Dissecando a metafísica da escassez

Anteriormente, criticamos a ideologia da escassez do ponto de vista da transformação da vida cotidiana [1], ou seja, na perspectiva concreta da práxis social-histórica; no entanto, alguns acreditam que, independentemente disso, a escassez continuaria válida como característica inerente ao tempo e ao espaço, como fundamento metafísico (geralmente usam o conceito termodinâmico de “entropia” para fundamentar essa ideia). Com isso, alguns supõem que, nesse universo entrópico, cada ser específico se pauta pela competição recíproca pela escasso, e, consequentemente, também os seres humanos e as sociedades, o que faria a forma social que a escassez toma, a propriedade privada (e, portanto, a sociedade de classes, o trabalho, o Estado e o capital), ter um fundamento eterno, cósmico e imutável. Neste texto, procuraremos criticar essa metafísica de um ponto de vista especificamente filosófico, físico e antropológico.

ANAXIMANDRO E DEMÓCRITO

A primeira expressão filosófica da metafísica da escassez que conhecemos foi exposta por Anaximandro, que dizia que o nascimento dos seres é dívida, e que portanto a vida é paga com a morte:

Todas as coisas se dissipam onde tiveram a sua gênese, conforme a necessidade; pois pagam umas as outras o castigo e a expiação pela injustiça, conforme a determinação do tempo.” (fragmento 1 de Anaximandro).

[Obs.: É evidente que essa visão moralista da natureza é uma continuidade dos mitos gregos de Diké e Nêmesis, deusas que personificam a “justiça”, a retribuição inelutável, a dívida inescapável, e que inexoravelmente “dá a cada um o que lhe é devido”. Como veremos, a metafísica da escassez continua até os tempos atuais fundamentalmente religiosa, mítica ou mesmo animista.]

De Anaximandro até nós, a maioria das filosofias se baseou em alguma metafísica da dívida, da troca de equivalentes, das recompensas e punições. Nos tempos modernos, o representante talvez mais respeitado (por causa de suas pretensões científicas) dessa metafísica é o entropismo, ideologia que afirma que, sendo o aumento da entropia (portanto, a morte) a regra geral do universo, cada ser é explicado por estar energeticamente submetido a uma relação de austeridade e dívida energética a ser estritamente equilibrada, compensada, paga no futuro.

Porém, uma outra corrente, subterrânea na história da filosofia, também se expressou ao menos desde a Grécia antiga: Demócrito e os demais materialistas afirmavam, de modo geral, que, se existimos, é porque somos gratuitos, supérfluos, já que não haveria nenhum sentido anterior à própria existência: seríamos fruto do acaso (Diné de Demócrito, Clinamen de Lucrécio) – e a necessidade (e portanto, o tempo) é a consistência de cada existente pela qual ele dura, expressa e desdobra essa gratuidade de, em e além de cada ser singular, ou seja, é sua liberdade. [2]

Desse modo, reconhecendo que a “regra geral da natureza” é a decomposição, destruição, aumento da entropia (p. ex., o tempo –  verificado pela morte, a que tudo está mais cedo ou mais tarde submetido – e o espaço – os corpos não ocupam o mesmo lugar etc – esse primeiro esboço do conceito de entropia já era conhecido pelos materialistas antigos), os materialistas concluem, ao contrário do que pensava Anaximandro,  que isso significa que cada ser específico que surge e perdura nesse universo se fundamenta na gratuidade, desperdício, superfluidade, dissipação.

Essa afirmação fica clara levando-se em conta o modo como os materialistas explicam o mundo: o tempo todo, no universo, incontáveis eventos ou composições (no caso, os atomistas pensavam nas combinações entre os átomos) acontecem simultaneamente, mas como a esmagadora maioria dessas composições não encontra consistência, elas não perduram, se decompõem e se dissipam rapidamente. Por esta razão, é improvável, raro, que algo singular exista além da decomposição praticamente instantânea. A improbabilidade de surgirem e existirem as exatas coisas singulares que percebemos perdurarem e se desenvolverem a nossa volta, assim como nós mesmos, é ainda maior, é praticamente infinita. É por isso que cada ser singular que surge e perdura no universo é gratuito, sem dívida, sem culpa, porque não possui nenhum sentido singular pré-escrito na “lei geral da natureza”, que é destruição dissipativa. Ou seja, é pela gratuidade, é pela superfluidade que existimos, agimos e criamos. Não devendo nada a alguma lei transcendental de escassez geral, até porque, na verdade, o que é geral não é escassez, mas abundância destrutiva, superfluidade dissipativa, “lei geral” que é responsável pela destruição, ao fim inevitável, mas não pela geração nem pela duração e tampouco pelo desenvolvimento dos seres (como diziam Lucrécio e Epicuro, na prática, “a morte não é nada para nós”). [3]

[Obs.: Não é difícil perceber que a ciência moderna, quando despida das intepretações que dão um viés escassista a ela, mostra que não é a austeridade contábil da troca de equivalentes, mas o desperdício e a dissipação é que é o fundamento de cada ser específico que surge e persiste.
Um exemplo básico é o do fluxo termodinâmico sol-> planeta Terra->seres vivos [4]: o sol dissipa uma imensamente colossal quantidade de energia pra todo lado sob a forma de partículas e ondas eletromagnéticas (uma parte da qual é a luz). Quase tudo isso é desperdiçado em direção ao vazio espacial. Uma pequenina parte dessa energia desperdiçada do sol, mas ainda colossal, se dissipa por acaso na Terra. A Terra dissipa igualmente essa energia para todo lado, enquanto uma parte é desperdiçada nas bactérias e plantas que fazem fotossíntese. As bactérias e plantas também dissipam abundantemente “à toa”, e parte dessa dissipação é desperdiçada nas outras bactérias, insetos e herbívoros que as devoram com superfluidade. Estes últimos são desperdiçados nos predadores, que também devoram uns aos outros avidamente, num gritantemente notório desperdício vão de energia. E parte da dissipação de todos esses seres, por sua vez, é desperdiçada nos humanos, que também desperdiçam essa energia “à toa”, criando gratuitamente suas relações, a sociedade, a indústria, o conhecimento, a arte, a linguagem, cidades, imaginação, engenhosidade etc.
Apesar de no modelo explicativo dos materialistas antigos não existir ainda essa visão termodinâmica, ela é em grande parte compatível. O sol, como tudo mais (inclusive nós), é considerado uma composição de átomos surgida fortuitamente em determinado momento, e que está se desintegrando continuamente, se dissipando para todo lado até morrer (sua luz é o resultado dessa desintegração). Porém, se quisermos deter o desperdício (acumulando,  “conservando”), o resultado é que o sol morreria mais rápido, ou até instantaneamente numa explosão, e não teria tempo para “sua natureza”, suas ricas potencialidades qualitativas, se desenvolverem e se expressarem ao máximo.]

Contudo, essa visão global não é e nem pretende ser “reconfortante”. Ela não fornece nenhum princípio ético e tampouco qualquer modelo para uma sociedade melhor. Dado que a “lei geral da natureza” é abundância destrutiva, desperdício dissipativo, a ideia de “ordem natural” (ou “equilíbrio natural”), ideia que pressupõe a crendice em alguma espécie de “mão invisível”, é uma infeliz invenção da imaginação humana. Ela simplesmente não existe na natureza.

O CREDO NA “MÃO INVISÍVEL”  (OU “ORDEM NATURAL”, “EQUILÍBRIO NATURAL”): MORALISMO E TEODICEIA

O fato é que a natureza é incessante desequilíbrio cego e indiferente, um conjunto de forças completamente insensíveis ao sofrimento, assassinato, tortura, abundância, escassez, e à própria vida de todos os seres vivos. Além da história de catástrofes sem fim da geologia e atmosfera do planeta terra, assim como dos planetas, asteroides, sois e cometas, basta observar a notória superfluidade destrutiva da cadeia alimentar. Mais de 99,99% dos seres vivos vive de ferir e/ou devorar outros seres vivos, a tal ponto que nem sequer os seres mais inofensivos da cadeia alimentar, como as plantas, são “pacíficos”, mas venenosos para outros (traduzindo: assassinos; aliás são dos venenos das plantas que vem todas as propriedades medicinais delas que usamos graças à nossa ciência, empiria e técnica), espinhentos (traduzindo: torturadores), monstros vorazes para muitos outros pequenos seres ingênuos que metem seus bedelhos neles (fungos e bactérias, por exemplo, atacados pelo sistema imunológico vegetal)  etc. Isso sem falar da interminável competição cega dos seres por nichos que extinguiu 99,99% de todas as espécies que já existiram na terra desde o surgimento da vida. Até mesmo uma das moléculas mais básicas necessária à nossa vida atual na terra, o oxigênio, um gás venenoso para os primeiros seres vivos, foi introduzida “artificialmente” na atmosfera (antes predominantemente de CO2) pelos primeiros seres a fazer fotossíntese (provavelmente cianobactérias), levando a uma extinção em massa colossal.

Por outro lado, justamente porque o desperdício destrutivo é a regra geral da natureza, cada ser singular que existe e persiste necessariamente se pauta, ao contrário, pelo desperdício construtivo, criativo, afirmativo, pelo qual afirma sua existência [5]. Porém, a medida em que cada uma dessas abundâncias afirmativas singulares se expressa em um meio comum indiferente e cego, o resultado de suas expressões tende a se voltar contra elas mesmas, ou seja, nessas circunstâncias cegas ocorre o efeito colateral de a afirmação de cada uma tender a decompor e negar a afirmação das outras e, daí, cada uma nega a si mesma mediante as outras. Isso porque, se as expressões construtivas continuarem afirmando essas circunstâncias cegas e indiferentes para se expressarem, elas intensificam as condições que as obrigam a deter a expressão do dinamismo de sua riqueza, a conter a abundância de suas relações com os outros, a se embotar, acumular, competir, se privar e, por fim, a se engajar na destruição supérflua de si própria.

A metafísica da escassez, no entanto, “naturaliza” essas circunstâncias, santifica esse estado de coisas cego, até o ponto de extrair dele todo um “moralismo da escassez” que busca justificar e exaltar o sofrimento, esgotamento, tortura e morte como “feedback negativo” (retroalimentação negativa) objetivamente necessário à conservação, preservação e regulação “holísticas” da natureza e da sociedade. É uma verdadeira teodiceia, uma autêntica religião, esse culto da “mão invisível”.

Não é por nenhuma “regra geral da natureza”, nenhum “holismo”, mas apenas a partir das abundâncias afirmativas singulares que a espécie humana – cuja singularidade é que seus indivíduos são capazes de desejar, pensar, se comunicar e agir – pode desenvolver uma ética e, portanto, um projeto de transformação tanto das relações sociais quanto de suas condições naturais. Se somos supérfluos, então é completamente arbitrária qualquer ideia de dívida ou culpa, de justificativas, teodiceias, assim como qualquer remuneração por qualquer tipo de equivalência de “valor”, pois não há qualquer ser transcendente que “retribua à cada um a sua parte”. Pelo contrário, se os singulares são supérfluos é precisamente porque se justificam por si sós, pela sua simples existência, composição e expressão.

Trata-se então, para os seres humanos, de transformar as circunstâncias de modo que, nelas, as capacidades e necessidades humanas possam se afirmar como válidas por si sós, e não mais como instrumentos, meios e objetos de julgamento e retribuição conforme uma maior ou menor obediência a um fim pré-determinado (valor, mercado, propriedade privada, Estado, religião, identidade, nacionalidade, gênero etc). A liberdade é a necessidade irretribuível de cada singular, porque eles e suas expressões valem por si mesmos, são fins em si. Portanto, liberdade é: “de cada um segundo suas capacidades, à cada um segundo suas necessidades”. [6]

[Obs.: Isso contrasta com a ideia equivocada de que liberdade é livre-arbítrio. Livre-arbítrio nada mais é do que escolha de elementos em circunstâncias pré-estabelecidas, aceitando essas circunstâncias como imutáveis. Essa liberdade é ilusória, já que a imposição do livre-arbítrio, da livre-escolha, é a base de qualquer relação de dominação. Isso porque o único modo da classe dominante colocar-se como dominante é tendo o poder de retribuir, com prêmios ou reprimendas, a submissão maior ou menor dos dominados, o que só é possível se eles dão aos dominados a liberdade de escolher, entre duas ou mais coisas, caminhos ou ações predeterminadas, pré-fabricadas, pré-armadas pelos dominadores. Somente assim podem julgar quem é mais ou menos obediente (julgar o “livre arbítrio” ou “deliberação”, “esforço”, “mérito” deles), retribuindo a cada um em vistas a intensificar as circunstâncias de competição que levam os explorados a continuarem ou até aumentarem sua sujeição. Livre-arbítrio implica sempre em submissão às condições pré-estabelecidas de escolha. A verdadeira liberdade, pelo contrário, só começa pela transformação das circunstâncias, das condições de existência. Ou seja, liberdade pressupõe que essas condições deixem de ser propriedade privada (abolindo assim do poder dos dominadores) e se tornem as condições comuns da livre expressão prática dos indivíduos livremente associados sem fronteiras (comunismo).]

Como já expomos em outro texto uma ética imanente, materialista [7], trataremos agora das alegações pretensamente científicas dos adeptos da metafísica da escassez, em especial o entropismo.

FETICHISMO DA MERCADORIA, CIÊNCIA E CIENTIFICISMO NA IDEOLOGIA DA ESCASSEZ

Que os seres já surgidos comecem inevitavelmente a se desintegrar, a se dissipar até desaparecerem (entropia), não há dúvidas disso. Mas essa, como vimos, não é toda a história. Porque há também atividade, atuação: essa dissipação supérflua pode gerar (ou não) outros seres singulares (dentro e/ou fora de dele mesmo e/ou entre e/ou além) igualmente supérfluos, assim como aqueles seres que já tinham surgido também foram gerados pela dissipação supérflua de outros seres que confluíram nele e o compuseram. É nessa parte da história (e não na parte “status quo em perigo”) que está tudo que conhecemos, fazemos, experimentamos e nós mesmos. A atual ideologia da escassez com pretensões científicas é míope, porque ela se ocupa exclusivamente da dimensão de dissipação estéril dos seres já surgidos, só enxergando formas pré-existentes, e generalizando isso na visão de um universo austero regulado pela troca de equivalentes, numa competição pela escassez que recompensa ou reprime conforme um padrão pré-estabelecido, transcendente. Com isso, essa ideologia é incapaz de se dar conta do surgimento, da atividade, do vir-a-ser, do devir, mas apenas do “status quo”, do já existente.

Em que se baseia essa miopia? Ou melhor, epistemologicamente, em que situação material, a atividade, o devir, não podem aparecer, ficando ocultos? Isso só é imaginável numa circunstância material em que cada devir ou atividade singular é separado e isolado dos outros, de suas relações específicas, e unificados sob uma mesma forma geral pré-existente.

É precisamente assim a sociedade capitalista: as múltiplas atividades singulares assumem a forma de “trabalho”, em que cada devir é privado (propriedade privada) de suas relações para ser incessantemente remetido à comparação com outros (competição) conforme um mesmo padrão geral pré-estabelecido de equivalência quantitativa abstrata: o valor, a troca de mercadorias, o dinheiro, o Estado. Trata-se de uma sociedade em que, privada das condições materiais de atuação, a atividade produtiva humana só é permitida se for serviçal da reprodução ampliada do trabalho morto, do capital, do lucro; em que os produtos das atividades humanas simultâneas que abrangem o mundo inteiro, aparecem aos próprios seres humanos não como expressões de sua atividade associada em escala global, mas, pelo contrário, como se os produtos resultantes fossem dotados de uma existência independente, como propriedade privada, empresa, mercadoria, capital e Estado, em suma, como mercado mundial. Isso porque, privados de suas condições de existência, os seres humanos se tornam impotentes enquanto seres humanos, e, para sobreviver, são forçados a alienar (vender) suas capacidades de agir e de pensar à quem tem a propriedade privada dessas condições; consequentemente, as capacidades humanas são atribuídas às coisas, à propriedade privada, à classe proprietária (os capitalistas, i.e., o empresariado particular e estatal). Os seres humanos encontram suas próprias capacidades como atributos não deles mesmos, mas do dinheiro, da propriedade privada, da empresa e do Estado, personificados como um poder alheio, privado e hostil (o capital) na classe dominante. É uma determinada relação social entre os homens que assume, a seus olhos, a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas (fetichismo da mercadoria). [8]

Então, em um ambiente onde todo devir é incessantemente remetido à reprodução ampliada do trabalho morto, os seres singulares não aparecem socialmente, publicamente, como atividades, mas como rastros, resultados, produtos, mercadorias, instrumentos, “serviços”, “trabalhos”.

E nesse ambiente também estão os que fazem ciência. Ninguém tem acesso “sobrenatural” à natureza (se alguém afirma isso, esse alguém é religioso, não cientista), porque inclusive os cientistas são seres naturais. Eles perscrutam a natureza tal como ela lhes aparece, e tal como eles a fazem aparecer mediante instrumentos, metodologias e experimentos. Alguns aspectos do que lhes aparece é realçado e destacado em detrimento de outros pela simples razão de que o que pode aparecer a eles passa inerentemente por suas relações sociais: um cientista pode ser um trabalhador assalariado (ao invés de fazer ciência em livre associação com outros no mundo inteiro que também desejam e fazem ciência como um fim em si, como atividade livre), seus instrumentos, componentes e insumos são comprados (ao invés de terem sido determinados livremente pela sua atividade em associação com outros que, no mundo, desejam produzi-los), e também a determinação e escolha de seus objetos de estudo exprimem necessidades e capacidades humanas formadas e desenvolvidas em específicas relações sociais.

Assim, por exemplo, os conceitos de “trabalho” e “energia” foram separados dos demais conceitos da física e cunhados com esses nomes próprios (tornando-se inclusive os conceitos centrais das ciências naturais) no preciso momento da revolução industrial (séculos XVIII-XIX), quando o capital (que então se tornou produtivo, industrial) colocava a questão de extrair o máximo de trabalho “útil” das forças naturais e humanas disponíveis, com o propósito de aumentar ao máximo a diferença entre os custos de produção e os preços de venda de seus produtos, ou seja, os lucros. Foi a partir do problema do “peso levantado até certa altura” no uso, por empresas mineradoras, dos primeiros motores à vapor para levantar baldes de água de minas alagadas, que, em 1826, Gaspard-Gustave Coriolis introduziu na física o conceito de “trabalho” e seu nome próprio. Já o de “energia”, foi introduzido em 1807, por Thomas Young. Antes disso, os conceitos centrais da física eram os de “momento de inércia” e “força” (como em força da gravidade, força elétrica, força magnética etc) [9].

Isso não quer dizer, é claro, que, no século XIX, a ciência “tenha errado” e nem que esses novos conceitos sejam “falsos”, mas sim que os cientistas perscrutam o mundo, com sua rigorosa metodologia, a partir das circunstâncias com que se deparam, a partir dos problemas e perspectivas que essas circunstâncias colocam. Desse modo, toda ciência que desde o século XIX se desenvolveu a partir dos conceitos de “energia” e “trabalho” (em especial o de “conservação de energia”) realmente foi se tornando cada vez mais capaz de explicar de maneira inigualável e precisa as condições precedentes para qualquer evento. No entanto, é míope para os próprios eventos em questão, porque eles são tomados como formas já existentes, já conhecidas, e não enquanto devires, atividades. A razão disso é que, na sociedade capitalista, como vimos, os seres singulares, humanos e não-humanos, não aparecem socialmente, publicamente, como atividades, como atuações, como devires, mas como rastros, resultados, produtos, mercadorias, instrumentos, “serviços”, “trabalhos”; então, qualquer análise científica objetiva dos seres nesse ambiente (sociedade capitalista) encontra-os apenas como seres privados de e subservientes às suas condições de existência precedentes que se acumulam como trabalho morto, propriedade privada, capital.

No entanto, ao contrário dos cientistas que permanecem rigorosamente objetivos, os adeptos da metafísica da escassez encontram esses conceitos científicos, que expressam objetivamente o que pode ser apreendido da natureza a partir das necessidades e capacidades humanas desenvolvidas na sociedade atual, e se apropriam deles para compor uma religião cientificista que naturaliza, justifica e exalta a (auto)repressão, a máxima coerção ao trabalho, a intensificação da competição, o ascetismo, o exclusivismo e o banimento. Tudo em nome da preservação de um “status quo” que teria sido fruto meritório de um árduo, esforçado, “complexo”, “equilibrado” e sofrido passado cujo questionamento, na opinião deles, poria “tudo a perder”.

IDEOLOGIA APLICADA DA ESCASSEZ: ECONOMIA E ECOLOGIA

Por fim, vale a pena se deter nas peripécias da palavra e do conceito de “economia”, que são muito curiosas. Ela chegou até nós, da Grécia antiga, através da teologia.

