Trechos do rascunho de um artigo sobre o livro de Friedrich List: Das Nationale System der Politischen Oekonomie, por Karl Marx (março de 1845)

Tradução para o português por Humanaesfera a partir do inglês (fonte: Draft of an Article on Friedrich List’s book: Das Nationale System der Politischen Oekonomie).

[Sobre a abolição do trabalho:]

“[…] o trabalhador é o escravo do capital, ele é uma “mercadoria”, um valor de troca cujo nível mais alto ou mais baixo, cuja alta ou baixa, depende da concorrência, da oferta e da procura; […] sua atividade não é uma livre manifestação de sua vida humana, mas é, sim, uma mascatear de suas forças, uma alienação (venda) para o capital de suas habilidades unilateralmente desenvolvidas, em suma,  ela é “trabalho”. Esquece-se disso. O “trabalho” é a base viva da propriedade privada, é a propriedade privada enquanto fonte criativa de si mesma. A propriedade privada não passa de trabalho objetivado. Se desejamos dar um golpe mortal na propriedade privada, é preciso atacá-la não apenas enquanto um estado de coisas material, mas também como atividade, como trabalho. É um dos maiores equívocos falar em trabalho livre, humano, social,  trabalho sem propriedade privada. O “trabalho”  por sua própria natureza é atividade não livre, desumana, não social, determinada pela propriedade privada e criadora da propriedade privada. Por isso, a abolição da propriedade privada se tornará uma realidade somente quando ela for concebida como abolição do “trabalho” (uma abolição que, é claro, só se tornou possível como resultado do próprio trabalho, ou seja, tornou-se possível como resultado da atividade material da sociedade e que em nenhum caso deve ser concebida como a substituição de uma categoria por outra). Uma “organização do trabalho”, portanto, é uma contradição nos termos. A melhor organização que ao trabalho pode ser dada é a atual organização, a livre concorrência, a dissolução de toda a sua prévia organização aparentemente “social”.”

[Contra o nacionalismo:]

“O burguês diz: é claro, a teoria dos valores de troca não deve ser questionada dentro do país, a maioria, na nação, deve permanecer um mero “valor de troca”, uma “mercadoria” que deve encontrar seu próprio comprador, e que não é vendida, mas que vende a si mesma. Em relação a vocês proletários, e até mesmo em nossas relações mútuas, consideremos a nós mesmos como valores de troca, aqui a lei da venda universal é válida. Mas em relação a outras nações, devemos interromper a operação dessa lei. Como uma nação, não podemos nos vender a outras nações. […]”

“Então, o que o filisteu alemão quer? Ele quer ser um burguês, um explorador, dentro do país, mas ele também quer não ser explorado fora do país. Ele se infla como “nação” em relação aos países estrangeiros e diz: eu não me submeterei às leis da concorrência; isso seria contrário à minha dignidade nacional; enquanto nação, sou superior ao mascateio.

A nacionalidade do trabalhador não é nem francesa, nem inglesa, nem alemã – é o trabalhoa escravidão livre, a venda de si mesmo. Seu governo não é nem francês, nem inglês, nem alemão – é o capital. Seu ar nativo não é nem francês, nem alemão nem Inglês – é o ar da fábrica. A terra que lhe pertence não é nem francesa, nem inglesa, nem alemã, ela está alguns palmos debaixo do solo. […]”

“Ele [o burguês] está disposto a reconhecer a força da sociedade burguesa só na medida em que essa força está de acordo com os seus interesses, os interesses de sua classe! Ele não quer ser vítima de uma força a qual ele quer sacrificar outros, e para a qual ele se sacrifica dentro de seu próprio país! […]

Provar-lhe-emos [ao burguês] que a venda de si mesmo dentro do país tem como conseqüência necessária a venda fora, que a concorrência, que dá-lhe poder dentro do país, não pode impedi-lo de se tornar impotente fora do país; que o Estado, que subordina à sociedade burguesa dentro do país, não pode protegê-lo da ação da sociedade burguesa fora do país.

Por mais que o burguês individual lute contra os outros, enquanto classe o burguês têm um interesse comum, e essa comunidade de interesse, que é dirigida contra o proletariado dentro do país, é dirigida contra a burguesia de outras nações fora do país. É isto que o burguês chama de nacionalidade.”

