O que foi junho de 2013? – da incipiente comunidade material a seu esmagamento reacionário na pseudo-comunidade ideológica

(English translation)

Cinco anos depois, o que aconteceu em junho de 2013?

Nesta sociedade de indivíduos atomizados, o transporte público é, materialisticamente falando, o único lugar comum em que os trabalhadores de uma cidade se encontram imediatamente nas mesmas condições. Quando aumenta a passagem, todos sofrem igualmente. Esta foi a base material para a união nos protestos contra o aumento das passagens que aconteceram em junho de 2013.

Uma questão interessante é que, desde sempre, a cada ano, o aumento causa um sentimento de raiva. Então, por que não acontecem protestos daquela magnitude sempre todos os anos? Certamente, naquele ano, confluíram múltiplas determinações simultâneas que se traduziram naqueles protestos, ao contrários de todos os outros anos em que essas determinações estavam ou ausentes ou não coincidiram.  Mas ainda não sabemos muito bem quais foram elas, e nem como.

A comunidade material inicial (transportes usados pelos explorados nas mesmas condições) dava o fundamento espontâneo para a comunidade de protesto. A medida que os protestos iam crescendo, e a reivindicação de redução das passagens ia sendo atendida, porém, a comunidade de protesto foi se afastando dessa comunidade material inicial.

O movimento, partindo da esfera da circulação de mercadorias, não foi capaz (nem tentou) de transformar as condições de modo a criar uma comunidade material em expansão que potencializasse a comunidade de luta para ir além dos protestos de rua levando-a para as relações de produção. Ou seja, não surgiu, sequer em germe, uma comunidade capaz de minar a sociedade capitalista na sua base produtiva criando um novo modo de produção cosmopolita que se generalizasse por todo o mundo ao colocar as forças produtivas como expressão das necessidades e capacidades humanas como fins em si. A ausência disso teve o efeito necessário, inexorável, de fazer aquela comunidade de protestos se degradar em comunidade ideológica, “cidadã”, “brasileira”.

Essa comunidade de “querências” atomizadas, imaterial, é incapaz de encontrar sua força de união em si mesma. Isto é, o movimento foi fadado a ser joguete das polarizações inter-capitalistas (esquerda e direita), fadado a se deixar dirigir pela competição no espetáculo.

A fascistização começou no próprio junho de 2013, [1] quando o movimento não se generalizou materialisticamente desde o início, quando se perpetuou no desfile espetacular em manifestações.

Manifestações são o terreno por excelência da “livre expressão do cidadão”, ou seja, da dita “classe média” (subdivida em “baixa baixa baixa” até “alta alta alta”, ou seja, tudo mundo). Na sociedade capitalista só há “classe média”, já que, nela, só há a liberdade e igualdade de vendedores e compradores de mercadorias, não importando que não se tenha nenhuma mercadoria para vender e que se seja forçado pela necessidade de sobreviver a fazer de si próprio uma mercadoria que se vende voluntariamente no mercado de trabalho.

Apenas se tivesse se generalizado abalando e transpassando todos os compartimentos da sociedade capitalista (trabalho, escola, família, fronteiras, Estado etc), o movimento poderia seguir numa dimensão emancipatória, libertária, impondo a satisfação das necessidades e o desenvolvimento das faculdades humanas: a emergência do proletariado como classe autônoma contra a classe dominante por toda parte, a irrupção irresistível do comunismo generalizado.

Como isso não aconteceu, o movimento continuou “cidadão” e, consequentemente, “classe média”, daí fascista, porque os vendedores/compradores livres e iguais acima de tudo competem. Eles precisam se agarrar a tudo que afirme sua exclusividade frente aos competidores para garantir sua sobrevivência, e isso independentemente da ideologia que se declare (esquerda, direita etc).

Resumindo:  em junho de 2013, desde o início, havia uma grande fetichização das manifestações de rua. A perspectiva de generalização do movimento de modo a criar uma associação material incluindo os proletários em todos os lugares para transformar as relações de produção não era expressa, ou pelo menos permaneceu isolada e impossível de ser expressa publicamente. A semente já estava podre. E enquanto as manifestações continuaram meras manifestações, a semente podre germinou no final do mês, no dia 20, [1] arrastada por todo espectro da abrangente “cidadania”, fazendo emergir o reacionarismo que dura até hoje de maneira consistente e cada vez mais preocupante.

humanaesfera, junho de 2018

NOTA
[1] Ver, por exemplo, o relato do Passapalavra feito naquele momento: 20 de junho: a Revolta dos Coxinhas

Maio de 68: a "juventude" e a destruição épica do fordismo pelo proletariado

Há 50 anos, Maio de 68 aconteceu simultaneamente no mundo todo, do Japão até o Chile, Itália, México, Espanha, EUA, etc e perdurou até meados dos anos 1970. Enquanto em cada lugar ele teve características e limitações diferentes, o que importa para nós são as potencialidades internacionalistas e comunistas libertárias que surgiram por toda parte  mas que, por não conseguirem se afirmar nem se desdobrar, abriram caminho à derrota do movimento, permitindo à sociedade capitalista, nas décadas seguintes, uma reação que a reconfigurou profundamente.

Para acontecer maio de 1968, várias dimensões confluíram. Do ponto de vista das relações de produção, o modelo fordista de dominação e exploração se esgotou, graças a poderosos métodos de resistência rapidamente se generalizando: o absenteísmo se tornou rotina, greves de ocupação (grève sur le tassit-down strike, em que simplesmente se cruzava os braços no meio do trabalho, interrompendo algumas linhas de montagem fordistas, o que, pelo encadeamento delas, interrompia fábricas inteiras ou mesmo várias fábricas), desprezo pelos chefes, pelos burocratas, pelo trabalho e pelo empresariado…

Outra dimensão foi a “juventude”, criada pela primeira vez como categoria (ou até como o próprio tipo-ideal da sociedade capitalista) pelas necessidades de acumulação do capital (educação universitária se tornando comum e não mais apenas para as elites, assim como os “jovens” se tornando importantes consumidores de mercadorias específicas, cada vez mais produzidas em rápida rotação, devido às “modas”), nos anos 1960. Com esse novo produto, a “juventude”, a sociedade capitalista invocou forças que ela não pôde controlar, principalmente quando essa juventude rebelde se juntou com os proletários que estavam destruindo o modelo fordista de exploração. Tudo indica que essas foram as duas dimensões cruciais que convergiram naquele momento para desatar maio de 68.

Essas duas dimensões se combinaram, se potencializando mutuamente, produzindo uma perspectiva apaixonante de transformação total da sociedade em que os indivíduos se libertam de todos os papéis, particularidades e hierarquias, e afirmam seus desejos curto-circuitando o singular e o universal, a vida cotidiana e a história mundial.

DERROTA E REAÇÃO

O movimento foi derrotado porque o proletariado, com a “juventude”, não conseguiu atacar as relações de produção de uma maneira suficiente para criar um novo modo de produção capaz de se generalizar rapidamente por todo o mundo e nutrir tanto seu poder contra a classe capitalista e o Estado, quanto potencializar sua capacidade de criar uma nova sociedade. [1] Ao se prolongar no tempo sem alcançar isso, eles terminaram tendo que confiar em sindicatos e na social-democracia, instituições cuja razão de ser é controlar tudo que ameace a exploração, mediando e negociando com o Estado e os capitalistas. Esse prolongamento no tempo foi desmoralizando a luta nas relações de produção, canalizando a energia social para a pseudo-luta na esfera do simbólico, do espetacular, da representação, o que se consumou na completa desintegração do movimento nas categorias reificadas da sociedade capitalista: “juventude”, “trabalhadores”, “consumidores”, “estudantes”, “minorias”, “cidadãos lutando por direitos civis”… Até que no fim dos anos 1970 e nos anos 1980, no plano das relações de produção, veio o brutal ataque contra os trabalhadores por parte dos capitalistas, que substituíram o modelo fordista pelo modelo em que a terceirização é o principal elemento, dividindo e hierarquizando os trabalhadores ao máximo… enquanto que as outras categorias reificadas citadas acima, imaginariamente separadas das relações de produção, foram fadadas a reivindicar “direitos civis”, ou seja, fortalecer o poder alienado da sociedade, o Estado e o capital,  a polícia, como garantidores de “espaços” para suas “identidades” (“representatividade”) no inferno da competição pela sobrevivência na sociedade capitalista, a  competição generalizada pela submissão à classe proprietária dos meios de vida.

Em suma, depois da derrota, os capitalistas recuperaram o descontentamento e os desejos de maio de 1968, canalizando-os para a reprodução da sociedade capitalista: ter dinheiro seria a própria realização da “autonomia” e “afirmação da individualidade e dos desejos”. O toiotismo foi adotado (mas transformado, pois no toiotismo original no Japão dos anos 1950 até recentemente, o emprego era vitalício) como afirmação de cada trabalhador como empresário de si mesmo, “capital humano” (suposta realização da “autogestão”) e como terceirização desses empresários de si mesmos numa rede de infinitas camadas “meritocráticas” selecionadas, é dito, pela competição impessoal no mercado e não mais pelo comando desse ou daquele patrão… enquanto a “questão social” se degradou em mera luta por “afirmação de identidades”, isto é, de estereótipos (“etnia”, “gênero”, “cultura” etc) buscando “representatividade” no mercado, na empresa e no Estado.

Mas a destruição do modelo fordista de dominação e exploração pelo proletariado merece uma exposição mais detalhada. É o que tentaremos fazer a seguir:

COMO OCORREU A DESTRUIÇÃO DO MODELO FORDISTA DE DOMINAÇÃO E EXPLORAÇÃO

O capital tende sempre à transformar os meios de produção de modo a fazer com que sua operação seja simplificada, abstratizada e homogeneizada ao máximo (e, é claro, feita pelo mínimo de pessoas), com o objetivo de depender cada vez menos de trabalhadores que possuam uma qualificação específica e que, por isso, tem algum poder de impor seus interesses contra os capitalistas.