Inicialmente, na Grécia, oikonomia era como se designava o comando, a administração (nomos, em grego), pelo pai/senhor (despotes, kyrios), dos escravos/servos de sua propriedade (oikos). Essa propriedade era ao mesmo tempo residencial, agrícola e escravista. Já fora da oikonomia, na polis, a relação entre os proprietários de escravos era chamada polítika, em que os senhores se consideravam iguais (isonomia, isegoria, isokratia). Em contraste, na propriedade escravocrata, no oikos, se constituia a família (oikogéneia), composta por aqueles sobre os quais o despotes tinha poder de vida e de morte: os escravos e servos, entre os quais se incluíam sua mulher e os filhos, além dos fâmulos adquiridos. Este foi o primeiro sentido da palavra. [10]

A seguir, quando o cristianismo se impôs (séculos III-XV) nas regiões em torno do mar Mediterrâneo e depois em toda Europa, o mundo e a humanidade passaram a ser considerados uma propriedade doméstica (oikos) comandada (nomos) por deus (providência). O governo de deus sobre o mundo, a execução pelos homens do comando de deus mediante o poder da igreja, dos reis e dos senhores feudais, a teodiceia (justificação dos sofrimentos e do mal), o gênesis, o plano de salvação e julgamento da humanidade no apocalipse, tudo isso tinha um nome: economia, economia da salvação, economia divina. E este foi o segundo sentido. [11]

Depois, na época do mercantilismo (séculos XV-XVIII), quando o capitalistas começaram a se impor e a transformar o mundo inteiro (colonização de quase todos os continentes etc) através dos Estados mercantilistas (que foram os primeiros Estados no sentido moderno do termo, o de ser uma entidade distinta das castas, da “sociedade civil”) que eles financiaram para impor pela força das armas o comércio e o monopólio de rotas comerciais em todo planeta, as categorias do pensamento religioso, inclusive “economia”, começaram a ser secularizadas. Nesse período, “economia” era como se chamava a administração governamental dos Estados mencantilistas, que eram monarquias absolutistas e que se acreditava serem fundadas por “direito divino” ou pelas bençãos do papa. Tal foi o terceiro sentido. [12]

Por fim, o quarto e último: na revolução industrial, no fim do século XVIII, quando o capital assumiu a produção (que antes era pré-capitalista, enquanto capitalista era apenas o comércio dos produtos), sugindo o capital industrial (graças à imposição do trabalho assalariado, só possível mediante a sistemática separação dos componeses e artesãos de seus antigos meios de vida, formando o proletariado), as categorias do pensamento religioso cristão foram plenamente transcritas para uma “religião secular objetivista”, em que uma curiosa “mão invisível”, por vias indiretas e misteriosas, governaria tanto mais para melhor quanto maiores os sofrimentos, sacrifícios e esgotamentos dos seres humanos privados de meios de produção (proletários) na concorrência desesperada por conseguir sobreviver vendendo a única coisa que ainda possuem, ou seja, a si mesmos, no mercado de trabalho, aos proprietários privados desses meios (capitalistas), em troca do salário. Essa entidade misteriosa (a economia) promoveria tanto maior prosperidade quando mais os proletários se engalfinhassem por obedecer e se sacrificar à classe proprietária.


Então, a palavra “economia”, do berço escravocrata passando por suas vestes teocráticas adultas, desembocou na designação de um tipo de entidade religiosa que não é mais identificada como religiosa, mas como a própria “verdade absoluta”, “a realidade tal como ela é de fato e à qual é dever se curvar”. É uma espécie de neo-animismo [13]. A economia, em suma, é o próprio fetichismo da mercadoria, que surgiu com o domínio do capital sobre a sociedade mundial. Esse domínio se caracteriza pela ditadura da produção pela produção que é o trabalho assalariado, em que, como vimos, os produtos das atividades humanas aparecem aos próprios homens não como resultados de sua atuação associada, mas como uma força independente, autônoma, como se se produzissem, se movessem e se distribuíssem mediante uma lógica própria e misteriosa: “sistema de preços”, “oferta e procura”, “mão invisível”, “destruição criadora”, “demanda agregada” etc.

Por outro lado, se a economia é uma teodiceia, justificando os sofrimentos, sacrifícios e males em nome de algo imaginário que por vias misteriosas promoveria o bem geral, não menos pior é a ecologia.

O movimento ecológico moderno se baseia em conceitos da “cibernética”, “holística” e “teoria de sistemas” (todos eles variantes da metafísica da escassez) visando reestabelecer politicamente o “equilíbrio natural”, a “sustentabilidade”, a “homeostase” do organismo holístico que seria a natureza como um todo. O processo homeostático em questão englobaria todos os seres, os quais, nas suas interações, estabelecem “feedbacks negativos” (mortes, escassez e catástrofes) responsáveis por manter a sustentabilidade do sistema ao longo do tempo ao contrabalançar os 1920px-ideal_feedback_model.svg_-1“feedbacks positivos” (por exemplo, reprodução sem freio de uma espécie) que de outro modo se acumulariam, levando ao colapso do sistema. O erro dos seres humanos, segundo eles, foi interferir no processo holístico da natureza, que seria tão complexo que seria impossível de ser compreendido pelos humanos (cuja atuação pressupõe sempre um conhecimento inerentemente “reducionista”), de tal modo que quando estes interferem, o resultado seria sempre catastrófico.

Mas já vimos que a natureza é, de fato, incessante desequilíbrio, um conjunto de forças cegas e indiferentes, e a ideia de uma “ordem natural” não passa de invenção da imaginação humana. Se a humanidade quiser por em prática a ficção ecológica de uma “ordem natural” independente dela, ela terá que se entregar a esses processos cegos, violentos e indiferentes, “naturalizá-los” e aceitar agir do mesmo modo. Quando se faz isso, a morte e o sofrimento de cada um passam a ser considerados uma prática aceitável (como “feedback negativo” necessário à “homeostase”) para que o suposto todo, o sistema holístico, seja sustentável. Trata-se de uma teodiceia tão mitológica que é praticamente uma recriação dos ritos sacrificiais de “restauração da ordem cósmica” do antigo paganismo. Mas, como toda mitologia, teologia e religião, isso não existe na natureza, é uma invenção delirante especificamente humana. Nenhum outro ser vivo age mediante uma “percepção imaginária extraterrena” (holística) de si mesmo no mundo, indiferente ao seu próprio sofrimento e morte, em nome da uma imaginação demente em sua cabeça.

[Obs.: Ainda mais perturbadora é a história da ecologia [14]. A palavra e o conceito de “ecologia” foram introduzidas por Ernst Haeckel (1834-1919), que pregava que a natureza é um organismo unificado e equilibrado (oikos), e que a sociedade humana deve ser reorganizada de acordo com a lógica da natureza (daí,com oikos e logos, cunhou a palavra ecologia). Anti-iluminista, nacionalista e eugenista, ele foi o primeiro a usar a teoria da evolução das espécies para propor uma classificação hierárquica das raças humanas. Segundo ele, “a política é biologia aplicada”. Sua teoria ecológica, através da esotérica e espiritualista Sociedade Thule, na qual participava, se vinculou diretamente às origens da ideologia nazista. Esta última afirmava, baseando-se também nas teorias da competição do economista liberal Herbert Spencer (darwinismo social) e no misticismo racista de Madame Blavatsky (teosofia), que o equilíbrio orgânico da ordem natural primordial (ao mesmo tempo biológica, divina e mística) decorreria da competição sem tréguas de cada um (cada indivíduo, cada nação, cada raça) por ocupar nichos na “ordem natural”. O primeiro governo que colocou a ecologia como meta principal foi o nazista, criando as primeiras reservas naturais, leis de proteção dos animais e inclusive tentando se basear na agricultura orgânica, além, é claro, dos campos de extermínio.]

Evidentemente, criticar a ecologia não significa que defendemos a destruição do meio ambiente. O que afirmamos é que, como não existe nenhum ponto referencial “superior” (como a fantasia mitológica/teológica de uma providência chamada “natureza”, “gaia”, “ordem natural”) fora das necessidades e capacidades dos próprios seres humanos para eles mesmos decidirem suas vidas e suas ações, a questão de não destruir o ambiente natural em que vivemos e os demais seres vivos só pode ser levantada e assumida por nós mesmos, pelos seres humanos, a partir do que considerarmos (mediante conhecimento, ciência, ética, técnica, desejo etc) necessário fazer e capacitados para fazer. Simplesmente porque, para agirmos, só temos as nossas próprias capacidades e necessidades, com as ideias, ciência e práticas que criamos a partir delas, e com as quais pensamos e agimos com algum êxito ou não.

humanaesfera, fevereiro de 2017

POST SCRIPTUM: CURIOSIDADE: O EPITÁFIO DE SÍCILO

Este é o mais antigo exemplo encontrado de uma composição musical completa, o Epitáfio de Sícilo. A música, cuja melodia foi registrada junto com a letra, foi encontrada gravada em uma lápide, perto de Aidin, na Turquia (não muito longe de Éfeso). A descoberta foi datada de entre 200 aC e 100 dC.

Letra:

Enquanto viver, brilhe
Não te entristeças por nada
A vida dura um breve instante
E o tempo cobra seu tributo

A lápide continha o seguinte escrito: “Eu sou um túmulo, um ícone. Sícilo me pôs aqui como um símbolo eterno da lembrança imortal“.

A letra pode ser interpretada como expressando a ideia de vida como gratuidade, delicada, frágil e alegre, enquanto o tempo, que destruirá tudo cegamente (entropia),  confirma nela sua abundância supérflua e irretribuível.


ADENDO: A ILUSÃO DA “DÁDIVA” PRÉ-CAPITALISTA

Potlatch

Conhecer o passado ajuda a saber que nem a sociedade capitalista, nem a troca de mercadorias, nem a família nuclear e nem o Estado são eternos e que a humanidade viveu por muito mais tempo de outra maneira. Porém, alguns perscrutam o passado acreditando que antes da sociedade capitalista, vivíamos “naturalmente” (conforme uma suposta “ordem natural”) enquanto que agora viveríamos “artificialmente”. Um dos temas prediletos e mais exaltados por quem assim pensa é o da “dádiva”, “dom” ou “troca de presentes” (cujo exemplo mais conhecido é o potlatch), um modo de distribuição dos produtos que contrasta com a troca de mercadorias generalizada que caracteriza a sociedade capitalista. Eles chegam ao ponto de considerar a “dádiva” pré-capitalista como o modelo “natural” para uma nova sociedade após a atual. Acreditam que a “dádiva” expressaria abundância em uma ordem social supostamente natural que querem restaurar, enquanto que, na verdade ela era um mero sistema de alianças por dívidas. Aqui queremos brevemente mostrar que as condições pré-capitalistas que faziam a “dádiva” fazer sentido não só são sem retorno, como também são absolutamente indesejáveis por qualquer um em sã consciência hoje.

Antes de tudo, como Mauss e Malinowski mostraram, a dádiva das sociedades tribais era um sistema de coerção endividada, inclusive, muitas vezes, um sistema de dominação brutal de alguns clãs sobre outros [15].

Em sociedades tribais em que os clãs não se hierarquizavam, o “dom” consistia  em laços coercitivos resultantes da desconfiança entre tribos sempre à beira da guerra entre si (segundo Pierre Clastres, era esse estado de guerra generalizada que impedia o surgimento do Estado, o surgimento das castas [16]). O “dom” era o rito de uma guerra invertida, em que cada lado, sempre extremamente desconfiado, tinha que provar sua confiança no outro clã através da concorrência de dar mais no futuro do que recebeu de presentes. O fato de não dar imediatamente quando se recebia era considerado uma prova de que não se desconfiava do outro clã, e que os laços entre eles seriam mantidos. Mas caso algum lado, por qualquer razão, fosse considerado apressado em retribuir ou se passasse a retribuir com menos (ou mesmo se achasse antecipadamente que o outro ai achar qualquer dessas coisas), isso era considerado prova definitiva de desconfiança, de quebra de laços. E então declarava-se guerra. A guerra era fundamental, porque se não fosse declarada guerra, formar-se-ia uma relação em que um clã se sobrepõe a outro (castas). Sem guerra nas sociedades tribais, o dom se torna dívida “infinita” de um clã (o que dá menos) para outro (o que dá mais), a ser paga como sujeição de castas, fazendo surgir o Estado (no sentido pré-capitalista de domínio de uma casta sobre outras). Na antropologia, esse é o caso mais clássico de todas as “dádivas”, o potlatch, praticado por uma sociedade de castas da América do Norte [17].

O que é evidente é que a dádiva tribal não parece de nenhuma maneira servir como modelo para nós hoje. A própria possibilidade do “dom” pressupõe a propriedade coletiva tribal sobre objetos produzidos por ela privadamente diante de outra propriedade coletiva tribal de outros objetos produzidos privadamente frente àquela e vice-versa. Pressupõe portanto, a troca entre propriedades privadas (propriedades que eram pré-capitalistas, mas ainda assim, de fato, coletivamente privadas reciprocamente), que é “dom” (laços de dívida) enquanto não é guerra e que se torna mercado (por exemplo, escambo) durante a guerra declarada, quando cada lado exigia uma retribuição imediata, rápida, de bens, “com valor equivalente”, “justo”, porque então já não confiavam absolutamente um no outro.

Hoje, os meios de produção são materialmente comuns em escala mundial (nada, nem em termos físicos nem intelectuais, é produzido privadamente), e, consequentemente, na perspectiva atual de um mundo libertário (ou seja, comunista), o desfrute das forças produtivas não pode ser nem “dom” nem troca de mercadorias, mas uma auto-realização autônoma e gratuita propiciada pelo livre acesso por todos às forças produtivas comuns, que são as condições de existência (meios de produção) mundialmente interconectadas.

Mas voltemos às sociedade pré-capitalistas para ter uma noção melhor das condições concretas nas quais se encontravam e reproduziam suas relações sociais. Para cada tribo, todos os outros humanos eram  bestas, não-humanos ou falsos humanos (e eram assim denominados), contra os quais, como vimos, se estava em estado de guerra constante ou latente. Para marcar o pertencimento à essa suposta única tribo dos “verdadeiros humanos” (cada uma se considerava assim), que seriam os mais fortes e superiores, cada nova geração era submetida a ritos de passagem como provação do “merecimento” de pertencer à seu clã em exclusão de toda humanidade. Esses ritos escreviam literalmente na carne e na alma as marcas de pertencimento: mutilações, humilhações, várias provas de resistência à dor, provas de que não se é “frouxo” ao assassinar inimigos sem hesitação, adquirindo cicatrizes de guerra etc. Evidentemente, as novas gerações eram forçadas a se submeter porque não havia meio de satisfazerem suas necessidades fora da tribo, exceto se desejassem a solidão da natureza inclemente, vulneráveis às tribos e feras inimigas. E se se juntassem para criar uma outra tribo independente, eles seriam obrigados a recriar as mesmas provações dos ritos de passagem e as mesmas violências para com as outras tribos. Porque isso não depende só da vontade, mas das condições de existência materiais, ou seja, da capacidade humana de, com as forças produtivas existentes, transformar a natureza, a circunstâncias, as condições concretas das relações humanas. Eram as condições com que se deparavam que materialmente os obrigava a adotar todas essas coerções, se agrupando na forma social de tribos.

Assim como explicamos antes sobre o meio ambiente quando criticamos a ecologia, criticar as condições de existência das sociedades pré-capitalistas não quer dizer que defendamos que as tribos que ainda hoje existem não devam existir e nem que os que sentem atração pelo modo de vida delas devam “se reprimir”. Na verdade, essas tribos, queiram ou não, há muito tempo não estão mais naquelas condições antigas (exceto, talvez, algumas, raríssimas, isoladas, na América do Sul e na Papua Nova Guiné). E seus mitos e ritos são recriados e modificados a cada geração conforme as condições em que elas se encontram e se reproduzem, que são hoje as da sociedade capitalista. É compreensível que, nesta sociedade (capitalista) onde a condição para sobreviver é se submeter à competição infernal da propriedade privada com a propriedade privada, os seres humanos dessas tribos remanescentes também busquem uma propriedade privada que garanta sua sobrevivência em exclusão de todos os demais humanos que competem igualmente pela sobrevivência. Então, para isso, o que geralmente tentam é fazer de seu passado um signo de propriedade a ser protegido pelo Estado (ou, como ocorre em alguns lugares do México, por suas próprias milícias). Porém, isso certamente nada tem de realmente libertário, nada tem a ver com superar a sociedade capitalista, porque é uma mera adição de uma propriedade privada a mais na competição generalizada que a condiciona.

Apenas se transformarmos nossas condições de existência (o que pressupõe abolir a privação dessas condições, a propriedade privada, em escala mundial) de modo a superar as condições de existência da sociedade capitalista, os seres humanos podem se emancipar e transformar livremente a si mesmos, indo além da coação de ter que assumir papeis, funções e identidades pré-estabelecidas (etnia, raça, gênero, nação, emprego, família, cultura, classe etc), se associando conforme seus desejos para satisfazer livremente suas necessidades e capacidades.

humanaesfera, fevereiro de 2017

NOTAS:

[1] Trata-se do texto Contra a metafísica da escassez, copiosidade prática.

[2] Sobre tudo isso, ver os livros Os Filósofos Pré-socráticos, de Gerd Bornheim, Da Natureza das Coisas, de Lucrécio, e O nascimento da física no texto de Lucrécio, de Michel Serres. E sobre uma interessante análise do fragmento de Anaximandro citado, ver A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos, de F. Nietzche, segundo o qual teria sido Heráclito de Éfeso o primeiro a romper com essa visão endividada da existência.

[3] Cf. O nascimento da física no texto de Lucrécio, de Michel Serres.

[4] Esse exemplo é exposto no texto A noção de dispêndio de Georges Bataille. Ver também Post-scriptum: contra a ecologia. 5) Georgescu-Roegen e o decrescimento económico, de João Bernardo.

[5] Cf. Ética, de Baruch Espinosa e os dois volumes de Capitalismo e Esquizofrenia, de Deleuze e Guattari.

[6] Cf. os textos Propriedade privada, escassez e democracia,  assim como
Contra as recompensas e punições (contra a meritocracia, contra a coerção), também Abolição do trabalho e a questão do circuito produtivo global no comunismo, e, numa perspectiva prática, Contra a estratégia e Greve e produção livre.

[7] O texto Autonomia e cotidiano – Espinosa e o imperativo de Kant: ´Tratar os outros e a si mesmo como fins, jamais como meios.

[8] Sobre tudo isso, ver o texto Marx comunista individualista! (trechos sobre o indivíduo em Marx).

[9] Anteriormente, de uma forma descompromissada, provisória e muito rudimentar, tentamos desenvolver de um ponto de vista prático-cotidiano uma física que poderia ajudar a compreender a atuação, a atividade, o vir-a-ser, o surgimento. Nessa física, os conceitos de “inércia” e “força” são compreendidos imanentemente, na ideia de “engatilhamento de inércias qualitativamente heterogêneas” pelo qual os eventos, os surgimentos, os devires se dão. Em resumo, inércias desproporcionais (qualitativamente heterogêneas) interagem tangencialmente (engatilhamento) exibindo forças e, assim, eventos, novos seres, enquanto os conceitos de “energia”, “troca de energia”, “conservação de energia” e “trabalho” são secundários, por serem estimativas intelectuais sobre o já surgido, o já atuado. Quem tiver curiosidade, veja os textos Uma arkhé Acidental?Conceito qualitativo de energia, força e inércia e O engatilhamento das inércias está na raiz da força? 

[10] Cf. o livro O Reino e a Glória – Uma Genealogia Teológica da Economia e do Governo, de Giorgio Agamben.

[11] idem. Note que Carolus Linnaeus (Carlos Lineu, conhecido como o “pai da taxonomia moderna”) ainda usava palavra “economia” nesse sentido teológico cristão. O seu livro  Oeconomia naturae [economia da natureza], publicado em 1749,  defende que a natureza é a execução do comando de deus, sendo que as catástrofes, a competição e os sofrimentos entre os seres vivos realiza os desígnios da providência (a ideia de que “Deus escreve certo por linhas tortas”) ao compensar e equilibrar os nascimentos com as mortes, efetuando a ordem natural divino.

[12] Ver o  verbete “Economia” da Enciclopédia de 1772.

[13] Ver o livro O capitalismo como religião, de Walter Benjamin.

[14] Sobre isso, ver a primeira e a segunda partes do texto A História que os ecologistas não querem contar, de Marilene Nunes. Também o livro Natureza e nazismo, de João Bernardo e a série de textos Post-scriptum: contra a ecologia, o lugar comum dos nossos dias, também de João Bernardo.