[A indústria invoca potências que a superam – forças naturais, forças produtivas e proletariado]

“A indústria pode ser considerada como uma grande oficina em que o homem primeiro toma posse de suas próprias forças e das forças da natureza, se objetiva e cria para si mesmo as condições para uma existência humana. Quando a indústria é considerada desta forma, abstraímos as circunstâncias em que ela opera hoje, e nas quais existe como indústria; nosso ponto de vista não está no interior da época industrial, mas sobre ela; a indústria é considerada não pelo que ela é para o homem de hoje, mas pelo que hoje o homem é para a história humana, o que ele é historicamente; não é a sua existência atual (não a indústria como tal) que é reconhecida, mas sim a potência que a indústria tem sem saber ou querer e que a destrói e cria a base para uma existência humana.[…]”

“Esta apreciação da indústria é, ao mesmo tempo, o reconhecimento de que é chegada a hora de acabar com ela, ou da abolição das condições materiais e sociais em que a humanidade tinha que desenvolver suas habilidades como um escravo. Pois desde que a indústria não é mais considerada como um interesse mercantil, mas como o desenvolvimento do homem,  é o homem, no lugar do interesse mercantil, que é tornado princípio, e àquilo que na indústria pode se desenvolver apenas em contradição com a própria indústria é dado a base que está em harmonia com o que está para ser desenvolvido.”

“A escola de Saint-Simon deu-nos um exemplo instrutivo do que ocorre quando a força produtiva que a indústria cria inconscientemente e contra a sua vontade é creditada à indústria atual e as duas coisas são confundidas: a indústria e as forçasque a indústria traz à existência inconscientemente e sem a sua vontade, mas que só se tornarão forças humanas, a potência do homem, quando a indústria for abolida. […]  As forças da natureza e as forças sociais que a indústria traz à existência (que ela invoca) tem com ela a mesma relação que o proletariado tem. Hoje eles ainda são os escravos do burguês, que não vê neles nada além de instrumentos (os suportes) de sua cobiça suja (egoísta) pelo lucro; amanhã eles vão quebrar suas cadeias e se revelar como os portadores do desenvolvimento humano que vai lançá-los pelos ares junto com sua indústria, que assume essa casca suja exterior – que ele considera como a sua essência – só até que o núcleo humano ganhe força suficiente para estourar esta carapaça e aparecer em sua forma própria. Amanhã eles arrebentarão as cadeias pelas quais o burguês os separa do homem e assim os distorce (transforma) de um vínculo social real em grilhões da sociedade.

A escola de Saint-Simon glorificou em ditirambos a força produtiva da indústria. As forças que a indústria chama a existir ela confundiu com a própria indústria, isto é, com as condições atuais de existência que a indústria dá a essas forças. […] O primeiro passo para quebrar o encantamento com indústria foi abstrair as condições, os grilhões do dinheiro, em que as forças da indústria operam hoje e examinar essas forças em si mesmas. Este foi o primeiro chamado para o povo emancipar sua indústria da venda e compreender a indústria de hoje como uma época de transição. […].

Eles [os saint-simonianos] chegaram  […] a atacar o valor de troca, a propriedade privada, a organização da sociedade atual. Eles propuseram a associação no lugar da competição. Mas eles foram punidos por seu erro original. Não somente a confusão acima mencionada os levou à ilusão ainda maior de ver no burguês sujo um sacerdote, mas também fez com que eles, após as primeiras lutas externas, voltassem a cair na velha ilusão (confusão) – mas agora hipocritamente, porque precisamente no curso da luta a contradição das duas forças que haviam confundido tornou-se manifesta. Sua glorificação da indústria (das forças produtivas da indústria) tornou-se glorificação da burguesia, e Monsieur Michel Chevalier, Monsieur Duveyrier, Monsieur Dunoyer ridicularizaram a si mesmos e à burguesia, aos olhos de toda a Europa – após o que os ovos podres que história lançou na cara deles transformaram-se pela magia da burguesia em ovos de ouro, uma vez que o primeiro dos nomeados acima reteve as velhas frases, mas preenchidas com o conteúdo do regime burguês atual, o segundo é ele próprio engajado no mascateio em uma escala de atacado e preside a venda de jornais franceses, enquanto o terceiro se tornou o apologista mais raivoso do atual estado de coisas e supera em desumanidade (em falta de vergonha) todos os economistas ingleses e franceses do passado.”

