"Classe média": moralismo paranóico repressivo masoquista

É na praxis que criamos aquilo em que nossos sentidos, habilidades, pensamentos, potencialidades e desejos são descobertos e desfrutados.

Em outras palavras: é ao transformarmos nossas condições materiais de existência que criamos e encontramos a nós mesmos e nossas relações com os outros – nossas potencialidades/desejos e nossas associações.

Porém, quando nossas condições de existência nos são privadas (isto é, são propriedade privada), somos forçados, para existir, a transformar essas condições como algo separado, alienado, – o capital. A praxis se torna um esforço anódino e abstrato (trabalho assalariado), que se submete ao fim sem fim do capital, que é o de se acumular indefinidamente como um poder hostil.

Separados de nossas condições materiais de existência (tornadas capital), produzimos e encontramos os nossos sentidos, habilidades, pensamentos, potencialidades e desejos de modo que adquirem a aparência de serem algo também separado, algo puramente imaterial, incondicionado, dado. A matéria que nós somos (desejos, pensamentos, sensações etc) e a matéria a nossa volta (inclusive as outras pessoas) parecem desvincularem-se, enquanto são reunidos, pelas costas, pelo capital.

Privados desse modo da possibilidade material de compreendermos a nós mesmos como praxis (isto é, nossa individualidade como a confluência ativa de nossas condições de existência), tendemos a atribuir aos indivíduos uma incondicionalidade que tende a levar à paranóia, ao rancor, à competição, ao autoritarismo e à busca de “culpados” para tudo, sem falar do conspiracionismo.

Essa mentalidade reacionária predomina durante a perpetuação do capital, pois é inerente à alienação da população de suas condições materiais, ou seja, inerente à perpetuação do proletariado inerte, que se reconhece apenas como “classe média”, um conjunto de compradores e vendedores, pseudo-proprietários que se creem protegidos pelo Estado.

O desejo desvinculado de suas condições materiais, incapaz de produzir seu próprio mundo material e social, investe passivamente a libido em qualquer coisa apresentada pelo capital: a pátria, a família, os objetos de consumo, o salário, o time de futebol, o posto de chefia, o automóvel, a “raça”, o “empreendedorismo”, a tropa de elite, o exército. É a maneira da “classe média” acreditar-se tão proprietária quanto os capitalistas e também a maneira de distinguirem-se como “superiores” ao extrangeiro, minorias e aos que ganham um salário menor ou que estão na miséria absoluta.

Tudo isso leva a classe média a tender a manifestar seu desejo ativamente apenas como um ódio patológico crônico, um ódio que está sempre em busca de algo para se justificar (moralismo). Uma perturbação qualquer e lá estão eles excretando sua libido sado-masoquista defendendo a tortura, a pena de morte, as câmaras de gás, a demissão do companheiro de trabalho e a expulsão do vizinho que não pagou a prestação da casa. São adeptos ferrenhos da doutrina do livre-arbítrio, a doutrina da culpabilização absoluta dos que eles supõem ter a alma incondicionalmente “má”.

A classe média tende a achar que por trás das aparências todos são uns “filhos da puta”, bestas feras cujas inter-relações sempre descambarão para o assassinato mútuo, o estupro e o canibalismo se não houver um policial controlando cada ponto do planeta onde uma pessoa encontra outra. A classe média, imaginando que todos são apriori monstros, acha que o melhor a fazer é sempre pisar nos outros e ficar “por cima”. Tudo isso em nome da defesa da imaculada família, da proteção da sua suposta propriedade privada mais preciosa, os filhos, contra o mundo cão, razão pela qual idolatram a repressão do estado ou defendem qualquer bando que imponha o terror em nome de alguma suposta “ordem”.

A dita classe média parece mais capitalista do que os capitalistas, mais repressora do que o Estado, mais obediente do que o mando do chefe, mais adepta da coerção da concorrência do que o próprio mercado. Mas todo esse exagero doentio não passa de uma compensação imaginária do fato de que seus “integrantes” não possuem nenhum meio de produção, nenhuma propriedade privada, nenhum capital, mas apenas propriedades fictícias: automóvel que depois de pouco tempo não vale mais nada, emprego que logo será perdido, casa que se desgasta a cada dia, objetos de consumo totalmente indesejáveis após sair de moda, filhos que crescem e levam sua própria vida, isso sem falar das ficções no sentido literal da palavra, como a pátria. Na ausência da perspectiva revolucionária de retomar as condições de existêcia numa revolução social mundial, não lhes resta perspectiva senão se agarrar a essas ficções patológicas para manter viva sua libido e não se matar.

Como podemos responder a isso? Evidentemente que a psicoterapia que defendemos consiste em investir o desejo na produção das próprias condições de existência, isto é, a afirmação prática e material de nossos desejos em livre associação com outros, o que implica a supressão da propriedade privada dos meios de produção (abolição do capital, do dinheiro, do Estado, etc.) pela comunidade dos indivíduos livremente associados a nível mundial.

