Dissecando a metafísica da escassez

Anteriormente, criticamos a ideologia da escassez do ponto de vista da transformação da vida cotidiana [1], ou seja, na perspectiva concreta da práxis social-histórica; no entanto, alguns acreditam que, independentemente disso, a escassez continuaria válida como característica inerente ao tempo e ao espaço, como fundamento metafísico (geralmente usam o conceito termodinâmico de “entropia” para fundamentar essa ideia). Com isso, alguns supõem que, nesse universo entrópico, cada ser específico se pauta pela competição recíproca pela escasso, e, consequentemente, também os seres humanos e as sociedades, o que faria a forma social que a escassez toma, a propriedade privada (e, portanto, a sociedade de classes, o trabalho, o Estado e o capital), ter um fundamento eterno, cósmico e imutável. Neste texto, procuraremos criticar essa metafísica de um ponto de vista especificamente filosófico, físico e antropológico.

ANAXIMANDRO E DEMÓCRITO

A primeira expressão filosófica da metafísica da escassez que conhecemos foi exposta por Anaximandro, que dizia que o nascimento dos seres é dívida, e que portanto a vida é paga com a morte:

Todas as coisas se dissipam onde tiveram a sua gênese, conforme a necessidade; pois pagam umas as outras o castigo e a expiação pela injustiça, conforme a determinação do tempo.” (fragmento 1 de Anaximandro).

[Obs.: É evidente que essa visão moralista da natureza é uma continuidade dos mitos gregos de Diké e Nêmesis, deusas que personificam a “justiça”, a retribuição inelutável, a dívida inescapável, e que inexoravelmente “dá a cada um o que lhe é devido”. Como veremos, a metafísica da escassez continua até os tempos atuais fundamentalmente religiosa, mítica ou mesmo animista.]

De Anaximandro até nós, a maioria das filosofias se baseou em alguma metafísica da dívida, da troca de equivalentes, das recompensas e punições. Nos tempos modernos, o representante talvez mais respeitado (por causa de suas pretensões científicas) dessa metafísica é o entropismo, ideologia que afirma que, sendo o aumento da entropia (portanto, a morte) a regra geral do universo, cada ser é explicado por estar energeticamente submetido a uma relação de austeridade e dívida energética a ser estritamente equilibrada, compensada, paga no futuro.

Porém, uma outra corrente, subterrânea na história da filosofia, também se expressou ao menos desde a Grécia antiga: Demócrito e os demais materialistas afirmavam, de modo geral, que, se existimos, é porque somos gratuitos, supérfluos, já que não haveria nenhum sentido anterior à própria existência: seríamos fruto do acaso (Diné de Demócrito, Clinamen de Lucrécio) – e a necessidade (e portanto, o tempo) é a consistência de cada existente pela qual ele dura, expressa e desdobra essa gratuidade de, em e além de cada ser singular, ou seja, é sua liberdade. [2]

Desse modo, reconhecendo que a “regra geral da natureza” é a decomposição, destruição, aumento da entropia (p. ex., o tempo –  verificado pela morte, a que tudo está mais cedo ou mais tarde submetido – e o espaço – os corpos não ocupam o mesmo lugar etc – esse primeiro esboço do conceito de entropia já era conhecido pelos materialistas antigos), os materialistas concluem, ao contrário do que pensava Anaximandro,  que isso significa que cada ser específico que surge e perdura nesse universo se fundamenta na gratuidade, desperdício, superfluidade, dissipação.

Essa afirmação fica clara levando-se em conta o modo como os materialistas explicam o mundo: o tempo todo, no universo, incontáveis eventos ou composições (no caso, os atomistas pensavam nas combinações entre os átomos) acontecem simultaneamente, mas como a esmagadora maioria dessas composições não encontra consistência, elas não perduram, se decompõem e se dissipam rapidamente. Por esta razão, é improvável, raro, que algo singular exista além da decomposição praticamente instantânea. A improbabilidade de surgirem e existirem as exatas coisas singulares que percebemos perdurarem e se desenvolverem a nossa volta, assim como nós mesmos, é ainda maior, é praticamente infinita. É por isso que cada ser singular que surge e perdura no universo é gratuito, sem dívida, sem culpa, porque não possui nenhum sentido singular pré-escrito na “lei geral da natureza”, que é destruição dissipativa. Ou seja, é pela gratuidade, é pela superfluidade que existimos, agimos e criamos. Não devendo nada a alguma lei transcendental de escassez geral, até porque, na verdade, o que é geral não é escassez, mas abundância destrutiva, superfluidade dissipativa, “lei geral” que é responsável pela destruição, ao fim inevitável, mas não pela geração nem pela duração e tampouco pelo desenvolvimento dos seres (como diziam Lucrécio e Epicuro, na prática, “a morte não é nada para nós”). [3]

[Obs.: Não é difícil perceber que a ciência moderna, quando despida das intepretações que dão um viés escassista a ela, mostra que não é a austeridade contábil da troca de equivalentes, mas o desperdício e a dissipação é que é o fundamento de cada ser específico que surge e persiste.
Um exemplo básico é o do fluxo termodinâmico sol-> planeta Terra->seres vivos [4]: o sol dissipa uma imensamente colossal quantidade de energia pra todo lado sob a forma de partículas e ondas eletromagnéticas (uma parte da qual é a luz). Quase tudo isso é desperdiçado em direção ao vazio espacial. Uma pequenina parte dessa energia desperdiçada do sol, mas ainda colossal, se dissipa por acaso na Terra. A Terra dissipa igualmente essa energia para todo lado, enquanto uma parte é desperdiçada nas bactérias e plantas que fazem fotossíntese. As bactérias e plantas também dissipam abundantemente “à toa”, e parte dessa dissipação é desperdiçada nas outras bactérias, insetos e herbívoros que as devoram com superfluidade. Estes últimos são desperdiçados nos predadores, que também devoram uns aos outros avidamente, num gritantemente notório desperdício vão de energia. E parte da dissipação de todos esses seres, por sua vez, é desperdiçada nos humanos, que também desperdiçam essa energia “à toa”, criando gratuitamente suas relações, a sociedade, a indústria, o conhecimento, a arte, a linguagem, cidades, imaginação, engenhosidade etc.
Apesar de no modelo explicativo dos materialistas antigos não existir ainda essa visão termodinâmica, ela é em grande parte compatível. O sol, como tudo mais (inclusive nós), é considerado uma composição de átomos surgida fortuitamente em determinado momento, e que está se desintegrando continuamente, se dissipando para todo lado até morrer (sua luz é o resultado dessa desintegração). Porém, se quisermos deter o desperdício (acumulando,  “conservando”), o resultado é que o sol morreria mais rápido, ou até instantaneamente numa explosão, e não teria tempo para “sua natureza”, suas ricas potencialidades qualitativas, se desenvolverem e se expressarem ao máximo.]

Contudo, essa visão global não é e nem pretende ser “reconfortante”. Ela não fornece nenhum princípio ético e tampouco qualquer modelo para uma sociedade melhor. Dado que a “lei geral da natureza” é abundância destrutiva, desperdício dissipativo, a ideia de “ordem natural” (ou “equilíbrio natural”), ideia que pressupõe a crendice em alguma espécie de “mão invisível”, é uma infeliz invenção da imaginação humana. Ela simplesmente não existe na natureza.

O CREDO NA “MÃO INVISÍVEL”  (OU “ORDEM NATURAL”, “EQUILÍBRIO NATURAL”): MORALISMO E TEODICEIA

O fato é que a natureza é incessante desequilíbrio cego e indiferente, um conjunto de forças completamente insensíveis ao sofrimento, assassinato, tortura, abundância, escassez, e à própria vida de todos os seres vivos. Além da história de catástrofes sem fim da geologia e atmosfera do planeta terra, assim como dos planetas, asteroides, sois e cometas, basta observar a notória superfluidade destrutiva da cadeia alimentar. Mais de 99,99% dos seres vivos vive de ferir e/ou devorar outros seres vivos, a tal ponto que nem sequer os seres mais inofensivos da cadeia alimentar, como as plantas, são “pacíficos”, mas venenosos para outros (traduzindo: assassinos; aliás são dos venenos das plantas que vem todas as propriedades medicinais delas que usamos graças à nossa ciência, empiria e técnica), espinhentos (traduzindo: torturadores), monstros vorazes para muitos outros pequenos seres ingênuos que metem seus bedelhos neles (fungos e bactérias, por exemplo, atacados pelo sistema imunológico vegetal)  etc. Isso sem falar da interminável competição cega dos seres por nichos que extinguiu 99,99% de todas as espécies que já existiram na terra desde o surgimento da vida. Até mesmo uma das moléculas mais básicas necessária à nossa vida atual na terra, o oxigênio, um gás venenoso para os primeiros seres vivos, foi introduzida “artificialmente” na atmosfera (antes predominantemente de CO2) pelos primeiros seres a fazer fotossíntese (provavelmente cianobactérias), levando a uma extinção em massa colossal.

Por outro lado, justamente porque o desperdício destrutivo é a regra geral da natureza, cada ser singular que existe e persiste necessariamente se pauta, ao contrário, pelo desperdício construtivo, criativo, afirmativo, pelo qual afirma sua existência [5]. Porém, a medida em que cada uma dessas abundâncias afirmativas singulares se expressa em um meio comum indiferente e cego, o resultado de suas expressões tende a se voltar contra elas mesmas, ou seja, nessas circunstâncias cegas ocorre o efeito colateral de a afirmação de cada uma tender a decompor e negar a afirmação das outras e, daí, cada uma nega a si mesma mediante as outras. Isso porque, se as expressões construtivas continuarem afirmando essas circunstâncias cegas e indiferentes para se expressarem, elas intensificam as condições que as obrigam a deter a expressão do dinamismo de sua riqueza, a conter a abundância de suas relações com os outros, a se embotar, acumular, competir, se privar e, por fim, a se engajar na destruição supérflua de si própria.

A metafísica da escassez, no entanto, “naturaliza” essas circunstâncias, santifica esse estado de coisas cego, até o ponto de extrair dele todo um “moralismo da escassez” que busca justificar e exaltar o sofrimento, esgotamento, tortura e morte como “feedback negativo” (retroalimentação negativa) objetivamente necessário à conservação, preservação e regulação “holísticas” da natureza e da sociedade. É uma verdadeira teodiceia, uma autêntica religião, esse culto da “mão invisível”.

Não é por nenhuma “regra geral da natureza”, nenhum “holismo”, mas apenas a partir das abundâncias afirmativas singulares que a espécie humana – cuja singularidade é que seus indivíduos são capazes de desejar, pensar, se comunicar e agir – pode desenvolver uma ética e, portanto, um projeto de transformação tanto das relações sociais quanto de suas condições naturais. Se somos supérfluos, então é completamente arbitrária qualquer ideia de dívida ou culpa, de justificativas, teodiceias, assim como qualquer remuneração por qualquer tipo de equivalência de “valor”, pois não há qualquer ser transcendente que “retribua à cada um a sua parte”. Pelo contrário, se os singulares são supérfluos é precisamente porque se justificam por si sós, pela sua simples existência, composição e expressão.

Trata-se então, para os seres humanos, de transformar as circunstâncias de modo que, nelas, as capacidades e necessidades humanas possam se afirmar como válidas por si sós, e não mais como instrumentos, meios e objetos de julgamento e retribuição conforme uma maior ou menor obediência a um fim pré-determinado (valor, mercado, propriedade privada, Estado, religião, identidade, nacionalidade, gênero etc). A liberdade é a necessidade irretribuível de cada singular, porque eles e suas expressões valem por si mesmos, são fins em si. Portanto, liberdade é: “de cada um segundo suas capacidades, à cada um segundo suas necessidades”. [6]

[Obs.: Isso contrasta com a ideia equivocada de que liberdade é livre-arbítrio. Livre-arbítrio nada mais é do que escolha de elementos em circunstâncias pré-estabelecidas, aceitando essas circunstâncias como imutáveis. Essa liberdade é ilusória, já que a imposição do livre-arbítrio, da livre-escolha, é a base de qualquer relação de dominação. Isso porque o único modo da classe dominante colocar-se como dominante é tendo o poder de retribuir, com prêmios ou reprimendas, a submissão maior ou menor dos dominados, o que só é possível se eles dão aos dominados a liberdade de escolher, entre duas ou mais coisas, caminhos ou ações predeterminadas, pré-fabricadas, pré-armadas pelos dominadores. Somente assim podem julgar quem é mais ou menos obediente (julgar o “livre arbítrio” ou “deliberação”, “esforço”, “mérito” deles), retribuindo a cada um em vistas a intensificar as circunstâncias de competição que levam os explorados a continuarem ou até aumentarem sua sujeição. Livre-arbítrio implica sempre em submissão às condições pré-estabelecidas de escolha. A verdadeira liberdade, pelo contrário, só começa pela transformação das circunstâncias, das condições de existência. Ou seja, liberdade pressupõe que essas condições deixem de ser propriedade privada (abolindo assim do poder dos dominadores) e se tornem as condições comuns da livre expressão prática dos indivíduos livremente associados sem fronteiras (comunismo).]

Como já expomos em outro texto uma ética imanente, materialista [7], trataremos agora das alegações pretensamente científicas dos adeptos da metafísica da escassez, em especial o entropismo.