O fordismo foi isso: a linha de montagem, junto com a automação, buscava retirar dos trabalhadores o conhecimento e o controle sobre o processo produtivo, e tornou o trabalho homogêneo e simples, intenso e frenético, mas fácil de ser feito por trabalhadores não qualificados, por exemplo, migrantes que vieram de regiões rurais desempregados. Na época em que foi implantado e generalizado, nos anos 1930-1950,  muitos acreditaram no fim absoluto da luta de classes enquanto força capaz de transformar radicalmente a sociedade (era o que pregava Marcuse, por exemplo), principalmente no pós-guerra, quando a Europa e os EUA viviam o maior período de prosperidade da história da sociedade capitalista, em que, graças a acordos de produtividade (entre sindicatos e patrões sob a chancela do Estado, atrelando o aumento dos lucros e o aumento dos salários, conforme a política keynesiana), tudo parecia neutralizar e prevenir qualquer radicalização dos trabalhadores ao integrá-los na “sociedade de consumo”.

Porém, essa simplificação e homogeneização acarretada pelo fordismo teve o efeito colateral de os trabalhadores, pouco a pouco, desde suas lutas iniciais muito tímidas, irem percebendo que suas condições eram as mesmas por toda parte, se solidarizando não mais como capital variável qualificado que tem interesses corporativos frente a outros trabalhadores (como era antes do fordismo e como era a estrutura “trabalhista” que foi herdada das lutas desses antigos trabalhadores qualificados que se orgulhavam de seu trabalho que ainda era bastante artesanal), mas se solidarizando enquanto proletários, ou seja, com qualquer explorado, inclusive desempregados, todos desqualificados que viam e viviam o trabalho como negação da vida e da individualidade, como transformação do ser humano em máquina, em objeto nas linhas de montagem. Essa situação culminou em maio de 1968, com a prática, que se tornou corriqueira, de “recusa do trabalho”, o absenteísmo, a sabotagem, e a exigência, nos momentos mais radicalizados, de “abolição do trabalho”  [2] (obs.: nos anos 1990, o grupo Krisis, com seu “Manifesto contra o trabalho”, chegou 30 anos atrasado quanto a essa questão, com o agravante de silenciar e não fazer referência ao fato de ela ter surgido graças à luta autônoma dos proletários 30 anos antes, ou seja, de propagar a ignorância).

Buscando minar as bases desse movimento de recusa e desprezo pelo trabalho que tinha culminado em maio de 68 e que perdurou por alguns anos, em que ocorreu uma crise de lucratividade que marcou o fim dos “anos dourados” do pós-guerra, o capital foi pouco a pouco abandonando o fordismo e adotando e generalizando uma variação de toiotismo, isto é, terceirização dos trabalhadores de modo a isolá-los, dispersá-los e hierarquizá-los, no processo produtivo, em inúmeras camadas subterceirizadas com salários extremamente variados e condições diferentes, o que minou a solidariedade deles.

Porém, a história certamente ainda não acabou. A tendência de homogeneização e simplificação do trabalho faz parte de uma necessidade inescapável do capital, que não pode existir sem buscar desqualificar ao máximo, tornando facilmente intercambiável a força de trabalho, para cortar o máximo de custos com ela (i.e., para pagar o menor salário possível), de modo que, como efeito colateral, há sempre a tendência correspondente de os trabalhadores, junto com os desempregados, se encontrarem como iguais, constituindo-se como proletariado que busca se auto-abolir, e portanto abolir o capital, afirmando a comunidade humana mundial, o comunismo.

Talvez essa tendência de homogeneização e simplificação do trabalho (que se vê hoje levada ao extremo em “aplicativos” como o Uber e, agora, a “uberização” de cada vez mais trabalhos, inclusive de profissões que antes se viam como protegidas do ataque capitalista, até as mais esnobes, como os acadêmicos e os engenheiros) seja o verdadeiro pressuposto não só da fraternização global da classe, mas também, no momento em que essa fraternização conseguir se estender, intensificar sua potência e derrotar o capital por toda parte, o pressuposto para simultaneamente  suprimir a divisão do trabalho (já que tende a fazer com que qualquer um consiga operar qualquer maquinismo) e, consequentemente, o pressuposto da abolição do trabalho em si, por uma livre associação dos indivíduos em escala mundial, na qual qualquer um tem livre acesso às forças produtivas mundiais conforme as suas necessidades (e a partir disso, é claro, transformando todos os meios de produção herdados da sociedade capitalista, que foram feitos sob medida pela ditadura do dinheiro e do lucro, para que sejam submetidos às necessidades, desejos e capacidades humanas como fins em si).

humanaesfera, maio de 2018

NOTAS:
[1] Em Paris, o momento chave da derrota e do prolongamento arrastado que se seguiu foi testemunhado in loco por Fredy Perlman enquanto estava acontecendo:
“[…]Na Sorbonne, no Censier, em Nanterre, e em outros lugares, a universidade foi proclamada uma propriedade social; os prédios ocupados tornaram-se ex-universidades. Os prédios foram abertos para toda a sociedade – estudantes, professores, trabalhadores – para qualquer um que desejasse ir lá. Além do mais, as ex-universidades foram geridas pelos seus ocupantes, fossem eles estudantes ou não, trabalhadores, camponeses. No Censier, de fato, a maioria dos ocupantes não era “estudante”. Essa socialização foi acompanhada por uma ruptura da divisão do trabalho, da divisão entre “trabalhadores” e “intelectuais”. Em outras palavras, a ocupação representou a abolição da universidade como uma instituição especializada restrita a um segmento específico da sociedade (estudantes). A ex-universidade se tornou socializada, pública, aberta a todos.

As assembleias gerais nas universidades foram momentos de auto-organização pelas pessoas dentro de um prédio específico, independente de suas  especializações anteriores. Elas não foram momentos de auto-organização a respeito de “seus próprios” assuntos.

Entretanto, isso foi o mais longe que a “escalada” foi. Quando as pessoas que organizavam as atividades dentro da universidade ocupada foram “aos trabalhadores”, fosse nas barricadas ou nas fábricas, e quando eles disseram para os “trabalhadores”: VOCÊS devem tomar SUAS fábricas”, eles mostravam uma completa falta de entendimento sobre o que eles já estavam fazendo nas ex-universidades.

Nas ex-universidades, a divisão entre “estudantes” e “trabalhadores” foi abolida na ação, na prática cotidiana dos ocupantes; não havia mais “tarefas de estudantes” e “tarefas de trabalhadores”. Entretanto, a ação foi mais longe que a consciência. Ao ir aos “trabalhadores” as pessoas viam os trabalhadores como um setor especializado da sociedade, eles aceitaram a divisão de trabalho.

A escalada foi tão longe a ponto da formação de assembleias gerais de seções da população dentro das universidades ocupadas. Esses ocupantes organizaram suas próprias atividades.

Entretanto, as pessoas que “socializaram” as universidades não viram as fábricas como meios SOCIAIS de produção; elas não perceberam que essas fábricas não foram criadas pelos trabalhadores empregados lá, mas por gerações de trabalhadores.Tudo que eles viram, dado que isso é visível na superfície, é que os capitalistas não fazem a produção mas os trabalhadores fazem. Mas isso é uma ilusão. A Renault, por exemplo, não é em nenhum sentido um “produto” dos trabalhadores empregados na Renault, ele é um produto de gerações de trabalhadores (não apenas na França), incluindo mineiros, produtores de máquinas, produtores de comida, pesquisadores, engenheiros. Pensar que as fábricas automobilísticas da Renault “pertencem” às pessoas que hoje trabalham lá é uma ilusão. Porém, essa ficção foi aceita por pessoas que rejeitaram a especialização e a “propriedade” nas universidades ocupadas.

Os “revolucionários” que transformaram as universidades em espaços públicos, e consequentemente em propriedade de ninguém, não estavam conscientes do caráter SOCIAL das fábricas. O que eles contestaram foi o “sujeito” que controlava a propriedade, o “proprietário”. A concepção dos “revolucionários” era que “os trabalhadores da Renault devem gerir as fábricas ao invés dos burocratas do estado; os trabalhadores da Citroen devem gerir a Citroen no lugar dos proprietários capitalistas”.  Em outras palavras, as propriedades privada e estatal devem ser transformadas em propriedade do grupo: a Citroen deve se tornar uma propriedade dos trabalhadores empregados na Citroen. E visto que essa “corporação” de trabalhadores não existe no vácuo, ela deve estabelecer maquinarias para se ligar a outras corporações, “externas”, de trabalhadores. Consequentemente, eles devem estabelecer uma administração, uma burocracia, que “representa” os trabalhadores de uma fábrica particular. Um elemento dessa concepção corporativista foi afetado pelo “modelo” das universidades ocupadas.Tão logo o sindicato estudantil foi rejeitado como o “porta-voz” dos estudantes que ocuparam a universidade, o sindicato tradicional (A Confederação Geral do Trabalho) foi rejeitado como o “porta-voz” dos trabalhadores incorporados: ”os trabalhadores devem ser representados não pela CGT; eles devem ser representados por eles mesmos,” quer dizer, por uma nova burocracia eleita democraticamente.

Assim, mesmo na perspectiva dos ocupantes da universidade, as fábricas não deveriam ser socializadas. Desse modo, as “assembleias Gerais” dentro das fábricas não possuíam o mesmo significado que nas universidades. As fábricas deveriam se tornar uma propriedade de grupo, como as empresas iugoslavas. Tais empresas não são socialmente controladas; elas são geridas por burocracias dentro de cada empresa.[…]

A ideia de que “os meios de produção pertencem aos trabalhadores” foi traduzida como significando que os trabalhadores são donos da fábrica em particular na qual eles trabalham. Essa é uma vulgarização extrema. Tal interpretação implicaria que a atividade particular à qual a luta pelo salário condenou alguém na sociedade capitalista é a atividade a que esse alguém estaria condenado quando a sociedade é transformada. E se alguém que trabalha nas fábricas de automóveis quisesse pintar, plantar, voar ou fazer pesquisa no lugar de produzir numa linha de montagem de carros? Uma revolução deveria significar que os trabalhadores, a partir desse momento, poderiam ir a toda a sociedade, e é duvidoso que muitos deles retornassem para a fábrica de carro particular que o capitalismo os tinha condenado a trabalhar.”(Fredy Pelrman, Comitês de ação dos trabalhadores e estudantes. França, maio de 68 – Parte 2. Avaliação e Crítica. Limites da escalada).