[15] Ver os livros Ensaio sobre a dádiva, de Marcel Mauss, Os Argonautas do Pacífico Ocidental e Crime e Costume na Sociedade Selvagem, de Bronisław Malinowski, além de A Grande Transformação – as Origens da Nossa Época, de Karl Polanyi‎.

[16] Ver o livro A sociedade contra o Estado, de Pierre Clastres.

[17] Uma curiosidade sobre o “dom” pré-capitalista é a estória que originou a expressão “elefante branco”. No Sião, os elefantes brancos eram raríssimos, e os cuidados requeridos eram tão custosos que só um rei poderoso poderia arcar com eles. Por isso eles eram considerados os maiores sinais de riqueza e poder, que nesse tempo significavam opulência dispendiosa, dádiva, beneficiência. Um rei que quisesse derrubar um aliado menos poderoso, ao invés de declarar guerra a ele, presenteava-o com um elefante branco. Se o aliado, para cuidar do elefante, perdesse suas riquezas, ele se arruinaria e perderia o poder. Mas se ele, para não perder suas riquezas, não cuidasse do elefante branco, isso seria considerado uma grave “desfeita” diante do presente dado, e então o rei, alegando estar “com a razão ao seu lado”, poderia declarar guerra e destruir o antigo aliado. Outra ilustração da importância do “dom” nas sociedades pré-capitalista é o cavalo de Tróia.

A questão da "corrupção" e a vergonha do proletariado de seus próprios interesses humanos

Estamos vivendo uma época de profunda derrota do proletariado. Hoje, os explorados sentem vergonha de seus próprios interesses materiais e, para disfarçá-los, tentam afirmá-los defendendo o interesse do empresariado, do “empreendedorismo”, da “competitividade”,  que é apresentado a eles como o único “honesto” e “universal”, como uma espécie de “imperativo categórico kantiano”. Os interesses deles como simples seres humanos de carne e osso lhes causam vergonha porque são considerados por eles próprios como “corrupção”, enquanto os interesses mercantis, empresariais, financeiros parecem encarnar liberdade, igualdade, justiça, etc. Por exemplo, vergonha de afirmar claramente que querem uma vida fácil e com tudo de bom sem ter que se submeter aos  “vencedores do mercado”, vergonha do interesse de não trabalhar a vida toda e cada vez mais intensamente etc etc. Todos esse desejos, diz-se quase unanimemente, são “corrupção”, “jeitinho brasileiro”. Para eles, os interesses são sempre corruptos, e os únicos não-corruptos, os “desinteressados”, porque respeitam as “regras do jogo”, são os “vencedores no mercado”, os “empreendedores” etc.

O que é interessante é que a maior parte do tempo, essa competição declarada pela obediência é “da boca para fora”. A maioria está sempre lutando tacitamente para trabalhar o mínimo possível e por fazer ao máximo o que gostam de fazer, contra o mando dos chefes e proprietários. Mas como a confiança uns nos outros é esmagadoramente superada pela confiança em quem paga ou pode pagar os seus salários  (Estado ou empresa), eles evitam falar abertamente de seus interesses uns com os outros (que veem como competidores que ameaçam sua sobrevivência, seu emprego). Desse modo, não conseguem criar uma linguagem que expresse seus interesses humanos, porque tem medo de expressar-los uns aos outros. Eles tem vergonha de seus interesses, que é, como vimos, confundidos com “corrupção”. Por exemplo, a maioria se revolta com essas PECs (como a do aumento do tempo da aposentadoria, terceirização etc), porém, como não desenvolvem uma linguagem própria, assumem a linguagem da classe dominante para expressar essa revolta, que então se converte em “revolta na ordem” (aliás, clássica definição de fascismo pelo João Bernardo), uma revolta expressa na linguagem e na forma da classe dominante, a linguagem daqueles que não seriam “corruptos”, dos que tem a propriedade privada dos meios de vida e produção, e a quem, na prática cotidiana de guerra de todos contra todos pela sobrevivência, confiam materialmente que, se obedecerem, garantirá sua sobrevivência contra os concorrentes, ao contrário de seus iguais que querem “tomar seu trabalho”. Daí a revolta deles se expressa como apelo a uma “força maior” (por exemplo, Trump, Bolsonaro, ou pedidos para que haja chefes que punam e recompensem com mais força e rigor) que resolva todos os problemas através da repressão e matança, para defendê-os contra seus iguais, que são vistos como “inimigos” (tanto os ainda mais pobres quanto estrangeiros, migrantes etc).

Para que os proletários criem uma linguagem autônoma, pode ser útil retomar e aperfeiçoar a ética de Hipócrates, que apresenta uma interessante contraposição ao conceito de “corrupção” incessantemente usado pela classe dominante. Afinal, em seu sentido essencial, corrupção é fazer algo em troca de outro algo (em busca de recompensas e por medo de punições), ao invés de fazê-lo como algo que vale por si só, algo de cuja necessidade, humanidade e ética a atividade de produzi-lo se justifica por si só…

Assim, compartilhamos esse resumo da ética de Hipócrates que encontramos neste blog:

“Salvar vidas, a arte da medicina, está acima do poder, do dinheiro e das leis dos reinos em que se passa exercendo a medicina. O verdadeiro significado de corrupção não é quebrar as regras, mas exercer a arte como se não fosse válida por si só, exercendo-a, pelo contrário, por outra coisa alheia, como o dinheiro e as promessas e ameaças de quem tem poder e faz as leis. Se o médico não ama o que faz, ele vai se vender e causará dano, porque seu interesse será ganhar mais, buscando enganar e agradar quem lhe paga; em troca, torna-se escravo de quem tem dinheiro. O médico deve ser livre, autônomo, formando com outros uma comunidade que compartilha livremente as descobertas da medicina, sem se submeter a reinos, cidades ou povos, para servir a humanidade.” (Resumo da ética hipocrática baseado nos textos “Acerca da arte”, “Epístolas”, “Preceitos” e outros. Resumo feito a partir de várias fontes, principalmente as contidas no livro “Textos Hipocráticos: o doente, o médico e a doença”. Henrique F. Cairus, Wilson A. Ribeiro Jr.)
humanaesfera, janeiro de 2017

Veja também outros textos sobre ética:

 
 
 

Contra a estratégia

[english version]

Não existe nada mais inútil e equivocado do que o ativismo, a militância, a ânsia de “prática”. Existir é agir. Os proletários não são bestas que fazem coisas cegamente ou por instinto. Não há ações sem objetivos, finalidades, desejos… isto é, existir (ou seja, agir) pressupõe e implica teorias, que os proletários criam e aprimoram (ou degradam e dogmatizam) conforme sua capacidade de agir é objetivamente aumentada (ou diminuída). Expliquemos:

WAR-chess.jpgA capacidade de agir dos proletários é aumentada quando confiam em si mesmos (internacionalisticamente), não acreditam em “bodes expiatórios”, e impõem a satisfação de suas necessidades (que são comunistas: não trabalhar e que tudo seja livre, “free”), opondo-se radicalmente, por este simples ato, à classe dominante (para a qual, obviamente, isto é “opressivo”); quando ataca, portanto, o poder pela dissolução do que o sustenta (a oposição mútua entre proletários em empresas, pátrias, raça, gênero etc, se engalfinhando por seus próprios senhores) mediante um universalismo material (comunismo) que garante o livre acesso a qualquer um aos meios de produção e de vida, a expressão livre e autônoma das capacidades e necessidades humanas, a livre individualidade que se liberta enfim da comparação massificadora, reificante, identitária, da concorrência, propriedade privada, hierarquia, mercado e Estado.

Por outro lado, a capacidade de agir é diminuída quando os proletários desconfiam de si mesmos (a ponto de massacrarem a si próprios a um simples pedido dos chefes e poderosos), clamam ao poder contra “bodes expiatórios” (estrangeiros, “judeus”, imigrantes, “vagabundos”, “favelados”, “políticos maus”, “empresários maus”), e reprimem seus desejos em nome da ficção de um “bem maior” (pátria, empresa, etnia, ideologia, religião…), isto é, quando se unem às “suas” classes dominantes (burocrática ou particular, de esquerda ou de direita) contra si mesmos. Quanto menos capazes de ação, mais se entregam à reação.

No primeiro caso (aumento da capacidade de agir), a teoria necessariamente se desenvolve e se aprimora, enquanto que no segundo caso (redução da capacidade de agir), a teoria só pode se degradar e se dogmatizar.

Critério do conhecimento e práxis

Os critérios para distinguir mentiras ou boatos de verdades, o especulativo do provável, o que é verdadeiro em certos contextos e falso em outros, o que é baseado em mera fé do que é baseado em evidências etc., esses critérios são expressões intrínsecas do grau de autonomia ou heteronomia do proletariado, de sua autodeterminação ou sua sujeição às classes dominantes. Quanto a isso, há três tipos de crítica da sociedade capitalista:

A) Existe uma crítica da sociedade capitalista cuja verdade pode ser verificada materialmente por qualquer um em seu cotidiano, no mundo inteiro, por qualquer proletário: a crítica do capital enquanto coerção que nos força a nos vender como objetos úteis no mercado de trabalho, que nos coage, se quisermos sobreviver, a alienar nossas capacidades em troca do dinheiro, a exercer nossas potencialidades contra nós mesmos , transformando o mundo em uma força hostil  que se acumula nos privando (propriedade privada) das próprias condições materiais de existir, um poder hostil que nos domina, usa e descarta: o capital e o aparato repressivo que os garante (Estado). Essa é uma crítica da essência do capital, ela é radical, e dela decorre invariavelmente a necessidade irrevogável de abolir o trabalho, a propriedade privada, a empresa, as fronteirase o Estado, ou seja, realizar o comunismo [1]. Detalhe: não requer nenhuma fé em “fontes especiais de informação”.

B) Existem outras críticas que requerem alguma “fé”, como são as críticas parciais do capitalismo (que são basicamente críticas socialdemocratas do capitalismo: distribuição de renda desigual, obsolescência programada, piora das condições de vida, do meio ambiente, capitalistas e burocratas burlando as leis, governos tramando a derrubada de outros…) que nada mais são do que críticas de acidentes do capital, e não de sua essência. Enquanto no caso A, os proletários são plenamente autônomos quanto ao poder de verificar a verdade do seu conhecimento (que exprime a matéria de sua própria vida cotidiana) e de agir conforme o que sabem, no caso B, é preciso confiar em especialistas. Ainda assim, a verossimilhança dessa crítica pode ser pesada na vida cotidiana (por exemplo, verificando pioras de fato nas condições de vida, ou não verificando a obsolescência programada). Mas quanto menos radical e mais parcial a crítica, por ser mais “inacessível”, mais requer que a prática dos proletários se submeta a “esferas superiores”, e menos exprime uma prática autônoma capaz de se opor ao capital para impor a satisfação das necessidades humanas.

C) E existem críticas do capitalismo que só requerem fé, uma fé baseada totalmente em “fontes especiais de informação”, fé aceita com base numa vaga “intuição psicológica” ou no apelo aos sentimentos. Por exemplo, críticas especulativas (as que, por exemplo, profetizam o “colapso inevitável do capitalismo”, como a nova “crítica crítica”– Kurz, Postone, Jappe… -, as especulações do aceleracionismo, transhumanismo,etc), o conspiracionismo (“forças ocultas” que estariam tramando o sofrimento e aniquilação dos pobres, do povo ou da natureza) e as críticas identitaristas (as que afirmam uma identidade – de gênero, de raça, de etnia, de nacionalidade, de cultura – contra outras que “representariam o capitalismo”). Em termos práticos, essas críticas requerem a completa submissão, a completa aniquilação da capacidade de pensar e de agir do proletariado, e a assunção como verdade de qualquer boato, qualquer mentira que confirme os preconceitos “intuitivos” (por exemplo, as mentiras paranoicas sobre transgênicos, produtos químicos, vacinas, medicina, ciência, produtos naturais, tecnologia que muitos ecologistas propagam). O exemplo máximo é a própria religião, em que a fé na revelação de uma verdade absoluta oculta requer a total obediência àqueles que dizem ter acesso especial a ela (daí vem a própria palavra “hierarquia”, de hieros, sagrado ou segredo, e arché, fonte, princípio ou ordem).

Composição de classe VERSUS estratégia

Há quem argumente que o caso A, de plena autonomia, é insuficiente, porque é abstrato e filosófico, e que precisamos do caso B, porque é necessário que haja estratégia (por exemplo, “transição”), que seria algo até muito mais fundamental.

Mas falar em estratégia só faz sentido contra uma estratégia do lado oposto, isto é, quando há uma contra-estratégia pressuposta. Não se trata, então, de luta de classes, mas de uma guerra de frentes, que pressupõe um mesmo tabuleiro, uma mesma linguagem, uma mesma lógica compartilhada, na qual se apoiam os dois lados para que seja possível se enfrentarem. Para guerrearem entre si, precisam estar num mesmo plano, apoiar-se numa mesma estrutura, estarem numa mesma altura, falarem de igual para igual. Daí todas as contrarrevoluções em todas as revoluções “vitoriosas” que já existiram, em que as mesmas estruturas (dominação, sociedade de classes, Estado etc) do inimigo são reproduzidas em nome de atacá-lo.

A grande virtude dos proletários é que eles, enquanto classe autônoma, não podem atacar a estrutura no plano da própria estrutura, mas como produto, como produção molecular resultante de sua própria atividade cotidiana simultânea no mundo inteiro. Caso ataquem a estrutura no mesmo plano da estrutura, aceitando se submeter a uma estratégia, eles são condenados a reproduzir sua própria sujeição sob a mesma ou alguma nova classe dominante, pois seu campo de atuação, a atividade cotidiana simultânea universal, é condenado a permanecer inalterado (trabalho, auto-sacrifício, sujeição…) para efetivar a própria estratégia, reproduzindo automaticamente, apenas com novos nomes, as mesmas estruturas que resultam necessariamente da atividade cotidiana alienada.

Em contraste com a ideologia da estratégia, os proletários não podem contar senão com a sua própria capacidade autônoma de agir e pensar, impulsionada pela rápida difusão de sua luta em escala mundial. Nesse mesmo ato, eles comunicam mundialmente uns com os outros o conhecimento do modo como suas atividades cotidianas simultâneas se interligam (por exemplo, conforme o local em que estão, as supply chains, as relações entre indústria, agricultura e as vias materiais de livre expressão das necessidades, desejos, pensamentos e capacidades dos habitantes e viajantes do mundo,  etc ) [2], conhecimento que é simultâneo à supressão em ato das condições de existência materiais (moleculares) da propriedade privada, do capital e do Estado e à criação de uma nova sociedade  em que os meios de vida e de produção, indissoluvelmente interconectados em escala mundial em uma rede de fluxos imanentes, se tornam livremente (gratuitamente) acessíveis à qualquer um que queira satisfazer suas necessidades, desejos, pensamentos, projetos, paixões, e desenvolver livremente suas habilidades, capacidades e potencialidades.

Um evento assim, que desabilita pela base o poder da classe dominante (empresários,  burocratas e o Estados), tem desde o princípio uma linguagem incompreensível e “inconversável” com a classe dominante e o Estado, sendo de fato uma ditadura contra eles – a verdadeira ditadura do proletariado. A classe dominante sequer tem tempo para começar a entender o que está sofrendo para elaborar uma estratégia antes de o proletariado ter se auto-abolido e, portanto, abolido a classe dominante, a sociedade de classes. Muito diferente disso, o ativismo ou militância se caracteriza por se exibir espetacularmente à classe dominante como “oposição”. Obviamente, as armas da classe dominante, o Estado, os grupos de extermínio etc são infinitamente mais poderosos e aprimorados do que qualquer “movimento estratégico de oposição” [3], que, consequentemente, não passa de espetáculo, só útil para a classe dominante ensaiar seus cães de guarda e métodos de controle, que, encenando, legitima o próprio status quo como “democrático”. E quando não é encenação, um “movimento estratégico de oposição” é apenas a reprodução da estrutura à qual procura se opor, como vimos nos parágrafos anteriores.

É óbvio que, quanto mais reduzida a capacidade de agir do proletariado, menos ele consegue se dar ao luxo de pensar por si mesmo, e mais só lhe resta ser objeto de estratégias, de burocratas, empresários e políticos que dizem pensar e agir pelo seu “bem”, prometendo, por exemplo, reformas, melhorias etc. Assim, dizem que devemos ser realistas, que o proletariado deve fazer o possível, votando, participando em campanhas, militando, “se esforçando mais”, “se sacrificando com mais empenho” etc, em suma, participando de estratégias. Isso é um equívoco. Porque, se não há luta autônoma, é pura sorte, além de extremamente improvável, que ocorra qualquer das melhoras prometidas; e se há luta autônoma, não faz sentido deixar-se reduzir a objeto de estratégias. O efeito colateral imediato da luta autônoma é que todos os burocratas, empresários e políticos, para conter a emergência do proletariado enquanto classe, passam enfim a servir as tais “melhorias”, mas, é claro, no mesmo prato da repressão. A questão é a autonomia do proletariado se difundir tão rapidamente em escala mundial que torne impossível que caia mais uma vez nessa armadilha.

Adendo: O fetichismo dos “exemplos práticos”

As revoluções e contrarrevoluções que experimentamos nos últimos 300 anos mostraram que a ideologia mais destrutiva para a luta autônoma mundial é a dos “exemplos práticos”. Tão logo se ouve falar sobre uma “revolução” qualquer em algum lugar do mundo, é abandonada toda capacidade crítica e consideração pela verdade, que passam a ser consideradas irrelevantes frente ao “exemplo prático real de como transformar o mundo na realidade”. A realidade do exemplo é considerada tão complexa que toda crítica e busca da verdade é descartada como masturbação mental reducionista e utopismo. Abandonada a capacidade de pensar, é aberta a via para o tarefismo supersticioso, destruindo a luta autônoma, seja pela luta imaginária que imita a aparência espetacular do exemplo, seja pela aceitação de se subordinar aos burocratas considerados representantes do exemplo (como quando o leninismo se espalhou no mundo e destruiu a luta autônoma por toda parte graças à “realidade inquestionável  de seu exemplo”, 1917 na Rússia).

Como antídoto, há um critério mínimo certeiro para avaliar todo e qualquer suposto exemplo (como o Curdistão, zapatistas, revolução russa, espanhola etc): se uma suposta revolução não se espalha rapidamente além das fronteiras para o mundo inteiro (com os proletários se opondo a seus opressores em cada vez mais lugares do mundo e se constituindo como classe autônoma sem fronteiras, se recusando a matar nas guerras, voltando as armas contra os generais em todos os lados, comunizando etc),  se a suposta revolução se perpetua apenas num lugar, isso já é suficiente para saber que ali está um Estado e o capital (independente do nome que se use, “autogestão”, “socialismo”, “comunismo”, “anarquismo”…), ou seja, uma sociedade de classes. Pelo simples fato de que, isolados, eles são condenados a se adequar à troca no mercado mundial, acumulando capital e explorando o proletariado para não falir na concorrência internacional, e também porque são condenados a se constituir como Estado para se aliar, se defender ou atacar outros Estados.

humanaesfera, julho de 2016

Notas:

[1] “Não se trata do que este ou aquele proletário, ou até mesmo do que o proletariado inteiro pode imaginar de quando em vez como sua meta. Trata-se do que o proletariado é e do que ele será obrigado a fazer historicamente de acordo com o seu ser. Sua meta e sua ação histórica se acham clara e irrevogavelmente predeterminadas por sua própria situação de vida e por toda a organização da sociedade burguesa.” (Marx e Engels, A Sagrada Família – Crítica da Crítica Crítica).

[2] Trata-se da composição de classe. Para mais detalhes, veja: Textos sobre composição de classe.

[3] Em contraste com encenação da “oposição estratégica”, o único modo de suprimir a força repressiva do status quo é por uma emergência tão rápida e generalizada do proletariado autônomo (portanto, do comunismo) que os poderosos não encontrarão sequer por onde começar a reprimir, de modo que os seus cães de guarda repressores deixarão de ver qualquer sentido em continuar obedecendo, deixando de ser cães de guarda, voltando as armas contra os generais e distribuindo as armas para a população, pela simples razão de passarem a ser irrefreável e irreprimivelmente atraídos, como o restante dos explorados, pela emergência apaixonante do comunismo luxuriante generalizado, a comunidade humana mundial.