FETICHISMO DA MERCADORIA, CIÊNCIA E CIENTIFICISMO NA IDEOLOGIA DA ESCASSEZ

Que os seres já surgidos comecem inevitavelmente a se desintegrar, a se dissipar até desaparecerem (entropia), não há dúvidas disso. Mas essa, como vimos, não é toda a história. Porque há também atividade, atuação: essa dissipação supérflua pode gerar (ou não) outros seres singulares (dentro e/ou fora de dele mesmo e/ou entre e/ou além) igualmente supérfluos, assim como aqueles seres que já tinham surgido também foram gerados pela dissipação supérflua de outros seres que confluíram nele e o compuseram. É nessa parte da história (e não na parte “status quo em perigo”) que está tudo que conhecemos, fazemos, experimentamos e nós mesmos. A atual ideologia da escassez com pretensões científicas é míope, porque ela se ocupa exclusivamente da dimensão de dissipação estéril dos seres já surgidos, só enxergando formas pré-existentes, e generalizando isso na visão de um universo austero regulado pela troca de equivalentes, numa competição pela escassez que recompensa ou reprime conforme um padrão pré-estabelecido, transcendente. Com isso, essa ideologia é incapaz de se dar conta do surgimento, da atividade, do vir-a-ser, do devir, mas apenas do “status quo”, do já existente.

Em que se baseia essa miopia? Ou melhor, epistemologicamente, em que situação material, a atividade, o devir, não podem aparecer, ficando ocultos? Isso só é imaginável numa circunstância material em que cada devir ou atividade singular é separado e isolado dos outros, de suas relações específicas, e unificados sob uma mesma forma geral pré-existente.

É precisamente assim a sociedade capitalista: as múltiplas atividades singulares assumem a forma de “trabalho”, em que cada devir é privado (propriedade privada) de suas relações para ser incessantemente remetido à comparação com outros (competição) conforme um mesmo padrão geral pré-estabelecido de equivalência quantitativa abstrata: o valor, a troca de mercadorias, o dinheiro, o Estado. Trata-se de uma sociedade em que, privada das condições materiais de atuação, a atividade produtiva humana só é permitida se for serviçal da reprodução ampliada do trabalho morto, do capital, do lucro; em que os produtos das atividades humanas simultâneas que abrangem o mundo inteiro, aparecem aos próprios seres humanos não como expressões de sua atividade associada em escala global, mas, pelo contrário, como se os produtos resultantes fossem dotados de uma existência independente, como propriedade privada, empresa, mercadoria, capital e Estado, em suma, como mercado mundial. Isso porque, privados de suas condições de existência, os seres humanos se tornam impotentes enquanto seres humanos, e, para sobreviver, são forçados a alienar (vender) suas capacidades de agir e de pensar à quem tem a propriedade privada dessas condições; consequentemente, as capacidades humanas são atribuídas às coisas, à propriedade privada, à classe proprietária (os capitalistas, i.e., o empresariado particular e estatal). Os seres humanos encontram suas próprias capacidades como atributos não deles mesmos, mas do dinheiro, da propriedade privada, da empresa e do Estado, personificados como um poder alheio, privado e hostil (o capital) na classe dominante. É uma determinada relação social entre os homens que assume, a seus olhos, a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas (fetichismo da mercadoria). [8]

Então, em um ambiente onde todo devir é incessantemente remetido à reprodução ampliada do trabalho morto, os seres singulares não aparecem socialmente, publicamente, como atividades, mas como rastros, resultados, produtos, mercadorias, instrumentos, “serviços”, “trabalhos”.

E nesse ambiente também estão os que fazem ciência. Ninguém tem acesso “sobrenatural” à natureza (se alguém afirma isso, esse alguém é religioso, não cientista), porque inclusive os cientistas são seres naturais. Eles perscrutam a natureza tal como ela lhes aparece, e tal como eles a fazem aparecer mediante instrumentos, metodologias e experimentos. Alguns aspectos do que lhes aparece é realçado e destacado em detrimento de outros pela simples razão de que o que pode aparecer a eles passa inerentemente por suas relações sociais: um cientista pode ser um trabalhador assalariado (ao invés de fazer ciência em livre associação com outros no mundo inteiro que também desejam e fazem ciência como um fim em si, como atividade livre), seus instrumentos, componentes e insumos são comprados (ao invés de terem sido determinados livremente pela sua atividade em associação com outros que, no mundo, desejam produzi-los), e também a determinação e escolha de seus objetos de estudo exprimem necessidades e capacidades humanas formadas e desenvolvidas em específicas relações sociais.

Assim, por exemplo, os conceitos de “trabalho” e “energia” foram separados dos demais conceitos da física e cunhados com esses nomes próprios (tornando-se inclusive os conceitos centrais das ciências naturais) no preciso momento da revolução industrial (séculos XVIII-XIX), quando o capital (que então se tornou produtivo, industrial) colocava a questão de extrair o máximo de trabalho “útil” das forças naturais e humanas disponíveis, com o propósito de aumentar ao máximo a diferença entre os custos de produção e os preços de venda de seus produtos, ou seja, os lucros. Foi a partir do problema do “peso levantado até certa altura” no uso, por empresas mineradoras, dos primeiros motores à vapor para levantar baldes de água de minas alagadas, que, em 1826, Gaspard-Gustave Coriolis introduziu na física o conceito de “trabalho” e seu nome próprio. Já o de “energia”, foi introduzido em 1807, por Thomas Young. Antes disso, os conceitos centrais da física eram os de “momento de inércia” e “força” (como em força da gravidade, força elétrica, força magnética etc) [9].

Isso não quer dizer, é claro, que, no século XIX, a ciência “tenha errado” e nem que esses novos conceitos sejam “falsos”, mas sim que os cientistas perscrutam o mundo, com sua rigorosa metodologia, a partir das circunstâncias com que se deparam, a partir dos problemas e perspectivas que essas circunstâncias colocam. Desse modo, toda ciência que desde o século XIX se desenvolveu a partir dos conceitos de “energia” e “trabalho” (em especial o de “conservação de energia”) realmente foi se tornando cada vez mais capaz de explicar de maneira inigualável e precisa as condições precedentes para qualquer evento. No entanto, é míope para os próprios eventos em questão, porque eles são tomados como formas já existentes, já conhecidas, e não enquanto devires, atividades. A razão disso é que, na sociedade capitalista, como vimos, os seres singulares, humanos e não-humanos, não aparecem socialmente, publicamente, como atividades, como atuações, como devires, mas como rastros, resultados, produtos, mercadorias, instrumentos, “serviços”, “trabalhos”; então, qualquer análise científica objetiva dos seres nesse ambiente (sociedade capitalista) encontra-os apenas como seres privados de e subservientes às suas condições de existência precedentes que se acumulam como trabalho morto, propriedade privada, capital.

No entanto, ao contrário dos cientistas que permanecem rigorosamente objetivos, os adeptos da metafísica da escassez encontram esses conceitos científicos, que expressam objetivamente o que pode ser apreendido da natureza a partir das necessidades e capacidades humanas desenvolvidas na sociedade atual, e se apropriam deles para compor uma religião cientificista que naturaliza, justifica e exalta a (auto)repressão, a máxima coerção ao trabalho, a intensificação da competição, o ascetismo, o exclusivismo e o banimento. Tudo em nome da preservação de um “status quo” que teria sido fruto meritório de um árduo, esforçado, “complexo”, “equilibrado” e sofrido passado cujo questionamento, na opinião deles, poria “tudo a perder”.

IDEOLOGIA APLICADA DA ESCASSEZ: ECONOMIA E ECOLOGIA

Por fim, vale a pena se deter nas peripécias da palavra e do conceito de “economia”, que são muito curiosas. Ela chegou até nós, da Grécia antiga, através da teologia.

Inicialmente, na Grécia, oikonomia era como se designava o comando, a administração (nomos, em grego), pelo pai/senhor (despotes, kyrios), dos escravos/servos de sua propriedade (oikos). Essa propriedade era ao mesmo tempo residencial, agrícola e escravista. Já fora da oikonomia, na polis, a relação entre os proprietários de escravos era chamada polítika, em que os senhores se consideravam iguais (isonomia, isegoria, isokratia). Em contraste, na propriedade escravocrata, no oikos, se constituia a família (oikogéneia), composta por aqueles sobre os quais o despotes tinha poder de vida e de morte: os escravos e servos, entre os quais se incluíam sua mulher e os filhos, além dos fâmulos adquiridos. Este foi o primeiro sentido da palavra. [10]

A seguir, quando o cristianismo se impôs (séculos III-XV) nas regiões em torno do mar Mediterrâneo e depois em toda Europa, o mundo e a humanidade passaram a ser considerados uma propriedade doméstica (oikos) comandada (nomos) por deus (providência). O governo de deus sobre o mundo, a execução pelos homens do comando de deus mediante o poder da igreja, dos reis e dos senhores feudais, a teodiceia (justificação dos sofrimentos e do mal), o gênesis, o plano de salvação e julgamento da humanidade no apocalipse, tudo isso tinha um nome: economia, economia da salvação, economia divina. E este foi o segundo sentido. [11]

Depois, na época do mercantilismo (séculos XV-XVIII), quando o capitalistas começaram a se impor e a transformar o mundo inteiro (colonização de quase todos os continentes etc) através dos Estados mercantilistas (que foram os primeiros Estados no sentido moderno do termo, o de ser uma entidade distinta das castas, da “sociedade civil”) que eles financiaram para impor pela força das armas o comércio e o monopólio de rotas comerciais em todo planeta, as categorias do pensamento religioso, inclusive “economia”, começaram a ser secularizadas. Nesse período, “economia” era como se chamava a administração governamental dos Estados mencantilistas, que eram monarquias absolutistas e que se acreditava serem fundadas por “direito divino” ou pelas bençãos do papa. Tal foi o terceiro sentido. [12]

Por fim, o quarto e último: na revolução industrial, no fim do século XVIII, quando o capital assumiu a produção (que antes era pré-capitalista, enquanto capitalista era apenas o comércio dos produtos), sugindo o capital industrial (graças à imposição do trabalho assalariado, só possível mediante a sistemática separação dos componeses e artesãos de seus antigos meios de vida, formando o proletariado), as categorias do pensamento religioso cristão foram plenamente transcritas para uma “religião secular objetivista”, em que uma curiosa “mão invisível”, por vias indiretas e misteriosas, governaria tanto mais para melhor quanto maiores os sofrimentos, sacrifícios e esgotamentos dos seres humanos privados de meios de produção (proletários) na concorrência desesperada por conseguir sobreviver vendendo a única coisa que ainda possuem, ou seja, a si mesmos, no mercado de trabalho, aos proprietários privados desses meios (capitalistas), em troca do salário. Essa entidade misteriosa (a economia) promoveria tanto maior prosperidade quando mais os proletários se engalfinhassem por obedecer e se sacrificar à classe proprietária.


Então, a palavra “economia”, do berço escravocrata passando por suas vestes teocráticas adultas, desembocou na designação de um tipo de entidade religiosa que não é mais identificada como religiosa, mas como a própria “verdade absoluta”, “a realidade tal como ela é de fato e à qual é dever se curvar”. É uma espécie de neo-animismo [13]. A economia, em suma, é o próprio fetichismo da mercadoria, que surgiu com o domínio do capital sobre a sociedade mundial. Esse domínio se caracteriza pela ditadura da produção pela produção que é o trabalho assalariado, em que, como vimos, os produtos das atividades humanas aparecem aos próprios homens não como resultados de sua atuação associada, mas como uma força independente, autônoma, como se se produzissem, se movessem e se distribuíssem mediante uma lógica própria e misteriosa: “sistema de preços”, “oferta e procura”, “mão invisível”, “destruição criadora”, “demanda agregada” etc.

Por outro lado, se a economia é uma teodiceia, justificando os sofrimentos, sacrifícios e males em nome de algo imaginário que por vias misteriosas promoveria o bem geral, não menos pior é a ecologia.

O movimento ecológico moderno se baseia em conceitos da “cibernética”, “holística” e “teoria de sistemas” (todos eles variantes da metafísica da escassez) visando reestabelecer politicamente o “equilíbrio natural”, a “sustentabilidade”, a “homeostase” do organismo holístico que seria a natureza como um todo. O processo homeostático em questão englobaria todos os seres, os quais, nas suas interações, estabelecem “feedbacks negativos” (mortes, escassez e catástrofes) responsáveis por manter a sustentabilidade do sistema ao longo do tempo ao contrabalançar os 1920px-ideal_feedback_model.svg_-1“feedbacks positivos” (por exemplo, reprodução sem freio de uma espécie) que de outro modo se acumulariam, levando ao colapso do sistema. O erro dos seres humanos, segundo eles, foi interferir no processo holístico da natureza, que seria tão complexo que seria impossível de ser compreendido pelos humanos (cuja atuação pressupõe sempre um conhecimento inerentemente “reducionista”), de tal modo que quando estes interferem, o resultado seria sempre catastrófico.

Mas já vimos que a natureza é, de fato, incessante desequilíbrio, um conjunto de forças cegas e indiferentes, e a ideia de uma “ordem natural” não passa de invenção da imaginação humana. Se a humanidade quiser por em prática a ficção ecológica de uma “ordem natural” independente dela, ela terá que se entregar a esses processos cegos, violentos e indiferentes, “naturalizá-los” e aceitar agir do mesmo modo. Quando se faz isso, a morte e o sofrimento de cada um passam a ser considerados uma prática aceitável (como “feedback negativo” necessário à “homeostase”) para que o suposto todo, o sistema holístico, seja sustentável. Trata-se de uma teodiceia tão mitológica que é praticamente uma recriação dos ritos sacrificiais de “restauração da ordem cósmica” do antigo paganismo. Mas, como toda mitologia, teologia e religião, isso não existe na natureza, é uma invenção delirante especificamente humana. Nenhum outro ser vivo age mediante uma “percepção imaginária extraterrena” (holística) de si mesmo no mundo, indiferente ao seu próprio sofrimento e morte, em nome da uma imaginação demente em sua cabeça.