Veja também mais trechos de outros clássicos:

Marx comunista individualista! (trechos sobre o indivíduo em Marx) – Karl Marx

Comentários sobre James Mill (trechos) (1844) – Karl Marx

A Humanisfera (trechos) – Utopia Anárquica (1857) – Joseph Déjacque

Sobre a troca (texto completo) (1858) – Joseph Déjacque

A atração apaixonada (trechos) – Charles Fourier

Anarquia e Comunismo (texto completo) (1880) – Carlo Cafiero

Serviços: subsunção formal

Trecho de Misery and debt  (2010) por Endnotes  (http://endnotes.org.uk/articles/1):
“[…]Se, como temos argumentado, a reprodução ampliada gera crescimento dinâmico quando o aumento da produtividade libera de alguns ramos capital e trabalhadores que depois são recombinados em indústrias novas ou em expansão, então isto tem consequências importantes para a compreensão do crescimento do setor de serviços. Quase por definição, os serviços são atividades cujo aumento de produtividade é difícil de atingir exceto numa margem. A única maneira conhecida de melhorar drasticamente a eficiência dos serviços é transformá-los em produtos e depois produzir esses produtos em processos industriais, que se tornam mais eficientes com o tempo. Muitos bens são de fato antigos serviços – por exemplo, havia antigamente criados que lavavam as roupas nas casas dos ricos; hoje em dia, as máquinas de lavar roupa executam esse serviço de forma mais eficiente e são elas mesmas produzidas com cada vez menos trabalho. As atividades que permanecem serviços tendem a ser precisamente as que até agora se mostraram impossíveis de serem substituídas por produtos fabricados.

É claro que o conceito burguês de “serviços” é notoriamente impreciso, incluindo tudo, desde os chamados “serviços financeiros” até o trabalho de escritório e o pessoal de limpeza de hotéis , e até mesmo alguns empregos industriais terceirizados. Muitos marxistas tentaram assimilar a categoria de serviços ao de trabalho improdutivo, mas se refletirmos sobre a caracterização acima, fica claro que ela está mais próxima do conceito de “subsunção formal” de Marx. Marx havia criticado Smith por ele ter um entendimento metafísico do trabalho produtivo e improdutivo – aquele produzindo bens e este não – e ele o substituiu por uma distinção técnica entre o trabalho realizado como parte de um processo de valorização do capital e trabalho realizado fora desse processo para o consumidor imediato. Em “Os Resultados do Processo de Produção Imediato”, Marx argumenta que, teoricamente, todo o trabalho improdutivo pode se tornar produtivo, pois isso apenas significa que ele foi formalmente subsumido ao processo capitalista de valorização. No entanto, as atividades formalmente subsumidas são produtivas apenas de mais-valia absoluta. Para ser produtiva de mais-valia relativa é necessário transformar o processo material de produção para que seja passível de rápidos aumentos de produtividade (cooperação, manufatura, grande indústria e maquinário) – ou seja, passível de subsunção real. Quando economistas burgueses como Rowthorn falam de “serviços tecnologicamente estagnados”, eles sem perceber se remetem ao conceito de Marx de um processo de trabalho que foi apenas formalmente subsumido, mas não realmente subsumido.

Assim, quando a economia cresce, a produção real de “serviços” tende a crescer, mas apenas pela adição de mais empregados ou intensificando o trabalho dos trabalhadores existentes, isto é, por meio de produção de mais-valia absoluta, em vez de mais-valia relativa. Na maioria desses setores os salários formam a quase totalidade dos custos, de modo que os salários têm de ser mantidos baixos para que os serviços permaneçam bancáveis e lucrativos, especialmente quando as próprias pessoas que lhes pagam são pobres: assim é o McDonald´s e o Wal-Mart nos EUA – e também o grande proletariado informal na Índia e China.”

Trechos dos Comentários sobre Os Elementos de Economia Política de James Mill, por Karl Marx (1844)

Tradução para o português por Humanaesfera a partir do inglês ( fonte: Comments on James Mill by Karl Marx ) e do espanhol (fonte: o livro Páginas Malditas de Marx). Aparentemente, os comentários sobre James Mill (também conhecidos como Notas sobre James Mill) por Marx nunca foram  publicados em português. 

“Só o que é monopolizável tem um preço.” (Comentário de Karl Marx ao Esboço de Economia Política de Friedrich Engels, 1844)

“[…] A característica originária, determinante, da propriedade privada é o monopólio, portanto, quando ela cria uma constituição política, é a do monopólio. O monopólio consumado é a concorrência.”

“O movimento mediador do homem que troca não é um movimento social, humano, não é uma relação humana, mas a relação abstrata da propriedade privada com a propriedade privada, e essa relaçãoabstrata é o valor cuja existência em ato como valor constitui o dinheiro. A relação social da propriedade privada com a propriedade privada já é uma relação em que a propriedade privada é alienada de si mesma. A forma de existência para si dessa relação, o dinheiro, é, portanto, a alienação da propriedade privada, a abstração de sua natureza pessoal, específica.”