Bibliografia:

Outros textos sobre o mesmo tema:

O maquinismo atrativo – a teoria da atração apaixonada de Charles Fourier (trechos)

(English version: The attractive machinery. The theory of passionate attraction (excerpts))

Trechos de diversas obras [*] de Charles Fourier (1772–1837) que expõem suas ideias principais sobre a ordem combinada das séries apaixonadas, as 12 paixões, glutonaria, trabalho atrativo, a educação, a crítica do livre arbítrio e da civilização. Apesar de diversos equívocos quanto aos meios que propunha, tais como a manutenção do sistema salarial (e, portanto, das classes, da mercadoria e do Estado), e a ilusão sobre a possibilidade de uma economia alternativa paralela ao capitalismo, e também certa fantasia teleológica naturalista, as ideias fundamentais permanecem extremamente perspicazes e impressionantes. Tradução por humanaesfera a partir do inglês e do francês.

O CÍRCULO VICIOSO DA CIVILIZAÇÃO

c3b1f-fourierrusse1“[Na civilização,] cada pessoa engajada numa indústria está em guerra com as massas, e malevolente para com elas por interesse pessoal. Um médico deseja de seus semelhantes bons casos de febres, e um advogado, bons processos em cada família. Um arquiteto necessita de um bom incêndio que reduza um quarto da cidade às cinzas, e o vidreiro deseja uma boa tempestade de granizo que quebre todas as vidraças. Um alfaiate, um sapateiro quer que o público use somente coisas mal pintadas e sapatos feitos de couro fajuto, de modo a triplicar a quantidade consumida – para o benefício do comércio; é isso que os preocupa. Uma corte de justiça considera oportuno que a França continue a cometer 120.000 crimes e danos reclamáveis, número necessário para manter as cortes criminais. É assim que na indústria civilizada cada indivíduo está em guerra proposital com as massas; é o resultado necessário da indústria anti-associativa ou de um mundo invertido. […]

Esse círculo vicioso da indústria é tão claramente percebido que por toda parte o povo está começando a suspeitar dele e a sentir, estupefato, que, na civilização, a pobreza nasce da própria abundância. […]

Portanto, a indústria civilizada, eu repito, só pode criar os elementos da felicidade, mas não a própria felicidade. Pelo contrário, será mostrado que o excesso de indústria leva a civilização a grandes infortúnios, se os métodos do progresso real na escala social não forem descobertos.” (Q.M.)

A SERVIDÃO DO LIVRE ARBÍTRIO


“A servidão do Civilizado […] é tão facilmente constatada que seria supérfluo demonstrá-la; mas ela continua orgulhosa numa trincheira na qual ainda resiste, e, por causa da falta de liberdades políticas e materiais, ela se agarra a algumas liberdades espirituais, principalmente o Livre Arbítrio […].

Se existe uma questão à qual se deve aplicar o preceito de Bacon, “refazer o entendimento humano e esquecer tudo que foi aprendido”, é a do Livre Arbítrio. É preciso toda a insolência de nossos sofistas para pretender que o homem é livre para optar entre o bem e o mal quando o persuadem que, se ele opta pelo que chamam de mal, ele será torturado neste mundo pelos carrascos ou assassinos filosóficos; e no outro mundo pelos demônios ou assassinos teológicos. Até mesmo um animal, embora desprovido de razão, não ousaria optar pelo suposto mal numa situação desse tipo.

Posicione um cão esfomeado perto da comida e seu primeiro pensamento será cometer o mal, roubar e devorar o objeto cobiçado; mas faça-o ver o açoite suspenso sobre sua cabeça e o pobre animal se encolherá e parecerá vos dizer: se eu fosse livre, eu comeria a comida, mas como tu me espancarás, eu prefiro morrer de fome.

Assim é o Livre Arbítrio de que gozam o homem civilizado e o bárbaro: ele é livre para optar por mais ou por menos privações e suplícios, mas não é livre para o bem-estar considerando os fatores [éléments] ao seu redor. Se ele não estiver disposto a ser enforcado, ele pode optar pelo pequeno inconveniente de morrer de fome, segundo os princípios do aperfeiçoamento social que condena o pobre ao cadafalso quando ele ousa demandar trabalho, pão e um mínimo social.” (U.U., I)

“Temos que demonstrar que o Livre Arbítrio, no estado civilizado, é enganoso, passivo e subordinado aos impulsos da intriga e do preconceito, em suma, tão perigoso para as massas quanto para os indivíduos, porque ele em geral nada mais é do que uma sugestão mais ou menos enganosa, salvo exceções tão raras que confirmam a regra e reduzem o pretenso Livre Arbítrio dos Civilizados à privação real.” (U.U., I)

“[Na civilização, o livre arbítrio] não é senão o exercício da irracionalidade, do arbitrário em oposição à arbitragem. Precisamos pensar na extirpação da arbitrariedade e (na instauração) da arbitragem ou livre determinação, fundada teoricamente na evidência da justiça, e praticamente na utilidade da aplicação. Eis a faculdade de que o homem civilizado é privado por uma dupla causa, pela ignorância das regras da justiça ou leis da natureza e pela influência de duas ciências fraudulentas, a filosofia e a teologia, com suas insinuações arbitrárias no lugar da justiça e da natureza.” (U.U., I)

56beb-032b-2bfourier2b-2blivre2barbitrio“Passemos ao papel ativo ou exercício direto do Livre Arbítrio, que supõe independência frente aos preconceitos, e conhecimentos exatos da sorte [destinée]. Qual regra o homem provido dessas novas luzes deverá seguir? A regra de seguir as leis da natureza desenvolvendo as cinco paixões sensitivas e as quatro afetivas, segundo a ordem indicada pelas três paixões distributivas. É impossível haver felicidade coletiva ou individual sem esse método, nenhum ser pode ser feliz positivamente sem a expansão da sua natureza ou desenvolvimento de suas atrações. Só podemos nos satisfazer no conhecimento da natureza apaixonada quando tivermos descoberto um meio de desenvolver nessa ordem nossas doze paixões, e não podemos descobrir isso exceto esquecendo os dogmas de nossos 600.000 volumes filosóficos e teológicos, mais ou menos contrários à expansão das paixões.”(U.U., I)

DEVER E ATRAÇÃO

“Todos aqueles caprichos filosóficos chamados deveres não têm nenhuma relação com a Natureza; o dever procede dos homens, a Atração procede de Deus; agora, se desejamos conhecer os desígnios de Deus, devemos estudar a Atração, a Natureza simplesmente, sem qualquer consideração pelo dever, que varia em cada era, enquanto a natureza das paixões foi e permanecerá invariável em todas as nações dos homens.” (Q.M.)

“O mundo instruído é totalmente imbuído com uma doutrina chamada MORAL, que é inimiga mortal da atração passional.

A moral ensina o homem a ser inimigo de si mesmo, a resistir a suas paixões, reprimi-las, a acreditar que Deus foi incapaz de organizar sabiamente nossas almas, nossas paixões; que é necessário o ensino de Platão e Sêneca para saber como distribuir os caracteres e os instintos. Imbuídos com esses preconceitos sobre a imperícia de Deus, o mundo instruído foi incapaz de calcular os impulsos naturais ou atrações passionais, que a moral proscreve e reduz ao estado de vícios.

beea5-novo2bmundo2b-2bfourierÉ verdade que esses impulsos apenas nos arrastarão ao mal caso os tratemos isoladamente; mas devemos calcular seu jogo sobre uma massa de dez mil pessoas societariamente reunidas, e não sobre famílias ou indivíduos isolados: é isso que o mundo instruído não refletiu; reconheceremos neste estudo que, desde que se alcance um número de 1600 societários, os impulsos naturais chamados atrações tendem a formar séries de grupos contrastados, nos quais tudo leva à indústria tornada atrativa e à virtude tornada lucrativa.” (N.M.)

“As paixões, que se acredita serem inimigas da concórdia, na realidade conduzem àquela unidade da qual se supõe que elas são muito distantes. Mas fora do mecanismo chamado séries “exaltadas”, emulativas e engatadas, elas são tigres soltos, enigmas incompreensíveis. Foi isso que levou os filósofos a dizerem que nós devemos reprimi-las; uma opinião absurda, na medida em que só podemos reprimir nossas paixões pela violência ou pela substituição absorvente, substituição que não é repressão. Por outro lado, se fossem eficientemente reprimidas, a ordem civilizada rapidamente declinaria recaindo em um estado nômade, onde as paixões ainda seriam malevolentes como hoje. A virtude dos pastores é tão duvidosa quanto a de seus apologistas, e nossos fazedores de utopia, ao atribuir assim virtudes à povos imaginários, apenas são exitosos em provar a impossibilidade de introduzir a virtude na civilização.” (U.U., III)

AS PAIXÕES

“Uma objeção [à ideia de mecanismo societário] e que precisa ser refutada mais de uma vez, é aquela da discórdia social. Como conciliar as paixões, os interesses conflitantes, os caráteres incompatíveis, em suma, as inúmeras disparidades que engendram tanta discórdia?

Pode-se facilmente pensar que farei uso de uma alavanca totalmente desconhecida, e cujas propriedades não podem ser julgadas até que eu as tenha explicado. As séries passionais contrastantes se alimentam unicamente dessas disparidades que desconcertam a política civilizada; elas agem como o lavrador que de uma massa de sujeira retira os germes da abundância; o refugo, a matéria imunda e impura que serve apenas para sujar nossas habitações é para ele fonte de riquezas.” (U.U., II)

“Somos familiares com as cinco paixões sensuais tendentes à Luxúria, com as quatro paixões afetivas tendentes aos Grupos; apenas nos resta aprender sobre as três paixões distributivas cujo impulso combinado introduz a Série, um método social cujo segredo foi perdido desde a época da humanidade primitiva, que foi incapaz de manter as Séries por mais do que cerca de 300 anos.” (Q.M.)

“As quatro paixões afetivas tendentes a formar os quatro grupos – amizade, amor, ambição, paternidade ou consanguinidade – são bastante familiares; mas ainda não foi feita delas nenhuma análise, paralelo ou escala.

As três outras, chamadas distributivas, são totalmente mal-entendidas, e são apenas intituladas de vícios, embora sejam infinitamente preciosas; pois essas três possuem a propriedade de formar e dirigir as séries de grupos, a fonte da harmonia social. Dado que essas séries não se formam na ordem civilizada, as três paixões distributivas causam apenas desordem. Vamos defini-las.” (U.U., I)

“10ª – A CABALISTA é a paixão que, como o amor, tem a propriedade de confundir postos, puxar superiores e inferiores juntos uns dos outros. Todo mundo deve lembrar de ocasiões quando se é arrastado em algum Caminho com completo sucesso.

Por exemplo: a cabala eleitoral para eleger um certo candidato; cabala sobre agiotagem; cabala de dois pares de amantes, planejando um quarteto sem o conhecimento do pai; cabala familiar para assegurar uma conquista desejada. Se essas intrigas são coroadas de sucesso, os participantes se tornam amigos; apesar de algumas inquietações, eles passaram momentos felizes juntos enquanto conduziram a intriga; as agitações que ela excita são necessidades da alma.

3a301-022b-2bfourier2b2b-2bcirculo2bvicioso2bda2bcivilizacaoMuito distante da calma insípida cujas doçuras são exaltadas pela moral, o espírito cabalístico é o verdadeiro caminho do homem. Intrigar dobra seus recursos, amplia suas faculdades. Compare o tom de uma reunião social formal, seu jargão moral, forçado, lânguido, com o tom dessa mesma gente unida na cabala: eles aparecerão metamorfoseados; admiraremos sua expressão, sua animação, o jogo rápido de ideias, a presteza das ações, da decisão; em suma, a rapidez do movimento espiritual ou material. Esse magnífico desenvolvimento das faculdades humanas é fruto da décima paixão, a cabalista, que prevalece constantemente nos trabalhos e encontros das séries apaixonadas.

Como sempre resulta de certo modo em sucesso, e como seus grupos são todos preciosos uns para os outros, o encanto das cabalas se torna um poderoso laço de amizade entre todos os sectários, mesmo os mais desiguais.” (U.U. IV)

“A perfeição geral da indústria então surgirá da paixão mais condenada pelos filósofos; a cabalista ou dissidente, que nunca conseguiu obter entre nós o status de uma paixão, embora seja tão fortemente enraizada até nos próprios filósofos, que são os maiores intrigantes do mundo social.

A cabalista é a paixão favorita das mulheres; elas são excessivamente apreciadoras da intriga, das rivalidades e de todas as brigas maiores e menores de uma cabala. É uma prova de sua eminente aptidão para a nova ordem social, onde inúmeras cabalas serão necessárias em todas as séries, discórdias periódicas para manter um movimento de ir e vir entre os sectários dos diferentes grupos. […]

12ª – A COMPÓSITA. Essa paixão requer em cada ação uma sedução ou prazer composto dos sentidos e da alma, e consequentemente o entusiasmo cego que nasce somente da mistura de dois tipos de prazer. Essas condições são tudo menos compatíveis com o trabalho civilizado, que, longe de oferecer qualquer sedução para os sentidos ou a alma, é somente um duplo tormento mesmo nas mais louvadas oficinas, tal como as fábricas de fiação da Inglaterra onde o povo, mesmo a criança, trabalha quinze horas por dia, sob ameaça, em locais desprovidos de ar.

A compósita é a mais linda das doze paixões, a única que melhora o valor de todas as outras. Um amor não é lindo a menos que seja um amor composto, combinando o encanto dos sentidos e da alma. Ele se torna insignificante ou enganoso se se limita a uma dessas fontes. Uma ambição não é veemente exceto se pôr em jogo duas fontes: glória e interesse. Então, ela se torna capaz de esforços brilhantes.

A paixão compósita traz um respeito tão grande que todos concordam em desprezar alguém inclinado ao prazer simples. Imagine um homem que se guarnece de finas comidas, vinhos finos, com a intensão de desfrutá-los sozinho, de dar a si mesmo para se empanturrar, e ele se expõe a um bem merecido escárnio. Mas se esse homem reúne uma companhia seleta em sua casa, onde se pode desfrutar ao mesmo tempo o prazer dos sentidos com regozijo e o prazer da alma por companheirismo, ele será celebrado, porque esses banquetes serão um prazer composto e não simples.

Se a opinião geral despreza o prazer material simples, o mesmo vale para o prazer espiritual simples, de reuniões onde não há nem frescor, nem dança, nem amor, nem nada para os sentidos, onde se goza apenas na imaginação. Uma tal reunião, desprovida da compósita ou prazer dos sentidos e da alma, torna-se insípida para seus participantes, não muito antes que “o tédio cresça e ela se dissolva”.

2fa31-paixoes-2bfourier11ª A PAPILONNE (borboleta) ou Alternante. Embora décima primeira conforme a escala, ela deve ser examinada depois da 12ª, porque ela serve como um elo entre as outras duas, a 10ª e a 12ª. Se o propósito das séries fosse prolongar as sessões por doze ou quinze horas como aquelas dos trabalhadores civilizados, que, da manhã à noite, se estupefazem engajados em deveres insípidos sem qualquer diversão, Deus teria nos dado um gosto pela monotonia, uma aversão à variedade. Mas como as sessões das séries são bastante curtas, e o entusiasmo inspirado pela compósita é incapaz de ser prolongado além de um hora e meia, Deus, em conformidade a essa ordem industrial, tinha que nos brindar com a paixão da papillonnage, a inquietude pela variedade periódica nas fases da vida, e pela frequente variação de nossas ocupações. Ao invés de trabalhar doze horas com um intervalo escasso para uma pobre e embotada refeição, o estado societário nunca estende suas sessões de trabalho além de uma hora e meia ou duas no máximo; além disso, ele difundirá uma multidão de prazeres, encontros dos dois sexos terminando em banquetes, dos quais se procederá a novas diversões, com diferentes companhias e cabalas.

Sem esta hipótese do trabalho associativo, arranjado na ordem que eu descrevi, seria impossível conceber por que Deus deveria ter nos dado três paixões tão antagônicas à monotonia experimentada na civilização, tão irracional que, no estado existente, elas nem mesmo foram consideradas paixões, mas são chamadas apenas vícios.

Uma série, pelo contrário, não poderia ser organizada sem a permanente cooperação dessas três paixões. Elas são obrigadas a intervir constantemente e simultaneamente no jogo serial da intriga. Daí decorre que essas três paixões não podiam ser discernidas até que o mecanismo serial fosse inventado, e que até então elas fossem consideradas vícios. Quando a ordem social para a qual Deus nos destinou for conhecida em detalhe, veremos que esses pretensos vícios, a Cabalista, a Papillonne a Compósita tornam-se as três garantias da virtude e da riqueza; que Deus de fato soube como criar paixões tais como elas são demandadas pela unidade social; que Ele estaria errado em mudá-las para agradar Sêneca e Platão; que, pelo contrário, a razão humana deve buscar descobrir uma condição social que esteja em afinidade com essas paixões. Nenhuma teoria moral jamais as mudará e, conforme as regras da dualidade de tendência, elas intervirão sempre para levar AO MAL no estado desconjuntado ou limbo social, e AO BEM no regime de associação ou trabalho serial.” (U.U, III)

“As sete paixões “afetivas” e “distributivas” dependem mais do espírito do que da matéria; são classificadas como PRIMITIVAS. Sua ação combinada engendra uma paixão coletiva ou uma formada pela união das sete, como o branco é formado pela união das sete cores de um raio de luz; devo chamar essa 13ª paixão de Harmonismo ou Unitarismo; é ainda menos conhecida do que a 10ª, a 11ª e a 12ª, e dela ainda não falei.

O Unitarismo é a inclinação do indivíduo para reconciliar sua própria felicidade com a de tudo que o circunda e de todo o gênero humano, até hoje tão odioso. É uma filantropia irrestrita, uma boa vontade universal que só pode ser desenvolvida quando a humanidade inteira for rica, livre e justa.” (Q.M.)

EXEMPLO: A GLUTONARIA (SOBRE A GASTROSOFIA)

“Eu devo, para preparar outros para compartilhar minha confiança, explicar o objeto de um desses impulsos considerados viciosos.

Eu seleciono uma propensão que é a mais comum e a mais refreada pela educação: é a glutonaria das crianças, a sua predileção por guloseimas, e, diante do conselho dos pedagogos para que gostem de pão, a opor-se comendo mais pão do que o permitido.

caa3c-012b-2bfourier2bA natureza é muito desastrada por dotar as crianças com gostos tão opostos à sã doutrina! Toda criança considera um desjejum com pão seco uma punição; ela gosta de cremes açucarados, laticínios adocicados e doces, marmeladas e compotas, frutas cristalizadas e cruas, limonadas e laranjadas, vinho branco suave. Observe atentamente esses gostos que prevalecem em todas as crianças; sobre isso um grande caso deve ser julgado: a questão a ser determinada é quem está errado, Deus ou a moralidade? […]

Deus dotou as crianças com o gosto pelas substâncias que serão as menos custosas na ordem societária.  Quando o globo inteiro for habitado e cultivado, gozando a livre circulação [libre circulation], sem nenhuma barreira, as doces iguarias que mencionei antes serão muito menos custosas do que o pão; os víveres abundantes serão as frutas, laticínios e o açúcar, mas não o pão, cujo custo se elevará muito, porque os trabalhos de cultivo do trigo e preparação diária de pão são penosos e pouco atrativos; é preciso pagar bem mais que aqueles nos pomares ou confeitarias.” (N.M.)

c044a-falansterio“No estado civilizado, a gulodice não se alia à indústria, porque o produtor trabalhador não desfruta dos bens que foram cultivados ou fabricados. Essa paixão, portanto, se torna um atributo do ocioso; e é apenas por isso que ela é viciosa, sem falar dos desperdícios e excessos que ocasiona.

No estado societário, a gulodice tem um papel totalmente oposto: não é mais a recompensa da ociosidade, mas da indústria, pois até o mais pobre cultivador participa no consumo dos preciosos bens. Além disso, sua única influência será nos preservar do excesso, devido à variedade, e estimular o trabalho ao aliar as intrigas do consumo com aquelas da produção, preparação e distribuição. A produção, sendo a mais importante dessas quatro, coloca de início o princípio que deve nos guiar; é a generalização do epicurismo. Com efeito:

Se pudéssemos elevar toda a humanidade aos refinamentos da gastronomia, mesmo nos pratos mais comuns, tais como o repolho e rabanete, e dar a cada um uma afluência que lhe permita recusar toda comida de qualidade ou preparação medíocre, o resultado seria que cada país cultivado seria, depois de alguns anos, coberto com deliciosas produções; pois não haveria nenhum lugar para as medíocres, tais como os melões amargos e pêssegos amargos, que nascem em certos solos onde não mais se cultiva melões nem pêssegos: cada lugar se dedicaria às produções que seu solo pode elevar à perfeição; o solo pobre seria deixado aos esportes, ou talvez às florestas, campinas  artificiais ou outro emprego que pudesse dar um produto de boa qualidade. Não é que as Séries apaixonadas não consumam comidas e coisas comuns, mas elas desejam, mesmo nas coisas comuns, tais como feijões e pano grosso, a qualidade mais perfeita possível, em conformidade com as proporções que a natureza estabeleceu na atração industrial.