[Obs.: Ainda mais perturbadora é a história da ecologia [14]. A palavra e o conceito de “ecologia” foram introduzidas por Ernst Haeckel (1834-1919), que pregava que a natureza é um organismo unificado e equilibrado (oikos), e que a sociedade humana deve ser reorganizada de acordo com a lógica da natureza (daí,com oikos e logos, cunhou a palavra ecologia). Anti-iluminista, nacionalista e eugenista, ele foi o primeiro a usar a teoria da evolução das espécies para propor uma classificação hierárquica das raças humanas. Segundo ele, “a política é biologia aplicada”. Sua teoria ecológica, através da esotérica e espiritualista Sociedade Thule, na qual participava, se vinculou diretamente às origens da ideologia nazista. Esta última afirmava, baseando-se também nas teorias da competição do economista liberal Herbert Spencer (darwinismo social) e no misticismo racista de Madame Blavatsky (teosofia), que o equilíbrio orgânico da ordem natural primordial (ao mesmo tempo biológica, divina e mística) decorreria da competição sem tréguas de cada um (cada indivíduo, cada nação, cada raça) por ocupar nichos na “ordem natural”. O primeiro governo que colocou a ecologia como meta principal foi o nazista, criando as primeiras reservas naturais, leis de proteção dos animais e inclusive tentando se basear na agricultura orgânica, além, é claro, dos campos de extermínio.]

Evidentemente, criticar a ecologia não significa que defendemos a destruição do meio ambiente. O que afirmamos é que, como não existe nenhum ponto referencial “superior” (como a fantasia mitológica/teológica de uma providência chamada “natureza”, “gaia”, “ordem natural”) fora das necessidades e capacidades dos próprios seres humanos para eles mesmos decidirem suas vidas e suas ações, a questão de não destruir o ambiente natural em que vivemos e os demais seres vivos só pode ser levantada e assumida por nós mesmos, pelos seres humanos, a partir do que considerarmos (mediante conhecimento, ciência, ética, técnica, desejo etc) necessário fazer e capacitados para fazer. Simplesmente porque, para agirmos, só temos as nossas próprias capacidades e necessidades, com as ideias, ciência e práticas que criamos a partir delas, e com as quais pensamos e agimos com algum êxito ou não.

humanaesfera, fevereiro de 2017

POST SCRIPTUM: CURIOSIDADE: O EPITÁFIO DE SÍCILO

Este é o mais antigo exemplo encontrado de uma composição musical completa, o Epitáfio de Sícilo. A música, cuja melodia foi registrada junto com a letra, foi encontrada gravada em uma lápide, perto de Aidin, na Turquia (não muito longe de Éfeso). A descoberta foi datada de entre 200 aC e 100 dC.

Letra:

Enquanto viver, brilhe
Não te entristeças por nada
A vida dura um breve instante
E o tempo cobra seu tributo

A lápide continha o seguinte escrito: “Eu sou um túmulo, um ícone. Sícilo me pôs aqui como um símbolo eterno da lembrança imortal“.

A letra pode ser interpretada como expressando a ideia de vida como gratuidade, delicada, frágil e alegre, enquanto o tempo, que destruirá tudo cegamente (entropia),  confirma nela sua abundância supérflua e irretribuível.


ADENDO: A ILUSÃO DA “DÁDIVA” PRÉ-CAPITALISTA

Potlatch

Conhecer o passado ajuda a saber que nem a sociedade capitalista, nem a troca de mercadorias, nem a família nuclear e nem o Estado são eternos e que a humanidade viveu por muito mais tempo de outra maneira. Porém, alguns perscrutam o passado acreditando que antes da sociedade capitalista, vivíamos “naturalmente” (conforme uma suposta “ordem natural”) enquanto que agora viveríamos “artificialmente”. Um dos temas prediletos e mais exaltados por quem assim pensa é o da “dádiva”, “dom” ou “troca de presentes” (cujo exemplo mais conhecido é o potlatch), um modo de distribuição dos produtos que contrasta com a troca de mercadorias generalizada que caracteriza a sociedade capitalista. Eles chegam ao ponto de considerar a “dádiva” pré-capitalista como o modelo “natural” para uma nova sociedade após a atual. Acreditam que a “dádiva” expressaria abundância em uma ordem social supostamente natural que querem restaurar, enquanto que, na verdade ela era um mero sistema de alianças por dívidas. Aqui queremos brevemente mostrar que as condições pré-capitalistas que faziam a “dádiva” fazer sentido não só são sem retorno, como também são absolutamente indesejáveis por qualquer um em sã consciência hoje.

Antes de tudo, como Mauss e Malinowski mostraram, a dádiva das sociedades tribais era um sistema de coerção endividada, inclusive, muitas vezes, um sistema de dominação brutal de alguns clãs sobre outros [15].

Em sociedades tribais em que os clãs não se hierarquizavam, o “dom” consistia  em laços coercitivos resultantes da desconfiança entre tribos sempre à beira da guerra entre si (segundo Pierre Clastres, era esse estado de guerra generalizada que impedia o surgimento do Estado, o surgimento das castas [16]). O “dom” era o rito de uma guerra invertida, em que cada lado, sempre extremamente desconfiado, tinha que provar sua confiança no outro clã através da concorrência de dar mais no futuro do que recebeu de presentes. O fato de não dar imediatamente quando se recebia era considerado uma prova de que não se desconfiava do outro clã, e que os laços entre eles seriam mantidos. Mas caso algum lado, por qualquer razão, fosse considerado apressado em retribuir ou se passasse a retribuir com menos (ou mesmo se achasse antecipadamente que o outro ai achar qualquer dessas coisas), isso era considerado prova definitiva de desconfiança, de quebra de laços. E então declarava-se guerra. A guerra era fundamental, porque se não fosse declarada guerra, formar-se-ia uma relação em que um clã se sobrepõe a outro (castas). Sem guerra nas sociedades tribais, o dom se torna dívida “infinita” de um clã (o que dá menos) para outro (o que dá mais), a ser paga como sujeição de castas, fazendo surgir o Estado (no sentido pré-capitalista de domínio de uma casta sobre outras). Na antropologia, esse é o caso mais clássico de todas as “dádivas”, o potlatch, praticado por uma sociedade de castas da América do Norte [17].

O que é evidente é que a dádiva tribal não parece de nenhuma maneira servir como modelo para nós hoje. A própria possibilidade do “dom” pressupõe a propriedade coletiva tribal sobre objetos produzidos por ela privadamente diante de outra propriedade coletiva tribal de outros objetos produzidos privadamente frente àquela e vice-versa. Pressupõe portanto, a troca entre propriedades privadas (propriedades que eram pré-capitalistas, mas ainda assim, de fato, coletivamente privadas reciprocamente), que é “dom” (laços de dívida) enquanto não é guerra e que se torna mercado (por exemplo, escambo) durante a guerra declarada, quando cada lado exigia uma retribuição imediata, rápida, de bens, “com valor equivalente”, “justo”, porque então já não confiavam absolutamente um no outro.

Hoje, os meios de produção são materialmente comuns em escala mundial (nada, nem em termos físicos nem intelectuais, é produzido privadamente), e, consequentemente, na perspectiva atual de um mundo libertário (ou seja, comunista), o desfrute das forças produtivas não pode ser nem “dom” nem troca de mercadorias, mas uma auto-realização autônoma e gratuita propiciada pelo livre acesso por todos às forças produtivas comuns, que são as condições de existência (meios de produção) mundialmente interconectadas.

Mas voltemos às sociedade pré-capitalistas para ter uma noção melhor das condições concretas nas quais se encontravam e reproduziam suas relações sociais. Para cada tribo, todos os outros humanos eram  bestas, não-humanos ou falsos humanos (e eram assim denominados), contra os quais, como vimos, se estava em estado de guerra constante ou latente. Para marcar o pertencimento à essa suposta única tribo dos “verdadeiros humanos” (cada uma se considerava assim), que seriam os mais fortes e superiores, cada nova geração era submetida a ritos de passagem como provação do “merecimento” de pertencer à seu clã em exclusão de toda humanidade. Esses ritos escreviam literalmente na carne e na alma as marcas de pertencimento: mutilações, humilhações, várias provas de resistência à dor, provas de que não se é “frouxo” ao assassinar inimigos sem hesitação, adquirindo cicatrizes de guerra etc. Evidentemente, as novas gerações eram forçadas a se submeter porque não havia meio de satisfazerem suas necessidades fora da tribo, exceto se desejassem a solidão da natureza inclemente, vulneráveis às tribos e feras inimigas. E se se juntassem para criar uma outra tribo independente, eles seriam obrigados a recriar as mesmas provações dos ritos de passagem e as mesmas violências para com as outras tribos. Porque isso não depende só da vontade, mas das condições de existência materiais, ou seja, da capacidade humana de, com as forças produtivas existentes, transformar a natureza, a circunstâncias, as condições concretas das relações humanas. Eram as condições com que se deparavam que materialmente os obrigava a adotar todas essas coerções, se agrupando na forma social de tribos.

Assim como explicamos antes sobre o meio ambiente quando criticamos a ecologia, criticar as condições de existência das sociedades pré-capitalistas não quer dizer que defendamos que as tribos que ainda hoje existem não devam existir e nem que os que sentem atração pelo modo de vida delas devam “se reprimir”. Na verdade, essas tribos, queiram ou não, há muito tempo não estão mais naquelas condições antigas (exceto, talvez, algumas, raríssimas, isoladas, na América do Sul e na Papua Nova Guiné). E seus mitos e ritos são recriados e modificados a cada geração conforme as condições em que elas se encontram e se reproduzem, que são hoje as da sociedade capitalista. É compreensível que, nesta sociedade (capitalista) onde a condição para sobreviver é se submeter à competição infernal da propriedade privada com a propriedade privada, os seres humanos dessas tribos remanescentes também busquem uma propriedade privada que garanta sua sobrevivência em exclusão de todos os demais humanos que competem igualmente pela sobrevivência. Então, para isso, o que geralmente tentam é fazer de seu passado um signo de propriedade a ser protegido pelo Estado (ou, como ocorre em alguns lugares do México, por suas próprias milícias). Porém, isso certamente nada tem de realmente libertário, nada tem a ver com superar a sociedade capitalista, porque é uma mera adição de uma propriedade privada a mais na competição generalizada que a condiciona.

Apenas se transformarmos nossas condições de existência (o que pressupõe abolir a privação dessas condições, a propriedade privada, em escala mundial) de modo a superar as condições de existência da sociedade capitalista, os seres humanos podem se emancipar e transformar livremente a si mesmos, indo além da coação de ter que assumir papeis, funções e identidades pré-estabelecidas (etnia, raça, gênero, nação, emprego, família, cultura, classe etc), se associando conforme seus desejos para satisfazer livremente suas necessidades e capacidades.

humanaesfera, fevereiro de 2017

NOTAS:

[1] Trata-se do texto Contra a metafísica da escassez, copiosidade prática.

[2] Sobre tudo isso, ver os livros Os Filósofos Pré-socráticos, de Gerd Bornheim, Da Natureza das Coisas, de Lucrécio, e O nascimento da física no texto de Lucrécio, de Michel Serres. E sobre uma interessante análise do fragmento de Anaximandro citado, ver A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos, de F. Nietzche, segundo o qual teria sido Heráclito de Éfeso o primeiro a romper com essa visão endividada da existência.

[3] Cf. O nascimento da física no texto de Lucrécio, de Michel Serres.

[4] Esse exemplo é exposto no texto A noção de dispêndio de Georges Bataille. Ver também Post-scriptum: contra a ecologia. 5) Georgescu-Roegen e o decrescimento económico, de João Bernardo.

[5] Cf. Ética, de Baruch Espinosa e os dois volumes de Capitalismo e Esquizofrenia, de Deleuze e Guattari.

[6] Cf. os textos Propriedade privada, escassez e democracia,  assim como
Contra as recompensas e punições (contra a meritocracia, contra a coerção), também Abolição do trabalho e a questão do circuito produtivo global no comunismo, e, numa perspectiva prática, Contra a estratégia e Greve e produção livre.

[7] O texto Autonomia e cotidiano – Espinosa e o imperativo de Kant: ´Tratar os outros e a si mesmo como fins, jamais como meios.

[8] Sobre tudo isso, ver o texto Marx comunista individualista! (trechos sobre o indivíduo em Marx).

[9] Anteriormente, de uma forma descompromissada, provisória e muito rudimentar, tentamos desenvolver de um ponto de vista prático-cotidiano uma física que poderia ajudar a compreender a atuação, a atividade, o vir-a-ser, o surgimento. Nessa física, os conceitos de “inércia” e “força” são compreendidos imanentemente, na ideia de “engatilhamento de inércias qualitativamente heterogêneas” pelo qual os eventos, os surgimentos, os devires se dão. Em resumo, inércias desproporcionais (qualitativamente heterogêneas) interagem tangencialmente (engatilhamento) exibindo forças e, assim, eventos, novos seres, enquanto os conceitos de “energia”, “troca de energia”, “conservação de energia” e “trabalho” são secundários, por serem estimativas intelectuais sobre o já surgido, o já atuado. Quem tiver curiosidade, veja os textos Uma arkhé Acidental?Conceito qualitativo de energia, força e inércia e O engatilhamento das inércias está na raiz da força? 

[10] Cf. o livro O Reino e a Glória – Uma Genealogia Teológica da Economia e do Governo, de Giorgio Agamben.

[11] idem. Note que Carolus Linnaeus (Carlos Lineu, conhecido como o “pai da taxonomia moderna”) ainda usava palavra “economia” nesse sentido teológico cristão. O seu livro  Oeconomia naturae [economia da natureza], publicado em 1749,  defende que a natureza é a execução do comando de deus, sendo que as catástrofes, a competição e os sofrimentos entre os seres vivos realiza os desígnios da providência (a ideia de que “Deus escreve certo por linhas tortas”) ao compensar e equilibrar os nascimentos com as mortes, efetuando a ordem natural divino.

[12] Ver o  verbete “Economia” da Enciclopédia de 1772.

[13] Ver o livro O capitalismo como religião, de Walter Benjamin.

[14] Sobre isso, ver a primeira e a segunda partes do texto A História que os ecologistas não querem contar, de Marilene Nunes. Também o livro Natureza e nazismo, de João Bernardo e a série de textos Post-scriptum: contra a ecologia, o lugar comum dos nossos dias, também de João Bernardo.