[2] Ver, por exemplo: A recusa do trabalho – Comitato Operaio di Porto Marghera

BIBLIOGRAFIA

Link com várias referências: Referências Bibliográficas – Maio de 68 – Francês

Dossiê com vários textos: MISCELÂNEA: 1968 & depois…

Sobre a Internacional Situacionista, o movimento radical mais avançado naqueles anos, ver: DOSSIÊ: INTERNACIONAL SITUACIONISTA

Sobre os efeitos de Maio de 1968 e a reação contra ele (cultural, produtiva, social, subjetiva, etc.), reação  que perdura até hoje, ver:
Os estilhaços do capital – Eric Alliez e Michel Feher

Bordiga versus Pannekoek – Antagonism



Traduzimos o texto Bordiga versus Pannekoek , escrito por um coletivo anônimo e publicado por Antagonism Press. O texto completo está neste link


Abaixo, alguns trechos:

“[…] Atualmente, como na maioria dos períodos históricos, somente uma pequena minoria está ativamente envolvida na oposição ao capitalismo de um modo revolucionário. Quer se definam como “movimento”, “organização”, “partido” ou até mesmo rejeitem qualquer organização formal, a questão de como uma minoria radicalizada se relaciona com o resto do proletariado é crucial.


[…] Estas questões permanecem importantes, e controversas. Elas foram abordadas por todas as tendências radicais de uma maneira ou de outra, mesmo que tangencialmente. É o caso inclusive das tendências que rejeitam o conceito de partido revolucionário. Por exemplo, muitos anarquistas de luta de classes tentam resolver o problema designando seu partido “a organização revolucionária”, presumindo que, mudando de nome, exorcizam a besta. Daí em diante, eles podem confundir sua própria organização com a organização da classe. As esquerdas comunistas italiana e alemã tratam dessas questões diretamente, mas cada uma a seu próprio modo.
[…]
A obra de Bordiga e da esquerda italiana pode ser considerada, ao menos em certa medida, como representando um dos polos de um contínuo dialético dentro do movimento comunista. O comunismo teórico e organizado baseia suas ideias e práticas no movimento real do proletariado na sua luta antagônica contra o capital. O comunismo teórico é uma tentativa de destilação das lições aprendidas na luta proletária. No entanto, há uma constante contradição nesse esforço. O estudo das lições das lutas passadas tende a uma teoria cada vez mais coerente que se manifesta como um programa baseado em princípios. Mas a adesão a esse programa necessariamente significa manter uma atitude crítica frente às lutas proletárias. Como resultado, os comunistas que se baseiam em princípios tendem a se tornar cada vez mais distantes das lutas reais dos proletários. O “bordiguismo”, em algumas de suas manifestações, como movimento fundamentado em um programa “invariante”, é um dos exemplos mais puros desse polo.


Pannekoek e a esquerda alemã/holandesa aparecem no polo oposto dessa dialética, assim como movimentos como o “autonomismo”. Essas tendências tentam manter sua teoria em contato com as últimas lutas do proletariado e com as modificações na organização do capital. Infelizmente, isso pode levar a uma constante revisão de posições políticas (ou melhor, a recusar manter qualquer posição), ou então pode levar a um obreirismo imediatista ou espontaneísta.


É necessário ultrapassar qualquer falsa oposição de programa versus espontaneidade. O comunismo é tanto a atividade autônoma [self-activity] do proletariado quanto a crítica teórica rigorosa que a exprime e prefigura.”


Link para o texto completo: Bordiga versus Pannekoek – Antagonism

Por que as greves e manifestações são hoje sistematicamente derrotadas em todo o mundo?

Reformas que atacam brutalmente os trabalhadores estão ocorrendo em todo o mundo. Como comprovado na prática no Brasil, agora na Argentina e antes na França, as greves e manifestações se mostram impotentes, são completamente domesticadas e não causam mais nenhuma surpresa para a classe dominante. As greves, porque a maioria dos trabalhadores estão no setor de serviços, afetam mais os próprios proletários que usam esses serviços do que os patrões, que, por sua vez, praticam “diversificação de investimentos”, isto é, cada um investe simultaneamente em muitas outras empresas, ações, bolsa, outros países etc de modo que mal são afetados pela greve. Com isso, os proletários cada vez menos reconhecem a luta dos trabalhadores em greve como a luta deles próprios. As manifestações, por outro lado, são apenas aparência, falsas lutas, sendo totalmente controladas, contidas e neutralizadas pela polícia com sofisticados métodos de controle de multidões, pela esmagadora superioridade em armas e pela aterrorizante mobilização de mercenários (milícias, grupos de extermínio, gangues de traficantes etc).

Diferentemente, no início do século  XX, uma proporção muito maior dos proletários, geralmente a maioria, estava no setor industrial, e suas greves afetavam diretamente os patrões e não os demais proletários, que por isso reconheciam a luta dos trabalhadores da indústria como a luta deles mesmos. Desse modo, as greves se espalhavam internacionalisticamente, ocorrendo em muitos países ao mesmo tempo, de forma que os patrões não tinham para onde fugir com seus “investimentos” (essa simultaneidade internacional da luta dos trabalhadores era o objetivo da Associação Internacional dos Trabalhadores já na segunda metade do século XIX, que deu origem à música “A Internacional”). Essa situação atingiu um ponto inescapável para os patrões, forçando-os a adotarem, entre os anos 1920 e 1930, a jornada de oito horas de trabalho simultaneamente no mundo inteiro (antes disso, a jornada geralmente era de 14 a 16 horas), assim como o direito a aposentadoria. Precisamente as coisas que estão hoje sob brutal ataque.

Porém, como explicamos no primeiro parágrafo, as condições atuais são completamente diferentes das do início do século XX. Essas condições nos indicam que a perspectiva prática descrita no texto Greve e produção livre é a única que, de fato, parece ter o potencial de permitir que os proletários (trabalhadores e desempregados) possam novamente se associar internacionalisticamente e impor ditatorialmente a satisfação das necessidades humanas contra a ditadura do dinheiro.

Outros dois textos que são tentativas de investigar as condições que teremos que criar para essa tática dar certo são:
Breve crítica à ideia de economia paralela anticapitalista  e
Condições de existência universalmente interconectadas/interdependentes

Trechos de "Notas sobre composição de classe" (2002), de Kolinko

Abaixo selecionamos alguns trechos de “Notas sobre composição de classe” (do grupo Kolinko). O texto integral pode ser encontrado neste link.

[A INSUFICIÊNCIA DO CONCEITO FORMAL DE LUTA DE CLASSES]

“Em geral, as várias correntes [leninismo, anarco-sindicalismo, comunismo de Conselhos etc.] criticam o “capital” somente como uma relação formal de exploração: o sobretrabalho é apropriado por mãos privadas ou pelo estado. O real processo material de exploração/trabalho é negligenciado. Essa noção formal de capital leva a uma noção formal de classe operária: uma massa de explorados que devem vender sua força de trabalho devido à sua “despossessão” dos meios de produção. Dessa noção de classe operária diferentes conclusões políticas foram extraídas: os leninistas enfatizam a necessidade de um partido político capaz de unir as massas, cuja única coerência é a semelhança formal dos não-proprietários. O partido deve dar uma direção estratégica para as lutas espontâneas dos explorados. Os comunistas de conselhos apenas observam que a massa de explorados cria suas próprias formas de organização na luta. Eles negligenciam a questão da estratégia e vêem como sua principal tarefa difundir as experiências de auto-organização entre os proletários.
[…]
A noção formal de exploração (sobretrabalho expropriado) é incapaz de revelar a potência de auto-emancipação que os proletários podem desenvolver. Enquanto “não-proprietários” dos meios de produção, sua potência não pode ser explicada. O mero fato de que todos são explorados não cria uma coerência real entre os indivíduos. A possibilidade de auto-organização deriva apenas do fato de que os proletários têm uma relação prática entre si e com o capital: eles trabalham juntos no processo de produção e são parte da divisão social do trabalho. Como produtores, além de se oporem ao capital como “trabalhadores assalariados” formais, em sua prática específica eles produzem o capital. Somente emergindo dessa relação, as lutas operárias podem desenvolver seu poder. O isolamento dos proletários, em empresas, categorias etc., não pode ser superado “artificialmente”, tomando a semelhança na condição de “explorado” como fundamento para uma organização. Essa tentativa geralmente termina em outra organização sindical (dita “de base”): sempre haverá a necessidade de uma instituição exterior se a coerência dos proletários não está baseada em sua real cooperação social, mas somente na “coerência formal” do trabalho assalariado. O leninismo não compreende essa profunda razão das formas sindicais das lutas operárias. Ele encara o problema como uma mera questão de direção: a coerência externa é construída pelos sindicatos ou pelo partido comunista? A crítica ao leninismo geralmente se limita a questionar a forma dessa coerência externa: ela é “anti-democrática”, não é criada pelos próprios operários etc. As críticas esquerdistas muito raramente analisam o processo de produção em termos de fundamento para a coerência da luta operária. Portanto, eles tendem a apenas seguir a espontaneidade das lutas, sem compreender ou contribuir com uma direção estratégica interna. Por que se desenvolvem correntes políticas diferentes, apesar da semelhança de suas noções de classe?”

[CRÍTICA MATERIALISTA AO LENINISMO]

“Os comunistas de conselhos e outros criticam principalmente o caráter autoritário e anti-democrático do Partido leninista. Pensamos que a crítica mais profunda ao leninismo consiste na análise de como a forma bolchevique de partido emergiu das condições materiais específicas na Rússia, no final do séc. XIX e início do séc. XX. Uma sociedade agrária com aldeias dispersas e isoladas, e alta taxa de doenças endêmicas e poucas zonas industrializadas só poderia ser unida politicamente por uma organização de massas externa. Portanto, a crítica mais profunda dos comunistas de conselhos é a de que essa espécie de organização não era útil nem apropriada para sua situação histórica: nas regiões industrializadas do Oeste Europeu durante a década de 1920. Eles perceberam que as fábricas já haviam unido os operários e que a criação dos conselhos operários durante o período revolucionário de 1918-23 foi a resposta política da classe operária. Hoje, poucas críticas ao leninismo refletem esse “núcleo material”. A crítica geralmente permanece num nível político, não tocando nas raízes materiais do leninismo e outras correntes. Hoje, devemos recolocar a crítica em seu devido lugar, analisando as mudanças na organização da exploração e da luta operária. Esta é a pré-condição para o desenvolvimento de novas estratégias políticas. A noção de composição de classe pode nos ajudar nisto.”