O princípio do qual é preciso partir é que se chegue a uma perfeição geral da indústria, pela exigência e refinamento universal dos consumidores sobre as comidas e as roupas, as mobílias e os prazeres.” (N.M.)

“Minha teoria se resume a utilizar as paixões hoje condenadas, tal como a Natureza nos deu e sem de nenhum modo mudá-las. Eis todo o mistério, todo o segredo do cálculo da Atração apaixonada. Não se argumenta aqui se Deus estava certo ou errado ao dar à humanidade estas ou aquelas paixões; a ordem societária se beneficia delas sem mudá-las.” (U.U., IV)

“Seu mecanismo produz em todos os aspectos a coincidência entre o interesse do indivíduo e o interesse coletivo, sempre divergentes na civilização.” (F.I)

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Aviso aos civilizados a respeito da próxima metamorfose social

TRABALHO ATRATIVO

“Porém, o trabalho é o deleite de várias criaturas, tais como os castores, abelhas, vespas e formigas, que tem completa liberdade para preferir a inércia: mas Deus lhes proveu com um mecanismo social que atrai à indústria, e faz a felicidade ser encontrada na indústria. Por que ele não nos concederia o mesmo favor como o desses animais? Que diferença entre a sua condição industrial e a nossa! Um russo, um argelino trabalham por medo do açoite e da paulada; um inglês, um francês, por medo da fome que espreita sua pobre família; os gregos e romanos, cuja liberdade foi louvada por nós, trabalhavam como escravos e por medo de punição, como os negros nas colônias atuais.” (U.U., II)“No mecanismo civilizado, encontramos por toda parte a infelicidade composta no lugar do encanto composto. Julguemos pelo caso do trabalho. Ele é, dizem as Escrituras muito justamente, uma punição do homem: Adão e sua prole são condenados a ganhar o pão com o suor de seu rosto. Isso já é uma aflição; mas esse trabalho, esse trabalho ingrato, do qual depende o ganho de nosso miserável pão, nós sequer podemos tê-lo! Falta ao trabalhador o trabalho do qual seu sustento depende – e ele suplica em vão por essa tribulação! Ele sofre ainda uma segunda vez, para obter trabalho numa era cujos frutos são de seu chefe e não dele, ou de ser empregado em obrigações nas quais ele é totalmente estranho… O trabalhador civilizado sofre ainda uma terceira aflição através das doenças com que ele é geralmente golpeado pelo excesso de trabalho demandado por seu chefe… ele sofre também uma quinta aflição, a de ser desprezado e tratado como indigente porque lhe faltam as coisas necessárias que ele precisa comprar pela angústia do trabalho repugnante. Ele sofre, finalmente, uma sexta aflição, a de que ele não vai obter nem progresso e nem salário suficiente, e que ao tormento do sofrimento presente se acrescenta a perspectiva do sofrimento futuro, e de ser enviado ao cadafalso se demandar esse trabalho que ele pode perder amanhã.” (Man.)

“No trabalho, como no prazer, a variedade é evidentemente o desejo da natureza. Qualquer gozo prolongado sem interrupção além de duas horas conduz à saciedade, ao abuso, embota nossas faculdades, e esgota o prazer. Uma refeição de quatro horas não vai passar sem excesso; uma ópera de quatro horas vai acabar enfastiando o espectador. A variedade periódica é uma necessidade do corpo e da alma, uma necessidade de toda natureza; até o solo requer alternância de sementes, e a semente, alternância de solo. O estômago vai logo recusar o melhor dos pratos se ele é oferecido todos os dias, e a alma será logo embotada no exercício de alguma virtude se ela não é socorrida por alguma outra virtude.” (U.U., I)

9eb75-fourier_degobert_1848“A principal fonte de serenidade entre os Harmonianos é a frequente mudança de encontros. A vida é um tormento perpétuo para nossos trabalhadores atuais, que são obrigados a gastar doze, frequentemente quinze horas em algum trabalho tedioso. Nem os ministros são isentos; encontramos alguns deles se queixando de ter passado um dia inteiro na tarefa maçante de pôr assinaturas em milhares de documentos oficiais. Tais responsabilidades fatigantes são desconhecidas na ordem societária; os Harmonianos, que devotam uma hora e meia ou no máximo duas às diferentes sessões, e que, nessas curtas sessões, são sustentados por impulsos cabalistas e pela união amigável com associados seletos, não falham em levar alegria e encontra-la por toda parte.” (N.M.)

EDUCAÇÃO

“Não há problema sobre o qual se tenha errado mais do que o da instrução pública e seus métodos. A Natureza, nesse ramo da política social, sofreu um prazer maligno em todas as épocas, ao confundirem as teorias e seus expoentes, desde o tempo da desgraça incorrida por Sêneca, o instrutor de Nero, até o dos fracassos de Condillac e Rousseau, dos quais o primeiro constituiu apenas um idiota político e o segundo sequer ousou se responsabilizar da educação de suas próprias crianças.” (U.U., IV)

“Será observado que, na Harmonia, a única função paterna é se render a seus impulsos naturais, estragar a criança, mimar todos os seus caprichos.

A criança mimada será suficiente reprovada e ridicularizada pelos seus pares. Quando uma criança passa o dia com meia dúzia de tais grupos e sofre suas piadas, ela fica completamente imbuída com um sentimento de sua insuficiência, e fica muito disposta a ouvir os conselhos dos patriarcas e veneráveis que são bons o bastante para lhes oferecer instrução.

Depois disso, terá pouca consequência que os pais se comprazam em mimar a criança na hora de dormir, dizendo que ela foi tratada muito severamente, que ela é realmente encantadora, muito inteligente; essas efusões apenas vão raspar a superfície, elas não irão convencer. A impressão foi feita. Ela está humilhada pelos zombarias dos  sete ou oito grupos de pequenos que ela visitou durante o dia. Será em vão que o pai e a mãe expliquem que as crianças que as repeliram são bárbaros, inimigos do intercurso social, da gentileza e bondade; todas essas platitudes dos pais não terão efeito, e a criança, ao retornar os seristérios infantis no dia seguinte, só vai lembrar das afrontas do dia anterior; na realidade é ela que vai curar o pai do hábito de mimar, redobrando seus esforços e provando que ela é consciente de sua inferioridade.” (U.U., IV)

“A Natureza concede a toda criança um grande número de instintos industriais, cerca de trinta, dos quais alguns são primários ou diretores e conduzem aos que são secundários.

A questão é descobrir antes de tudo os instintos primários: a criança morde a isca assim que se apresenta; desse modo, tão logo ela aprende a andar, deixando o seristério infantil, o cuidador ou cuidadora que se responsabiliza por ela rapidamente a conduz a todas as oficinas e comparece aos encontros industriais próximos dali; e como a criança vê por toda parte ferramentas diminutas, uma indústria em miniatura, na qual crianças de dois anos e meio até três já estão engajadas, e com quem ela está ávida por se associar, bisbilhotar, futucar, no fim de duas semanas podem ser discernidas quais oficinas a atraem, quais os seus instintos industriais.

Havendo uma variedade excessivamente grande de ocupações na falange, é impossível que a criança não encontre oportunidades de satisfazer vários de seus instintos dominantes; estes se exibirão à vista de pequenas ferramentas manipuladas por outras crianças alguns meses mais velhas do que ela.

Segundo os pais e professores civilizados, as crianças são pequenos preguiçosos; nada é mais errôneo; as crianças de dois e três anos são muito industriosas, mas nós devemos conhecer os móveis que a Natureza deseja pôr em ação para atraí-las à indústria nas séries apaixonadas e não na civilização. Os gostos predominantes em todas as crianças são:

  1. Bisbilhoticeou inclinação a futucar tudo, examinar tudo, olhar dentro de tudo, e mudar constantemente as acupações.
  2. Comoçãoindustrial, o gosto por ocupações barulhentas.
  3. Macaquiceou mania imitativa.
  4. Miniaturaindustrial, o gosto por oficinas em miniatura.
  5. Atração progressivado fraco para o forte.

Há muitas outras; limito-me a enumerar essas cinco primeiras, que são bastante familiares ao civilizado. Examinemos o método a ser seguido para aplicá-las à indústria desde cedo.

O homem ou a mulher que cuida dela inicialmente vai explorar a mania de bisbilhotar, tão dominante nas crianças de dois anos. Ela quer mexer em tudo, manusear e examinar tudo que vê. Hoje, ela é separada, colocada numa sala vazia, pois de outro modo ela destruiria tudo.

Essa propensão a manusear tudo é uma isca da indústria; para atraí-la, a criança será conduzida para as pequenas oficinas; ali, ela verá crianças de dois e meio a três anos usando pequenas ferramentas, pequenos martelos. Ela desejará exercitar sua mania imitativa chamada MACAQUICE; serão lhe dadas algumas ferramentas, mas ela vai querer ser admitida entre as crianças de vinte e seis e vinte sete meses que sabem como trabalhar, e que vão rejeitá-la.

Ela vai insistir se o trabalho coincidir com qualquer de seus instintos: o cuidador ou patriarca ensinará alguma parte do trabalho, e ela vai rapidamente ter sucesso se mostrando útil em algumas coisas frívolas que lhe servirão como introdução; examinemos esse efeito com relação a um tipo de trabalho sem importância, dentro do alcance das menores crianças – descascar e escolher ervilhas. Esse trabalho, que conosco ocupa as mãos de pessoas de trinta, será confiado a crianças de dois, três, quatro anos: o salão é guarnecido de mesas inclinadas contendo vários ocos; duas crianças estão sentadas no lado elevado; elas tiram as ervilhas da vagem, a inclinação da mesa faz os grãos rolarem para o lado mais baixo onde três crianças menores são posicionadas, de vinte e cinco, trinta e trinta e cinco meses, encarregadas da tarefa de escolher, e mobiliada com implementos especiais.

A tarefa é separar as menores ervilhas para o guisado adocicado, as medianas para o guisado de toucinho, e as maiores para a sopa. A criança de trinta e cinco meses primeiro seleciona as pequenas que são as mais difíceis de pegar; ela envia todas as grandes e medianas para o próximo oco, onde a criança de trinta meses empurram aquelas que parecem grandes para o terceiro oco, retorna as pequenas para o primeiro, e coloca os grãos medianos na cesta. A criança de trinta e cinco meses, posicionada no terceiro oco, tem uma tarefa fácil; ela retorna alguns grãos medianos para o segundo, e reúne as grandes em sua cesta.

É nessa terceira posição que a criança iniciante será colocada; ela vai se misturar orgulhosamente com os outros no lançamento dos grãos grandes na cesta; é um trabalho bem bobo, mas ela sentirá como se ela tivesse realizado tanto quanto seus companheiros; ela ficará entusiasmada e será tomada por um espírito de emulação, e na terceira sessão ela será capaz de substituir a criança de trinta e cinco meses, retornar os grãos do segundo tamanho no segundo compartimento, e reunir somente os maiores, que são facilmente distinguidos.” (N.M.)

“Se a educação civilizada desenvolvesse em cada criança suas inclinações naturais, veríamos quase todas as crianças ricas se enamorarem com várias ocupações muito plebeias, tais como aquela do pedreiro, do carpinteiro, do ferreiro, do seleiro. Exemplifiquei Luiz XVI, que amava o negócio do serralheiro; uma infanta da Espanha preferia aquele do sapateiro; um certo rei da Dinamarca se satisfazia fabricando seringas; a anterior rei de Nápoles amava vender ele mesmo o peixe que ele tinha pescado na feira; o príncipe de Parma, que Condillac tinha treinado em sutilizas metafísicas, no entendimento da intuição, da cognição, só tinha gosto pela ocupação dos representantes de igreja e a dos irmãos leigos.

A grande maioria das crianças ricas seguiria esses gostos plebeus, se a educação civilizada não se opusesse ao desenvolvimento deles; e se a sujeira das oficinas e a grosseria dos trabalhadores não levantasse uma repugnância mais forte do que a atração. Que filho de príncipe existe que não gosta de uma das quatro ocupações que mencionei, aquela do pedreiro, do carpinteiro, ferreiro e do seleiro, e quem não avançaria nelas se ela contemplasse desde tenra idade o trabalho feito em bonitas oficinas, por gente refinada, que sempre arranjaria oficinas em miniatura para as crianças, com poucas complicações e trabalho leve?” (U.U., III)

Nenhuma tentativa será feita, como no caso da educação atual, de criar pequenos sábios precoces, escolas primárias intelectuais iniciantes, introduzindo desde os seis anos em sutilezas científicas; o propósito será de preferência assegurar a precocidade mecânica; capacidade na indústria corporal, que, longe de retardar o crescimento da mente, o acelera.

Se quisermos observar a inclinação geral das crianças de quatro anos e meio a nove anos de idade, veremos que elas são fortemente atraídas para todos os exercícios materiais, e muito pouco aos estudos; é certo então que, de acordo com o desejo da natureza ou atração, o cultivo material deve predominar nessa idade.

Por que esse impulso da infância para os exercícios materiais? Porque a Natureza quer, sobretudo, fazer do homem um lavrador e um fabricante, para levá-lo à riqueza antes de conduzi-lo à ciência.” (U.U., IV)

[Trechos traduzidos por humanaesfera a partir do inglês e francês]

Nota:

[*] Siglas usadas para obras de Charles Fourier:

Q.M. – Théorie des quatre mouvements et des destinées générales (1808).

U.U. – Théorie de l’unité universelle (1822-1823).

N.M. – Le Nouveau monde industriel et sociétaire ou invention du procédé d’industrie attrayante et naturelle, distribuée en séries passionnées (1829).

F.I. – La fausse industrie morcelée répugnante et mensongère et l’antidote, l’industrie naturelle, combinée, attrayante, véridique donnant quadruple produit (1835).

Man. – Manuscrits de Fourier (1845-1858)

(obs.: todas essas obras podem ser encontradas online em http://gallica.bnf.fr , da Biblioteca Nacional da França)

PARA IMPRIMIR: BROCHURA HUMANAESFERA #5

Humanaesfera #5 é a quinta brochura (livreto) com conteúdos deste site. Este número contém extratos das obras de Charles Fourier e também extratos da primeira publicação comunista libertária, o jornal L’Humanitaire.

Neste link, está o PDF com a brochura, que consiste de 6 folhas A4 para serem impressas frente-e-verso (em impressoras que imprimem em frente-e-verso automaticamente, selecione “borda curta” ou “no sentido da borda menor”, ou ainda “Frente e verso, orientação vertical”), dobradas e grampeadas no meio.

Para ler como e-book, baixe a versão EPUB ou esta versão PDF.

Outros clássicos que traduzimos:

L´Humanitaire (1841), a primeira publicação comunista libertária

A Humanisfera (trechos) – Utopia Anárquica (1857) – Joseph Déjacque

Sobre a troca (1858) – Joseph Déjacque

Anarquia e Comunismo (1880) – Carlo Cafiero

Comentários sobre James Mill (trechos) (1844) – Karl Marx

Rascunho de artigo sobre um livro de Friedrich List(trechos) (1845) – Karl Marx

Marx comunista individualista! (trechos sobre o indivíduo em Marx) – Karl Marx

Autonomia e cotidiano – Espinosa e o imperativo de Kant: "Tratar os outros e a si mesmo como fins, jamais como meios"

(English translation: Autonomy and daily life – Spinoza and Kant’s imperative: “Treat others and yourself as ends, never as means” – humanaesfera)

Immanuel Kant (1724-1804) dizia [nota 1] que a ética deveria emanar, para cada indivíduo ser autônomo, de uma esfera ideal incondicional, absoluta, que seria independente e superior ao mundo relativo e mutável que é o da existência cotidiana, social e histórica de cada um. Ele chamou essa esfera ideal absoluta de “razão legisladora”. Legisladora porque dita “imperativos categóricos”, que são fins e deveres incondicionais. O conjunto dos imperativos formaria o que ele chama “reino dos fins”, uma espécie de império supra-mundano ideal dentro da cabeça de cada um e de todos. Liberdade, para ele, é apenas se submeter e cumprir os ditames emanados dessa esfera absoluta supra-sensível, que seria o único bastião livre de paixões.

Porém, como a liberdade kantiana poderia não contradizer o mais impressionante dos seus imperativos categóricos que diz “aja de tal modo a tratar a humanidade, tanto em ti mesmo quanto em qualquer outra pessoa, nunca meramente como um meio para um fim, mas sempre simultaneamente como fim”? Pode-se discutir que “humanidade” parece sugerir um ente abstrato separado de ti mesmo e das outras pessoas, redundando em autonomia nenhuma; porém essa discussão não é a que propomos. Pode-se interpretar mais frutiferamente a frase simplesmente como “tratar a si e ao outro como fins e jamais como meios”. Por outro lado, questionável é o próprio pressuposto que fundamenta a ética kantiana, porque, se a razão legisladora é incondicional, absoluta, imperativa, todos e cada um de nós não passam de relativos, meios, instrumentos, objetos, servos, dessa esfera absoluta, que é o reino dos fins em si supra-mundano.

E na complexidade da existência prática cotidiana, social e histórica, a liberdade kantiana, com seus imperativos, pouco tem a oferecer que não admoestações moralistas, formais e ranzinzas. Isso no melhor dos casos, porque no pior, visto que praticamente ninguém leva à sério as reprimendas, surge a tentação de pôr essas “leis da razão” em prática não pelas leis da razão em si (que se revela impotente), mas por outra instância que, fora da lei e da razão, seria supostamente a única capaz de aplicá-las efetivamente – a polícia.

Existe alguma maneira de salvar o princípio de “tratar a si e ao outro como fins e jamais como meios” sem recair na contradição de fazer disso um “imperativo”, que, enquanto imperativo, por definição trata os outros e quem o assume como meios para aplicá-lo? Acreditamos que sim, e que a proposta de liberdade de Baruch Espinosa (1632-1677) [nota 2] é a que permite superar essas dificuldades, iluminando perspectivas mais ricas e frutíferas dos problemas da existência prática.

Espinosa já criticava em Descartes justamente a ideia de uma razão (ou liberdade) transcendente, que seria feita de uma substância (in)diferente e superior à substância de todos nós e de nossa existência. Mas, ao criticar Descartes, Espinosa não abandonou a razão universal nem a liberdade. Muito pelo contrário, ele as radicalizou. Comecemos explicando que, para ele, a liberdade (ou razão) não é nem pode ser um decreto.

Segundo ele, cada indivíduo (humano ou não) surge e se desenvolve por uma confluência casual de infinitas determinações simultâneas que atuam a todo instante e que ele chama de “afecções”. E, enquanto essa confluência de afecções sustenta sua existência, o indivíduo continua existindo. Essa é a dimensão passiva (do latim, “passio”, paixão) da existência. Porém, quando passa a existir, cada indivíduo é uma determinação nova (“conatus”), uma capacidade específica, um desejo, uma potência ativa que cria novas confluências, outras relações e outras capacidades e desejos que, é claro, não existiam antes.

Mas mesmo quando passa a existir, cada indivíduo humano continua sendo “afetado” continuamente por novas “afecções” e as experimenta como o que Espinosa chama de “afetos”. Os afetos que aumentam as suas capacidades denominam-se “alegria”. Os que as reduzem, “tristeza”.  Mas qual a relação disso com a liberdade?

O aspecto ativo do “afeto de tristeza” é o “ódio”, o desejo pela destruição daquilo que o indivíduo imagina causar a redução de suas capacidades (redução de sua existência), seja imaginando essa causa por engano ou não. Assim, a tristeza leva meramente à reação contra o que imaginamos causá-la. Apesar do que pode parecer, a reação é uma servidão diante daquilo contra que reagimos, e por isso não é uma ação livre, não é autodeterminada. O ódio se manifesta geralmente como uma agressão igual ou maior à imaginada violência original, e quando um indivíduo imagina outro indivíduo humano como causa e reage, isso costuma torná-los escravos de um círculo vicioso de represálias recíprocas e crescentes, uma espiral de reações em cadeia que ocupam uma parte cada vez maior de suas lamentáveis existências. Aliás, nada mais adequado do que a palavra “reacionário” para designar esses infelizes.

Contrariamente, o “afeto de alegria” tem como aspecto ativo o “amor”, o desejo por aumentar a capacidade daquilo (ou de quem) que o indivíduo imagina aumentar suas próprias capacidades, sua própria existência. Mas quando sua imaginação se engana, e atribui como causador de sua alegria algo que não o é, o amor é ainda reação, paixão, joguete das circunstâncias,  já que se transformará em tristeza, daí em ódio, como resultado necessário do engano. Só quando atribui com conhecimento adequado, o amor deixa de ser paixão para se tornar ação, razão, transformação consciente do mundo e de suas relações com os outros. O amor, o desejo nascido da alegria, então, se manifesta como ação livre, autodeterminada, porque o indivíduo age aumentando sua própria liberdade, e isso só ocorre efetivamente aumentando a liberdade do outro e do mundo em que vive. Amar, por definição, é tratar a si e ao outro como fins em si, como seres livres, não como meios, objetos, coisas, instrumentos.