Infelizmente, é preciso reconhecer, essa nossa proposta psicoterápica parece ela mesma também um desejo desvinculado de suas condições materiais, portanto fictícia, já que essa retomada das condições de existência não ocorreu até agora. Mas esta nossa contradição talvez expresse a contradição das próprias condições de existência que o capital produziu e tendem a ultrapassá-lo – essas condições confluem na nossa individualidade comunista e nos permite defender o que defendemos como algo pelo que vale a pena viver e lutar.

humanaesfera, março de 2012

Bibliografia

A Sociedade do Espetáculo – Guy Debord

– Marx comunista individualista! (trechos sobre o indivíduo em Marx)

Manuscritos econômicos e filosóficos – Marx

Teses sobre Feuerbach – Marx

O maquinismo atrativo – a teoria da atração apaixonada (trechos) – Charles Fourier

– O Anti-Édipo – Capitalismo e Esquizofrenia – Deleuze e Guattari

Autonomia e cotidiano – Espinosa e o imperativo de Kant: “Tratar os outros e a si mesmo como fins, jamais como meios” – humanaesfera







Pequena crítica antimoralista da dominação (crítica à idéia de “servidão voluntária”)

La Boétie afirmou, com grande perspicácia, que nenhuma dominação seria possível sem o consentimento dos dominados, visto que eles próprios sustentam seus dominadores. Essa idéia, hoje, já caiu no senso comum, de uma forma mistificada, infelizmente, e serve principalmente ao moralismo, que afirma que  os dominados estão na merda apenas por sua pura e absoluta vontade. Assim, bastaria aos dominados mudarem suas vontades para deixarem de ser dominados. Nem é preciso dizer que a idéia de vontade pura é religiosa, supõe que o espírito é uma substância distinta da matéria, uma substância incondicionada,  e, como tal, objeto passível de acusação, julgamento, culpa e penalização, já que teria o infame livre-arbítrio. É inacreditável ver como muitos supostos libertários baseiam seu discurso e sua prática nessa idéia, essencialmente autoritária e paranóica.

Mas voltemos ao que interessa. Não dá para negar que, sem o consentimento dos dominados, não haveria dominação. Mas esse consentimento seria incondicionado apenas se fosse sobrenatural, como a idéia religiosa de alma. Como nada indica que não sejamos senão matéria, quer dizer, não a matéria amorfa das religiões, mas a matéria cujo automovimento engendra e dissolve suas próprias formas (entre outras, formas de matéria que pensam, sentem e agem, como os humanos, animais, etc.), é extremamente plausível supor que os dominados consentem na sua a dominação não pela vontade incondicionada de sua alma pura, mas sim porque eles são levados a consentir nela por alguma razão, algum motivo, determinação ou circunstância.

Espinosa parece ter contribuições importantes neste sentido. Segundo Espinosa, os principais motivos que levam uma população a defender seus próprios tiranos são os afetos de medo e esperança, que são inquietações que surgem porque a população está sujeita à condições (afecções) controladas pelo tirano, o que permite ao tirano, por sua vez,  ameaçar impor condições ruins (causando medo) caso o questionem, e prometer impor condições boas (causando esperança) caso o obedeçam. O medo e a esperança, a ameaça e a promessa, são possíveis apenas quando duvidamos de nossas próprias capacidades, quando as condições de efetuar nossas capacidades não nos pertencem, mas a outros.

Podemos estender o raciocínio de Espinosa e dizer que a população só se liberta da dominação se ela consegue assumir o poder sobre suas próprias condições, se livrando do que causava medo e esperança e, consequentemente, de sua dependência dos dominadores. Mas a decisão de assumir o poder sobre suas próprias condições, evidentemente, também não é uma vontade sobrenatural. O próprio medo e a esperança continuam em ação, porque eles não  sabem se essa tomada das condições é factível e nem mesmo se seus resultados serão desejáveis. Querer acabar com a dominação parece igual a querer trocar o certo pelo duvidoso, e, como vimos, o duvidoso é a própria causa do medo e da esperança, o que nos remete novamente à dominação, que desse modo parece um porto mais seguro. Portanto, inversamente, pode-se dizer que, se a perspectiva de acabar com a dominação trouxesse mais autoconfiança ou menos incerteza (isto é, menos medo e menos esperança) do que obedecer aos dominadores, os dominados teriam todos os motivos para decidir acabar com a dominação e dificilmente poderiam resistir a seu próprio impulso por uma vida melhor.

Mas o que leva a população a ter essa autoconfiança emancipatória senão as suas próprias condições de existência estarem já sob seu próprio poder de algum modo? Assim, o que ocorre é um processo. Por exemplo, alguns dominados, por circunstâncias imprevisíveis, encontram-se por alguma razão com suas condições de existência sob seu poder e suprimem o medo/esperança tornando-se autoconfiantes, e isso leva a outros dominados a tornarem-se autoconfiantes de buscarem o poder sobre suas condições de existência e assim por diante, do mesmo modo como uma fagulha causa um incêndio.

humanaesfera, 06/2011

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