“Em ambos os lados, portanto, a troca é necessariamente mediada pelo objeto que cada lado produz e possui. A relação ideal com os respectivos objetos da nossa produção é, evidentemente, a necessidade mútua. Mas a relação realverdadeira, que realmente ocorre e produz efeitos, é apenas a posse mutuamente exclusiva de nossos respectivos produtos. O que dá à tua necessidade de meu artigo valor,importância e efetividade para mim é apenas o teu objeto como o equivalente do meu objeto. Nosso produto recíproco, portanto, é o meio, o mediador, oinstrumento, o poder reconhecido de nossas necessidades mútuas. Tua demanda e o equivalente de tua posse, portanto, são para mim termos que são iguais em importância e validade, e tua demanda só adquire um significado, devido a ter um efeito, quando ela tem um significado e efeito em relação a mim. Como um mero ser humano, sem este instrumento, tua demanda é uma aspiração frustrada de tua parte e uma ideia que não existe para mim. Como um ser humano, portanto, você não tem nenhuma relação com meu objeto, porque eu mesmo não tenho nenhuma relação humana com ele. Mas o meio é o verdadeiro poder sobre o objeto e, portanto, nós consideramos mutuamente nossos produtos como o poder de cada um sobre o outro e sobre nós mesmos. Ou seja, o nosso próprio produto se levantou contra nós; ele parecia ser nossa propriedade, mas de fato nós somos propriedade dele. Nós mesmos somos excluídos da verdadeira propriedade porque nossa propriedade exclui os outros homens.

A única linguagem inteligível em que conversamos um com o outro consiste nos nossos objetos em suas relações entre si. Nós não entendemos uma linguagem humana, e ela permanece sem efeito. Ela seria considerada e sentida como um pedido, uma súplica, e, portanto, uma humilhação, e, conseqüentemente, pronunciada com um sentimento de vergonha, de degradação. Enquanto que a outra parte a receberia como descaramento ou loucura e rejeitada como tal. Estamos de tal forma mutuamente estranhados do ser humano que a sua linguagem direta nos parece uma violação da dignidade humana, ao passo que a linguagem estranhada dos valores coisificados parece a afirmação justa da dignidade humana, auto-confiante e consciente de si.”

“Nosso valor mútuo é para nós o valor de nossos mútuos objetos. Portanto, para nós o próprio homem é reciprocamente sem qualquer valor.

Suponhamos que tivéssemos produzido como seres humanos. Cada um de nós afirmaria duplamente a si mesmo e a outra pessoa:

1) Na minha produção, eu teria tornado objetiva a minha individualidade, o seu caráter específico e, portanto, não só teria desfrutado ao expressarminha vida individual durante a atividade, mas também, ao ver o objeto, eu teria o prazer individual de saber que a minha personalidade é objetiva, perceptível aos sentidos e, portanto, um poder fora de qualquer dúvida.

2) O teu desfrute ou uso de meu produto me proporcionaria diretamente o prazer de me saber satisfazendo com minha atividade uma necessidade humana, isto é, de ter tornado objetivo o ser humano, e de ter, assim, criado um objeto correspondente à necessidade de outro ser humano.

3) Eu teria sido para você o mediador entre você e o gênero humano e, portanto, seria reconhecido e sentido por você como um preenchimento da tua própria natureza essencial e como uma parte necessária de você mesmo e, consequentemente, eu me sentiria confirmado tanto no teu pensamento como no teu amor.

4) Teria tido a alegria de, na expressão individual de minha vida, eu ter criado diretamente a expressão de tua vida, e, portanto, de na minha atividade individual, eu ter diretamente confirmado e realizado o meu verdadeiro ser, o meu ser humano, meu ser multilateral em comum universal [gemeinwesen].

Nossas produções seriam múltiplos espelhos em que veríamos refletida a nossa natureza essencial.

Esta relação além disso seria recíproca; o que ocorre do meu lado ocorreria do teu.

Vamos analisar os vários fatores vistos em nossa hipótese:

Minha atividade seria uma livre manifestação da vida, portanto, um desfrute davida. Ao contrário, pressupondo a propriedade privada, a minha atividade é umaalienação da vida, pois eu trabalho para viver, para adquirir meios de vida. Meu trabalho não é a minha vida.

Em segundo lugar, a natureza específica da minha individualidade, portanto, iria se afirmar na minha atividade, uma vez que esta seria uma afirmação da minha vidaindividual. A atividade portanto seria propriedade verdadeiraativa. Em contraste, pressupondo a propriedade privada, minha individualidade é alienada a tal ponto que essa atividade torna-se, ao contrário, odiosa para mim, um suplício, e mais que atividade, uma aparência dela; daí que é uma atividade forçada, imposta a mim mediante uma necessidade extrínseca e acidental, e não por uma necessidadeinterior e determinada.”