No entanto, na complexidade da existência prática cotidiana, em que predominam afecções aleatórias e cegas (paixões), os afetos de tristeza e alegria, e os correspondentes desejos de ódio e amor, se misturam e se combinam, dando surgimento a uma infinidade de afetos e desejos intermediários (Espinosa analisa detalhandamente um vasto apanhado deles: esperança, medo, contentamento, glória, irrisão, inveja, consideração, remorso, compaixão, orgulho, gratidão, crueldade, bajulação, desprezo, audácia, despeito, modéstia, vergonha, generosidade…) pelos quais os indivíduos humanos, fora alguns poucos sortudos, se engajam num emaranhado de reações em cadeia que só reduz ainda mais as suas próprias capacidades e aumenta sua servidão [nota 3].

Gostemos ou não, é nesse emaranhado que se passa nossa existência cotidiana, social e histórica, em que existimos mais como objetos, que reagem tão previsivelmente às afecções quanto robôs, do que como seres autônomos que transformam sua existência. As admoestações, as reprimendas, as raivinhas, as culpabilizações, as ladainhas não só são hipócritas (porque ninguém está fora dessa confusão), mas colocam ainda mais lenha na fogueira, já que só sabem pedir e apoiar uma servidão ainda maior (por exemplo, sonhando com uma grotesca violência invencível e incontrolável que acabe com a própria violência: um capataz, um diretor, um rei, um inquisidor, um super-herói, um deus, o karma, o inferno, o fim do mundo, uma invasão alienígena…).

Onde está então a liberdade e a razão nesse emaranhado escabroso? É claro: liberdade é agir, ser protagonista, tornar-se sujeito e não objeto. E para ser livre, é preciso compreender as causas específicas dos afetos e desejos que temos, conhecer as afecções (as circunstâncias) que nos afetam, porque só conhecendo-as podemos transformá-las efetivamente, aumentando as capacidades, nossas, dos outros e do ambiente em que vivemos. Mas a liberdade não é um decreto. Ela surge com experiências, uma confluência específica de afecções, que nos faz experimentar certa alegria que aumenta tanto nossas capacidades de pensar e agir que nos permitem, por sua vez, agir sobre as próprias afecções transformando-as conscientemente, isto é, modificando as circunstâncias

Assim, o procedimento dos reacionários, que se resume a apontar “culpados”, bodes expiatórios, “pessoas com vontade má”, além de inútil, causa ainda mais ódio e reação. O erro de outro indivíduo, ou mesmo sua violência, não pode ser combatido por decreto, porque isso não faz senão transferir a violência para outro âmbito ainda mais violento e sem controle, como o poder e a hierarquia (hoje ungidos com a lamentável superstição da meritocracia, da “mão invisível” da guerra de todos contra todos chamada mercado, e da idolatria chamada Estado). O que é efetivo para combater o erro, e especialmente a violência, é apontar a esse indivíduo experiências que o permitam compreender que, se ele reduz os outros indivíduos a objetos, meios, é porque ele próprio se comporta ridiculamente como um robô, porque seus atos, que ele pensava ser livres, são meras reações completamente previsíveis às afecções que lhe ocorrem, o que faz automaticamente o ódio (e a servidão decorrente dele, a reação) ocupar a maior parte de sua existência. Em suma, contribuír para fazê-lo compreender as afecções que o afetam é o único modo de ajudá-lo a deixar de ser objeto, mudá-las e transformar ativamente a sua vida, única condição para que passe a tratar a si e aos outros como fins em si e não como meios.

E a razão? Se a razão for entendida como decreto (como em Kant), ela se resume a uma emissão de imperativos, reprimendas, que, embora muitos (ou mesmo todos) de nós possamos categoricamente concordar, praticamente ninguém pode nem quer seguir de fato na vida cotidiana. Isso porque todo decreto busca burramente passar por cima da confusão concreta que é a nossa existência prática cotidiana, social e histórica, contribuindo, na verdade, como um elemento a mais, até multiplicador, no emaranhado de reações, de servidões.

A única razão universal que pode ser efetivamente assumida e posta em prática, então, só pode ser um tipo de alegria, um tipo de amor que seja mais apaixonante do que as reações. Um amor pela autonomia, pela liberdade, pelo conhecimento, ou seja, pela virtude como algo desejado por si só, universal, livremente acessível à todos para desfrute e alegria generalizados. Decorre da razão, consequentemente, o projeto de transformar a vida cotidiana, social e histórica no sentido universal de que todos possam desenvolver suas capacidades livremente, como seres autônomos, ou, em outras palavras, a finalidade de suprimir todas as condições que levem seja que indivíduo for a aceitar ser tratado como objeto, como instrumento,  meio para um fim alheio.

Concluindo: O que está em jogo é a nossa capacidade de, nesse mundo que é um emaranhado servil de reações cegas, sermos efetivamente capazes de criar e propagar a razão e a liberdade. Para isso, vimos que um imperativo ou decreto só traz mais servidão, enquanto que provamos que só podemos propagar a razão, a virtude e a liberdade se, na vida cotidiana, provarmos que são válidos por si sós, ou seja, como amor, alegria.

humanaesfera, outubro de 2015

NOTAS:
[nota 1] No livro Fundamentação da metafísica dos costumes.

[nota 2] Aqui tratamos especificamente da proposta de liberdade naquilo que Espinosa chama de “segundo gênero de conhecimento”, exposto em Ética demonstrada à maneira geométrica, partes III, IV, V e VI.

[nota 3] Essa mistura confusa, por exemplo, explica o vício: um indivíduo imagina como causa do aumento de suas capacidades [isto é, de alegria e, portanto, amor] algo que na realidade aumenta uma parte limitada e temporária de suas capacidades [por exempo, a capacidade de ficar super-ativo ou super-relaxado, como os efeitos de certas drogas] mas que reduz suas capacidades como um todo e a longo prazo, causando tristeza e, portanto, ódio e, consequentemente, tornando-o um escravo.

Continuação destas reflexões éticas:

Autonomia, espiral de violências e apelo à força (i.e, à classe dominante)

Frente a uma violência, é natural, compreensível, humano, que os agredidos ou vítimas reajam com ódio. Emocionados, o agredido e/ou os que se compadecem com a vítima tendem a reagir recorrendo a uma violência igual ou maior (a deles mesmos, a de uma gangue, de um gerente, da polícia, do direito ou mesmo a de um monarca cósmico absoluto imaginário). Isso pode iniciar uma espiral de represálias recíprocas que multiplica a violência e foge ao controle de todos. Até o ponto de ninguém mais se lembrar do motivo inicial, tornado irrelevante pelas sucessivas violências mútuas que se agravam cada vez mais. Tentar reparar um dano com outro dano multiplica os danos e, em última instância, faz de cada um o causador dos danos feitos a si mesmo mediante os outros, numa corrida armamentista que escraviza a todos.

Há quem argumente que, para interromper esse ciclo, é preciso “compaixão” ou “empatia”: nos compadecer com a dor do agressor porque na verdade ele teria sido antes vítima de outro agressor e assim sucessivamente, ad infinitum. Porém quem diz isso esquece que a empatia é a própria causa da espiral de violência (sob a forma de indignação). O erro do argumento da empatia é que “empatia de amor” e a “empatia de ódio” são igualmente emoções –  e emoções são reações espontâneas (se não forem, são falsas emoções), ou seja, não dependem de nenhum argumento.

Sem dúvida, a paixão é o que nos move e não há como escapar disso. O que fazer então? Uma possível resposta é dada pelos filósofos ultra-iluministas Benedito de Espinoza e Jean Meslier: entre as paixões humanas está a paixão pela liberdade – a razão. A razão é ação, e não reação (todas as demais emoções não passam de reações), porque ela busca modificar as causas, não reagir aos efeitos; busca transformar as condições de existência, e não escolher entre caminhos pré-estabelecidos; busca subverter o status quo, o tabuleiro, não mover mais uma vez as peças de um jogo suicida e escravizador. A questão é: a paixão pela liberdade, pela autonomia, é capaz de superar as outras emoções?  E como agir, isto é, como criar um ambiente onde as emoções possam se expressar da maneira mais enriquecedora e feliz possível?

Seja como for, quando ocorre uma violência, se queremos evitar o surgimento de uma espiral de violências – que só serve para suprimir a autonomia e legitimar o poder da classe dominante, ou seja, a adesão à falsa garantia dada por alguma violência ainda mais ameaçadora, tal como a gangue, o gerente, a polícia, o direito, as forças armadas e o Estado -, só nos resta abandonar toda e qualquer ideia de punição (e recompensa), porque, como vimos, ela não tem o menor fundamento, é pura irracionalidade. *

É preciso ao menos que saibamos ser concretos:

– Quem agrediu pode agredir outra vez? Em outros termos: a agressão dele é um hábito? E se é um hábito – um vício -, ele poderia (ter liberdade para) não agredir da próxima vez?

– Mas se ele teve liberdade para escolher agredir, que razão o motivou a fazer isso? A agressão foi motivada por algo transitório, improvável de se repetir? Ou motivada por algo constante ou repetível? Como atacar esse motivo?

– Se a agressão dele é um hábito, o que fazer? Isolá-lo, para que não voltemos a sofrer agressões dele? Mas como ajudá-lo a se libertar do hábito de agredir que o escraviza?

– E o agredido, como tratá-lo?

Em suma, questões materialistas práticas incontornáveis.

humanaesfera, junho de 2015
Nota:
* Falar em “livre arbítrio”, “intenção”, “vontade”, “falta de vontade”,  não só é perfeitamente inútil e oco mas extremamente nocivo. O apelo à vontade serve apenas para atribuir culpa, causando ainda mais raiva e ressentimento. Quando buscamos parar de fumar, por exemplo, a vontade não é nada “em si”, porque o que determina essa vontade é, não ela mesma, mas as paixões de parar de fumar (que pode ser uma paixão pela autonomia que parar de fumar trará) frente às paixões cada vez mais tristes (servis) de continuar fumando (prováveis doenças, interrupção constante das atividades para suprir o vício, mau cheiro nas interações sociais etc.). Se a vontade é algo, ela não passa do hábito – que é uma paixão “animal”, pavlovianamente adestrada – de se focalizar para alcançar qualquer fim, seja ele qual for. Enquanto os fins sempre são formados pelas livres interações, combinações ou associações das paixões, nunca pela “bestial” vontade “em si”.

Bibliografia:
– Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão Social – Simone Weil
– Ética – Benedito de Espinoza
– Ateismo e revolta: os manuscritos do padre Jean Meslier – Paulo Jonas de Lima Piva
– Le Humanisphère – Joseph Déjacque

Ver também:

– Materialismo 

Materialismo

[…] não existe  [algo] que não seja visto por meio de alguma forma [eideos]. Creio que os próprios nomes tenham sido atribuídos por meio das formas. É absurdo e impossível acreditar que as for­mas brotem dos nomes. Os nomes são estabelecidos pela convenção, enquanto a forma brota da natureza.” Hipócrates de Cós,  Acerca da Arte (Peri Tékhne)


Matéria e forma

A afirmação de que a substância gera suas formas é o que nos leva a nos considerar materialistas.

Ao contrário, os imaterialistas afirmam que as formas são impostas do alto e de fora (ou do passado, ou futuro) sobre uma substância inerte e informe. Assim, eles são dualistas, ou seja, dividem o universo em dois princípios distintos: ativo e passivo, comandante e comandado, espírito e matéria, alma e corpo, sujeito e substância, vontade e paixão…

Demócrito, o filósofo que ri.

O modelo imaterialista é antropomórfico: a escultura  é uma matéria que recebeu suas formas do escultor, assim como, analogamente, o universo “perfeito como um relógio” provaria que existe um ser exterior que impõe formas “perfeitas” sobre a matéria bruta.

Em contraste, no modelo materialista, todas as formas surgem pela própria matéria, imanentemente.  Por exemplo, a forma redonda, esférica, do planeta terra, é causada simplesmente por sua matéria e nela. Do mesmo modo, univocamente, é a matéria que causa, conforme o modo de sua disposição, todas as formas: corporais, espirituais, humanas, minerais, animais, ideais, técnicas, culturais…, isto é, tudo o que conhecemos. Mais precisamente: tudo surge, se mantém e age pela confluência de determinações simultâneas (sem finalidade e sem pré-determinação, que são apenas práticas humanas) e morre quando essa confluência se desfaz.

Não faz sentido acusar o materialismo de tentar “reduzir tudo” à  matéria, porque, segundo ele, a matéria é irredutível à mente, à representação – já que a matéria é infinitamente mais rica e complexa do que qualquer de suas formas. Nessa perspectiva, o espírito, por exemplo,  é uma forma da matéria e, enquanto matéria, irredutível e atuante. Ele tem certa autonomia (potência), embora  temporária e nunca absoluta, pois nenhuma forma é indiferente, incondicional, exceto se deixar de existir.

Forma indiferente e hierarquia

Supor a existência de uma ou várias formas indiferentes é supor a existência de um inacessível, de uma realidade oculta, incondicional, uma verdade escondida pelas aparências. A hierarquia se legitima na submissão àqueles que afirmam ter o privilégio de acessar o inacessível, secreto, sagrado (hierósἱερός). O imaterialismo legitima necessariamente a hierarquia, o poder, ou seja, a violência.

É certo que as pessoas devem acreditar no que acharem melhor, pois isto é um problema delas e que só diz respeito à elas. Mas quando um exército de seguidores erige uma hierarquia, uma relação social autoritária que se acredita representar uma forma incondicional (não só deus, universo oculto, mundo espiritual… mas igualmente o mito da pátria, da nação, do povo especial, da terra sagrada e da família, como também o da “mão invisível”, econômica ou ecológica, e o das formas holísticas e vitalísticas), essas pessoas necessariamente tratam as demais como inferiores, indivíduos meramente relativos que devem se curvar ao “absoluto” ao qual o líder teria acesso. É sobretudo por esse motivo que vemos a necessidade premente de sair à público em defesa do materialismo, que é o antídoto cirurgicamente específico contra todas as tendências obscurantistas.

Forma e matéria das idéias

A tradição materialista (desde a antiguidade, por ex., Epicuro e sua aisthēsis) se caracteriza por afirmar que as aparências são sempre verdadeiras (detalhes aqui), mesmo que descubramos, depois, graças a novas aparências, que estávamos enganados. Somente as aparências dão os conteúdos,  os materiais,  que  confluindo com os dispostos pela imaginação e pela memória formam imanentemente idéias,  pensamentos, conceitos. As aparências cujo acesso não é individualmente exclusivo são chamadas evidências. Estas são verificáveis e comunicáveis entre os seres humanos, que, de diversos pontos de vista, compartilham suas diferentes impressões e podem assim fazer uma idéia mais ampla e potente daquilo que vêem, do que poderão fazer e de seus fins.

Uma cultura materialista, baseada em evidências, é o único antídoto contra os boatos, notícias falsas, conspiranóias, desconfianças paranóicas, medos, fobia de bodes expiatórios (“estrangeiros”, “judeus”, “favelados criminosos”, “financistas maléficos”…), que só são úteis para uma classe dominante legitimar seu poder enquanto os proletários (submetidos à condição de “classe média”, isto é, vendedores-compradores “livres e iguais”, como se, por livre e espontânea pressão, não se arrastassem para vender a si próprios no mercado de trabalho e reduzir suas capacidades de pensar e agir a meros objetos de consumo, para as empresas, particulares e estatais), desconfiando de si mesmos, são imbecilizados a ponto de atenderem instantaneamente ao comando de massacrarem a si mesmos.

Não é preciso recorrer a qualquer autoridade que reivindique um acesso privilegiado a uma verdade oculta.  As experiências comuns cotidianas (chamadas triviais, “banais”) são suficientes. E esta é a base da própria filosofia. O campo da filosofia são as coisas que de tão comuns, rotineiras, óbvias e ululantes,  perdemos a consciência delas, e elas ficaram de fora do pensamento e se tornaram repetição mecânica, estereótipo. Filosofar é considerar o que todos achamos saber mas que nunca tínhamos parado para pensar.

É meramente por experiências triviais, comuns, que afirmamos que qualquer algo só surge entre outros algos, nunca num absoluto, que nada é indiferente e tudo se forma através de uma confluência  de determinações simultâneas, ou seja, que tudo é matéria. Se um dia encontrarmos uma evidência de uma forma indiferente, imaterial, poderemos dar o braço a torcer para os imaterialistas, mas só encontramos evidências de que uma diferença indiferente, incondicional, não passa de pura indiferença, ou seja, nada.

Essas evidências da experiência comum bastam para conceituarmos “matéria” de um ponto de vista filosófico e prático. Quanto à afirmação de que tudo são partículas subatômicas, ondas, unicórnios quânticos ou campos, esta não é uma questão filosófica, pois a verdade dessas afirmações não pode ser suficientemente confirmada por evidências de nossas experiências comuns e corriqueiras, mas apenas por experimentos caros e complexos acessíveis somente às autoridades científicas (comunidade científica). Não se trata de desprezar a ciência, que é valiosíssima, mas de saber reconhecer corretamente o seu campo de aplicação e validez.

La Mettrie

Contra o cientificismo e a tecnocracia

O cientificismo deixa de lado a experiência comum cotidiana considerando-a sem valor e pretende confiar apenas nas autoridades científicas (no veredito da comunidade científica). Criam assim uma outra forma de credo propenso a se conformar acriticamente a uma hierarquia tecnocrática. Além disso, o cientificismo faz a experiência cotidiana comum ficar de fora do pensamento, deixando um vazio que será ocupado por pseudo-explicações místicas, mágicas e religiosas. Assim, não causa surpresa ver o quão frequentemente o cientificismo se revela o outro lado da moeda místico-religiosa.

Mas o principal é que, por definição,  a ciência se ocupa de descrições da realidade e do aprimoramento de meios técnicos, não dos fins. Logo, a idéia de governo científico,  gestão eficiente, ou tecnocracia , é uma fraude, porque oculta as finalidades, confundindo-as com meros meios. O tecnocrata é portanto o alter ego do teocrata, cujos fins são ocultos, “mistérios”.

Para as finalidades, ou temos a religião (“mandamentos”, inclusive a superstição da “mão invisível” da economia e ecologia), o instinto (incluindo o hábito, inculcado pavlovianamente), ou o pensamento (ou seja, a filosofia). Defendemos que os melhores fins são os feitos com o pensamento, em especial o materialista, paixão-pensante-praxis que busca criar e submeter os fins à expansão da potência de agir e de pensar dos indivíduos e, portanto, da humanidade.

Humanaesfera, junho de 2014

Bibliografia 

  • Lucrécio – Da Natureza das Coisas (De Rerum Natura)
  • Baruch Espinoza – Ética
  •  Jean Meslier – Ateísmo e Revolta, os manuscritos do padre Jean Meslier (Paulo Jonas de Lima Piva)
  • La Mettrie – O Homem-máquina
  • Holbach – Sistema da Natureza
  • Hegel – Fenomenologia do Espírito
  • Marx – Manuscritos econômicos e filosóficosA Ideologia Alemã, Grundrisse
  • Joseph Déjacque – A humanisfera
  • Bakunin – Deus e o Estado
  • Michel Serres – O Nascimento da Física no Texto de Lucrécio
  • Deleuze & Guattari – Capitalismo e esquizofrenia, volume I (O Anti Édipo) e II ( Mil Platôs)

Contra as recompensas e punições (contra a meritocracia, contra a coerção)

“A recompensa da virtude é a própria virtude e o castigo reservado à desrazão e ao abandono de si é precisamente a desrazão. Quem quer recompensas e castigos não encontra nada que lhe apraza na virtude mesma e no conhecimento, e evita os maus atos com hesitação, forçando-se como um escravo. Ele espera que sua servidão seja paga a um preço que a seus olhos vale muito mais do que o amor: tanto mais caro quanto mais aversão ele tem ao bem e se coage mais.” Baruch Espinosa (resumo e livre adaptação de um argumento encontrado na Carta 43, de  Espinosa  a Jacob Osten, fevereiro de 1671, Correspodência).

“Para propagar a virtude, é melhor o encorajamento e a palavra persuasiva do que a lei e a coerção. Quem evita ser injusto por temor à lei, provavelmente cometerá o mal em segredo; quem, ao contrario, for levado ao dever pela convicção, provavelmente não será injusto nem em segredo e nem abertamente.” Demócrito de Abdera (fragmento DK 68 B 181)

Recompensas e punições pressupõem uma violência (poder) que despojou os seres humanos de suas próprias condições de existência, impedindo-os de existirem por si mesmos, autonomamente,  e permitindo-a prometer (recompensar) e ameaçar (punir). O medo e a esperança; o chicote e a carne lançada às bestas.