[COMPOSIÇÃO TÉCNICA DE CLASSE & COMPOSIÇÃO POLÍTICA DE CLASSE]

“Na análise da coerência entre modo de produção e luta operária, distinguimos duas noções diferentes de composição de classe:

– a “composição técnica de classe” descreve como o capital reúne a força de trabalho; ou seja, as condições no processo imediato de produção (por exemplo, a divisão do trabalho em diferentes departamentos, separação entre “administração” e produção, uso de maquinário especial) e a forma de reprodução (modo de vida, estrutura familiar etc.)

– a “composição política de classe” descreve como os operários voltam a “composição técnica” contra o capital. Eles fazem de sua coesão, como força de trabalho coletiva, o ponto de partida para sua auto-organização e usam os meios de produção como meios de luta. Ainda estamos discutindo qual ponto particular, no processo de luta dos proletários, pode ser descrito em termos de “composição política de classe”. 
[…]

Alguns exemplos de como as específicas condições de produção influenciam o conteúdo político da luta operária – e sua relação com o capital como um modo de produção:

Relação com a forma-salário:

No capitalismo, a relação assalariada, aparecendo como “a troca individual de dinheiro por trabalho”, oculta o fato de que o capital explora a força de trabalho coletiva dos proletários. Um operário que é assalariado com uma centena de outros, que devem fazer o mesmo trabalho, está mais apto para observar que os “contratos individuais” são uma farsa do que, por exemplo, um artesão que “possui” habilidades especiais e portanto “trabalho para vender” especial.

Relação com o trabalho:

O trabalho no capitalismo é abstrato. As tarefas específicas que realizamos não são importantes, mas o fato de que o trabalho acrescenta mais-valia ao produto é. Um trabalhador que deve fazer um trabalho “não qualificado” junto com outros terá uma relação com o trabalho diferente da do trabalhador especializado. O primeiro realmente experimentará o trabalho como abstrato e será menos propenso a glorificá-lo e a se organizar dentro dos limites de sua profissão.

Relação com outros proletários:

Uma noção formal de classe não vai muito longe. Isso se revela quando vemos a composição da força de trabalho no chão da fábrica. Poderíamos afirmar que o capataz, o chefe de equipe e o gerente são também “trabalhadores assalariados” e portanto explorados, mas quase toda luta deve se impor contra esses “patrõezinhos”. A divisão (hierárquica) do trabalho no processo de produção social é o fundamento para as divisões sexistas e racistas dentro da classe operária. Assim, por um lado, o capital divide os proletários, mas por outro, ele une proletários de todas as cores de pele, gênero, nacionalidade etc., no processo de produção. Se as divisões entre os operários são questionadas ou fortalecidas é geralmente decidido na luta. Fábricas, setores específicos etc. com uma composição “colorida” são especialmente decisivos nesse processo.

Relação com os meios de produção:

O capital é o processo e o resultado de um modo de produção no qual o trabalho morto (máquinas, trabalho materializado) domina a força de trabalho viva. Um operário que deve obedecer o rítmo das máquinas e observa que, apesar do progresso tecnológico, sua situação não melhora, está mais propenso a atacar o capital como um modo de produção antagônico. Os que atuam num processo de trabalho artesanal, e que são ainda “senhores” de suas ferramentas, serão mais propensos a ver o “patrão” como o símbolo da exploração.

Relação com o produto

Os proletários nas esferas da produção em massa compreendem que a qualidade dos produtos tem um papel secundário e que o importante é a quantidade. Geralmente, não conhecemos o valor de uso do produto, porque só vemos uma parte do processo de produção e num estágio em que o produto ainda não tem valor de uso. Muitos proletários não trabalham com um produto material, mas sob condições industriais semelhantes para realizar “serviços”. Devemos discutir como essa “imaterialidade” dos produtos repercute na luta dos operários.

Fica em aberto para nós a questão de como as lutas dos “artesãos”, trabalhadores rurais e outros proletários que não trabalham sob condições “industriais” podem desenvolver um caráter anticapitalista. É uma questão decisiva a de como essas lutas podem se unir com as lutas do “proletariado industrial”, apesar das diferentes condições e sem uma mediação externa (como o assim chamado movimento “Anti-Globalização”, “Ação Global dos Povos”, os “Zapatistas” e outras organizações que pretendem ligar diferentes “movimentos sociais”).”

[A QUESTÃO DA DIVISÃO HIERÁRQUICA DOS TRABALHADORES EM CORES DE PELE, GÊNERO, NACIONALIDADE…]

“No processo social de produção, o capitalismo cria e conecta desenvolvimento e subdesenvolvimento como uma reação à contradição de classe, que explica o caráter dinâmico do sistema. Nas fábricas hi-tech existem departamentos de diferentes níveis “tecnológicos”. Essas fábricas são conectadas a fornecedores de diferentes padrões de desenvolvimento, até os de trabalho intensivo (sweat-shops) no “terceiro mundo”. Os diferentes níveis de desenvolvimento são o fundamento material para as divisões e a desigualdade da luta de classes. As lutas operárias que podem se generalizar ao longo das linhas de “desenvolvimento desigual” levam as condições de produção a se tornarem similares. As lutas dos operários nas fábricas de automóveis nos anos 60-80 tiveram como resultado que as condições nas fábricas principais se tornaram similares em todo mundo, incluindo antigas “zonas de subdesenvolvimento” (México, Brasil etc.): no nível de tecnologia e também para os proletários (relação similar entre salário e produto). O capital reage à “composição política de classe” (generalização da luta de classes) com uma “recomposição técnica”, com a reprodução do desenvolvimento desigual em um nível mais alto: as regiões são “desindustrializadas”; em outras, o capital faz um grande avanço tecnológico; velhas fábricas “centrais” são divididas em diferentes unidades de uma cadeia de produção; a produção é “globalizada” etc. O capital cria novos centros de desenvolvimento que podem se tornar novos pontos de generalização dos futuros movimentos da classe operária. Dessa forma, a coerência interna dos movimentos proletários vindouros é antecipada. Sua estratégia não surge separada nas cabeças dos revolucionários, mas reside no processo de desenvolvimento material (de divisão do trabalho, maquinário etc.) enquanto tal.”

[A FUNÇÃO ESPECÍFICA DOS REVOLUCIONÁRIOS]

“A função específica dos revolucionários não pode ser explicada por uma “consciência política” que a luta de classes não alcançaria por si mesma. Ela só pode ser derivada de uma visão e interpretação geral das coisas que acontecem. O poder, as possibilidades de auto-organização, de expansão e generalização são colocados pelas condições de produção. A tarefa dos revolucionários é mostrar a coerência entre as condições materiais e práticas e a perspectiva das lutas. O movimento da classe ocorrerá na rede de desenvolvimento e subdesenvolvimento. Portanto, devemos mostrar a conexão das diferentes partes dessa rede e as razões políticas da desigualdade. A análise do fundamento material das lutas operárias também determina onde devemos intervir.[…] “

Link para o texto completo:  Notas sobre composição de classe – Kolinko

Outro texto sobre composição de classe:

Definição de composição de classe – Zerowork
A rede de lutas na Itália – Romano Alquati
A logística e a fábrica sem muros – Brian Ashton

Teste de realidade: estamos vivendo em um mundo imaterial? – Steve Wrigh

Um texto fundamental sobre Maio de 68, de Roger Gregoire e Fredy Perlman

Foi integralmente traduzido para o português o livro de Roger Gregoire & Fredy Perlman Comitês de ação dos trabalhadores e estudantes. França, maio de 68 que é um dos melhores relatos e análises de maio de 1968. Abaixo, alguns trechos:


“A consciência do poder coletivo é a primeira etapa em direção à apropriação do poder social (mas apenas a primeira etapa, como será mostrado logo a seguir). Conscientes do seu poder coletivo, os ocupantes da universidade, trabalhadores e estudantes, começam a se apropriar do poder de decidir, eles começam a aprender a dirigir suas próprias atividades sociais. O processo de desalienação política começa; a universidade é desinstitucionalizada; o prédio é transformado em um lugar que é dirigido pelos seus próprios ocupantes. Não há “especialistas” nem “responsáveis”. A comunidade é responsável coletivamente pelo que acontece, e pelo que não acontece, dentro do prédio ocupado. Atividades sociais anteriormente especializadas se tornam integradas nas vidas de todos os membros da comunidade. As atividades sociais não são mais executadas pela coerção direta e nem pela coerção indireta do mercado (i.e., a ameaça de pobreza ou fome). Como resultado, algumas atividades sociais, como arrumar o cabelo ou enfeitar as unhas, não são mais executadas. Outras atividades, como cozinhar, varrer os quartos, limpar os banheiros – tarefas executados por pessoas que não tem outra escolha em um sistema coercitivo – são deixadas sem fazer por vários dias. A ocupação mostra sinais de degradação: a comida é ruim, os quartos estão sujos, os banheiros estão inutilizáveis. Essas atividades se tornam a ordem do dia para a assembleia geral: todos estão interessados em sua execução eficiente, e ninguém é coagido institucionalmente para desempenhar essas tarefas. A assembleia geral é responsável pelo seu desempenho, o que significa que todos são responsáveis. Comitês de voluntários são formados. Um Comitê de Cozinha melhora a qualidade das refeições; a comida é de graça: ela é provida por comitês de vizinhança e por camponeses. Um serviço de arrumação se incumbe de manter os banheiros limpos e guarnecidos com papel higiênico. Cada comitê de ação limpa sua própria sala. As tarefas são executadas por professores, estudantes e trabalhadores. Nesse ponto, todos os ocupantes do Censier são trabalhadores. Não há mais  trabalhos de status superior e inferior; não existem mais tarefas intelectuais e manuais, trabalho qualificado e não qualificado; há apenas atividades socialmente necessárias.