Veja também mais trechos de outros clássicos:

Marx comunista individualista! (trechos sobre o indivíduo em Marx) – Karl Marx

Rascunho de artigo sobre um livro de Friedrich List (trechos)(1845) – Karl Marx
A atração apaixonada (trechos) – Charles Fourier

L´Humanitaire (1841), a primeira publicação comunista libertária

A Humanisfera (trechos) – Utopia Anárquica (1857) – Joseph Déjacque

Sobre a troca (texto completo) (1858) – Joseph Déjacque

Anarquia e Comunismo (texto completo) (1880) – Carlo Cafiero

O mito do socialismo cubano (Kaos, 1997)

Texto publicado em KAOS #0 08/97 (boletim aperiódico e experimental do Grupo Autonomia).

“O estado, qualquer que seja sua forma, é apenas uma máquina a serviço do capital, o estado dos capitalistas.” Roig de San Martin – El Produtor de La Habana, 1888.

No mundo inteiro, o estado é o instrumento que o capital utiliza para reproduzir sua dominação. Os marxistas-leninistas de variadas genealogias e tinturas insistem em apresentar o regime cubano como uma exceção.

A política castrista, mera variante do stalinismo, gira em torno do estado. Em Cuba, o estado se apresenta como popular, operário, socialista, defensor dos interesses dos trabalhadores, distribuidor da riqueza e encarregado das mudanças no sentido do comunismo.

Mas a verdadeira revolução nada tem a ver com um ‘governo operário’. O objetivo da luta do proletariado não é tomar o poder político, nem apoderar-se do estado para utilizá-lo em seu interesse. O estado, seja qual for a classe dominante, continuará reforçando o capital. Pretender utilizar o estado para servir ao proletariado é uma manobra reacionária da esquerda do capital. O estado nada mais é do que o capital concentrado, centralizado para reproduzir o sistema universal de escravidão assalariada.

Além de não ser exceção, Cuba é uma confirmação da regra. O estado cubano também exerce o monopólio da violência para assegurar a exploração e a opressão sobre os proletários, colocando-os à disposição do capital. O desarmamento do proletariado é um exemplo ilustrativo. O fato de que somente ao exército e à polícia seja permitido ter armas faz com que os trabalhadores se sintam permanentemente coagidos. Toda e qualquer tentativa de auto-organização dos trabalhadores é brutalmente reprimida.

Em Cuba, o ódio contra a escassez de gêneros de primeira necessidade e a miséria vigente é canalizada contra o imperialismo yankee e o bloqueio econômico, ou, eventualmente, a corrupção da burocracia. Nada de novo sob o sol: o descalabro da economia russa foi, durante muitos anos, apresentado como efeito da corrupção e da burocracia. Aqueles que faziam tais denúncias não eram apenas os trotskistas – esses infatigáveis ‘apoiadores críticos’ de todos os estados capitalistas tingidos de vermelho… Periodicamente, os membros do comitê central do partido-estado bolchevique também denunciavam, cumprindo o ritual leninista da crítica & autocrítica. Em resumo, tem-se feito todo o possível para ocultar que o verdadeiro mal é a sociedade capitalista e sua organização política: o estado.

O proletário cubano se encontra, como qualquer outro, separado de todo meio de vida, de todo o meio de produção necessário para viver. Em Cuba, como em qualquer outro país latino-americano e do resto do mundo, o trabalhador enfrenta duras condições de sobrevivência, concentradas como forças alheias e hostis, inteiramente privado (propriedade privada significa exatamente isto!) de seus meios de vida. No latifúndio de Fidel Castro, a propriedade privada não foi abolida, mas concentrada e metamorfoseada juridicamente em propriedade estatal.

Ao contrário do que dizem os apoiadores críticos e outros defensores do regime castrista, a revolução social é a destruição completa do mundo burguês e de suas reformas, dirigidas pelo estado e no interesse do capital, temperadas com amenas críticas à burocracia. Efetivamente a revolução social não consiste, antes, em conquistar a direção do estado para, depois, realizar uma série de reformas sócio-econômicas. Ao contrário, desde o início, a revolução social consiste em destruir o poder total (militar, econômico, político) da burguesia; em criar a comunidade humana mundial, baseada nas necessidades humanas e não nas necessidades do capital.

Pequena Ética (A Vida, 1914)

“[…] aqueles pendores chamados altruístas no fundo nada mais são do que puro egoísmo.