Combater esse poder só é possível se abolirmos a propriedade privada das condições de existência (meios de vida e de produção), tornando-as gratuitas, para que desenvolvamo-nos e as nossas produções como atividades e fruições que valem por si mesmas, manifestações multilaterais de nossas faculdades, desejos, necessidades, paixões… livres, ou seja, sem nenhuma força que possa estar na posição (classes) de nos submeter à recompensas nem punições. Em outras palavras, sem o engodo da troca de equivalentes, seja hierárquico ou mercantil, já que na verdade são sempre pseudo-equivalentes: sobretrabalho e mais-valia. Recompensas e punições serão suplantadas pela alegria ou tristeza intrínsecas ao experimento de cada um nessas atividades, produções e fruições livres, únicos móveis de  toda composição e dissolução na livre associação em escala mundial que chamamos comunismo.

Mas os paranóicos e apavorados só enxergam o mundo através dos óculos da ameaça e da recompensa (eles querem o fim da “impunidade” e a retribuição de seus “méritos”). Então, vejamos melhor: qual a relação entre um ato (“bem” ou “mal”) e sua sanção (recompensa ou punição)?  Por mais que se procure, simplesmente não há nenhuma relação. A única coisa que os liga é, necessariamente, uma força totalmente extrínseca ao ato e ao móvel do ato. Logo, a conclusão é evidente: a relação entre “crime” e punição (e entre servilismo e recompensa) é sempre arbitrária, exterior, irracional, inútil. (E quando as crianças são “educadas” assim, elas apenas são ensinadas, e isso na melhor das hipóteses, que é aceitável que as coisas “se resolvam” mediante chantagens e porrada – e quando crescerem provavelmente engrossarão o partido da ordem dos linchadores de plantão “em defesa da família”).

Outros defendem que só as regras ou a lei (“o estado de direito”, ou mesmo as “leis universais da razão” de Kant) impedirão que recompensas e punições sejam arbitrárias. Porém, além de a idéia de equivalência entre ato e sanção ser em si arbitrária (uma pura troca de alhos por bugalhos), é impossível que a lei possa por conta própria andar por aí para aplicar sanções (recompensas e punições), pois afinal a lei é só um monte de papéis. A lei só pode ser efetiva se aplicada por uma força que não é a lei, que é portanto literalmente fora da lei, acima da lei: a polícia, o pai (ou mãe), o chefe, o gerente, o presidente… na prática, a arbitrariedade sempre reina, como já estamos fartos de saber (veja, por exemplo, o Brasil, onde a pena de morte e a tortura são ilegais, oficialmente não existem,  mas que, na prática, é um dos países onde elas são mais praticadas no mundo).

Quanto ao estado de direito, um trecho de Walter Benjamin:

“[…] uma solução totalmente não violenta de conflitos nunca poderá desembocar num contrato jurídico. Por mais pacífico que tenha sido o clima que levou as partes a firmá-lo, um contrato desse tipo pode acabar sempre por conduzir à violência, porque concede a cada uma delas o direito de reclamar o recurso a alguma forma de violência contra a outra, no caso de esta violar o contrato. E não é só isso: a própria origem de todo contrato aponta para a violência, tal como o seu desfecho. Enquanto poder que institui o Direito, esta não precisa estar diretamente presente nele, mas está nele representada desde que o poder que garante o contrato jurídico tenha, por seu lado, origem violenta, ainda que não tenha sido aplicada legalmente no contrato com recurso à violência.  […] Por mais desejável e satisfatório que, apesar de tudo, seja um parlamento que funcione bem, por comparação com outros regimes, a discussão dos meios, por princípio pacíficos, do entendimento político não poderá passar pelo parlamentarismo. Na verdade, o que este consegue alcançar no que se refere a questões vitais são apenas aquelas ordens jurídicas reféns da violência à entrada e à saída. “ Walter Benjamin, Sobre a crítica do poder como violência

Há também os que, impregnados de religião e espiritualidade, acreditam numa entidade chamada “mal”, “maldade”, e dizem que o homem (assim como a matéria e o mundo como um todo) por si mesmo é “mal”. Não é a toa que os lugares do mundo onde a religiosidade é mais intensa são os mais violentos, pois a expectativa a priori da maldade nas relações humanas, numa desconfiança mútua generalizada, torna real esse fantasma (“maldade”) na prática. Para eles, “o bem” é auto-sacrifício, auto-anulação; isto é, para eles o “bem” é algo repulsivo, que justamente por não ter nenhum valor em si mesmo, vale por outra coisa, é “mérito” (que serve para reencarnar melhor, chegar ao nirvana, ou ascender ao paraíso e evitar o inferno, ou ser promovido pelo chefe). Contra isso defendemos uma ética materialista:

O homem é o egoísmo; sem egoísmo, o homem não existiria. O egoísmo é o móbil de todas as suas ações, o motor de todos os seus pensamentos.[…]
É para crescer, para aumentar o círculo de sua influência que o homem leva alto a sua face e atira ao longe o seu olhar; é em vista de satisfações pessoais que ele caminha para a conquista de satisfações coletivas. É para si mesmo, como indivíduo, que ele quer participar da efervescência viva da felicidade geral; é para si mesmo que ele fica aflito pelo sofrimento dos outros. Seu egoísmo, sem cessar exigido pelo instinto de sua conservação progressiva e pelo sentimento de solidariedade que o liga a seus semelhantes – seu egoísmo solicita as perpétuas emanações de sua existência na existência dos outros. É isto que a velha sociedade chama impropriamente de devotamento e que não é senão espelhamento [spéculation], espelhamento que é tanto mais humanitário quanto é mais inteligente, que é tanto mais humanicida quanto mais é imbecil.(…)
Humanamente, não é possível fazer um movimento, um gesto da mão, do coração ou do cérebro, sem que a sensação se repercuta de uma pessoa para outra como um choque elétrico. E isso tem lugar no estado de comunidade anárquica, no estado de natureza livre e inteligente. […]

A coerção é a mãe de todos os vícios. Por isso, é banido pela razão do território da humanisfera. O egoísmo, naturalmente, o egoísmo inteligente é muito desenvolvido para que alguém pense em forçar seu próximo. É por egoísmo que eles trocam bons atos.

[…]Nós todos nascemos com o germe de todas as faculdades […], as circunstâncias exteriores agem diretamente sobre nós. Conforme nossas faculdades são ou foram expostas a sua influência, elas adquirem um desenvolvimento maior ou menor e se formam de uma ou de outra maneira.  […]

O meio onde nós vivemos e a diversidade de pontos de vista onde se colocam os homens e que faz com que ninguém possa ver as coisas sob o mesmo aspecto, explicam […] a diversidade de suas paixões e aptidões.” Joseph Déjacque (Le Humanisphère)

humanaesfera, maio de 2014

Joseph Déjacque: "A Humanisfera – Utopia Anárquica" (1857). Trechos sobre o comunismo futuro

Trechos de “A Humanisfera”:
Introdução
Sobre o comunismo futuro
Sobre a transição revolucionária
Sobre as suas influências







Trechos de “L’HUMANISPHERE. UTOPIE ANARCHIQUE” (A Humanisfera – Utopia Anarquista), 1857,  sobre o comunismo libertário futuro:  



MOTIVO DA UTOPIA


A ausência de ordens, eis a verdadeira ordem.” LE LIBERTAIRE n°12: 7 de abril de 1859

“A ordem com a adaga ou o canhão, com a forca ou a guilhotina; (…) a ordem personificada na trindade homicida: ferro, ouro e água benta; a ordem à golpes de fuzil, à golpes de bíblias, à golpes de  notas bancárias (…) não é senão lei de bandidos, o código do roubo e do assassinato que preside a partilha do butim e o massacre das vítimas. É sobre esse pivô sangrento que gira o mundo civilizado.” LE LIBERTAIRE n°12: 7 de abril de 1859

“Invalidar a autoridade e criticar seus atos não basta. Uma negação, para ser absoluta, necessita de se completar com uma afirmação. É por isso que eu afirmo a liberdade, é por isso que deduzo as suas consequências. “ LE LIBERTAIRE n°1: 9 junho de 1858


“Para mim, a questão não é fazer discípulos, mas fazer homens, e alguém é homem apenas com a condição de ser ele mesmo. Incorporemos as idéias dos outros e encarnemos nossas idéias nos outros; nada melhor do que misturar nossos pensamentos; mas façamos desta mistura uma concepção nossa. Sejamos uma obra original e não uma cópia. O escravo se modela no seu mestre, ele imita. O homem livre não produz senão seu tipo, ele cria.


Meu plano é fazer um retrato da sociedade do modo como ela me parece no futuro: a liberdade individual fluindo anarquicamente na comunidade social e produzindo a harmonia.” LE LIBERTAIRE n°1: 9 junho de 1858

“Os pesquisadores da felicidade ideal, assim como os pesquisadores da pedra filosofal, não poderão talvez nunca realizar sua utopia de uma maneira absoluta, mas sua utopia será a causa do progresso humano.” LE LIBERTAIRE n°6: 21 de setembro de 1858

“Tenho apenas uma face, mas esta face é móvel como a fisionomia da onda; ao menor sopro, ela passa de uma expressão à outra, da calma à tempestade e da cólera à ternura.  É por isso que, como passionalidade múltipla, espero tratar da sociedade humana com alguma chance de sucesso, visto que, para tratá-la adequadamente, é preciso tanto conhecer as próprias paixões quando as dos outros.”  LE LIBERTAIRE n°1 9 de junho de 1958





PAIXÕES,  ATRAÇÕES E INCLINAÇÕES: HOMEM, COSMO, ANARQUIA



“O homem é um ser essencialmente revolucionário. Ele não sabe se imobilizar num lugar. Ele não vive a vida dos limites, mas a vida dos astros.” LE LIBERTAIRE n°6: 21 de setembro de 1858


” [Os] globos circulam livremente no éter, ora atraídos gentilmente por um, ora repelidos com doçura por outro, todos obedecendo somente a sua paixão, e encontrando na sua paixão a lei de sua harmonia móvel e perpétua, (…)  e demonstram por uma argumentação sem réplica que (…) a ordem anárquica é a ordem universal.  (…) Do mesmo modo que as esferas circulam anarquicamente na universalidade, também os homens devem circular anarquicamente na humanidade, sob a única impulsão das simpatias e das antipatias, das atrações e das repulsões recíprocas. A harmonia não pode existir senão pela anarquia.”   LE LIBERTAIRE n°4: 2 de agosto de 1858


E NO ANO DE 2858…


“Dez séculos se passaram diante da Humanidade. Estamos no ano de 2858.” LE LIBERTAIRE n°6: 21 de setembro de 1858

“A utopia anarquista é para a civilização o que a civilização é para a selvageria.” LE LIBERTAIRE n°6: 21 de setembro de 1858

“O ar, o fogo, a água, todos os elementos com instintos destruidores foram dominados. (…) O homem trona sobre as máquinas de trabalho, ele já não fertiliza mais o campo com o suor de seu corpo, mas com o suor da locomotiva. (…) As estradas de ferro, as pontes lançadas sobre os estreitos e os túneis submarinos, as construções subaquáticas e os aerostatos, movidos pela eletricidade, fizeram de todo o globo uma única cidade que se pode atravessar em menos de um dia. Os continentes são os bairros ou distritos da cidade universal.” LE LIBERTAIRE n°7: 25 de outubro de 1858


“A ciência destruiu o que é mais repugnante na produção, e são as máquinas a vapor ou elétricas que se encarregam de todas as tarefas grosseiras.” LE LIBERTAIRE n°10: 5 de fevereiro de 1859



“De agora em diante eu chamarei esse lugar ou falanstério de Humanisfera, por causa da analogia dessa constelação humana com o agrupamento e o movimento das estrelas, organização gravitacional, anarquia passional e harmônica. (…) Cem humanisferas simples (…) formam o primeiro elo da corrente serial e toma o nome de “Humanisfera Comunal”. Todas as humanisferas comunais de um mesmo continente formam a (…) “Humanisfera continental”. A reunião de todas as humanisferas continentais forma o complemento da corrente serial e tem o nome de “Humanisfera universal.” LE LIBERTAIRE n°9: 10 de janeiro de 1859



“[Ali, todos] sabem que a harmonia só pode existir pelo concurso das vontades individuais, que a lei natural das atrações é a lei tanto do infinitamente pequeno quanto do infinitamente grande, que nada que é social pode se mover sem ela, que ela é o pensamento universal, a unidade das unidades, a esfera das esferas, que ela é imanente e permanentemente em eterno movimento;” LE LIBERTAIRE n°7: 25 de outubro de 1858


NADA DE GOVERNO


“Na Humanisfera, nada de governo. Uma organização atrativa toma o lugar da legislação. A liberdade soberanamente individual preside a todas as decisões coletivas. A autoridade da anarquia, a ausência de toda ditadura do número ou da força substitui o arbítrio da autoridade,  o despotismo da espada e o despotismo da lei. A fé em si mesmo é toda a religião dos humanisferianos. Os deuses e os padres, as superstições religiosas levantam entre eles uma reprovação universal. Eles não conhecem nem teocracia nem aristocracia de nenhum tipo, mas apenas autonomia individual. Cada um se governa por suas próprias leis e é por esse governo de cada um por si mesmo que é formada a ordem social.” LE LIBERTAIRE n°12: 7 de abril de 1859



“Hoje em dia, uma multidão – mesmo aqueles que são partidários de grandes reformas – pensa que nada pode ser alcançado exceto por autoridade, enquanto que apenas o contrário é verdade. É a autoridade que faz obstáculo a tudo. O progresso nas idéias não é imposto por decretos, ele resulta do ensino livre e espontâneo dos homens e das coisas. O ensino obrigatório é um contrassenso. (…) os anarquistas querem a liberdade de ensino para ter o ensino da liberdade. A ignorância é o que há de mais antitético à natureza humana. O homem, em todos os momentos de sua vida, e sobretudo a criança, não quer nada mais do que aprender; isto é solicitado por todas as suas aspirações. Mas a sociedade civilizada, assim como a sociedade bárbara e a sociedade selvagem, longe de facilitar o desenvolvimento de suas aptidões só sabe cuidar de lhe reprimir. A manifestação de suas faculdades lhe é imputada como crime: para a criança, pela autoridade paterna; para o homem, pela autoridade governamental.”  LE LIBERTAIRE n°9: 10 de janeiro de 1859


“A coerção é a mãe de todos os vícios. Por isso, é banida pela razão do território da humanisfera. O egoísmo, naturalmente, o egoísmo inteligente é muito desenvolvido para que alguém pense em forçar seu próximo. É por egoísmo que eles trocam bons atos.” LE LIBERTAIRE n°11: 6 de março de 1859


COMUNISMO – PRODUÇÃO E CONSUMO LIVRES

“Ali, nessa sociedade anárquica, a família e a propriedade legais são instituições mortas, hieróglifos cujo sentido se perdeu. LE LIBERTAIRE n°8: 20 de novembro de 1858


“Tudo que é obra da mão e da inteligência, tudo que é objeto de produção e de consumo, capital comum, propriedade coletiva, PERTENCE A TODOS E A CADA UM. Tudo que é obra do coração, tudo que é da essência íntima, sensação e sentimento individuais, capital particular, propriedade corporal, tudo aquilo que é homem enfim, na sua acepção própria, seja qual for a sua idade ou sexo, PERTENCE A SI MESMO. Produtores e consumidores produzem e consomem como lhes apraz, quando lhes apraz e onde lhes apraz. “A liberdade é livre.” Ninguém pergunta: por que isto? Por que aquilo?” LE LIBERTAIRE n°8: 20 de novembro de 1858


“Na anarquia, o consumo alimenta a si mesmo pela produção. Um humanisferiano não compreenderia que se possa forçar um homem para trabalhar como não compreende que se possa forçar um homem a se alimentar.(…)
Os humanisferianos satisfazem naturalmente a necessidade de exercício do braço tanto como a necessidade do exercício do ventre. Não é mais possível racionar o apetite da produção, assim como também não é mais possível racionar o apetite do consumo. Cada um consome e produz conforme as suas capacidades, conforme as suas necessidades. Se todos os homens se curvassem sob uma retribuição uniforme, isso faria uns esfomearem e outros morrerem de indigestão. Somente o indivíduo é capaz de saber a dose de trabalho que sua barriga, seu cérebro e suas mãos podem digerir. Quando é dado ração a um cavalo num estábulo, o mestre dá ao animal doméstico esta ou aquela nutrição. Mas em liberdade, o animal raciona a si mesmo, e o instinto lhe diz melhor do que o mestre o que convém ao seu temperamento. Os animais indomados quase não conhecem doença. Tendo tudo em profusão, eles não brigam mais entre si para arrancar um broto de erva. Eles sabem que a pradaria selvagem produz mais pasto do que podem comer, e eles comem em paz uns ao lado dos outros. Por que os homens brigariam para consumir quando a produção, pelas forças mecânicas, fornece além de suas necessidades?”LE LIBERTAIRE n°12: 7 de abril de 1859



“O maior gozo do homem, o trabalho, se tornou uma série de atrações pela  liberdade e diversidade deles, e repercutem um no outro numa imensa e incessante harmonia.” LE LIBERTAIRE n°10: 5 de fevereiro de 1859

 “A variedade de gozos exclui a saciedade. Para eles, a felicidade está em todos os instantes.” LE LIBERTAIRE n°11: 6 de março de 1859


“O homem propõe e o homem dispõe. Da diversidade dos desejos resulta a harmonia.” LE LIBERTAIRE n°11: 6 de março de 1859


“Falta num canto da Europa os produtos de outro continente? Os jornais da Humanisfera o mencionam, é inserido no boletim de publicidade, esse monitor da universalidade anárquica; e as Humanisferas da Ásia, da África, da América ou da Oceania expedem o produto solicitado. É, pelo contrário, um produto europeu que está faltando na Ásia, na África, na América ou na Oceania? As Humanisferas da Europa o expedem. A troca ocorre naturalmente e não arbitrariamente. Assim, se tal Humanisfera doa mais um dia e recebe menos, qual o problema? Amanhã é ela sem dúvida que receberá mais e doará menos. Tudo pertence à todos, e como cada um pode se mudar de Humanisfera como muda de apartamento, se na circulação universal uma coisa estiver aqui ou ali, para que mesquinharia? Cada um não é livre para fazê-la transportar para onde lhe parecer melhor do mesmo modo que cada um é livre para transportar a si mesmo para onde lhe parecer melhor? “ LE LIBERTAIRE n°12: 7 de abril de 1859



“Um humanisferiano não somente pensa e age simultaneamente, mas também exerce  diferentes atividades num mesmo dia.(…)
Quando ele é um operário inferior nisto, ele é operário superior naquilo. Ele tem uma especialidade em que ele é excelente. É justamente esta inferioridade e esta superioridade de uns para os outros e vice versa que produz harmonia. Não custa nada se submeter à uma tal superioridade, que não é oficial, mas reconhecida num ofício, quando num outro momento e num outro instante da produção, esta superioridade se torna a tua inferioridade. Isso cria uma emulação salutar, uma reciprocidade benevolente, que destrói rivalidades invejosas. Então, por esses trabalhos diversos, o homem adquire a posse de, mais do que objetos de comparação, de sua inteligência, que se multiplica assim como as suas aptidões; trata-se de um estudo perpétuo e diversificado que desenvolve neles todas as faculdades físicas e intelectuais, e do qual se beneficiam ao se aperfeiçoar na sua atividade predileta.” LE LIBERTAIRE n°13: 12 de maio de 1859



MATERIALISMO  ESPINOSISTA 


“[…] o corpo social, assim como o corpo humano, não é um escravo inerte do pensamento, muito pelo contrário, é uma espécie de alambique animado cuja livre função dos órgãos produz o pensamento; o pensamento nada mais é do que a quintessência dessa anarquia da evolução cuja unidade é causada somente por suas forças atrativas.”  LE LIBERTAIRE n°4: 2 de agosto de 1858

“Para eles, toda matéria é animada; eles não crêem na dualidade da alma e do corpo, eles não reconhecem senão a unidade da substância; simplesmente, esta substância adquire mil e uma formas; ela pode ser mais ou menos grosseira, mais ou menos apurada, mais ou menos sólida ou mais ou menos volátil. Mesmo que se admita, dizem eles, que a alma seja algo distinto do corpo – o que tudo nega -, seria ainda absurdo crer na sua imortalidade individual, na sua personalidade eternamente compacta, na sua imobilização indestrutível. A lei de composição e decomposição que rege os corpos, e que é a lei universal, também é a lei das almas.”   LE LIBERTAIRE n°15: 27 de julho de 1859

“Ao contrário de Gall e de Lavater, que tomaram o efeito pela causa, eles [os humanisferianos] não crêem que o homem nasça com as aptidões absolutamente marcadas.(…)

Nós todos nascemos com o germe de todas as faculdades (salvo raras exceções: há os doentes mentais e físicos, mas as monstruosidades são fadadas a desaparecer na Harmonia), as circunstâncias exteriores agem diretamente sobre nós. Conforme nossas faculdades são ou foram expostas a sua influência, elas adquirem um desenvolvimento maior ou menor e se formam de uma ou de outra maneira. O aspecto do homem reflete suas inclinações, mas esse aspecto é geralmente muito diferente daquele que ele tinha quando criança.”  LE LIBERTAIRE n°13: 12 de maio de 1859



“O meio onde nós vivemos e a diversidade de pontos de vista onde se colocam os homens e que faz com que ninguém possa ver as coisas sob o mesmo aspecto, explicam (…) a diversidade de suas paixões e aptidões.” LE LIBERTAIRE n°13: 12 de maio de 1859

Não existe ser que não seja joguete das circunstâncias, e o homem é como os outros seres. Ele é dependente de sua natureza e da natureza dos objetos ao seu redor, ou melhor, dos seres ao seu redor, pois todos esses objetos tem vozes que falam e modificam constantemente sua educação. Toda a liberdade do homem consiste em satisfazer a sua natureza, em ceder à suas atrações [inclinações].” LE LIBERTAIRE n°3: 16 julho de 1858

“A criança  é um diamante bruto. É polida pela fricção com seus semelhantes, que a talha e a forma como uma jóia social. É, em todas as idades, uma gema cuja pedra de polir é a sociedade e cujo egoísmo é o lapidário. Quanto mais ela está em contato com os outros, mais recebe impressões que multiplicam em seu rosto e em seu coração as facetas da paixão, das quais jorram as  centelhas de sentimento e da inteligência.”  LE LIBERTAIRE nº9 10 de janeiro de 1859


MAS COMO SE ASSOCIAM E SE ORGANIZAM?