Uma atividade que for considerada socialmente necessária por um punhado de ocupantes se torna a base para a formação de um comitê de ação. Cada pessoa é um pensador, um iniciador, um organizador, um trabalhador. Companheiros estão sendo feridos gravemente por policiais nas lutas na rua: um andar do Censier é transformado num hospital; doutores e estudantes de medicina cuidam dos pacientes; outros sem experiência médica ajudam, cooperam e aprendem. Um grande número de companheiros têm bebês e como resultado não podem tomar parte nas atividades que os interessam: os companheiros se juntam para formar uma creche. Os comitês de ação precisam imprimir panfletos, anúncios, relatórios: máquinas de mimeógrafos e papéis são encontrados e um serviço de impressão livre é organizado. Pessoas da cidade – observadores e participantes em potencial – afluem no Censier constantemente e são incapazes de se localizar em meio ao complexo sistema social que começou a se desenvolver no prédio: uma janela de informação é mantida na entrada e escritórios de informação são mantidos em cada andar para orientar os visitantes. Muitos militantes vivem longe do Censier: um dormitório é organizado.


O Censier, anteriormente uma universidade capitalista, é transformado num sistema complexo de atividades e de relações sociais auto-organizadas. Entretanto, o Censier não é uma Comuna autossuficiente removida do restante da sociedade. A polícia está na ordem do dia em cada assembleia geral. Os ocupantes do Censier estão plenamente cientes que suas atividades sociais auto-organizadas estão ameaçadas enquanto o Estado e o aparato repressivo não forem destruídos. E eles sabem que sua força, e mesmo a força de todos os estudantes e de alguns trabalhadores, não é suficiente para destruir o potencial do Estado para a violência.


A única força que pode colocar os ocupantes do Censier de volta no sono é uma força que é fisicamente forte o bastante para quebrar sua vontade: a polícia e o exército nacional ainda representam tal força.


Os meios de violência produzidos por uma indústria altamente desenvolvida são ainda controlados pelo Estado capitalista. E os ocupantes do Censier estão cientes de que o poder do Estado não será quebrado enquanto o controle sobre estas atividades industriais não passar aos produtores: eles “estão convencidos de que a luta não pode ser concluída sem a massiva participação dos trabalhadores”. [14] O poder armado do Estado, o poder que nega e ameaça aniquilar o poder da criação coletiva e de auto-organização manifestadas no Censier, só pode ser destruído pelo poder armado da sociedade. Mas antes que a população possa ser armada, antes que os trabalhadores tomem controle dos meios de produção, eles devem se tornar conscientes de sua capacidade de fazê-lo, eles devem se tornar conscientes do seu poder coletivo. E essa consciência do poder coletivo é precisamente o que estudantes e trabalhadores adquiriram depois que eles ocuparam o Censier e transformaram-no em um lugar de expressão coletiva. Consequentemente, a ocupação do Censier é uma ação exemplar, e o objetivo central dos militantes do Censier torna-se comunicar o exemplo. Todas as atividades auto-organizadas giram em torno dessa tarefa central. Antigas salas de aula se tornam oficinas de comitês de ação recém formados; em cada sala, projetos são sugeridos, discutidos e iniciados; grupos de militantes surgem com um projeto, e outros surgem para iniciar um novo.” (Censier Libertado: Uma Base Revolucionária. O caráter exemplar da ocupação da universidade)


“[…]Na Sorbonne, no Censier, em Nanterre, e em outros lugares, a universidade foi proclamada uma propriedade social; os prédios ocupados tornaram-se ex-universidades. Os prédios foram abertos para toda a sociedade – estudantes, professores, trabalhadores – para qualquer um que desejasse ir lá. Além do mais, as ex-universidades foram geridas pelos seus ocupantes, fossem eles estudantes ou não, trabalhadores, camponeses. No Censier, de fato, a maioria dos ocupantes não era “estudante”. Essa socialização foi acompanhada por uma ruptura da divisão do trabalho, da divisão entre “trabalhadores” e “intelectuais”. Em outras palavras, a ocupação representou a abolição da universidade como uma instituição especializada restrita a um segmento específico da sociedade (estudantes). A ex-universidade se tornou socializada, pública, aberta a todos.


As assembleias gerais nas universidades foram momentos de auto-organização pelas pessoas dentro de um prédio específico, independente de suas  especializações anteriores. Elas não foram momentos de auto-organização a respeito de “seus próprios” assuntos.

Entretanto, isso foi o mais longe que a “escalada” foi. Quando as pessoas que organizavam as atividades dentro da universidade ocupada foram “aos trabalhadores”, fosse nas barricadas ou nas fábricas, e quando eles disseram para os “trabalhadores”: VOCÊS devem tomar SUAS fábricas”, eles mostravam uma completa falta de entendimento sobre o que eles já estavam fazendo nas ex-universidades.

Nas ex-universidades, a divisão entre “estudantes” e “trabalhadores” foi abolida na ação, na prática cotidiana dos ocupantes; não havia mais “tarefas de estudantes” e “tarefas de trabalhadores”. Entretanto, a ação foi mais longe que a consciência. Ao ir aos “trabalhadores” as pessoas viam os trabalhadores como um setor especializado da sociedade, eles aceitaram a divisão de trabalho. 


A escalada foi tão longe a ponto da formação de assembleias gerais de seções da população dentro das universidades ocupadas. Esses ocupantes organizaram suas próprias atividades.

Entretanto, as pessoas que “socializaram” as universidades não viram as fábricas como meios SOCIAIS de produção; elas não perceberam que essas fábricas não foram criadas pelos trabalhadores empregados lá, mas por gerações de trabalhadores.Tudo que eles viram, dado que isso é visível na superfície, é que os capitalistas não fazem a produção mas os trabalhadores fazem. Mas isso é uma ilusão. A Renault, por exemplo, não é em nenhum sentido um “produto” dos trabalhadores empregados na Renault, ele é um produto de gerações de trabalhadores (não apenas na França), incluindo mineiros, produtores de máquinas, produtores de comida, pesquisadores, engenheiros. Pensar que as fábricas automobilísticas da Renault “pertencem” às pessoas que hoje trabalham lá é uma ilusão. Porém, essa ficção foi aceita por pessoas que rejeitaram a especialização e a “propriedade” nas universidades ocupadas.  


Os “revolucionários” que transformaram as universidades em espaços públicos, e consequentemente em propriedade de ninguém, não estavam conscientes do caráter SOCIAL das fábricas. O que eles contestaram foi o “sujeito” que controlava a propriedade, o “proprietário”. A concepção dos “revolucionários” era que “os trabalhadores da Renault devem gerir as fábricas ao invés dos burocratas do estado; os trabalhadores da Citroen devem gerir a Citroen no lugar dos proprietários capitalistas”.  Em outras palavras, as propriedades privada e estatal devem ser transformadas em propriedade do grupo: a Citroen deve se tornar uma propriedade dos trabalhadores empregados na Citroen. E visto que essa “corporação” de trabalhadores não existe no vácuo, ela deve estabelecer maquinarias para se ligar a outras corporações, “externas”, de trabalhadores. Consequentemente, eles devem estabelecer uma administração, uma burocracia, que “representa” os trabalhadores de uma fábrica particular. Um elemento dessa concepção corporativista foi afetado pelo “modelo” das universidades ocupadas.Tão logo o sindicato estudantil foi rejeitado como o “porta-voz” dos estudantes que ocuparam a universidade, o sindicato tradicional (A Confederação Geral do Trabalho) foi rejeitado como o “porta-voz” dos trabalhadores incorporados: ”os trabalhadores devem ser representados não pela CGT; eles devem ser representados por eles mesmos,” quer dizer, por uma nova burocracia eleita democraticamente. 


Assim, mesmo na perspectiva dos ocupantes da universidade, as fábricas não deveriam ser socializadas. Desse modo, as “assembleias Gerais” dentro das fábricas não possuíam o mesmo significado que nas universidades. As fábricas deveriam se tornar uma propriedade de grupo, como as empresas iugoslavas. Tais empresas não são socialmente controladas; elas são geridas por burocracias dentro de cada empresa.
[…]


A ideia de que “os meios de produção pertencem aos trabalhadores” foi traduzida como significando que os trabalhadores são donos da fábrica em particular na qual eles trabalham. Essa é uma vulgarização extrema. Tal interpretação implicaria que a atividade particular à qual a luta pelo salário condenou alguém na sociedade capitalista é a atividade a que esse alguém estaria condenado quando a sociedade é transformada. E se alguém que trabalha nas fábricas de automóveis quisesse pintar, plantar, voar ou fazer pesquisa no lugar de produzir numa linha de montagem de carros? Uma revolução deveria significar que os trabalhadores, a partir desse momento, poderiam ir a toda a sociedade, e é duvidoso que muitos deles retornassem para a fábrica de carro particular que o capitalismo os tinha condenado a trabalhar.”(Parte 2. Avaliação e Crítica. Limites da escalada)


O texto do livro completo está neste link: Comitês de ação dos trabalhadores e estudantes. França, maio de 68

A questão da "corrupção" e a vergonha do proletariado de seus próprios interesses humanos

Estamos vivendo uma época de profunda derrota do proletariado. Hoje, os explorados sentem vergonha de seus próprios interesses materiais e, para disfarçá-los, tentam afirmá-los defendendo o interesse do empresariado, do “empreendedorismo”, da “competitividade”,  que é apresentado a eles como o único “honesto” e “universal”, como uma espécie de “imperativo categórico kantiano”. Os interesses deles como simples seres humanos de carne e osso lhes causam vergonha porque são considerados por eles próprios como “corrupção”, enquanto os interesses mercantis, empresariais, financeiros parecem encarnar liberdade, igualdade, justiça, etc. Por exemplo, vergonha de afirmar claramente que querem uma vida fácil e com tudo de bom sem ter que se submeter aos  “vencedores do mercado”, vergonha do interesse de não trabalhar a vida toda e cada vez mais intensamente etc etc. Todos esse desejos, diz-se quase unanimemente, são “corrupção”, “jeitinho brasileiro”. Para eles, os interesses são sempre corruptos, e os únicos não-corruptos, os “desinteressados”, porque respeitam as “regras do jogo”, são os “vencedores no mercado”, os “empreendedores” etc.