Quem dá o último pedaço de pão para matar a fome a um semelhante, quem deixa a última coberta para abrigar a outrem prestes a morrer de frio, pratica esses atos, que o positivismo chama altruístas, porque sentirá maior prazer em matar a fome do faminto e em abrigar o outro do frio, do que se ele mesmo comesse esse pão e se abrigasse com essa coberta. Da mesma forma, quem arrisca a vida para salvar a de outrem, o faz para evitar o sofrimento que lhe resultaria se não praticasse essa ação. Daí resulta que agimos sempre para sentirmos um prazer ou para evitarmos um sofrimento.

Atribua-se esses atos ao egoísmo ou ao altruísmo, isso pouco importa, porque a verdade é que, no fundo, tudo redunda em egoísmo.

[…] É por amor aos nossos semelhantes que somos anarquistas, é por amor à nossa espécie, a nós mesmos e à sociedade, que combatemos a injustiça, que odiamos os exploradores e os opressores dos nossos semelhantes: e, se odiamos é porque o ódio é também uma manifestação de amor. Quem odeia alguém ou alguma coisa é porque esse alguém ou essa coisa prejudica aquilo que amamos. ”
A Vida, publicação mensal anarquista, ano I nº2, Rio de Janeiro, 31 de Dezembro de 1914
(grato a Ulisses)

Outros textos sobre ética:

Contra as recompensas e punições (contra a meritocracia, contra a coerção) (2014)

Autonomia, espiral de violências e apelo à força (i.e. à classe dominante) (2015)

Autonomia e cotidiano – Espinosa e o imperativo de Kant: “Tratar os outros e a si mesmo como fins, jamais como meios” (2015)

Algumas implicações epistemológicas e éticas do materialismo(2011)

Materialismo (2014)

Pequena crítica antimoralista da dominação (crítica à idéia de “servidão voluntária”) (2011)

Propriedade privada, escassez e democracia (2014)

El empleo

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“Uma mercadoria, portanto, é algo misterioso simplesmente porque nela o caráter social do trabalho dos homens aparece a eles como uma característica objetiva estampada no produto deste trabalho; porque a relação dos produtores com a soma total de seu próprio trabalho é apresentada a eles como uma relação social que existe não entre eles, mas entre os produtos de seu trabalho.” (Marx, O Capital I)

Os interesses que estão em jogo nos protestos das últimas semanas (sobre junho de 2013)

Os interesses que estão em jogo:

1) Classe dominante: dividida entre esquerda do capital e direita do capital, busca polarizar os protestos em torno de temas (por ex., “Estado versus mercado”, “empreendedorismo” vs “benefícios sociais” pelo estado, frente única antifascista vs fascismo) necessariamente espetaculares, isto é, que escamoteiam, como era de se esperar, o cotidiano da escravidão do salário (inclusive as forças repressivas altamente mortíferas que garantem a continuidade dessa escravidão) da quase totalidade da população.

2) Proletariado: embora os protestos tenham se iniciado com um objetivo que tem imediato interesse para os proletários (preço dos transportes), e embora tenham sido vitoriosos a esse respeito (reversão dos preços), o proletariado continua privado de meios de vida (pelo aparato repressivo,  o Estado), rastejando por empregos, acuado nas empresas, submetido aos patrões, e inconsciente de sua própria força colossal e internacionalista. Sem sua luta (a luta de classes), todo protesto é necessariamente “revolta dos coxinhas“, mesmo que desfilem trabalhadores cansados e mal vestidos nas passarelas do espetáculo. Enquanto o proletariado não surgir como classe, os manifestantes serão necessariamente joguetes das polarizações espetaculares dadas pela esquerda do capital e pela direita do capital.

3) Classe média: capitalistas e proletários são todos “classe média” (média alta alta, média alta média, média média média, média média baixa, média baixa baixa….), que é a identidade individual que o capital fornece e que é necessária para o bom andamento do capital, assim como a “nacionalidade”. A “classe média” compra e oferece mercadorias “voluntariamente”, em “pé de igualdade”, mesmo que se submeta à venda da própria carne e pensamento humanos no mercado de trabalho. Ou seja, a classe média não existe exceto na imaginação. Um possível resultado da repressão brutal nas manifestações é a constatação por muitos mauricinhos, almofadinhas, coxinhas, de que a classe média não existe de fato, já que essa repressão pode frustrar a ilusão de que existe o “brasileiro” defendido incondicionalmente pela polícia (e, mais ridículo, pelo idolatrado BOPE). Mas não tenhamos ilusões, pois a classe dominante (esquerda e direita) sabe que não pode se sustentar sem insuflar na população divisões que se apoiam na união da fantasiosa “classe média” (“gente do bem”) com a repressão contra algum bode expiatório, tanto à esquerda e à direita.