[15] Ver os livros Ensaio sobre a dádiva, de Marcel Mauss, Os Argonautas do Pacífico Ocidental e Crime e Costume na Sociedade Selvagem, de Bronisław Malinowski, além de A Grande Transformação – as Origens da Nossa Época, de Karl Polanyi‎.

[16] Ver o livro A sociedade contra o Estado, de Pierre Clastres.

[17] Uma curiosidade sobre o “dom” pré-capitalista é a estória que originou a expressão “elefante branco”. No Sião, os elefantes brancos eram raríssimos, e os cuidados requeridos eram tão custosos que só um rei poderoso poderia arcar com eles. Por isso eles eram considerados os maiores sinais de riqueza e poder, que nesse tempo significavam opulência dispendiosa, dádiva, beneficiência. Um rei que quisesse derrubar um aliado menos poderoso, ao invés de declarar guerra a ele, presenteava-o com um elefante branco. Se o aliado, para cuidar do elefante, perdesse suas riquezas, ele se arruinaria e perderia o poder. Mas se ele, para não perder suas riquezas, não cuidasse do elefante branco, isso seria considerado uma grave “desfeita” diante do presente dado, e então o rei, alegando estar “com a razão ao seu lado”, poderia declarar guerra e destruir o antigo aliado. Outra ilustração da importância do “dom” nas sociedades pré-capitalista é o cavalo de Tróia.

É impossível emancipação sem luta de classes

O caos provocado pela polícia no Espírito Santo (conforme relatado neste link) apenas mostra que, na ausência do proletariado como classe autônoma, o “povo” só pode (re)afirmar a competição pela escassez, pela propriedade privada, cada átomo se aliando com as propriedades privadas com mais poder de fogo para defender-se e impor-se contra os demais átomos concorrentes – e quem tem mais poder de fogo são os grupos de extermínio, as gangues, as empresas de segurança,  facções, traficantes, milicianos, o exército, as máfias e a própria polícia.

São  ingênuos os que pregam a mera prática negativa de suprimir o Estado e o poder, como se eles fossem a causa de si mesmos.  Imaginam e pregam uma práxis sem proletariado, sem perceber que, sem este, sem luta de classes, o resultado é necessariamente o fascismo, o identitarismo, a barbárie, o nacionalismo, o etnicismo, o bairrismo, o militarismo (e, por fim, é claro, a ditadura “legítima, democrática e republicana” do capital):  o massacre mútuo dos oprimidos em nome da união com “suas” classes dominantes contra outras.

Pelo contrário, como classe, o proletariado não é uma identidade, mas a solidariedade prática entre os explorados que atravessa e dissolve as separações da sociedade capitalista,  por toda parte contra “sua própria” classe dominante, numa luta que atravessa e suprassume as fronteiras, as empresas, bairros, escola, família, etnia, cultura, gênero etc. É unicamente a partir disso, da autonomia do proletariado, como classe mundial, que o Estado, o poder, a propriedade privada e a barbárie podem ser de fato superados, pela auto-superação do proletariado numa sociedade sem classes, uma livre associação dos indivíduos em escala mundial (comunismo) na qual expressam suas  necessidades, capacidades, desejos, habilidades, paixões e conhecimentos como fins válidos por si sós, livres, nunca mais submetidos à servidão da arbitrariedade que é a fantasia da troca de equivalentes, seja ela mercantil ou hierárquica.

humanaesfera, fevereiro de 2016

Dois textos contra o trabalho

Reproduzimos abaixo dois textos interessantíssimos, Contra o trabalho (1979) e Atividade humana contra o trabalho (1982), que também podem ser encontrados, respectivamente, neste link e neste link.

Contra o trabalho – GCI

[Texto ogininalmente publicado em 1979 pelo Grupo Comunista Internacionalista. Foi publicado em português em KAOS #0, 06/1997 (boletim aperiódico e experimental do Grupo Autonomia), onde apresentava o seguinte cabeçalho:
Por que trabalhamos? A resposta não é tão fácil quanto parece. Sem um longo processo de sujeição física e psíquica, de opressão cotidianizada, de educastração ou internalização de valores morais sexualmente repressivos e enunciados racionalizadores (do sacrifício, da culpa, do dever, da renúncia…), dificilmente alguém trabalharia.
O significado da palavra trabalho remonta à sua origem latina: tripalium (três paus) – instrumento utilizado para subjugar os animais e forçar os escravos a aumentar a produção. O tripalium era, pois, um instrumento de tortura, algo semelhante à cruz que o rebanho cristão adotou como objeto-símbolo de um culto masoquista.
Antes de adquirir o significado moderno – isto é: urbano, industrial e capitalista – a palavra trabalho designava atividades estafantes, insalubres e penosas. Hoje, seu significado é mais extenso e difuso. O que caracteriza o trabalho é justamente o fato de se tornar cada vez mais abstrato, pois já não se refere a essa ou aquela atividade, mas à atividade e ao esforço em si mesmos. Já não plantamos, tecemos ou pastoreamos, tampouco operamos um equipamento; simplesmente, trabalhamos. Iniciando uma discussão que consideramos das mais fecundas e relevantes, transcrevemos abaixo um trecho das Tesis de Orientación Programática, do Grupo Comunista Internacionalista, da Bélgica.]
TESE 40:
“O trabalho é a negação da vida, da alegria e do prazer humano. O trabalho faz do homem um estranho para si mesmo, alienado da humanidade como um todo. O trabalho é a atividade humana subjugada às necessidades da classe dominante, que se apropria do sobreproduto obtido mediante a exploração das outras classes.
O capitalismo, ao separar os explorados de seus meios de vida e de produção, impôs a escravidão assalariada por toda a parte, reduzindo o homem à condição de trabalhador.
No trabalho, o proletário se vê completamente despojado de seu produto, alienado, negado em sua essência, em sua vida, em seus desejos… Além de desperdiçar seu suor, seu sangue e sua vida, numa atividade cujo absurdo só é menor do que o embrutecimento que acarreta, o trabalhador é separado dos demais homens, separado da espécie humana.
Somente na luta contra o trabalho, contra a atividade que estão forçados a executar e contra aqueles que os forçam, os proletários se reapropriam de sua condição humana. Com a generalização desta luta e a conseqüente negação da sociedade atual, avançam no sentido de uma sociedade comunista, na qual toda atividade humana estará voltada para a satisfação das necessidades humanas.”
TESE 40A:
“Todas as ideologias do capital fazem a apologia do trabalho, como a atividade mais importante, à qual tudo se subordina, a atividade essencial do homem. O homem é considerado não como tal, mas ´pelo que faz na vida`, o que, na sociedade capitalista, quer dizer ´profissão`, ´trabalho`. Tais ideologias se baseiam no sacrifício, na renúncia, na interiorização das emoções e dos sentimentos…
Ao trabalho corresponde o sacrifício e a este, a religião (incluída a religião capitalista de estado, do marxismo-leninismo), como tentativa de justificar a repressão dos desejos e prazeres humanos, para a maior glória da burguesia.
Os sacerdotes e mandarins de todas as ideologias – entre os quais a esquerda do capital, que enaltece as mãos calosas do proletariado e se vangloria da miséria alheia – oferecem dogmas e ilusões para todos os gostos, propondo ´uma sociedade futura`, onde – após a morte, certamente – os proletários terão a recompensa pelos sacrifícios e renúncias que fizeram, a partir do momento em que aceitaram a mais desigual das trocas: a troca da vida pela sobrevivência .”

