que pode beneficiar a todos.)

c) a greve, além disso, é, há cem anos, um método de luta mais do que domesticado pelos patrões e pelo Estado, através dos sindicatos. E mesmo contra os sindicatos (greves selvagens), as reivindicações das greves, se atendidas, são logo ultrapassadas, por exemplo pela inflação, e por incessantes e permanentes represálias patronais, etc. (Além disso, hoje, praticamente todos os patrões praticam “diversificação de investimentos”, isto é, cada um investe simultaneamente em muitas outras empresas, ações, bolsa, outros países etc de modo que mal são afetados pela greve.)

Frente a tudo isso, defendemos:

1) a superação da greve pela tática da produção livre, gratuita;

2) a abertura dos meios de produção para a população da cidade, chamando-a para decidir o que fazer e participar da produção (tornando sem significado as palavras “emprego”, “desemprego” e “empresa”). Isso, num único ato, reduz a jornada de trabalho e alivia o resto do proletariado dos apuros impostos pelos proprietários (desemprego, necessidades insatisfeitas e o terrorismo empreendedorista);

3) produções que se revelarem escassas serão submetidas à decisão democrática da população. Porque a escassez causa conflitos (escasso é o que não é suficiente para todos os que desejam, o que causa mesquinhez e propriedade privada) que precisam ser resolvidos – por exemplo, é preciso decidir se é justo que uma produção deva atender primeiro os necessitados, ou se ela deve atender a população mediante outros critérios considerado justos (por ex., sorteio, repartição igualitária, jogos, distribuição conforme os mais necessitados, ou conforme a participação em alguma atividade específica vista como necessária por todos, ou mesmo armazenar para suportar algum período de dificuldade… ou ainda simplesmente quem chegar primeiro… as possibilidades de critérios são inúmeras);

4) produções que se revelarem abundantes, serão desfrutadas à maneira comunista: “Ninguém vota; nunca a maioria e nem a minoria fazem a lei. Se esta ou aquela proposta reúne um número suficiente para executá-la, quer seja a maioria ou a minoria, então a proposta será executada, se for esta a vontade daqueles que aderem a ela.” (A Humanisfera, 1857). Com isso, supera-se, juntamente com o consumo espetacular, o próprio trabalho enquanto tal.

Dinâmica:

Estes pontos podem ser compreendidos como etapas condicionadas à difusão exponencial da luta. Se, ao efetuar o ponto 1, se perceber uma adesão crescente do resto proletariado à mesma tática de produção livre contra os patrões, passa-se ao 2º, 3º e 4º pontos. Simultaneamente, há a necessidade de espalhar  (quebrando o “segredo industrial”) o conhecimento do modo como a produção e os fluxos materiais são interligados e interdependentes mundialmente. Com base nisso, mostra-se a necessidade de que o resto do proletariado de outras cidades e outros continentes passe a adotar a mesma tática. O proletariado se constitui como classe quando ultrapassa todas as fronteiras  (nacionais, empresariais e identitárias) inventadas como “fatos naturais” pelos patrões e privilegiados, numa luta internacionalista contra eles (luta capaz de acabar com todas as guerras).

Objetivo:

A finalidade da produção livre é a solidariedade imediata do resto do proletariado, favorecendo que se adote a mesma tática por toda parte. O proletariado, ao constituir-se como classe autônoma, força, por si só, que a classe dominante e os políticos (de esquerda ou direita, é indiferente) concedam muito mais do que se pode imaginar agora. Além disso, se se tornar uma situação sem retorno, permanente e generalizada, é, por si mesmo, um novo modo de produção no qual os desejos, as necessidades e as capacidades humanas determinam, em livre associação, a produção. Um modo de produção que consiste na auto-realização e auto-satisfação dos indivíduos livremente associados sem fronteiras torna completamente obsoleto o mercado de trabalho (e, consequentemente,  torna obsoleto o capitalismo, seja particular, como dos EUA, ou estatal, como Cuba). Ou seja,  desaparecem as condições materiais que forçavam a população a aceitar se arrastar por salários em troca da alienação de suas capacidades – de pensar, sentir e agir – ao comando e arbítrio dos donos do dinheiro (os capitalistas: burocratas, empresários, políticos…).