O que é interessante é que a maior parte do tempo, essa competição declarada pela obediência é “da boca para fora”. A maioria está sempre lutando tacitamente para trabalhar o mínimo possível e por fazer ao máximo o que gostam de fazer, contra o mando dos chefes e proprietários. Mas como a confiança uns nos outros é esmagadoramente superada pela confiança em quem paga ou pode pagar os seus salários  (Estado ou empresa), eles evitam falar abertamente de seus interesses uns com os outros (que veem como competidores que ameaçam sua sobrevivência, seu emprego). Desse modo, não conseguem criar uma linguagem que expresse seus interesses humanos, porque tem medo de expressar-los uns aos outros. Eles tem vergonha de seus interesses, que é, como vimos, confundidos com “corrupção”. Por exemplo, a maioria se revolta com essas PECs (como a do aumento do tempo da aposentadoria, terceirização etc), porém, como não desenvolvem uma linguagem própria, assumem a linguagem da classe dominante para expressar essa revolta, que então se converte em “revolta na ordem” (aliás, clássica definição de fascismo pelo João Bernardo), uma revolta expressa na linguagem e na forma da classe dominante, a linguagem daqueles que não seriam “corruptos”, dos que tem a propriedade privada dos meios de vida e produção, e a quem, na prática cotidiana de guerra de todos contra todos pela sobrevivência, confiam materialmente que, se obedecerem, garantirá sua sobrevivência contra os concorrentes, ao contrário de seus iguais que querem “tomar seu trabalho”. Daí a revolta deles se expressa como apelo a uma “força maior” (por exemplo, Trump, Bolsonaro, ou pedidos para que haja chefes que punam e recompensem com mais força e rigor) que resolva todos os problemas através da repressão e matança, para defendê-os contra seus iguais, que são vistos como “inimigos” (tanto os ainda mais pobres quanto estrangeiros, migrantes etc).

Para que os proletários criem uma linguagem autônoma, pode ser útil retomar e aperfeiçoar a ética de Hipócrates, que apresenta uma interessante contraposição ao conceito de “corrupção” incessantemente usado pela classe dominante. Afinal, em seu sentido essencial, corrupção é fazer algo em troca de outro algo (em busca de recompensas e por medo de punições), ao invés de fazê-lo como algo que vale por si só, algo de cuja necessidade, humanidade e ética a atividade de produzi-lo se justifica por si só…

Assim, compartilhamos esse resumo da ética de Hipócrates que encontramos neste blog:

“Salvar vidas, a arte da medicina, está acima do poder, do dinheiro e das leis dos reinos em que se passa exercendo a medicina. O verdadeiro significado de corrupção não é quebrar as regras, mas exercer a arte como se não fosse válida por si só, exercendo-a, pelo contrário, por outra coisa alheia, como o dinheiro e as promessas e ameaças de quem tem poder e faz as leis. Se o médico não ama o que faz, ele vai se vender e causará dano, porque seu interesse será ganhar mais, buscando enganar e agradar quem lhe paga; em troca, torna-se escravo de quem tem dinheiro. O médico deve ser livre, autônomo, formando com outros uma comunidade que compartilha livremente as descobertas da medicina, sem se submeter a reinos, cidades ou povos, para servir a humanidade.” (Resumo da ética hipocrática baseado nos textos “Acerca da arte”, “Epístolas”, “Preceitos” e outros. Resumo feito a partir de várias fontes, principalmente as contidas no livro “Textos Hipocráticos: o doente, o médico e a doença”. Henrique F. Cairus, Wilson A. Ribeiro Jr.)
humanaesfera, janeiro de 2017

Veja também outros textos sobre ética:

 
 
 

Contra a estratégia

[english version]

Não existe nada mais inútil e equivocado do que o ativismo, a militância, a ânsia de “prática”. Existir é agir. Os proletários não são bestas que fazem coisas cegamente ou por instinto. Não há ações sem objetivos, finalidades, desejos… isto é, existir (ou seja, agir) pressupõe e implica teorias, que os proletários criam e aprimoram (ou degradam e dogmatizam) conforme sua capacidade de agir é objetivamente aumentada (ou diminuída). Expliquemos:

WAR-chess.jpgA capacidade de agir dos proletários é aumentada quando confiam em si mesmos (internacionalisticamente), não acreditam em “bodes expiatórios”, e impõem a satisfação de suas necessidades (que são comunistas: não trabalhar e que tudo seja livre, “free”), opondo-se radicalmente, por este simples ato, à classe dominante (para a qual, obviamente, isto é “opressivo”); quando ataca, portanto, o poder pela dissolução do que o sustenta (a oposição mútua entre proletários em empresas, pátrias, raça, gênero etc, se engalfinhando por seus próprios senhores) mediante um universalismo material (comunismo) que garante o livre acesso a qualquer um aos meios de produção e de vida, a expressão livre e autônoma das capacidades e necessidades humanas, a livre individualidade que se liberta enfim da comparação massificadora, reificante, identitária, da concorrência, propriedade privada, hierarquia, mercado e Estado.

Por outro lado, a capacidade de agir é diminuída quando os proletários desconfiam de si mesmos (a ponto de massacrarem a si próprios a um simples pedido dos chefes e poderosos), clamam ao poder contra “bodes expiatórios” (estrangeiros, “judeus”, imigrantes, “vagabundos”, “favelados”, “políticos maus”, “empresários maus”), e reprimem seus desejos em nome da ficção de um “bem maior” (pátria, empresa, etnia, ideologia, religião…), isto é, quando se unem às “suas” classes dominantes (burocrática ou particular, de esquerda ou de direita) contra si mesmos. Quanto menos capazes de ação, mais se entregam à reação.

No primeiro caso (aumento da capacidade de agir), a teoria necessariamente se desenvolve e se aprimora, enquanto que no segundo caso (redução da capacidade de agir), a teoria só pode se degradar e se dogmatizar.

Critério do conhecimento e práxis

Os critérios para distinguir mentiras ou boatos de verdades, o especulativo do provável, o que é verdadeiro em certos contextos e falso em outros, o que é baseado em mera fé do que é baseado em evidências etc., esses critérios são expressões intrínsecas do grau de autonomia ou heteronomia do proletariado, de sua autodeterminação ou sua sujeição às classes dominantes. Quanto a isso, há três tipos de crítica da sociedade capitalista:

A) Existe uma crítica da sociedade capitalista cuja verdade pode ser verificada materialmente por qualquer um em seu cotidiano, no mundo inteiro, por qualquer proletário: a crítica do capital enquanto coerção que nos força a nos vender como objetos úteis no mercado de trabalho, que nos coage, se quisermos sobreviver, a alienar nossas capacidades em troca do dinheiro, a exercer nossas potencialidades contra nós mesmos , transformando o mundo em uma força hostil  que se acumula nos privando (propriedade privada) das próprias condições materiais de existir, um poder hostil que nos domina, usa e descarta: o capital e o aparato repressivo que os garante (Estado). Essa é uma crítica da essência do capital, ela é radical, e dela decorre invariavelmente a necessidade irrevogável de abolir o trabalho, a propriedade privada, a empresa, as fronteirase o Estado, ou seja, realizar o comunismo [1]. Detalhe: não requer nenhuma fé em “fontes especiais de informação”.

B) Existem outras críticas que requerem alguma “fé”, como são as críticas parciais do capitalismo (que são basicamente críticas socialdemocratas do capitalismo: distribuição de renda desigual, obsolescência programada, piora das condições de vida, do meio ambiente, capitalistas e burocratas burlando as leis, governos tramando a derrubada de outros…) que nada mais são do que críticas de acidentes do capital, e não de sua essência. Enquanto no caso A, os proletários são plenamente autônomos quanto ao poder de verificar a verdade do seu conhecimento (que exprime a matéria de sua própria vida cotidiana) e de agir conforme o que sabem, no caso B, é preciso confiar em especialistas. Ainda assim, a verossimilhança dessa crítica pode ser pesada na vida cotidiana (por exemplo, verificando pioras de fato nas condições de vida, ou não verificando a obsolescência programada). Mas quanto menos radical e mais parcial a crítica, por ser mais “inacessível”, mais requer que a prática dos proletários se submeta a “esferas superiores”, e menos exprime uma prática autônoma capaz de se opor ao capital para impor a satisfação das necessidades humanas.

C) E existem críticas do capitalismo que só requerem fé, uma fé baseada totalmente em “fontes especiais de informação”, fé aceita com base numa vaga “intuição psicológica” ou no apelo aos sentimentos. Por exemplo, críticas especulativas (as que, por exemplo, profetizam o “colapso inevitável do capitalismo”, como a nova “crítica crítica”– Kurz, Postone, Jappe… -, as especulações do aceleracionismo, transhumanismo,etc), o conspiracionismo (“forças ocultas” que estariam tramando o sofrimento e aniquilação dos pobres, do povo ou da natureza) e as críticas identitaristas (as que afirmam uma identidade – de gênero, de raça, de etnia, de nacionalidade, de cultura – contra outras que “representariam o capitalismo”). Em termos práticos, essas críticas requerem a completa submissão, a completa aniquilação da capacidade de pensar e de agir do proletariado, e a assunção como verdade de qualquer boato, qualquer mentira que confirme os preconceitos “intuitivos” (por exemplo, as mentiras paranoicas sobre transgênicos, produtos químicos, vacinas, medicina, ciência, produtos naturais, tecnologia que muitos ecologistas propagam). O exemplo máximo é a própria religião, em que a fé na revelação de uma verdade absoluta oculta requer a total obediência àqueles que dizem ter acesso especial a ela (daí vem a própria palavra “hierarquia”, de hieros, sagrado ou segredo, e arché, fonte, princípio ou ordem).

Composição de classe VERSUS estratégia

Há quem argumente que o caso A, de plena autonomia, é insuficiente, porque é abstrato e filosófico, e que precisamos do caso B, porque é necessário que haja estratégia (por exemplo, “transição”), que seria algo até muito mais fundamental.