Atividade humana contra o trabalho – GCI

[Texto originalmente publicado em 1982 na revista Le Communiste número 14 (do Grupo Comunista Internacionalista). Foi publicado em português em KAOS #2, 04/1998 (boletim aperiódico e experimental do Grupo Autonomia), onde apresentava o seguinte cabeçalho:
O texto abaixo, de autoria dos companheiros do GCI – Grupo Comunista Internacionalista (*), foi-nos enviado já traduzido, com a solicitação de que o divulgássemos, após os necessários procedimentos de revisão e resumo/adaptação. O tema é da maior relevância, na atual situação de ofensiva do capital contra as condições de vida dos operários e demais trabalhadores. Aliás, cabe lembrar que a palavra “trabalho” tem origem no vocábulo latino trepalium (literalmente, três paus), que designava um instrumento de tortura utilizado para subjugar os animais rebeldes à domesticação. Sugestivamente, o termo “labor” significava sofrimento, antes de se tornar sinônimo de trabalho… (*) Por motivos óbvios, recomendamos não escrever GCI no envelope.
BP 54 St. Gilles, 3
1060 BRUXELES – BELGIQUE]
Não se trata de libertar o trabalho, mas de suprimi-lo“. (Karl Marx)
I. A palavra “trabalho” é a denominação burguesa para “atividade humana”.
Na sociedade capitalista, a linguagem, como qualquer esfera da vida, é determinada pelo capital. É, fundamentalmente, a linguagem da classe dominante, a linguagem burguesa, que pode ser definida como o domínio da ideologia burguesa exercendo-se na comunicação. Assim, o modo de comunicação vigente impõe-nos seus limites. Como não se trata de inventar uma linguagem que só poderia basear-se numa nova compreensão das relações humanas, vemo-nos continuamente obrigados a desmascarar e redefinir as palavras.
A palavra “trabalho” é o exemplo mais cabal e quase perfeito da falsificação das consciências humanas. O homem sempre se expressou através de sua atividade vital (o que é a vida, senão atividade?), visando à satisfação de suas necessidades. Contudo, o sistema mercantil vai reduzir e aviltar essa atividade, subjugando-a sob a forma denominada “trabalho”. O capital universalizará essa forma de exploração, vinculando-a ao salário. Atualmente, essa é a única possibilidade de sobrevivência para a maioria das pessoas, a única maneira de existir do proletariado. Assim, o trabalho tornou-se a atividade central do homem.
A ideologia burguesa confunde propositalmente a essência do homem com a sua alienação, o trabalho. A palavra “trabalho”, que designa uma forma muito particular de atividade humana, soa hoje aos ouvidos como um sinônimo de “atividade”, visto que, para a maioria dos homens, o trabalho chegou a ser a totalidade de suas atividades. Logo, atuar significa “trabalhar” e ser ativo entende-se como ser “trabalhador”. A hipocrisia e o cinismo da linguagem burguesa culminam em expressões tais como “fazer trabalhar o dinheiro”, imagem de uma riqueza hermafrodita, reproduzindo-se por si própria, como se por trás do dinheiro não se encontrassem os braços, o suor e o sangue daqueles de quem é extorquida a mais-valia, fonte de enriquecimento dos capitalistas.
Portanto, a palavra trabalho denomina uma forma determinada de atividade humana, intrinsecamente ligada ao sistema mercantil. É preciso entender o trabalho como atividade humana estranha ao homem, à manifestação de sua vida e à consciência que ele tem dela. O trabalho é a escravidão assalariada, a redução do homem à lamentável condição de trabalhador.
II. “O trabalho é o ato de alienação da atividade humana prática.” – (Marx – Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844)
O trabalho é a expressão alienada da atividade humana; a manifestação da vida como estranhamento e perda da vida. O caráter alienado do trabalho aparece de diferentes maneiras. Em primeiro lugar, através do objeto produzido. Este, de fato, não pertence ao proletário. Obrigado a vender a única mercadoria que lhe pertence, sua força de trabalho, e a alienar sua atividade na mercadoria que produz, o proletário constata que sua vida não lhe pertence mais. O estranhamento de si no e através do trabalho decorre, pois, da necessidade, para o proletário, de vender sua força de trabalho para produzir uma mercadoria que lhe é totalmente estranha.
O trabalhador não encontra qualquer satisfação no resultado do seu trabalho. Mesmo quando o objeto criado é de seu interesse imediato, o trabalhador não pode utilizá-lo. O absurdo de tal situação aparece, em toda a sua cruel dimensão, no seguinte exemplo. Um grupo de operários trabalha numa fábrica, cuja temperatura ambiente é superior a 35 graus. Esses operários sufocam de calor, enquanto produzem aparelhos de ar condicionado e ventiladores…
O proletário não se aliena somente no produto de sua atividade, mas em sua própria atividade. Sua atividade produtiva já não lhe pertence. De fato, o trabalho é exterior ao trabalhador, mas sendo a única atividade que lhe permite obter seus meios de sobrevivência no sistema capitalista, ele se vê obrigado a exercê-la. O trabalho é, pois, a atividade não-livre no mais alto grau. Escravidão assalariada, o trabalho só pode ser constrangido e forçado. “O caráter alienado do trabalho aparece claramente no fato de que, desde que não exista um constrangimento físico ou qualquer outro, fugimos dele como se fosse a peste.” (Marx – Manuscritos)
No trabalho, o indivíduo não se afirma, se nega. Da mesma maneira que investe a sua vida no objeto, o proletário abandona sua existência à atividade de produção desse objeto. “Se o produto do trabalho é a alienação, o próprio trabalho deve ser alienação em ato… A alienação do objeto do trabalho não é mais que o resumo da alienação, o estranhamento de si, dentro da própria atividade do trabalho.” (Marx – Idem)
O trabalho, atividade produtiva submetida ao capital, torna-se, para o proletário, atividade passiva, força impotente. Perda de si e do objeto, o trabalho acarreta ainda a perda do outro. O trabalho torna o homem estranho ao próprio homem, separa a vida individual da vida da espécie humana.
O que distingue o homem do animal é que o animal se identifica totalmente com a sua atividade vital. Ele “é” essa atividade. O homem faz de sua atividade o objeto de sua vontade e de sua consciência. Quando a atividade vital do homem se aliena, no sistema mercantil, o produtor é reduzido à condição de trabalhador. Ou seja, é obrigado a fazer de sua atividade consciente um simples meio de subsistência, um meio de existir, um trabalho.
A atividade vital deveria ser a livre expressão do homem; a produção pelo homem de um mundo objetivo, no qual ele poderia contemplar-se e se reconhecer. Mas essa produção de sua vida genérica ativa, uma vez subjugada ao capital e reduzida a trabalho, aliena a atividade vital do homem na produção de mercadorias. A atividade vital do homem se degrada a meio de sobrevivência. “O que é verdade, a respeito da relação do homem com o seu trabalho, o produto de seu trabalho e a si próprio, é verdade também a respeito da relação do homem com o outro homem, assim como ao trabalho e ao objeto do trabalho do outro homem.” (Marx – Idem)
Sob o domínio do capital, a consciência do gênero humano, a consciência da espécie, isto é, de si e do outro, é aniquilada. Quando ocorrem, as manifestações de solidariedade proletária nada mais são do que um vestígio da consciência genérica do homem que compreende que os seus próprios interesses coincidem com os interesses da comunidade humana; consciência de um ser humano genérico, que somente pode entender a livre satisfação de suas necessidades e desejos como desfrute coletivo.
III. A abolição do trabalho encontra sua forma política na emancipação do proletariado.
Acabamos de ver que o ser humano, alienado pelo trabalho, não se pertence mais. Mas se não se pertence mais, deve pertencer a outro. Se a atividade humana tornou-se um tormento para o operário, é necessariamente em proveito de outro. Através do trabalho, o proletário não só (re)produz uma relação estranha com o seu produto, mas também a dominação dos que não produzem, dominação que se exerce sobre o produto, sobre a atividade produtiva e sobre o produtor. Nada justifica que a atividade humana seja alienada que se transforme em trabalho, a não ser o interesse da classe dominante. O proveito que tira a burguesia de sua dominação impede-lhe de ver mais além de seus próprios interesses de classe. A classe social que libertará a humanidade do trabalho só pode ser aquela que mais sofre com os seus maléficos efeitos. A emancipação universal do homem depende da emancipação do proletariado, porque esta classe concentra, na sua relação com o trabalho, toda a opressão do homem.
Ao proletariado, auto-organizado em classe e portanto em partido, cabe a tarefa histórica de libertar a humanidade do trabalho. E de solucionar, de uma vez por todas, os antagonismos entre o homem e a natureza, entre a sua atividade e o seu desfrute, entre sujeito e objeto, entre o indivíduo e a espécie humana.
IV. Abaixo o trabalho !
Agora talvez se possa ver mais claramente em porque as exigências sindicalistas e esquerdistas de “direito ao trabalho” e “garantia do emprego” são eminentemente reacionárias. Os proletários sabem que, no capitalismo, o trabalho é a sua única maneira de subsistir e que, neste sentido, não trabalhar é estar condenado à mendicância, à delinqüência ou à morte pela fome. Portanto, a exigência de emprego, feita pelo operário, é a exigência de alimentação, vestuário e outros bens necessários para ele e sua família. Mas reivindicar trabalho para todos dentro do sistema burguês é fazer crer que isto é possível; é negar o caráter catastrófico do capitalismo, sua incapacidade de abolir o desemprego que ele próprio cria.
Nós, comunistas internacionalistas, afirmamos que a reivindicação de trabalho para todos é utópica, baseados no fato de que, se o capital não criou emprego para todos e a nível mundial em tempos de prosperidade, seria tolice imaginar que possa fazê-lo em plena crise. A reivindicação é reacionária, porque corresponde a uma visão idealizada do sistema capitalista e ignora a natureza contraditória do capital, cuja ditadura é a da riqueza que cria miséria. Ideólogos do capital, os economistas e outros defensores do trabalho alheio tentam explicar que o trabalho é necessário porque “confundem” produção de mercadorias e riqueza social. É, pois, hipocrisia das mais sórdidas apresentar o trabalho como a única fonte de riqueza. O trabalho, no sentido de atividade alienada, é a perda do homem. “Eu digo que o trabalho, não só nas condições presentes, mas em geral, na medida em que seu objetivo é o simples aumento da riqueza, é prejudicial e funesto.” (Marx – Manuscritos de 1844)
Em vez da exigência reacionária: “um salário justo para um dia de trabalho justo”, Marx nos propõe a consigna revolucionária: “Abolição do sistema salarial”. Da mesma maneira, desmascarando o oportunismo das reivindicações de “trabalho para todos”, contrapomos a palavra de ordem do programa comunista: “Abaixo o trabalho!”
V. Trabalho, lazer e comunismo.
“Em todas as revoluções anteriores, o modo de produção não se alterava. Tratava-se, apenas, de uma nova divisão do trabalho. A revolução comunista, pelo contrário, é dirigida contra o modo de produção anterior, ela suprime o trabalho e a dominação de classes, suprimindo as próprias classes.” (Marx – Manuscritos de 1844)
O comunismo destrói o modo de atividade específico ao sistema capitalista: o trabalho, essência da propriedade privada. Ao mesmo tempo que suprime o trabalho, suprime a organização do lazer como complemento indispensável ao trabalho alienado.
O lazer nada mais é do que o tempo que o capitalista concede ao proletário para que este reconstitua sua força de trabalho, além de ter como função aliviar a frustração acumulada durante a jornada de trabalho. O lazer não corresponde a tempo livre, uma vez que só se trata, para o capital, de que o proletário retorne ao posto de trabalho, em boas condições de saúde. O capital opõe tempo de trabalho e tempo de lazer; separa as duas atividades e, no entanto, torna-as complementares. A escola já inculca essa separação na mente do futuro trabalhador: “Vocês estão aqui para trabalhar e para brincar, mas nunca façam as duas coisas ao mesmo tempo!”.
Mas a atividade humana é uma totalidade. Neste sentido, a sociedade comunista não tem nada a ver com uma sociedade de lazeres, mera idealização do pólo “positivo” do sistema capitalista. À separação trabalho/lazer, o comunismo contrapõe a atividade vital que é o desfrute, o desfrute que é a atividade vital. “A atividade e o desfrute, tanto pelo seu conteúdo quanto pela sua origem, são sociais: atividade social e desfrute social.” (Marx – Manuscritos de 1844)
O comunismo suprime a oposição entre tempo de trabalho e tempo de lazer, entre produção e aprendizagem, entre o que é vivido e experimentado. Isto não é de modo algum uma antecipação idílica, uma visão rósea do futuro, mas a expressão do próprio movimento da história mundial. Longe de ser casual, este movimento é o resultado do desenvolvimento das forças produtivas, que torna mais atuais do que nunca a possibilidade e a necessidade do comunismo.
A abolição do trabalho como atividade humana alienada é um ponto essencial do programa comunista, que o proletariado cumprirá ao abolir-se com a supressão de todas classes. Às quarenta (ou mais) horas semanais de trabalho, à tortura de acordar cedo, à angustiante busca de emprego, à sorridente hipocrisia dos gestores do capital que demitem sem contemplações, às cotidianas idas e vindas (do trabalho para casa, e vice-versa) de pé e comprimido nos meios de transporte de massas, ao embrutecimento das horas “livres”, aos ritmos de trabalho infernais, aos “acidentes” de trabalho, à propriedade privada, à exploração do homem pelo homem; enfim, ao capital, contraporemos a nossa força e o nosso saber na construção de uma sociedade sem trabalho, uma sociedade comunista que garanta a livre disposição do tempo enquanto desenvolvimento da atividade humana.
Se a atividade produtiva livre é o maior prazer que conhecemos, o trabalho é a tortura a mais cruel, a mais degradante. Nada é mais terrível do que fazer, o dia todo, uma coisa que nos repugna. Quanto mais sentimentos humanos tem um proletário, tanto mais detestará o seu trabalho, porque sofre com a opressão e a inutilidade que o trabalho representa para ele.
Engels, Friedrich – A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, 1845.
 
 
Veja também:
A recusa do trabalho (Comitato Operaio di Porto Marghera, 1970)

Abolição do trabalho e a questão do circuito produtivo global no comunismo (Joseph Kay / Libcom, 2008)



humanaesfera #4 (livreto/brochura)

Saiu humanaesfera #4 (número especial sobre transformação da vida cotidiana). Quarta brochura (livreto) com conteúdos deste site.

Neste link, está o PDF com a brochura, que consiste de 6 folhas A4 para serem impressas frente-e-verso, dobradas e grampeadas no meio. Ela contém os textos:

A questão da "corrupção" e a vergonha do proletariado de seus próprios interesses humanos

Estamos vivendo uma época de profunda derrota do proletariado. Hoje, os explorados sentem vergonha de seus próprios interesses materiais e, para disfarçá-los, tentam afirmá-los defendendo o interesse do empresariado, do “empreendedorismo”, da “competitividade”,  que é apresentado a eles como o único “honesto” e “universal”, como uma espécie de “imperativo categórico kantiano”. Os interesses deles como simples seres humanos de carne e osso lhes causam vergonha porque são considerados por eles próprios como “corrupção”, enquanto os interesses mercantis, empresariais, financeiros parecem encarnar liberdade, igualdade, justiça, etc. Por exemplo, vergonha de afirmar claramente que querem uma vida fácil e com tudo de bom sem ter que se submeter aos  “vencedores do mercado”, vergonha do interesse de não trabalhar a vida toda e cada vez mais intensamente etc etc. Todos esse desejos, diz-se quase unanimemente, são “corrupção”, “jeitinho brasileiro”. Para eles, os interesses são sempre corruptos, e os únicos não-corruptos, os “desinteressados”, porque respeitam as “regras do jogo”, são os “vencedores no mercado”, os “empreendedores” etc.

O que é interessante é que a maior parte do tempo, essa competição declarada pela obediência é “da boca para fora”. A maioria está sempre lutando tacitamente para trabalhar o mínimo possível e por fazer ao máximo o que gostam de fazer, contra o mando dos chefes e proprietários. Mas como a confiança uns nos outros é esmagadoramente superada pela confiança em quem paga ou pode pagar os seus salários  (Estado ou empresa), eles evitam falar abertamente de seus interesses uns com os outros (que veem como competidores que ameaçam sua sobrevivência, seu emprego). Desse modo, não conseguem criar uma linguagem que expresse seus interesses humanos, porque tem medo de expressar-los uns aos outros. Eles tem vergonha de seus interesses, que é, como vimos, confundidos com “corrupção”. Por exemplo, a maioria se revolta com essas PECs (como a do aumento do tempo da aposentadoria, terceirização etc), porém, como não desenvolvem uma linguagem própria, assumem a linguagem da classe dominante para expressar essa revolta, que então se converte em “revolta na ordem” (aliás, clássica definição de fascismo pelo João Bernardo), uma revolta expressa na linguagem e na forma da classe dominante, a linguagem daqueles que não seriam “corruptos”, dos que tem a propriedade privada dos meios de vida e produção, e a quem, na prática cotidiana de guerra de todos contra todos pela sobrevivência, confiam materialmente que, se obedecerem, garantirá sua sobrevivência contra os concorrentes, ao contrário de seus iguais que querem “tomar seu trabalho”. Daí a revolta deles se expressa como apelo a uma “força maior” (por exemplo, Trump, Bolsonaro, ou pedidos para que haja chefes que punam e recompensem com mais força e rigor) que resolva todos os problemas através da repressão e matança, para defendê-os contra seus iguais, que são vistos como “inimigos” (tanto os ainda mais pobres quanto estrangeiros, migrantes etc).

Para que os proletários criem uma linguagem autônoma, pode ser útil retomar e aperfeiçoar a ética de Hipócrates, que apresenta uma interessante contraposição ao conceito de “corrupção” incessantemente usado pela classe dominante. Afinal, em seu sentido essencial, corrupção é fazer algo em troca de outro algo (em busca de recompensas e por medo de punições), ao invés de fazê-lo como algo que vale por si só, algo de cuja necessidade, humanidade e ética a atividade de produzi-lo se justifica por si só…

Assim, compartilhamos esse resumo da ética de Hipócrates que encontramos neste blog:

“Salvar vidas, a arte da medicina, está acima do poder, do dinheiro e das leis dos reinos em que se passa exercendo a medicina. O verdadeiro significado de corrupção não é quebrar as regras, mas exercer a arte como se não fosse válida por si só, exercendo-a, pelo contrário, por outra coisa alheia, como o dinheiro e as promessas e ameaças de quem tem poder e faz as leis. Se o médico não ama o que faz, ele vai se vender e causará dano, porque seu interesse será ganhar mais, buscando enganar e agradar quem lhe paga; em troca, torna-se escravo de quem tem dinheiro. O médico deve ser livre, autônomo, formando com outros uma comunidade que compartilha livremente as descobertas da medicina, sem se submeter a reinos, cidades ou povos, para servir a humanidade.” (Resumo da ética hipocrática baseado nos textos “Acerca da arte”, “Epístolas”, “Preceitos” e outros. Resumo feito a partir de várias fontes, principalmente as contidas no livro “Textos Hipocráticos: o doente, o médico e a doença”. Henrique F. Cairus, Wilson A. Ribeiro Jr.)
humanaesfera, janeiro de 2017

Veja também outros textos sobre ética:

 
 
 

Lukács sobre a cultura e sociedade capitalista

Alguns trechos interessantes do texto Velha e nova cultura, de György Lukács:

“A libertação do capitalismo significa a libertação do domínio da economia. A civilização cria, assim, o domínio humano sobre a natureza; mas, como conseqüência, o homem cai sob o domínio desses meios que haviam lhe dado a possibilidade de dominar a natureza. O capitalismo assinala o ponto culminante desse domínio. […]