Humanaesfera, novembro de 2014

[Para uma maneira como a concretização desta proposta pode funcionar indefinidamente até que os poderosos se rendam, veja:  Contra a metafísica da escassez, copiosidade prática ]

Bibliografia (com links):
Continuação das reflexões deste texto: 
Fundamentação teórica: 

 Perspectiva prática:

Serviços: subsunção formal

Trecho de Misery and debt  (2010) por Endnotes  (http://endnotes.org.uk/articles/1):
“[…]Se, como temos argumentado, a reprodução ampliada gera crescimento dinâmico quando o aumento da produtividade libera de alguns ramos capital e trabalhadores que depois são recombinados em indústrias novas ou em expansão, então isto tem consequências importantes para a compreensão do crescimento do setor de serviços. Quase por definição, os serviços são atividades cujo aumento de produtividade é difícil de atingir exceto numa margem. A única maneira conhecida de melhorar drasticamente a eficiência dos serviços é transformá-los em produtos e depois produzir esses produtos em processos industriais, que se tornam mais eficientes com o tempo. Muitos bens são de fato antigos serviços – por exemplo, havia antigamente criados que lavavam as roupas nas casas dos ricos; hoje em dia, as máquinas de lavar roupa executam esse serviço de forma mais eficiente e são elas mesmas produzidas com cada vez menos trabalho. As atividades que permanecem serviços tendem a ser precisamente as que até agora se mostraram impossíveis de serem substituídas por produtos fabricados.

É claro que o conceito burguês de “serviços” é notoriamente impreciso, incluindo tudo, desde os chamados “serviços financeiros” até o trabalho de escritório e o pessoal de limpeza de hotéis , e até mesmo alguns empregos industriais terceirizados. Muitos marxistas tentaram assimilar a categoria de serviços ao de trabalho improdutivo, mas se refletirmos sobre a caracterização acima, fica claro que ela está mais próxima do conceito de “subsunção formal” de Marx. Marx havia criticado Smith por ele ter um entendimento metafísico do trabalho produtivo e improdutivo – aquele produzindo bens e este não – e ele o substituiu por uma distinção técnica entre o trabalho realizado como parte de um processo de valorização do capital e trabalho realizado fora desse processo para o consumidor imediato. Em “Os Resultados do Processo de Produção Imediato”, Marx argumenta que, teoricamente, todo o trabalho improdutivo pode se tornar produtivo, pois isso apenas significa que ele foi formalmente subsumido ao processo capitalista de valorização. No entanto, as atividades formalmente subsumidas são produtivas apenas de mais-valia absoluta. Para ser produtiva de mais-valia relativa é necessário transformar o processo material de produção para que seja passível de rápidos aumentos de produtividade (cooperação, manufatura, grande indústria e maquinário) – ou seja, passível de subsunção real. Quando economistas burgueses como Rowthorn falam de “serviços tecnologicamente estagnados”, eles sem perceber se remetem ao conceito de Marx de um processo de trabalho que foi apenas formalmente subsumido, mas não realmente subsumido.

Assim, quando a economia cresce, a produção real de “serviços” tende a crescer, mas apenas pela adição de mais empregados ou intensificando o trabalho dos trabalhadores existentes, isto é, por meio de produção de mais-valia absoluta, em vez de mais-valia relativa. Na maioria desses setores os salários formam a quase totalidade dos custos, de modo que os salários têm de ser mantidos baixos para que os serviços permaneçam bancáveis e lucrativos, especialmente quando as próprias pessoas que lhes pagam são pobres: assim é o McDonald´s e o Wal-Mart nos EUA – e também o grande proletariado informal na Índia e China.”

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