Mas falar em estratégia só faz sentido contra uma estratégia do lado oposto, isto é, quando há uma contra-estratégia pressuposta. Não se trata, então, de luta de classes, mas de uma guerra de frentes, que pressupõe um mesmo tabuleiro, uma mesma linguagem, uma mesma lógica compartilhada, na qual se apoiam os dois lados para que seja possível se enfrentarem. Para guerrearem entre si, precisam estar num mesmo plano, apoiar-se numa mesma estrutura, estarem numa mesma altura, falarem de igual para igual. Daí todas as contrarrevoluções em todas as revoluções “vitoriosas” que já existiram, em que as mesmas estruturas (dominação, sociedade de classes, Estado etc) do inimigo são reproduzidas em nome de atacá-lo.

A grande virtude dos proletários é que eles, enquanto classe autônoma, não podem atacar a estrutura no plano da própria estrutura, mas como produto, como produção molecular resultante de sua própria atividade cotidiana simultânea no mundo inteiro. Caso ataquem a estrutura no mesmo plano da estrutura, aceitando se submeter a uma estratégia, eles são condenados a reproduzir sua própria sujeição sob a mesma ou alguma nova classe dominante, pois seu campo de atuação, a atividade cotidiana simultânea universal, é condenado a permanecer inalterado (trabalho, auto-sacrifício, sujeição…) para efetivar a própria estratégia, reproduzindo automaticamente, apenas com novos nomes, as mesmas estruturas que resultam necessariamente da atividade cotidiana alienada.

Em contraste com a ideologia da estratégia, os proletários não podem contar senão com a sua própria capacidade autônoma de agir e pensar, impulsionada pela rápida difusão de sua luta em escala mundial. Nesse mesmo ato, eles comunicam mundialmente uns com os outros o conhecimento do modo como suas atividades cotidianas simultâneas se interligam (por exemplo, conforme o local em que estão, as supply chains, as relações entre indústria, agricultura e as vias materiais de livre expressão das necessidades, desejos, pensamentos e capacidades dos habitantes e viajantes do mundo,  etc ) [2], conhecimento que é simultâneo à supressão em ato das condições de existência materiais (moleculares) da propriedade privada, do capital e do Estado e à criação de uma nova sociedade  em que os meios de vida e de produção, indissoluvelmente interconectados em escala mundial em uma rede de fluxos imanentes, se tornam livremente (gratuitamente) acessíveis à qualquer um que queira satisfazer suas necessidades, desejos, pensamentos, projetos, paixões, e desenvolver livremente suas habilidades, capacidades e potencialidades.

Um evento assim, que desabilita pela base o poder da classe dominante (empresários,  burocratas e o Estados), tem desde o princípio uma linguagem incompreensível e “inconversável” com a classe dominante e o Estado, sendo de fato uma ditadura contra eles – a verdadeira ditadura do proletariado. A classe dominante sequer tem tempo para começar a entender o que está sofrendo para elaborar uma estratégia antes de o proletariado ter se auto-abolido e, portanto, abolido a classe dominante, a sociedade de classes. Muito diferente disso, o ativismo ou militância se caracteriza por se exibir espetacularmente à classe dominante como “oposição”. Obviamente, as armas da classe dominante, o Estado, os grupos de extermínio etc são infinitamente mais poderosos e aprimorados do que qualquer “movimento estratégico de oposição” [3], que, consequentemente, não passa de espetáculo, só útil para a classe dominante ensaiar seus cães de guarda e métodos de controle, que, encenando, legitima o próprio status quo como “democrático”. E quando não é encenação, um “movimento estratégico de oposição” é apenas a reprodução da estrutura à qual procura se opor, como vimos nos parágrafos anteriores.

É óbvio que, quanto mais reduzida a capacidade de agir do proletariado, menos ele consegue se dar ao luxo de pensar por si mesmo, e mais só lhe resta ser objeto de estratégias, de burocratas, empresários e políticos que dizem pensar e agir pelo seu “bem”, prometendo, por exemplo, reformas, melhorias etc. Assim, dizem que devemos ser realistas, que o proletariado deve fazer o possível, votando, participando em campanhas, militando, “se esforçando mais”, “se sacrificando com mais empenho” etc, em suma, participando de estratégias. Isso é um equívoco. Porque, se não há luta autônoma, é pura sorte, além de extremamente improvável, que ocorra qualquer das melhoras prometidas; e se há luta autônoma, não faz sentido deixar-se reduzir a objeto de estratégias. O efeito colateral imediato da luta autônoma é que todos os burocratas, empresários e políticos, para conter a emergência do proletariado enquanto classe, passam enfim a servir as tais “melhorias”, mas, é claro, no mesmo prato da repressão. A questão é a autonomia do proletariado se difundir tão rapidamente em escala mundial que torne impossível que caia mais uma vez nessa armadilha.

Adendo: O fetichismo dos “exemplos práticos”

As revoluções e contrarrevoluções que experimentamos nos últimos 300 anos mostraram que a ideologia mais destrutiva para a luta autônoma mundial é a dos “exemplos práticos”. Tão logo se ouve falar sobre uma “revolução” qualquer em algum lugar do mundo, é abandonada toda capacidade crítica e consideração pela verdade, que passam a ser consideradas irrelevantes frente ao “exemplo prático real de como transformar o mundo na realidade”. A realidade do exemplo é considerada tão complexa que toda crítica e busca da verdade é descartada como masturbação mental reducionista e utopismo. Abandonada a capacidade de pensar, é aberta a via para o tarefismo supersticioso, destruindo a luta autônoma, seja pela luta imaginária que imita a aparência espetacular do exemplo, seja pela aceitação de se subordinar aos burocratas considerados representantes do exemplo (como quando o leninismo se espalhou no mundo e destruiu a luta autônoma por toda parte graças à “realidade inquestionável  de seu exemplo”, 1917 na Rússia).

Como antídoto, há um critério mínimo certeiro para avaliar todo e qualquer suposto exemplo (como o Curdistão, zapatistas, revolução russa, espanhola etc): se uma suposta revolução não se espalha rapidamente além das fronteiras para o mundo inteiro (com os proletários se opondo a seus opressores em cada vez mais lugares do mundo e se constituindo como classe autônoma sem fronteiras, se recusando a matar nas guerras, voltando as armas contra os generais em todos os lados, comunizando etc),  se a suposta revolução se perpetua apenas num lugar, isso já é suficiente para saber que ali está um Estado e o capital (independente do nome que se use, “autogestão”, “socialismo”, “comunismo”, “anarquismo”…), ou seja, uma sociedade de classes. Pelo simples fato de que, isolados, eles são condenados a se adequar à troca no mercado mundial, acumulando capital e explorando o proletariado para não falir na concorrência internacional, e também porque são condenados a se constituir como Estado para se aliar, se defender ou atacar outros Estados.

humanaesfera, julho de 2016

Notas:

[1] “Não se trata do que este ou aquele proletário, ou até mesmo do que o proletariado inteiro pode imaginar de quando em vez como sua meta. Trata-se do que o proletariado é e do que ele será obrigado a fazer historicamente de acordo com o seu ser. Sua meta e sua ação histórica se acham clara e irrevogavelmente predeterminadas por sua própria situação de vida e por toda a organização da sociedade burguesa.” (Marx e Engels, A Sagrada Família – Crítica da Crítica Crítica).

[2] Trata-se da composição de classe. Para mais detalhes, veja: Textos sobre composição de classe.

[3] Em contraste com encenação da “oposição estratégica”, o único modo de suprimir a força repressiva do status quo é por uma emergência tão rápida e generalizada do proletariado autônomo (portanto, do comunismo) que os poderosos não encontrarão sequer por onde começar a reprimir, de modo que os seus cães de guarda repressores deixarão de ver qualquer sentido em continuar obedecendo, deixando de ser cães de guarda, voltando as armas contra os generais e distribuindo as armas para a população, pela simples razão de passarem a ser irrefreável e irreprimivelmente atraídos, como o restante dos explorados, pela emergência apaixonante do comunismo luxuriante generalizado, a comunidade humana mundial.

Bibliografia:

Outros textos sobre o mesmo tema:

Escolas ocupadas: difusão das lutas ou propriedade privada?

Enquanto não se expande além dos limites pré-estabelecidos (escolas, empresas, países, bairros, família etc), enquanto não dissolve esses limites, se a autogestão “tiver sucesso”, ela apenas implica  o aumento do “trabalho não pago”, gerando ainda mais mais-valia para o capital. Por exemplo, se a autogestão das escolas for estabelecida, formando autogestionariamente a mercadoria força de trabalho com um imenso trabalho voluntário “autônomo”, isso seria o sonho dos governos e dos capitalistas, pois com isso eles não mais precisam  pagar esses “custos”, ao mesmo tempo em que essa “experiência autônoma” força todos os demais proletários do resto do sistema educacional a trabalhar ainda mais “voluntariamente”, de graça, para os empresários estatais e particulares, para não serem demitidos frente a essa nova intensificação da competição.

Um movimento realmente autônomo só pode vencer se se expande rapidamente de modo universal, mundial. Caso contrário, é forçado a trocar com o resto da sociedade que ainda se mantém como propriedade privada (empresas, países, bairros, famílias etc), e, para trocar, é forçado a trabalhar para a propriedade privada, gerando mais-valia e reproduzindo o capital numa escala ainda maior.

A medida que  a luta autônoma nas escolas não se generaliza para fora delas, ou seja, enquanto não consegue impulsionar uma transformação que se espalha rapidamente, transformação em que, por exemplo, os trabalhadores suspendem a produção para a empresa, abolindo o emprego e tornando a produção livre por quem quiser e para quem quiser satisfazer suas necessidades, paixões, desejos etc, em que os papeis de “trabalhador” e “estudante” são abolidos por uma livre associação de indivíduos que se afirmam como classe autônoma sem fronteiras contra a classe dominante por toda parte,  enquanto isso não ocorre, a luta  dos estudantes é condenada ao fracasso, condenada materialmente a se relacionar com o resto da sociedade que não se transformou, e daí a reproduzir a mesma dominação de todo o resto da sociedade.

humanaesfera, maio de 2016

Contra a metafísica da escassez, copiosidade prática

(English version)cornucopia

O texto Propriedade privada, escassez e democracia suscitou por toda parte a seguinte objeção:

A abundância (superação da escassez) é impossível, uma vez que vivemos em um universo com recursos limitados, não só econômica mas fisicamente;  portanto superar a escassez é uma exigência metafísica, absurda, que necessitaria uma automatização total do universo infinito para entregar à cada indivíduo, elevado ao status de um deus, a realização de seus menores caprichos e arbitrariedades.