A característica principal da organização social capitalista deveria ser buscada então no fato de que a vida econômica deixou de ser um instrumento para a função vital da sociedade e se colocou no centro: se converteu em fim em si mesmo, o objetivo de toda a atividade social. A primeira conseqüência, e a mais importante, é a transformação da vida social em uma grande relação de troca; a sociedade em seu conjunto tomou a forma de mercado. Nas distintas funções da vida, tal situação se expressa no fato de que cada produto da época capitalista, como também todas as energias dos produtores e dos criadores, reveste a forma de mercadoria. Cada coisa deixou de valer em virtude de seu valor intrínseco (por exemplo, valor ético, valor artístico): tem valor unicamente como coisa vendável ou adquirível no mercado. Tudo o que este realizou destrutivamente sobre toda a cultura – expressando-se esta seja em atos, em criações de obras de arte, ou em instituições – é algo que não exige análises ulteriores. Da mesma maneira que a independência dos homens das preocupações de sustento e a livre utilização de suas próprias forças como fim em si são a condição humana e social preliminar da cultura, assim também tudo o que a cultura produz só pode ter valor cultural autêntico  quando tem valor por si só. No momento em que assume o caráter de mercadoria e entra no sistema de relações que o transforma em mercadoria, cessa ainda sua autonomia, a possibilidade da cultura.
Mas em outro ponto o capitalismo corroeu nas raízes a possibilidade social da cultura. Este ponto está constituído por sua relação com a fabricação dos produtos culturais. Já vimos: do ponto de vista do produto, a cultura é impossível quando os produtos não levam em si seu fim. Do ponto de vista das relações entre produto e produtor, a cultura é possível só onde o surgimento do produto constitui – com relação a seu criador – um processo unitário, em si acabado. Ou seja, um processo cujas condições dependem da possibilidade e das ações humanas do criador. O exemplo característico para um processo de tal caráter é a obra de arte, onde o nascimento da obra é, definitivamente, em sua integridade, resultado da atividade do artista e onde a peculiaridade da obra está determinada pelas qualidades individuais do artista. Nas épocas pré-capitalistas este espírito artístico dominou toda indústria. A impressão do livro era em essência tão pouco distinta de escrevê-lo como a pintura de um quadro o era da fabricação de uma mesa (em relação ao caráter humano do produto). Pelo contrário, a produção capitalista não só tira do trabalhador a propriedade do meio mas também, por conseqüência da divisão do trabalho, mais fortemente especializado, fragmenta o processo de fabricação em partes, nenhuma das quais é tal que origine algo significativo, em si e por si acabado. Não existe trabalho singular que não esteja em ligação imediata e perceptível com o produto terminado; esse processo tem um sentido somente para o cálculo abstrato do capitalista; só enquanto mercadoria está dotado de sentido. Ao se estender a indústria, intensifica-se mais ainda a desumanidade dessa relação. Na divisão do trabalho que existe dentro da manufatura, mesmo sendo o processo de fabricação sumamente fragmentado e despedaçado, a qualidade das partes singulares do produto dependia sem dúvida das atitudes físicas e espirituais do trabalhador; enquanto que na indústria desenvolvida toda relação entre produto e produtor foi suprimida. Nela, então, o processo produtivo depende definitivamente das possibilidades das máquinas; o homem serve a máquina, se adapta a ela; a produção se torna completamente independente das possibilidades e atitudes humanas do trabalhador.
Junto a essas forças que destróem a cultura e que nós consideramos até aqui do ponto de vista do produto e do produtor singular e isolado, no capitalismo atuam ainda outras similares às primeiras. Podemos observar a mais importante quando consideramos o nexo recíproco dos produtos. A cultura das épocas pré-capitalistas era possível graças à relação de continuidade em que se encontravam os produtos culturais singulares: um produto levava adiante o problema colocado por outro, e assim sucessivamente. A cultura em seu conjunto delineava portanto uma determinada continuidade de desenvolvimento lento e orgânico. Assim era possível que em cada campo se afirmasse uma cultura coerente, unívoca e entretanto original; uma cultura cujo nível superava também em muito o nível mais alto alcançável através de atos individuais, isolados. Enquanto revolucionava o processo produtivo, enquanto tornava permanente este caráter revolucionário através do caos da produção, o capitalismo suprimia a continuidade e a organicidade da velha cultura. Por um lado, a revulocionarização da produção significa, para a cultura, que o processo produtivo se origina de contínuos momentos que influem de maneira decisiva a marcha e o modo da produção, sem que isso se ligue logo de maneira alguma com a essência do produto – uma obra como fim em si – (é assim que na indústria, na arquitetura desaparece a autenticidade do material). Por outro lado, como conseqüência do produzir-para-o-mercado (sem o qual a revolução constante da produção seria inimaginável), vem à luz na fabricação do produto tudo o que é mera novidade, o elemento sensacional e caduco, sem consideração alguma pelo problema da contribuição ou perda do autêntico, íntimo valor do produto. O reflexo cultural desse caráter revolucionário é o fenômeno que habitualmente chamamos moda. Moda e cultura configuram por suas essências conceitos que se excluem reciprocamente. O domínio da moda significa que a forma e a qualidade dos produtos postos no mercado mudam a breve prazo, independentemente da relação com a beleza e a finalidade. A essência desse mercado contém o fato de que dentro de determinados períodos devem ser fabricados novos objetos, de modo que possam diferenciar-se radicalmente dos precedentes; de forma que, ao produzi-los, seja impossível se basear sobre experiências recolhidas na produção precedente. Da rapidez do desenvolvimento resulta a impossibilidade de recolhê-las e senti-las; ou ninguém quer mais se basear nelas, pois a essência mesma da moda requer justamente o oposto ao velho. Assim desaparece lentamente todo desenvolvimento orgânico: aparece uma oscilação sem meta e um diletantismo vazio e ruidoso.”
O texto completo pode ser encontrado neste link: Velha e nova cultura, de György Lukács

Marx comunista individualista! (trechos sobre o indivíduo em Marx)

(English version: Marx, individualist communist! (excerpts on the individual))

Fizemos um apanhado de trechos de Marx que tratam dos indivíduos, de sua subordinação decorrente de seu isolamento e separação mútuas, pelos quais eles criam e se submetem a um poder alienado que os unifica isolando-os – o mercado, o  Estado, as empresas, as classes. E sobre a questão da criação de uma sociedade em que os indivíduos se relacionam enquanto indivíduos (e não como proprietários privados e nem como classes, detentores de cargos ou outras identidades reificadas, como nacionalidade, etnia etc), em que o trabalho foi abolido pela manifestação de si (ou auto-expressão, auto-atividade), através da livre associação dos indivíduos conforme seus desejos, capacidades e necessidades com as forças produtivas histórico-mundiais…

AS FORÇAS PRODUTIVAS DOS INDIVÍDUOS E SUA ACUMULAÇÃO COMO FORÇAS DA PROPRIEDADE PRIVADA CONTRA ELES

“A necessidade da troca [de mercadorias] e a transformação do produto em puro valor avançam na mesma medida da divisão do trabalho, isto é, com o caráter social da produção. Porém na mesma medida em que cresce este último, cresce o poder do dinheiro, i. e., a relação de troca se fixa como um poder externo frente aos produtores e deles independente. O que aparecia originalmente como meio para o fomento da produção converte-se em uma relação estranha aos produtores. Na mesma proporção com que os produtores se tornam dependentes da troca, a troca parece tornar-se independente deles e parece crescer o abismo entre o produto como produto e o produto como valor de troca. ” (Karl Marx, Grundrisse, Capítulo do dinheiro, 1858)

“Por meio da divisão do trabalho, já está dada desde o princípio a separação entre condições de trabalho, ferramentas e materiais, o que gera a separação do capital acumulado em diversos proprietários e, com isso, a separação entre capital e trabalho, assim como as diferentes formas de propriedade. Quanto mais se desenvolve a divisão do trabalho,  maior é a acumulação e mais acentuada é essa separação. O próprio trabalho só pode subsistir sob o pressuposto dessa fragmentação.
[…]
Encontramo-nos, portanto, perante dois fatos. Primeiro, as forças produtivas apresentam-se como completamente independentes e separadas dos indivíduos, como um mundo à parte destes, o que se deve ao fato de os indivíduos, a quem elas pertencem efetivamente, existirem dispersos e em oposição uns aos outros, enquanto que essas forças só são reais no intercâmbio e na interdependência desses indivíduos. 

Logo, existe por um lado um conjunto de forças produtivas que adquiriram, de certo modo, uma forma objetiva e já não são para os indivíduos as suas próprias forças, mas as da propriedade privada e, portanto, dos indivíduos apenas na medida em que forem proprietários privados. Em nenhum período anterior as forças produtivas tinham revestido esta forma indiferente às relações dos indivíduos enquanto indivíduos, pois estas relações eram ainda limitadas.  Por outro lado, observa-se uma oposição a essas forças produtivas por parte da maioria dos indivíduos de quem elas se tinham destacado e que, por estarem despojados de todo o conteúdo real da sua vida, se converteram em indivíduos abstratos, mas que somente assim são colocados em condições de estabelecer relações uns com os outros enquanto indivíduos.” (Karl Marx e F. Engels – A Ideologia Alemã, 1846)

“Desse modo, a antiga visão, em que o ser humano aparece sempre como a finalidade da produção, por estreita que seja sua determinação nacional, religiosa ou política, mostra ser bem superior ao mundo moderno, em que a produção aparece como finalidade do ser humano e a riqueza, como finalidade da produção. De fato, quando o limitado modelo burguês é desnudado, o que vem a ser a riqueza senão a universalidade das necessidades individuais, capacidades, prazeres, forças produtivas, etc, criadas através do intercâmbio universal? O completo desenvolvimento do domínio humano sobre as forças da natureza, tanto as da natureza externa quanto as da própria natureza humana? A realização plena de suas potencialidades criativas, sem nenhum outro pressuposto a não ser o prévio desenvolvimento histórico, o que faz com que isso seja a totalidade do desenvolvimento, isto é, o desenvolvimento de toda a potencialidade humana como um fim em si mesmo, e não como algo a ser medido em função de algum modelo predeterminado? Um desenvolvimento em que o ser humano não se reproduz em uma particularidade, mas produz sua totalidade? Em que procura não por manter seu status, mas se projetar no movimento absoluto do devir? Na economia burguesa – e na época de produção que lhe corresponde –, essa exteriorização total do conteúdo humano aparece como completo esvaziamento; essa objetivação universal, como estranhamento total, e a desintegração de todas as finalidades unilaterais determinadas, como sacrifício do fim em si mesmo a um fim totalmente exterior.” (Grundrisse, III. Capítulo do capital (continuação), também conhecido como “Formações econômicas pré-capitalistas”, 1858)

“Esse fixar-se da atividade social, essa consolidação de nosso próprio produto num poder objetivo situado acima de nós, que foge ao nosso controle, que contraria nossas expectativas e aniquila nossas conjeturas, é um dos principais momentos no desenvolvimento histórico até aqui realizado. O poder social, isto é, a força de produção multiplicada que nasce da cooperação dos diversos indivíduos condicionada pela divisão do trabalho, aparece a esses indivíduos, porque a própria cooperação não é voluntária mas natural, não como seu próprio poder unificado, mas sim como uma potência estranha, situada fora deles, sobre a qual não sabem de onde veio nem para onde vai, uma potência, portanto, que não podem mais controlar e que, pelo contrário, percorre agora uma sequência particular de fases e etapas de desenvolvimento, independente do querer e do agir dos homens e que até mesmo dirige esse querer e esse agir.” (Karl Marx e F. Engels – A Ideologia Alemã, 1846)

CLASSES: A SUBORDINAÇÃO DOS INDIVÍDUOS COMO INDIVÍDUOS MÉDIOS FRENTE A TERCEIROS

“Os indivíduos partiram sempre de si mesmos, não certamente do indivíduo “puro” no sentido dos ideólogos, mas de si mesmos no âmbito das suas condições e das suas relações históricas dadas. Mas verifica-se no decurso do desenvolvimento histórico, e precisamente pela independência que adquirem as relações sociais, fruto inevitável da divisão do trabalho, que existe uma diferença entre a vida de cada indivíduo na medida em que é pessoal, e a sua vida enquanto subordinada a um qualquer ramo do trabalho e às condições inerentes a esse ramo ([…]). No estamento (e mais ainda na tribo), este fato encontra-se oculto; por exemplo, um nobre continua a ser sempre nobre, um roturier [retalheiro] será sempre um roturier, abstraindo das suas outras relações; trata-se de uma qualidade inseparável da sua individualidade. A diferença entre o indivíduo pessoal oposto ao indivíduo na sua qualidade de membro de uma classe e a contingência das suas condições de existência, só se manifestam com a classe que é um produto da burguesia. Apenas a concorrência e a luta dos indivíduos entre si engendra e desenvolve essa contingência enquanto tal. Por conseguinte, na representação, os indivíduos são mais livres sob o domínio da burguesia do que anteriormente porque as suas condições de existência lhes são contingentes; na realidade, eles são naturalmente menos livres porque se encontram muito mais subordinados a um poder objetivo. ” (Karl Marx e F. Engels – A Ideologia Alemã, 1846)
“Esta subordinação dos indivíduos a determinadas classes não pode acabar enquanto não existir uma classe que já não tenha necessidade de fazer prevalecer um interesse de classe particular contra a classe dominante. 