Humanaesfera 23/06/2013

A logística e a fábrica sem muros

por Brian Ashton (2006)
(Apresentação   do estudo Logistics and The Factory Without Walls.  Tradução por Humanaesfera)
A Tecnologia da Informação (TI) permite ao capital coordenar a produção de mercadorias como nunca antes. É uma aparente contradição: a produção está fragmentada por todo o mundo, e as partes, fabricadas aqui e ali, são transportadas por milhares de quilômetros para serem montadas, mas esse processo produz mais mercadorias do que nunca. O capital renovou-se mais uma vez, e, no processo, deixou a esquerda em crise. Enquanto os intelectuais falam em trabalho imaterial e precariedade, o capital se ocupa em dar os últimos retoques a seu novo sistema de produção. Ao mesmo tempo, porém, ele está criando um sistema de comunicação que capacita os trabalhadores  a interagir entre si para além das fronteiras nacionais e continentes. Quase todo trabalhador é hoje um trabalhador de TI, e é a potencialidade que surge disso que coloca o capital sob a maior ameaça. Não se trata de saber se o trabalho é imaterial ou material. Os intelectuais deveriam parar de criar hierarquias de trabalhadores, como operário massa e operário social, trabalhador imaterial e precariado. Seria melhor se buscassem uma compreensão adequada de como a cadeia de suprimentos – que alguns capitalistas chamam de empresa virtual – funciona hoje. Conheça o seu inimigo, aconselha Sun Tzu em A Arte da Guerra.

Uma equipe de pesquisadores da Escola de Negócios de Cardiff [Cardiff Business School] estudou a cadeia de ações necessária para fazer uma lata de coca-cola. Todo o processo, começando na mina de bauxita na Austrália e terminando com a lata na geladeira de alguém, levou nada menos do que 319 dias. Desse tempo, apenas três horas foram gastas na fabricação, e todo o restante no transporte e armazenamento. Um anúncio da companhia de navegação P&O Nedlloyd afirma que a jornada de um único contêiner pode envolver literalmente uma centena de pessoas. Isso abrange desde gente que faz o carregamento dos contêineres até o pessoal de TI, passando pelos planejadores de logística e os estivadores, os motoristas e os trabalhadores do armazém, o funcionário da alfândega e o capitão do navio. Tudo isso põe em destaque tempo e trabalho. O controle desses dois fatores é a principal preocupação dos encarregados do gerenciamento das cadeias de suprimentos (também chamadas cadeia de fornecimento, cadeia de abastecimento, cadeia logística, rede logística,  supply chain).

Conforme explica o referido estudo da Escola de Negócios de Cardiff, a logística é um fator determinante na cadeia de suprimentos. Segundo o Conselho de Gerenciamento Logístico [Council of Logistics Management], a logística é:  o processo de planejar, implementar e controlar o eficiente e eficaz fluxo e estoque de matérias-primas, inventário de processo, produtos finais, desde a extração/produção até o ponto de consumo.

Nos últimos vinte anos, houve uma revolução na área da logística, uma revolução que parece ter passado despercebida pela esquerda autônoma. Essa reviravolta decorre da aplicação de tecnologia à mundialização da produção de mercadorias. Ou, como disse Marx:

Uma mudança radical no modo de produção em uma esfera da indústria envolve uma mudança correspondente  em outras esferas. Isto ocorre  antes de tudo  naqueles ramos da indústria que, embora isolados pela divisão social do trabalho de modo que cada um deles produz uma mercadoria independente, são, porém, entrelaçados como fases separadas de um mesmos processo global.[…]

Mas sobretudo a revolução nos modos de produção da indústria e da agricultura tornou necessária uma revolução nas condições gerais do processo social de produção, ou seja, nos meios de comunicação e transporte.[…] 

Os meios de comunicação e transporte eram tão intrinsecamente inadequados para os requisitos produtivos do período manufatureiro, com a sua divisão ampliada do trabalho social, sua concentração dos instrumentos de trabalho e operários e seus mercados coloniais, que eles foram de fato revolucionados. [..] E também no período da ´indústria moderna´ os meios de comunicação e transporte herdados do período manufatureiro se tornaram obstáculos.” O Capital, vol. 1 (Capítulo: Maquinaria e Grande Industria).