Essa objeção interpreta “abundância” como uma categoria metafísica, solipsista, teogônica e psicototalitária. É como falar em “liberdade” abstraindo das relações materiais, sociais e históricas específicas, tomando “liberdade” como uma entidade que existisse em um mundo transcendente e identificando-a no nosso mundo com nonsenses, impossibilidades e aporias, como se na prática ela fosse sempre um nome para disfarçar a escravidão (a conclusão logicamente é o realismo: os escravos devem buscar a liberdade continuando a obedecer ao senhor, porque liberdade só não é um nonsense em um universo metafísico que não tem nada a ver com o da escravidão).

Mas assim como liberdade, escassez e abundância – fora dos devaneios metafísicos – são coisas radicalmente concretas.

Pois vejamos: se tu e mais alguém necessitam de algo específico, e há o suficiente para vós todos, então há abundância. Se não há o suficiente, há escassez. Abundância e escassez são sempre de algo específico, material, e não universais metafísicos.

Mas o que importa não são coisas encontradas já prontas, pois não se trata de automatizar por automatizar a produção (afinal, produção nada mais é do que criatividade, expressão humana multilateral no mundo – poética, racional, lúdica, culinária, apaixonada, matemática, artística, paisagística etc etc), mas sim de abolir o trabalho, ou seja, acabar com toda e qualquer atividade que é tão repulsiva, irritante e maçante que ninguém cogita em executá-la exceto em troca de recompensas (salário, cargo, “mérito”…) e sob ameaça de punições (demissão, prisão…), isto é, sob o poder de uma classe dominante (seja ela burguesa, como o empresariado particular nos EUA e Brasil, ou burocrática, como o empresariado estatizado em Cuba e URSS).


Assim, por exemplo, em um mundo libertário (em que as forças produtivas mundiais deixaram de ser propriedade privada, sendo gratuitamente acessíveis a qualquer um no mundo que deseje se associar autonomamente com quem quiser para buscar satisfazer seus desejos, necessidades, paixões, projetos etc), há gente que deseja algo específico, algo que talvez nem mesmo existe ainda. Eles fazem uma proposta para o mundo (coisa hoje mais do que nunca factível com  telecomunicaçõestecnologia da informaçãointernet…). No mundo, a proposta pode (ou não) despertar em outros o desejo de contribuir para realizá-la, dispondo-se para isso conforme as atividades produtivas às quais são apaixonados (e não por medo nem chantagem, como na sociedade de classes e, em especial, na tirania chamada empresa, seja estatal ou particular). Eles se comunicam e coordenam suas atividades para transportar de várias partes do mundo os materiais necessários, produzir e distribuir essa produção aos que necessitam (tudo isso é hoje muito simples: supply chains).

A produção resultante pode ou não ser suficiente para todos os que a necessitam. Se é suficiente, não há o que discutir: ela é desfrutada livremente, gratuitamente, sem complicações. Mas se não é suficiente, surge a complicada questão da “justiça”: quem tem prioridade?

[Nota: na sociedade capitalista isso não é uma questão: nela, tem prioridade quem tiver mais dinheiro para pagar. Ou seja, quem mais tiver comando sobre as capacidades criativas alienadas (vendidas) da população, que o endinheirado (capitalista) tiraniza para que trabalhe o mais gratuitamente possível (sobretrabalho: máximo de tempo, na máxima intensidade e pelo mínimo salário possível) para gerar o máximo de lucros para ele (mais-valia). Essa população é o proletariado, a classe daqueles que, privados de toda propriedade das condições de existir por si mesmo (graças à propriedade privada, mantida pelo Estado, concentração da violência armada da classe proprietária), se veem forçados, pela simples necessidade de sobreviver, a vender a única coisa que ainda possuem – a sua vida, oferecendo no mercado de trabalho como objeto de consumo as suas próprias capacidades humanas (força de trabalho) para fazer tudo o que o comprador (a classe proprietária) mandar. Trabalho: a troca da vida pela sobrevivência. Mas deixemos um pouco de falar da tirania atual para voltar a falar de um mundo verdadeiramente libertário, isto é, comunista.]

Como a justiça também não é uma forma platônica eterna sobrenatural que bastaria trazer pronta de um reino metafísico para aplicá-la aqui, não há nenhuma maneira de resolver a questão senão com uma democracia material em que os envolvidos decidam por si mesmos um critério do que é justo e também para evitar que alguns monopolizem o que for escasso para forçar outros, mediante ameaças e promessas baseadas na privação dos outros desse escasso (fazendo reaparecer a propriedade privada), a trabalhar para eles (ou seja, comprar deles) e restabelecer a sociedade de classes.

Então é necessário aos envolvidos votar para decidir algum critério considerado mais justo sobre o que fazer com algo escasso: sorteio, repartição igualitária, distribuição conforme os mais necessitados, ou conforme a participação em alguma atividade específica vista como necessária por todos, ou mesmo armazenar para suportar algum período de dificuldade… (nota: a tecnologia da informação já existente, torna facílimo disponibilizar mundialmente aos envolvidos meios de votar e debater)

O ideal, claro, é que a escassez de cada produção seja superada, isto é, que haja o suficiente para todos que necessitam dela e que não seja necessária essa complicação democrática entre produção e desfrute. Provavelmente, como ninguém quer passar necessidade (e como as complicações que o escasso envolve são chatíssimas), haverá sempre propostas para que a escassez de cada produção seja superada, e aqueles em todo o mundo que são apaixonados por meios de produção, ciência, máquinas, informática, robótica, meios de comunicação etc podem ser atraídos pela proposta, ajudando a criar e desenvolver materialmente as condições para isso. 

A questão de não destruir o ambiente natural em que vivemos só pode ser levantada e assumida pelos próprios envolvidos, a partir do que considerarem (mediante conhecimento, ciência, ética, técnica etc) necessário fazer e capacitados para fazer. Porque não existe nenhum ponto referencial “superior” (como a fantasia mitológica/teológica de uma providência chamada “natureza”, “gaia”) fora das necessidades e capacidades dos próprios seres humanos para eles mesmos decidirem suas vidas e suas ações.

Apesar do que parece, este assunto não é especulação futurista, mas uma necessidade do proletariado de hoje em todo o mundo. Porque seus velhos métodos de luta (greves, manifestações, ocupações etc) estão mais do que domesticados pelos empresários e burocratas. Estes perdem cada vez mais o medo da revolução social e portanto já estão há 30 anos retirando todos os “direitos democráticos” que Estados e empresas foram forçados a adotar para evitar o comunismo e a anarquia durante os 50 anos anteriores (dos anos 1920 aos 1970).  

Por isso, essa perspectiva é uma necessidade prática aqui e agora: “a superação da greve por uma tática de continuar a produção, mas como produção livre (gratuita) para e pela população, suprimindo a divisão emprego/desemprego nesse momento (abolição da empresa). Começando primeiro numa cidade, a difusão dessa experiência será tão apaixonante (incontível), que rapidamente, em um ou dois dias, se difundirá pelas principais metrópoles do mundo. O mapeamento da interconexão dos fluxos e estoques da produção mundial, cada vez mais completo, vai permitindo à população descobrir quais produções não servem para ela, desativando-as, e modificando outras. Os governos e as forças repressivas não tiveram tempo para estudar e coordenar um ataque e nem há mais condições para isso, pois a produção que sustenta essa condições está nas mãos da população. Os soldados, fraternizando, dão as armas para a população e se juntam a ela. Os que resistem tem suas condições de existências cortadas até que se rendam. Em menos de uma semana, o mundo inteiro estará sob o modo de produção associado, o comunismo. Senão, quanto mais a difusão global se retarda, chegando a apenas uma parte do mundo, a medida que os estoques vão acabando, mais insustentável (materialmente falando e em termos de repressão) se torna o modo de produção comunista. Pois mais se é privado dos materiais que a outra parte do mundo ainda não transformado possui como propriedade privada (estatal ou particular), forçado-a a trocar (comprar/vender) com ela para repor os estoques. Ou seja, é forçada, para comprar dela, a trabalhar para ela – e a reproduzir internamente o mesmo modo de produção capitalista, havendo o risco de o comunismo se tornar mera cobertura ideológica de uma nova variedade de exploração capitalista.” (Breve crítica à ideia de economia paralela anticapitalista)

humanaesfera, janeiro de 2016

[Para um resposta final aos que insistem teimosamente na existência metafísica da escassez “em última instância” na natureza, no universo e na sociedade:  Dissecando a metafísica da escassez]

Luxuriaesuntcommunia-imagemBibliografia (com links):

-A reprodução da vida quotidiana, por Fredy Perlman
Eclipse e Reemergência do Movimento Comunista (1972), por Jean Barrot e François Martin
Contra o trabalho – Teses (1979), por GCI
Atividade Humana contra o Trabalho (1982), por GCI
Agora e Depois: O ABC do comunismo libertário (1929), por Alexander Berkman
Le Humanisphère (1857), por Joseph Déjacque
Nova Babilônia (1959-74), por Constant Nieuwenhuys (publicado no Dossiê “Constant”, revista Sinal de Menos nº 5)
Um Mundo sem Dinheiro: o Comunismo (1975-76), por Os Amigos dos 4 Milhões de Jovens Trabalhadores
Questionário (1964), por Internacional Situacionista (dossiê Internacional Situacionista)
Crise e Autogestão (1973), por Négation
A rede de lutas na Itália (anos 1970), por Romano Alquati
Anarquia e Comunismo (1880), por Carlo Cafiero
-Kropotkin: Textos Escolhidos – org.: Mauricio Tragtenberg
-Grundrisse, A Ideologia Alemã (capítulo: Feuerbach) e Comentários sobre James Mill, por Karl Marx
Marx comunista individualista! (trechos sobre o indivíduo em Marx)
-O Anti-Édipo, por Deleuze e Guattari

Continuação das reflexões deste texto: 
 Fundamentação teórica: 
 Perspectiva prática: 
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