A transformação das forças pessoais (relações) em forças objetivas, através da divisão do trabalho, não pode ser abolida extirpando do cérebro essa representação geral, mas unicamente através de uma nova submissão das forças objetivas e a abolição da divisão do trabalho por parte dos indivíduos. Ora isto não é possível sem a comunidade; é somente em comunidade [com outros que cada] indivíduo tem os meios necessários para desenvolver as suas faculdades em todos os sentidos; a liberdade pessoal só é, portanto, possível na comunidade. Nos sucedâneos de comunidades que até agora existiram, no Estado, etc., a liberdade pessoal só existia para os indivíduos que se tinham desenvolvido nas condições da classe dominante e somente na medida em que eram indivíduos dessa classe. A comunidade aparente, anteriormente constituída pelos indivíduos, adquire sempre perante eles uma existência independente e, simultaneamente, porque significa a união de uma classe face a uma outra, representa não apenas uma comunidade ilusória para a classe dominada, mas também uma nova cadeia. Na comunidade real, os indivíduos adquirem a sua liberdade simultaneamente com a sua associação, graças a esta associação e dentro dela.” (Karl Marx e F. Engels – A Ideologia Alemã, 1846)

“Podemos concluir de todo o desenvolvimento histórico até aos nossos dias que as relações coletivas em que entram os indivíduos de uma classe, e que sempre foram condicionadas pelos seus interesses comuns relativamente a terceiros, constituíam sempre uma comunidade que englobava esses indivíduos unicamente enquanto indivíduos médios, na medida em que viviam nas condições de vida da mesma classe; trata-se portanto de relações em que eles não participam enquanto indivíduos, mas sim enquanto membros de uma classe. Por outro lado, na comunidade dos proletários revolucionários que põem sob o seu controle todas as suas condições de existência produz-se o inverso: os indivíduos participam enquanto indivíduos. E (bem entendido, com a condição de que a associação dos indivíduos opere no quadro das forças produtivas que se supõem já desenvolvidas) é esta reunião que coloca sob o seu controle as condições do livre desenvolvimento dos indivíduos e do seu movimento, enquanto até aí elas tinham sido abandonadas ao acaso e adotado uma existência autônoma perante os indivíduos, devido precisamente à existência da sua separação como indivíduos e da necessidade da sua união implicada pela divisão do trabalho, mas transformada num vínculo alheio. A associação até aqui conhecida não era de forma alguma a união voluntária (que nos é, por exemplo, apresentada no Contrat Social) mas uma união necessária baseada em condições no interior das quais os indivíduos desfrutavam da contingência ([…]). Este direito de poder desfrutar tranqüilamente da contingência em certas condições constitui aquilo que até hoje se designava por liberdade pessoal. – Estas condições de existência são naturalmente as forças produtivas e os modos de troca de cada período.

O comunismo distingue-se de todos os movimentos que o precederam pelo fato de (…), pela primeira vez, tratar as condições naturais prévias como criações dos homens que nos antecederam, despojando-as da sua aparência natural e submetendo-as ao poder dos indivíduos associados. O organismo que proclama é, por isso mesmo, essencialmente econômico: é a criação material das condições dessa associação; transforma as condições existentes nas condições dessa associação. O estado de coisas assim criado constitui precisamente a base real que torna impossível tudo o que existe independentemente dos indivíduos.” (Karl Marx e F. Engels – A Ideologia Alemã, 1846)


O ESTADO É UMA COMUNIDADE ILUSÓRIA 

“Os indivíduos sempre partiram de si mesmos, partem sempre de si mesmos. As suas relações são relações que correspondem ao processo real da sua vida. A que se deve o fato de as suas relações ascenderem à autonomia e se chocarem com eles próprios? E de os poderes dos indivíduos se tornarem todos-poderosos perante esses mesmos indivíduos? Numa palavra: deve-se à divisão do trabalho, cujo grau depende da força produtiva desenvolvida em cada momento. ” (Karl Marx e F. Engels – A Ideologia Alemã, 1846) †

“É precisamente esta contradição entre o interesse particular e o interesse coletivo que faz com que o interesse coletivo adquira, na qualidade de Estado, uma forma independente, separada dos interesses reais do indivíduo e do conjunto e tome simultaneamente a aparência de comunidade ilusória, mas sempre sobre a base concreta dos laços existentes em cada conglomerado familiar e tribal, tais como laços de sangue, língua, divisão do trabalho em larga escala e outros interesses; e entre esses interesses ressaltam particularmente os interesses das classes já condicionadas pela divisão do trabalho, que se diferenciam em qualquer agrupamento deste tipo e entre as quais existe uma que domina as restantes. Daqui se segue que todas as lutas no seio do Estado, a luta entre a democracia, a aristocracia e a monarquia, a luta pelo direito de voto, etc., etc., são apenas formas ilusórias que encobrem as lutas efetivas das diferentes classes entre si.” (Karl Marx e F. Engels – A Ideologia Alemã, 1846)


A VERDADEIRA RIQUEZA DOS INDIVÍDUOS É A RIQUEZA DE SUAS RELAÇÕES HISTÓRICO-MUNDIAIS

“[A] transformação da história em história universal não é, digamos, um simples fato abstrato da “Consciência de si”, do Espírito do mundo ou de qualquer outro fantasma metafísico, mas uma ação puramente material que pode ser verificada de forma empírica, uma ação de que cada indivíduo fornece a prova no ato de comer, beber ou vestir-se. A bem dizer, também é um fato perfeitamente empírico o de, na história passada, com a extensão da atividade ao plano da história universal, os indivíduos terem ficado cada vez mais submetidos a um poder que lhes era estranho, poder que se tornou cada vez mais maciço e se revela, em última instância, tratar-se do mercado mundial. Mas é também empírico que esse poder tão misterioso para os teóricos alemães, será abolido pela supressão do atual estado social, pela revolução comunista e pela abolição da propriedade privada que lhe é inerente; a libertação de cada indivíduo em particular realizar-se-á então na medida em que a história se for convertendo totalmente em história mundial. A partir daqui, é evidente que a verdadeira riqueza intelectual do indivíduo depende apenas da riqueza das suas relações reais. Só desta forma se poderá libertar cada indivíduo dos seus diversos limites nacionais e locais, depois de entabular relações práticas com a produção do mundo inteiro (incluindo a produção intelectual) e de se encontrar em estado de poder se beneficiar da produção do mundo inteiro em todos os domínios (criação dos homens). A dependência universal, essa forma natural da cooperação dos indivíduos a escala da história mundial, será transformada pela revolução comunista em controlo e domínio consciente desses poderes que, engendrados pela ação recíproca dos homens uns sobre os outros, se lhes impuseram e os dominaram até agora como se se tratasse de poderes absolutamente estranhos.” (Karl Marx e F. Engels – A Ideologia Alemã, 1846)


ABOLIÇÃO DO TRABALHO

“Não se trata de libertar o trabalho, mas de aboli-lo.” (Karl Marx – A Ideologia Alemã, 1846)

“Em todas as revoluções anteriores, permanecia inalterado o modo de atividade e procedia-se apenas a uma nova distribuição dessa atividade, a uma nova repartição do trabalho entre outras pessoas; a revolução comunista é, pelo contrário, dirigida contra o modo de atividade anterior – suprime o trabalho e acaba com a dominação de todas as classes pela supressão das próprias classes – pois é realizada pela classe que, no âmbito da atual sociedade, já não é considerada como uma classe dentro dessa sociedade e constitui a expressão da dissolução de todas as classes, de todas as nacionalidades. […]” (Karl Marx e F. Engels – A Ideologia Alemã, 1846)

“Logo, enquanto os servos fugitivos apenas pretendiam desenvolver livremente as suas condições de existência já estabelecidas e fazê-las valer, mas conseguiam quando muito o trabalho livre, os proletários, se pretendem afirmar-se como pessoas, devem abolir a sua própria condição de existência anterior, que é simultaneamente a de toda a sociedade até aos nossos dias, isto é, devem abolir o trabalho. Por este motivo, eles encontram-se em oposição direta à forma que os indivíduos da sociedade escolheram até hoje para expressão de conjunto, quer dizer, em oposição ao Estado, sendo-lhes necessário derrubar esse Estado para realizar a sua personalidade.” (Karl Marx e F. Engels – A Ideologia Alemã, 1846)

“[…] o trabalhador é o escravo do capital, ele é uma “mercadoria”, um valor de troca cujo nível mais alto ou mais baixo, cuja alta ou baixa, depende da concorrência, da oferta e da procura; […] sua atividade não é uma livre manifestação de sua vida humana, mas é, sim, uma mascatear de suas forças, uma alienação (venda) para o capital de suas habilidades unilateralmente desenvolvidas, em suma, ela é “trabalho”. Esquece-se disso. O “trabalho” é a base viva da propriedade privada, é a propriedade privada enquanto fonte criativa de si mesma. A propriedade privada não passa de trabalho objetivado. Se desejamos dar um golpe mortal na propriedade privada, é preciso atacá-la não apenas enquanto um estado de coisas material, mas também como atividade, como trabalho. É um dos maiores equívocos falar em trabalho livre, humano, social,  trabalho sem propriedade privada. O “trabalho”  por sua própria natureza é atividade não livre, desumana, não social, determinada pela propriedade privada e criadora da propriedade privada. Por isso, a abolição da propriedade privada se tornará uma realidade somente quando ela for concebida como abolição do “trabalho” (uma abolição que, é claro, só se tornou possível como resultado do próprio trabalho, ou seja, tornou-se possível como resultado da atividade material da sociedade e que em nenhum caso deve ser concebida como a substituição de uma categoria por outra). Uma “organização do trabalho”, portanto, é uma contradição nos termos. A melhor organização que ao trabalho pode ser dada é a atual organização, a livre concorrência, a dissolução de toda a sua prévia organização aparentemente “social”.” (Karl Marx, Rascunho de um artigo sobre um livro de Friedrich List, 1845)

SUPERAÇÃO DO TRABALHO PELA MANIFESTAÇÃO DE SI (AUTO-EXPRESSÃO, AUTO-ATIVIDADE) E SURGIMENTO DE RELAÇÕES DOS INDIVÍDUOS ENQUANTO INDIVÍDUOS 

“Para nós, o comunismo não é um estado de coisas que deva ser implantado, nem um ideal a que a realidade deva obedecer. Chamamos comunismo ao movimento real que supera o atual estado de coisas. As condições deste movimento resultam das premissas atualmente existentes.” (Karl Marx e F. Engels – A Ideologia Alemã, 1846)

“Chegamos pois ao ponto de os indivíduos se verem obrigados a apropriarem-se da totalidade das forças produtivas existentes, não apenas para conseguirem manifestar o seu eu, mas sobretudo para assegurar a sua existência. Esta apropriação é, antes de tudo, condicionada pelo objeto a apropriar, neste caso as forças produtivas desenvolvidas ao ponto de constituírem uma totalidade e existindo unicamente no âmbito das trocas mundiais. Sob este ângulo, esta apropriação deve necessariamente apresentar um caráter universal correspondente às forças produtivas e às trocas. A apropriação destas forças consiste no desenvolvimento das capacidades [ou faculdades] individuais que de algum modo correspondem aos instrumentos materiais de produção. Por isso mesmo, a apropriação de uma totalidade do instrumentos de produção constitui já o desenvolvimento de uma totalidade de faculdades nos próprios indivíduos. Esta apropriação é ainda condicionada pelos indivíduos que apropriam. Só os proletários da época atual, totalmente excluídos de qualquer manifestação de si, se encontram em condições de poderem alcançar uma manifestação de si total, não limitada, que consiste na apropriação de uma totalidade de forças produtivas e no desenvolvimento de uma totalidade de faculdades que isso implica. Todas as apropriações revolucionárias anteriores foram limitadas; os indivíduos cuja manifestação de si era limitada por um instrumento de produção limitado e trocas limitadas, apropriavam-se desse instrumento de produção limitado e só conseguiam, desse modo, atingir uma nova limitação. Apropriavam-se do seu instrumento de produção mas continuavam subordinados à divisão do trabalho e ao seu próprio instrumento de produção. Em todas as apropriações anteriores havia uma subordinação de uma massa de indivíduos a um único instrumento de produção; na apropriação pelos proletários, é uma massa de instrumentos de produção que é necessariamente subordinada a cada indivíduo, ficando a propriedade subordinada a todos eles. As trocas mundiais modernas só podem estar subordinadas aos indivíduos se o estiverem a todos. 

A apropriação é também condicionada pela forma específica que deve necessariamente revestir. Com efeito, só poderá ser levada a cabo mediante uma união que, dado o caráter do próprio proletariado, é obrigatoriamente universal; só se efetuará através de uma revolução que, por um lado, derrubará o poder do modo de produção e de troca anterior assim como o poder da estrutura social precedente, e que por outro lado desenvolverá o caráter universal do proletariado e a energia que lhe é necessária para consumar essa apropriação. Trata-se portanto de uma revolução em que o proletariado se libertará de tudo o que ainda lhe resta da sua posição social anterior. 