“Enfim há o lugar onde se encontram para tratar da organização social. É o pequeno cyclideon, clube ou fórum peculiar à Humanisfera. Neste parlamento da anarquia, cada um é o representante de si mesmo e o par dos outros. Ó! É muito diferente do que é entre os civilizados; ali, ninguém perora, ninguém disputa, ninguém vota, ninguém legisla, mas todos, jovens ou velhos, homens ou mulheres, conferem em comum as necessidades da humanisfera. A iniciativa individual concorda ou recusa sua própria palavra, conforme se considere útil ou não falar.  Neste lugar, há um escritório, naturalmente. Com a diferença de que neste escritório não há nenhuma autoridade exceto o livro de estatísticas. Os humanisferianos acham que este é um presidente eminentemente imparcial e de um laconismo extremamente eloquente. É por isso que não querem nenhum outro.” LE LIBERTAIRE n°9: 10 de janeiro de 1859


“O homem propõe e o homem dispõe. Da diversidade dos desejos resulta a harmonia.” LE LIBERTAIRE n°11: 6 de março de 1859


“Mais ou menos a cada semana, se for necessário, há uma reunião na sala de conferências, isto é, no pequeno cyclideon interno. Em razão das grandes obras a executar. Aqueles mais versados nos conhecimentos especificamente em questão tomam a iniciativa da palavra. As estatísticas, os projetos, os planos já tinham aparecido em folhas impressas, nos jornais; e já foram comentados em pequenos grupos; a urgência foi geralmente reconhecida ou recusada por cada um individualmente. Frequentemente há somente uma voz,  voz unânime, de aclamação ou rejeição. Ninguém vota; nunca  a maioria  e nem a minoria fazem a lei. Se esta ou aquela proposta reúne um número suficiente de trabalhadores para executá-la, quer sejam esses trabalhadores a maioria ou a minoria, então a proposta será executada, se for esta a vontade daqueles que aderem a ela. E com frequência acontece que a maioria se une à minoria, ou a minoria à maioria. Como num passeio no campo, alguns propõem ir a Saint-Germain, outros à Meudon, outros ainda à Sceaux, e ainda outros, à Fontainebleau;  as jornadas se dividem; mas no fim das contas cada um cede à atração de se reunir com outros. E todos juntos tomam de comum acordo a mesma rota, sem que nenhuma autoridade exceto o prazer os governe. A atração é toda a lei de sua harmonia. Mas, tanto na partida quanto na jornada, cada um é livre para se abandonar à seu capricho e  deixar o grupo se isso lhe convém,  parar no caminho, se está fatigado, ou retornar, se está com tédio. A coerção é a mãe de todos os vícios. Por isso, é banida pela razão do território da humanisfera. O egoísmo, naturalmente, o egoísmo inteligente é muito desenvolvido para que alguém pense em forçar seu próximo. É por egoísmo que eles trocam bons atos.” LE LIBERTAIRE n°11: 6 de março de 1859



VIVA O EGOÍSMO!


“O homem é o egoísmo; sem egoísmo, o homem não existiria. O egoísmo é o móbil de todas as suas ações, o motor de todos os seus pensamentos.(…)
É para crescer, para aumentar o círculo de sua influência que o homem leva alto a sua face e atira ao longe o seu olhar; é em vista de satisfações pessoais que ele caminha para a conquista de satisfações coletivas. É para si mesmo, como indivíduo, que ele quer participar da efervescência viva da felicidade geral; é para si mesmo que ele fica aflito pelo sofrimento dos outros. Seu egoísmo, sem cessar exigido pelo instinto de sua conservação progressiva e pelo sentimento de solidariedade que o liga a seus semelhantes – seu egoísmo solicita as perpétuas emanações de sua existência na existência dos outros. É isto que a velha sociedade chama impropriamente de devotamento e que não é senão espelhamento [spéculation], espelhamento que é tanto mais humanitário quanto é mais inteligente, que é tanto mais humanicida quanto mais é imbecil.(…)
Humanamente, não é possível fazer um movimento, um gesto da mão, do coração ou do cérebro, sem que a sensação se repercuta de uma pessoa para outra como um choque elétrico. E isso tem lugar no estado de comunidade anárquica, no estado de natureza livre e inteligente.“ LE LIBERTAIRE n°12: 7 de abril de 1859


E OS TRABALHOS MAIS DESAGRADÁVEIS?


“Embora na Humanisfera as máquinas façam todos os trabalhos mais grosseiros, eu penso que ainda há trabalhos mais desagradáveis do que outros, me parece inclusive que há alguns que não são do gosto de ninguém. Porém, estes trabalhos são executados sem nenhuma lei nem regulamento que constranja quem o faz. Como assim?, pergunto eu, que ainda não vê as coisas senão com meus olhos de civilizado. No entanto é bem simples. O que é que torna o trabalho atraente? Nem sempre é a natureza do trabalho mas a condição na qual ele é exercido e a condição do resultado a obter.” LE LIBERTAIRE n°14: 15 de junho de 1859



“Na Humanisfera, alguns trabalhos que por sua natureza me parecem repugnantes encontram porém operários para executá-los com prazer. E a causa disso é a condição na qual são executados. As diferentes séries de trabalhadores são convocadas voluntariamente, como são convocados os homens de uma barricada, e são totalmente livres para permanecer o tempo que quiserem ou para passar a uma outra série ou para outra barricada. Não há chefe apontado nem intitulado. Aqueles que tem mais conhecimento ou aptidão nesse trabalho dirigem naturalmente os outros. Cada um toma a iniciativa mutuamente, conforme se reconheça suas capacidades. Por outro lado, cada um dá sua opinião e recebe a do outro. Há entendimento amigável, não autoridade. Ademais, é raro que não haja mistura de homens e mulheres entre os trabalhadores de uma série.  E o trabalho se dá em condições muito atraentes para que, mesmo que fosse repugnante por si mesmo, não se encontre um certo encanto em cumpri-lo. Em seguida, há a natureza do resultado a obter. Se um trabalho é com efeito indispensável, aqueles à quem ele mais repugna e que se abstém ficarão encantados que outros se encarreguem dele, e  retornarão em afabilidade a esses últimos, com grandes consideração, que é a compensação do serviço que os outros lhe retornaram. Não se pense que os trabalhos mais grosseiros pertençam, entre os humanisferianos, às inteligências inferiores, muito pelo contrário, são as sumidades nas ciências e nas artes que geralmente  se aprazem em fazer esse trabalho penoso. Quanto mais a delicadeza é refinada entre os homens, mais ela torna-os aptos, em certos momentos, aos trabalhos rudes e difíceis, sobretudo quando eles são um sacrifício oferecido em amor à humanidade.(…) O egoísmo é a fonte de todas as virtudes.” LE LIBERTAIRE n°14: 15 de junho de 1859


UMA ÚNICA HUMANIDADE



“Atravessei todos os continente, Europa, Ásia, África, Oceania. Vi muitas fisionomias diferentes, mas vi por toda parte somente uma raça. O cruzamento universal das populações asiáticas, européias, africanas e americanas (os pele-vermelhas); a multiplicação de todos por todos nivelou todas as asperezas de cor e de linguagem. A humanidade é una. No olhar de todo humanisferiano há uma mistura de gentileza e orgulho que tem um estranho encanto. Algo como uma nuvem de fluído magnético envolve toda sua pessoa e ilumina sua face com uma auréola fosforescente.  Sente-se uma inclinação para eles graças a uma atração irresistível. A graça de seus movimentos se soma ainda à beleza de suas formas. A palavra que sai de seus lábios, cada marca de seus suaves pensamentos, é como um perfume que emana. A estatuária não saberia modelar os contornos animados de seus corpos e de seu rosto, e que dão encantos sempre novos a essa vivacidade.” LIBERTAIRE n°15: 27 de julho de 1859


A COMPETIÇÃO COMUNISTA ANÁRQUICA



“(…) havia uma exibição universal dos produtos do gênio humano.(…)

Nesse círculo de obras poéticas da mão e da inteligência foi exposto todo um museu de maravilhas. A agricultura para ali levou suas colheitas, a horticultura, seus frutos, a indústria, seus tecidos, seus móveis, seus adereços, e a ciência levou todas as suas engrenagens, seus mecanismos, suas estatísticas, suas teorias. A arquitetura para ali levou suas plantas, a pintura, os seus quadros, a escultura e a estatuária seus ornamentos e estátuas, a música e a poesia, os mais puros de seus cantos.  Tanto as artes como as ciências puseram ali suas jóias mais ricas.

 Não era um concurso como os nossos concursos. Não tinha nem júri de admissão e nem júri para recompensar com base na voz da sorte ou do voto, nem prêmio [grand prix] garantido por juízes oficiais, nem coroas, nem patentes, nem laureados, nem medalhas. A livre e grande voz pública é o único juiz soberano.  É por prazer a esse poder da opinião que cada um expõe a ela suas obras, e é ela que, passando diante dos produtos de uns e de outros, lhes premia segundo suas aptidões especiais, não com palmas de distinção, mas com admirações mais ou menos vivas, exames mais ou menos atentos, mais ou menos desdenhosos. Assim, seus julgamentos são sempre justos, sempre condenando os menos bravos, sempre louvando os mais valentes, sempre estimulando a emulação, tanto para os frágeis quanto para os fortes. É o grande retificador dos tortos; ela evidencia a todos individualmente se eles seguiram mais ou menos o caminho de sua vocação, se elas são mais ou menos postas de lado; e o futuro se encarrega de confirmar suas observações maternais.  E todas os suas linhas crescem para se superar nessa educação mútua, porque todos têm a orgulhosa ambição de se distinguir igualmente nas suas diversas obras. “ LE LIBERTAIRE n°7: 25 de outubro de 1858



“(…) [N]a Humanisfera, (…) há somente oficinas de prazer e exposições de trabalho, armazéns de ciência e de artes e museus de todas as produções: após ter admirado essas máquinas de ferro cujo móbil é o vapor ou a eletricidade, multidões de engrenagens laboriosas que são para os humanisferianos aquilo que as multidões de proletários ou de escravos são para os civilizados; após ter assistido o movimento não menos admirável daquela engrenagem humana, dessa multidão de trabalhadores livres, mecanismo serial  cujo único móbil é a atração; após ter constatado as maravilhas dessa organização igualitária cuja evolução anárquica produz a harmonia; (…) [depois de tudo isso] como se poderia, diga-me, retornar aos civilizados, como se poderia voltar a viver sob a Lei, esse chicote da autoridade, quando a anarquia, essa lei da liberdade, tem costumes tão puros e doces? Como se poderia considerar como uma coisa tão incomum aquela fraternidade inteligente, e  considerar como normal essa imbecilidade fratricida?” LE LIBERTAIRE n°14: 15 de junho de 1859





Tradução por Humana Esfera, a partir de http://joseph.dejacque.free.fr/libertaire/n01/n01.htm e https://we.riseup.net/jessecohn/experimental-translation-wiki-2. Julho de 2012.

Veja trechos de  Le Humanisphère sobre a transição revolucionária
Veja os trechos de Le Humanisphère onde Déjacque relata suas influências


Outros clássicos que traduzimos:
Sobre a troca (1858) – Joseph Déjacque



Abaixo, “memes” publicados na página Joseph Déjacque, o libertário:












A determinação do acaso e o acaso determinista

O materialismo afirma que tudo consiste em diferenciações em que nada é indiferente a nada. Se existisse  diferença indiferente, os imaterialistas (espiritualistas, idealistas, dualistas, etc.) poderiam estar certos.  No entanto, a única coisa que sabemos é que apenas o nada é indiferente, todo o resto são diferenças diferentes – em suma,  o mundo consiste em diferenciações diferenciantes.

Dizer que as diferenças diferem significa dizer que algo só existe em relação com outros algos, nunca num absoluto. Então, vejamos o que são “relações”. A primeira aparência, a mais superficial, das relações é o limite (algo só é algo porque se limita com outros algos, quer dizer, é separado deles), mas esta é sua aparência imediata. O essencial é saber como  algo vem a ser, isto é, saber como e por quê algo existe ao invés de nada, como algo se separa transitoriamente de todo o resto e se torna algo. Em outras palavras, a relação essencial que importa investigar é a determinação.

Além disso, nem toda relação entre algo e outro algo é de limite. O pão não se limita com o trigo que o compõe,  o cérebro não se limita com as células nervosas, como também a mente não se limita com o cérebro, e nem as idéias se limitam com a mente, por exemplo. E no entanto, têm relações e unicamente mediante essas relações eles são diferentes.

Por que algo existe ao invés de nada?

A condição para que algo exista ao invés do nada é não apenas que esse algo seja causado por outro algo, mas que o efeito (algo) influencie a causação (o outro algo) e se torne causa de sua própria sua manutenção, de sua permanência. É o que Baruch Espinosa chamava de conatus.

Exemplo: Uma pedra é um efeito dos minerais que a compõe, mas ela só existe porque o efeito (a própria pedra em sua relação a outras coisas, inclusive outras pedras) afeta suas causas de modo que os minerais continuam mantendo uma certa disposição entre si que impede o esfarelamento da pedra durante o tempo em que existe. A pedra enquanto pedra (efeito) torna-se causa da permanência de suas próprias causas (aglutinação dos minerais) devido à relação dessa pedra com outras pedras e materiais a sua volta, que estão dispostos no lugar de modo a não esfarelá-la.

Assim, em última instância, a determinação de algo é puro acaso. Acaso não significa sem causa e nem indiferença, mas sim que a determinação não é predeterminada, mas, pelo contrário, que ela surge da confluência de diversas determinações simultâneas puramente contingentes e heterogêneas.

Uma “supermente” (o “demônio de Laplace”), dizem, poderia saber todos os encadeamentos causais e prever todos os resultados. Para essa supermente, o acaso não existiria. Mas essa concepção de uma super-alma, ao negar o acaso, não é determinista, mas predeterminista. E também não é materialista, mas dualista, já que supõe a existência de uma super-alma fora e acima do universo causal, isto é, uma diferença indiferente absoluta. Ou seja, é fantasia.

Tudo o que podemos saber só sabemos unicamente através de nossa determinação singular no universo material e nunca por uma mente flutuando indiferentemente acima da matéria que saberia tudo do universo. Desse modo, acaso e determinação engendram-se mutuamente no materialismo.

O novo e sua permanência (surgimento e continuidade / gênese e reprodução)

Quando o acaso gera algo, surge a necessidade, que é a duração desse algo.

Muitas vezes, as causações originais de algo (as causas de sua gênese, de seu surgimento) diferem das causações de sua manutenção (as causas de sua continuidade, de sua reprodução, de sua permanência).

O mundo pulula de causações simultâneas acontecendo a todo instante, mas algo novo só surge quando, por simples coincidência, algumas causações confluem e se sustentam mutuamente nessa confluência, gerando algo diferente. É essa sustentação mútua das determinações que as separa das demais determinações  e as limita com outros algos, dando surgimento a algo novo.

Esse algo novo pode ser tão fortemente mantido separado dos demais algos através dessas determinações mútuas que ele pode continuar se sustentando por causações diferentes das originais (diferentes das causações originais dessas determinações mútuas desse algo).

Exemplos: O surgimento dos seres vivos é um caso paradigmático deste caso (surgimento da separação do meio interno do externo através da vesícula celular e reprodução mediante genes). Também é o caso da acumulação primitiva do capital (a barbárie da separação sangrenta da população dos meios de produção confluiu com o comércio, causando o capital industrial) com relação à reprodução do capital (igualdade e liberdade entre mercadores “civilizados” causa a sujeição do trabalho vivo ao trabalho morto, isto é, o capital). Do mesmo modo, uma nova idéia (um conhecimento, uma percepção ou um desejo) na mente pode se sustentar por razões diferentes das razões que lhe deram origem.

Crescimento e morte

As coisas, se desdobram, e enquanto permanecem, vão se tornando determinação entre outras de um conjunto de determinações mútuas internas de outros algos e assim por diante, através do mundo.

Inevitavelmente, a separação de algo com relação a todo o resto não permanece para sempre. Se permacesse eternamente, seria o caso mais próximo da diferença indiferente defendida pelo imaterialismo. Mas não é o caso.

Algo morre quando  suas determinações mútuas internas tornam-se insuficientes para manter a unidade desse algo  Há dois modos de algo morrer: por crescimento exagerado e por determinações externas agressivas. O crescimento exagerado faz com que o peso da unidade desmorone sobre suas próprias determinações mútuas internas que se tornaram insuficientes. Já no outro modo de morte, as determinações externas agressivas entram em relação com as determinações mútuas internas desagregando-as, fazendo a unidade desmoronar devido aos seus pilares serem puxados por todos os lados.

As determinações externas destrutivas, além disso, podem ser o próprio resultado da ação das determinações mútuas internas, que assim destroem suas próprias condições de existência. Por exemplo, a destruição pelo homem do ecossistema que é a condição de sua prória vida.

Pode ocorrer que um dos produtos das determinações mútuas internas de algo cause o desmoronamento da unidade, sobreviva e lance as bases para que novas determinações mútuas sejam reunidas e formem uma nova unidade diferente da anterior. Exemplos: A morte do comunismo tribal dando lugar à sociedade de castas, assim como a morte desta última dando lugar à sociedade de classes (capitalismo). Também é o caso dos seres vivos (genes, sementes, reprodução), e também dos programas de computadores (que pode ser transferidos para vários computadores).  Mas certamente até esse tipo de continuidade também não dura para sempre.

Conclusão

Não há necessidade da imaterialidade para explicar o acaso e, daí, a liberdade. Como vimos, o acaso é a própria determinação. Logo, pode ser explicado de modo plenamente materialista, isto é, sem precisar recorrer a nenhuma diferença indiferente imaginária.

Humana Esfera, 6/2012

Bibliografia 

  • Lucrécio – Da Natureza das Coisas (De Rerum Natura)
  • Baruch Espinoza – Ética
  •  Jean Meslier
    – Ateísmo e Revolta, os manuscritos do padre Jean Meslier (Paulo Jonas de Lima Piva)
  • La Mettrie – O Homem-máquina
  • Holbach – Sistema da Natureza
  • Hegel – Fenomenologia do Espírito
  • Marx – Manuscritos econômicos e filosóficos, A Ideologia Alemã, Grundrisse
  • Joseph Déjacque – A humanisfera 
  • Bakunin – Deus e o Estado
  • Michel Serres – O Nascimento da Física no Texto de Lucrécio
  • Deleuze & Guattari – Capitalismo e esquizofrenia, volume I (O Anti Édipo) e II ( Mil Platôs)  
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