É apenas nesta fase que a manifestação de si coincide com a vida material; essa fase corresponde à transformação dos indivíduos em indivíduos completos e à superação de tudo o que lhes foi originariamente imposto pela natureza; corresponde-lhe a transformação do trabalho em manifestação de si e a metamorfose das relações até então condicionadas em relações dos indivíduos enquanto indivíduos. Com a apropriação da totalidade das forças produtivas pelos indivíduos unidos, é abolida a propriedade privada. ” (Karl Marx  e F. Engels – A Ideologia Alemã, 1846)†

PRESSUPOSTOS PRÁTICOS

“[A] “alienação”, para usarmos um termo compreensível aos filósofos, só pode ser superada, evidentemente, sob dois pressupostos práticos. Para que ela se torne um poder “insuportável”, quer dizer, um poder contra o qual se faz uma revolução, é preciso que ela tenha produzido uma massa da humanidade como absolutamente “sem propriedade” e, ao mesmo tempo, em contradição com um mundo de riqueza e de cultura existente, condições que pressupõem um grande aumento da força produtiva, um alto grau de seu desenvolvimento – e, por outro lado, esse desenvolvimento das forças produtivas (no qual já está contida, ao mesmo tempo, a existência empírica humana, dada não no plano local, mas no plano histórico-mundial) é um pressuposto prático absolutamente necessário, pois sem ele apenas se generaliza a escassez e, portanto, com a carestia, as lutas pelos gêneros necessários recomeçariam e toda a velha imundice acabaria por se restabelecer; além disso, apenas com esse desenvolvimento universal das forças produtivas é posto um intercâmbio universal dos homens e, com isso, é produzido simultaneamente em todos os povos o fenômeno da massa “sem propriedade” (concorrência universal), tornando cada um deles dependente das revoluções do outro; e, finalmente, indivíduos empiricamente universais, histórico-mundiais, são postos no lugar dos indivíduos locais. Sem isso, 1) o comunismo poderia existir apenas como fenômeno local; 2) as próprias forças do intercâmbio não teriam podido se desenvolver como forças universais e, portanto, como forças insuportáveis; elas teriam permanecido como “circunstâncias” doméstico-supersticiosas; e 3) toda ampliação do intercâmbio superaria o comunismo local. O comunismo só é empiricamente possível como ação “rápida” e simultânea dos povos, o que pressupõe o desenvolvimento universal da força produtiva e as trocas mundiais que lhe estejam estreitamente ligadas.” (Karl Marx e F. Engels – A Ideologia Alemã, 1846)

“A concorrência isola os indivíduos uns dos outros, não apenas os burgueses, mas também, e mais ainda, os proletários, se bem que os concentre. É por este motivo que decorre sempre um longo período antes que estes indivíduos se possam unir, abstraindo do fato de que – se se pretender que a sua união não seja puramente local – esta exige previamente a construção dos meios necessários, pela grande indústria, tais como as grandes cidades industriais e as comunicações rápidas e baratas, razões por que todo poder organizado em face desses indivíduos que vivem isolados e em relações que quotidianamente reproduzem o isolamento só pode ser vencido após longas lutas. Exigir o contrário equivaleria a exigir que a concorrência não devesse existir em determinada época histórica ou que os indivíduos inventassem condições sobre as quais não têm qualquer controle enquanto indivíduos isolados.” (Karl Marx e F. Engels  – A Ideologia Alemã, 1846)

“O proletariado só pode portanto existir à escala da história universal, assim como o comunismo, que é o resultado da sua ação, só pode concretizar-se enquanto existência “histórico-universal”. Existência histórico-universal dos indivíduos, isto é, existência dos indivíduos diretamente ligada à história universal.” (Karl Marx e F. Engels  – A Ideologia Alemã, 1846)

“A classe trabalhadora ou é revolucionária ou não é nada”. (Karl Marx. Carta a K.B. Schweitzer, 1865)

“A SOCIEDADE” E “A HISTÓRIA” NÃO FAZEM NADA

“A História não faz nada, não ´possui nenhuma riqueza imensa´, não ´luta nenhum tipo de luta´! Quem faz tudo isso, quem possui e luta é, na verdade, o homem, o homem real, que vive; não é, por certo, a ´História´que utiliza o homem como meio para alcançar seus fins – como se tratasse de uma pessoa à parte -, pois a História não é senão a atividade do homem que persegue seus objetivos.” (Marx e Engels, A Sagrada Família – Crítica da Crítica Crítica, 1845)

“Acima de tudo, é mister evitar conceber a “sociedade” uma vez mais como uma abstração com que se defronta o indivíduo. O indivíduo é o ser social. A manifestação da vida dele – ainda quando não apareça diretamente sob a forma de manifestação comunal, realizada em associação com outros homens – é, por conseguinte, uma manifestação e afirmação de vida social. A vida humana individual e a vida-espécie não são coisas diferentes, conquanto o modo de existência da vida individual seja um modo mais especifico ou mais geral da vida-espécie, ou da vida-espécie seja um modo mais específico ou mais geral da vida individual.”  (Karl Marx, Manuscritos econômicos e filosóficos, 1844)

A AUTO-ABOLIÇÃO DO PROLETARIADO

“Na formação de uma classe com cadeias radicais, de uma classe da sociedade burguesa que não é uma classe da sociedade burguesa; de um estamento que é a dissolução de todos os estamentos; de uma esfera que possui um caráter universal por seus sofrimentos universais e que não reclama nenhum direito especial para si, porque não se comete contra ela nenhuma violência especial, senão a violência pura e simples; que já não pode apelar a um título histórico, mas simplesmente ao título humano; que não se encontra em nenhuma espécie de contraposição particular com as conseqüências, senão numa contraposição universal com as premissas do Estado alemão; de uma esfera, finalmente, que não pode emancipar-se sem se emancipar de todas as demais esferas da sociedade e, simultaneamente, de emancipar todas elas; que é, numa palavra, a perda total do homem e que, por conseguinte, só pode atingir seu objetivo mediante a recuperação total do homem. Esta dissolução da sociedade como uma classe especial é o proletariado.

O proletariado só começa a surgir na Alemanha, mediante o movimento industrial que desponta, pois o que forma o proletariado não é a pobreza que nasce naturalmente, mas a pobreza que se produz artificialmente; não é a massa humana oprimida mecanicamente pelo peso da sociedade, mas aquela que brota da aguda dissolução desta e, em especial, da dissolução da classe média, ainda que gradualmente, como se compreende, venham a incorporar-se também a suas fileiras a pobreza natural e os servos cristãos-germânicos da gleba.” (Karl Marx, Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, 1843)

“Proletariado e riqueza são antíteses. E nessa condição formam um todo. Ambos são formas do mundo da propriedade privada. Do que aqui se trata é da posição determinada que um e outro ocupam na antítese. Não basta esclarecê-los como os dois lados – ou extremos – de um todo.

A propriedade privada na condição de propriedade privada, enquanto riqueza, é obrigada a manter sua própria existência e com ela a existência de sua antítese, o proletariado. Esse é o lado positivo da antítese, a propriedade privada que se satisfaz a si mesma.

O proletariado na condição de proletariado, de outra parte, é obrigado a suprassumir a si mesmo e com isso à sua antítese condicionante, aquela que o transforma em proletariado: a propriedade privada. Esse é o lado negativo da antítese, sua inquietude em si, a propriedade privada que dissolve e se dissolve.

A classe possuinte e a classe do proletariado representam a mesma autoalienação humana. Mas a primeira das classes se sente bem e aprovada nessa autoalienação, sabe que a alienação é seu próprio poder e nela possui a aparência de uma existência humana; a segunda, por sua vez, sente-se aniquilada nessa alienação, vislumbra nela sua impotência e a realidade de uma existência desumana. Ela é, para fazer uso de uma expressão de Hegel, no interior da abjeção, a revolta contra essa abjeção, uma revolta que se vê impulsionada necessariamente pela contradição entre sua natureza humana e sua situação de vida, que é a negação franca e aberta, resoluta e ampla dessa mesma natureza.

Dentro dessa antítese o proprietário privado é, portanto, o partido conservador, e o proletário o partido destruidor. Daquele parte a ação que visa a manter a antítese, desse a ação de seu aniquilamento.

Em seu movimento econômico-político, a propriedade privada se impulsiona a si mesma, em todo caso, à sua própria dissolução; contudo, apenas através de um desenvolvimento independente dela, inconsciente, contrário a sua vontade, condicionado pela própria natureza da coisa: apenas enquanto engendra o proletariado enquanto proletariado, enquanto engendra a miséria consciente de sua miséria espiritual e física, enquanto engendra a desumanização consciente – e portanto suprassunsora – de sua própria desumanização. 

O proletariado executa a sentença que a propriedade privada pronuncia sobre si mesma ao engendrar o proletariado, do mesmo modo que executa a sentença que o trabalho assalariado pronuncia sobre si mesmo ao engendrar a riqueza alheia e a miséria própria. Se o proletariado vence, nem por isso se converte, de modo nenhum, no lado absoluto da sociedade, pois ele vence de fato apenas quando suprassume a si mesmo e à sua antítese. Aí sim tanto o proletariado quanto sua antítese condicionante, a propriedade privada, terão desaparecido.” (Marx e Engels, A Sagrada Família – Crítica da Crítica Crítica, 1845)

CONTRA O COMUNISMO VULGAR

“No comunismo vulgar, a comunidade é só uma comunidade de trabalho e de igualdade de salários pagos pelo capital comunal, pela comunidade como capitalista universal. Os dois aspectos da relação são elevados a uma suposta universalidade; o trabalho como uma situação em que todos são colocados, e o capital como a universalidade e poder admitidos na comunidade.

[…] A posse física imediata parece-lhe a única meta da vida e da existência. O papel do trabalhador não é abolido, mas ampliado a todos os homens. A relação da propriedade privada continua a ser a da comunidade com o mundo das coisas. […] Esse comunismo, que nega a personalidade do homem em todos os setores, é somente a expressão lógica da propriedade privada, que é essa negaçãoA inveja universal estabelecendo-se como uma potência é apenas uma forma camuflada de cupidez que se reinstaura e satisfaz de maneira diferente. Os pensamentos de toda propriedade privada individual são, no mínimo, dirigidos contra qualquer propriedade privada mais abastada, sob a forma de inveja e do desejo de reduzir tudo a um nível comum; destarte, essa inveja e nivelamento por baixo constituem, de fato, a essência da competição. O comunismo vulgar é apenas o paroxismo de tal inveja e nivelamento por baixo, baseado em um mínimo preconcebido. Quão pouco essa eliminação da propriedade privada representa uma apropriação genuína é demonstrado pela negação abstrata de todo o mundo da cultura e da civilização, e pelo retorno â simplicidade inatural do pobre e indigente que não só ainda não ultrapassou a propriedade privada, mas nem ainda a atingiu.” (Karl Marx, Manuscritos econômicos e filosóficos, 1844)

Veja também mais trechos de clássicos:

Comentários sobre James Mill (trechos) (Karl Marx, 1844)
Rascunho de artigo sobre um livro de Friedrich List (trechos) (Karl Marx, 1845)
Anarquia e Comunismo (Carlo Cafiero, 1880)
Le Humanisphère (trechos) (Joseph Déjacque, 1857)
Sobre a troca (Joseph Déjacque, 1858)
L´Humanitaire (1841), a primeira publicação comunista libertária
A atração apaixonada (trechos) (Charles Fourier, 1808-1858)


Memes motivacionais de auto-ajuda

Reunimos neste link diversos memes motivacionais de auto-ajuda. Abaixo, alguns deles:

Foto: pequena empreendedora, muito feliz, gerando muito valor nas trocas voluntárias da era dourada do capitalismo ideal (revolução industrial).

A gamificação do comando: "Crédito social"

Os sistemas de gamificação da sujeição dos proletários aos comandos da classe proprietária (estatal ou particular) avançam. Um exemplo está sendo desenvolvido na China: o “Sesame Credit”, que  pontua cada um em rankings de “crédito social”. Para mais detalhes, veja os links: China ‘social credit’: Beijing sets up huge system (BBC) e China’s ‘Social Credit’ System: Turning Big Data Into Mass Surveillance  (The Wall Street Journal).

Mas já há 172 anos,  essa tendência já tinha sido descrita por Marx:

“O crédito é o julgamento que a Economia Política realiza sobre a moralidade de um homem. No crédito, em lugar do metal ou do papel, é o próprio homem que se torna o mediador da troca – não como homem, mas como modo de existência de um capital e de seus juros. […]  Não é o dinheiro que se suprime no homem no interior do sistema creditício; é o próprio homem que se converte em dinheiro ou, noutra expressão, é o dinheiro que se encarna no homem. A individualidade humana, a moral humana, transformam-se, simultaneamente, em artigo de comércio e na existência material do dinheiro. Em lugar do dinheiro, do papel, é a minha existência pessoal, a minha carne e o meu sangue, a minha virtude social e a minha reputação social que se tornam a matéria e o corpo do espírito do dinheiro. O crédito calcula o valor monetário não em dinheiro, mas em carne e coração humanos. […]  quanto àquele que não recebe crédito, não é julgado apenas como um pobre, mas também moralmente, como quem não merece confiança nem estima, um pária, um homem mau – à miséria do pobre soma-se a humilhação de rastejar para mendigar crédito ao rico; 3) dada essa existência completamente ideal ao dinheiro, o homem pode praticar a falsificação monetária não só sobre qualquer matéria, mas ainda sobre a sua pessoa: o próprio homem, forçado a falsificar sobre si mesmo, deve simular, mentir etc. para obter crédito; assim, o crédito se torna – tanto para quem o concede quanto para quem o solicita – objeto de tráfico, de engano e de abuso mútuos. Aqui se revela, com toda a clareza, como, na base dessa confiança econômica, estão: a desconfiança, o cálculo suspeitoso para conceder ou negar o crédito; a espionagem em busca dos segredos da vida privada do solicitante; a denúncia de dificuldades momentâneas de um concorrente para desacreditá-lo etc. – todo esse sistema de falências e empresas falsas…” (Marx, Cadernos de Paris, 1844)

Sobre a gamificação do comando, em agosto de 2016, logo após o Pokemon Go ter sido lançado, analisamos essa tendência:

“O Pokemon Go, aparentemente, faz as pessoas ficarem viciadas em saírem na rua para cumprir objetivos postos não por elas mesmas, mas pela empresa, obedecendo aos comandos dos proprietários do jogo. Ao mesmo tempo, as faz pagar em dinheiro pela “comida” que faz seus pokemons mais fortes, para avançar no jogo.

E já existem aplicativos, como o “TaskRabbit”, que estendem a “uberização” para qualquer tipo de “serviço”, de modo que é fácil ver nele uma tendência em que a classe proprietária tem sob seu comando uma imensa massa de proletários que já nem sequer tem “empregos” , mas sobrevivem se oferecendo como coisa usável e descartável num piscar de olhos através de aplicativos.

E o facebook (com o também seu  WhatsApp) já conhecemos: monopolizou a comunicação humana, submetendo-a à eterna vigilância, infantilização familista generalizada, e aos ditames dos proprietários.

Esse curta abaixo mostra essa tendência de “gamificação”, “facebookização” e “uberização” de tudo, estendendo o trabalho para a totalidade da vida,  em que o dinheiro é renomeado como “pontos” e o trabalho (e o  lazer, que se torna uma palavra vazia) se torna cumprimento de “missões”, como num jogo, tudo sob o comando da classe proprietária:

HYPER-REALITY from Keiichi Matsuda on Vimeo.

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