O marxismo autonomista vê a luta dos trabalhadores como o motor do desenvolvimentocapitalista. Nos anos 70, o capital começou a atacar os núcleos de poder de classe que alguns chamavam de operário-massa. Ele atacou em três frentes. Buscou quebrar a rigidez imposta àprodução pela militância de classe usando a tecnologia para desqualificar os trabalhadores e reconfigurar o layout da fábrica. Passou a deslocar parte da capacidade produtiva para fábricas menores, sub-contratando o trabalho de outras empresas (terceirização). E ele usou o Estado para impor a crise sobre a classe trabalhadora. Ele teve tanto êxito em seu projeto que, desde osanos 80, a classe trabalhadora sofre derrota após derrota. A composição política forjada na batalha foi desmantelada e descartada. Parece, para este velho operário da indústria automobilística que vos fala, que não foi só o capital que nos descartou, mas que um grande número de intelectuais comunistas viraram as costas para nós também. A conseqüência é queagora temos uma geração de anti-capitalistas que não sabe como interagir com a classe trabalhadora. Apesar de estarem rodeados pela classe que eles parecem estar mais interessados, eles vão à selva mexicana, ou preferem ir à Gênova e Seattle e dar à máquina do Estadooportunidades para treinar controle de multidão.

Nos anos 60 e 70 havia uma constante interação entre militantes da classe trabalhadora e a esquerda emergindo das universidades. Nem sempre isso foi positivo, mas onde houve uma sinergia, a teoria e a prática tinham alguma conexão. Aprendemos uns com os outros e coisas ótimas foram produzidas. Aqui na Grã-Bretanha, a obra publicada de Big Flame e Solidarity éprova disso. Na Itália, Potere Operaio e Lotta Continua ajudaram a desenvolver uma compreensão dos pontos fortes e fracos da composição do capital. Hoje, podemos falar de um sistema de produção globalizado, mas quantos de nós pode descrever como ele funciona? Como é que a lata de coca vai de A a Z? Nos anos 70 nós sabíamos como a fábrica e os sistemas de transporte funcionavam e era desse conhecimento que vinha nossa capacidade de combater acapital. Hoje, é certamente difícil entender exatamente como as coisas são feitas, mas é imperativo que ganhemos um conhecimento profundo dos processos de produção e logística,das cadeias de suprimento do capital, ou, dito de outra forma, das fábricas sem muros. Algunscapitalistas vêem a cadeia de fornecimento como uma fábrica virtual e querem que os trabalhadores se remetam à cadeia de fornecimento, ao invés de perceberem-se comoempregados das empresas que integram essa cadeia.

A composição da classe trabalhadora vem da luta, mas antes requer que os capitalistas reúnam trabalhadores para impor uma disciplina de produção. No presente período, só podemosentender como a disciplina é imposta mediante uma abordagem global. A composição técnica do capital está difusa por todo o mundo, assim como os trabalhadores da cadeia de suprimento de mercadorias. Sob tal sistema, a disciplina é imposta pela aplicação do kaizen (melhoria contínua) e  da entrega just-in-time combinados com a aplicação de tecnologias da informaçãopara policiar a produtividade dos trabalhadores.

Isso é reforçado pela mudança no modo como as mercadorias são movimentadas pelo sistema. O capital passou de uma economia de empurro [push economy] para uma economia de empuxo[pull economy], em outras palavras, está fazendo as coisas enquanto elas são demandadas, ao invés de fazê-las conforme uma demanda prevista. O lema da economia de empuxo é: “Se não foivendido, não produza.” A economia de empuxo dá às grandes cadeias de supermercados umpoder enorme, porque elas controlam a informação que “puxa” as mercadorias através da cadeia de fornecimento. Quando você compra uma lata de feijão no supermercado Asda, a informação é transmitida para todos que estão ao longo da cadeia, para que outra lata de feijão seja produzida. Claro, milhões dessas peças de informação voam pelo ciberespaço a cada instante.Um dos efeitos da economia de empuxo é o aumento do trabalho precário: se a demanda diminuir, demita trabalhadores. As empresas têm programas de computador que calculam o número de trabalhadores necessários para satisfazer uma determinada demanda,  e “puxa”trabalhadores de um reservatório de precariedade, muitas vezes disponibilizado por agências de emprego. E cada vez mais elas terceirizam atividades acessórias subcontratando empresas de serviços;  essa é uma das razões para a rápida proliferação da indústria logística nos últimos anos. A indústria automotiva está indo para o modelo “economia de empuxo”, o que é um dos motivos principais de os operários dessa indústria nos EUA estarem sendo atacados neste momento.

Se as cadeias de suprimento são espalhadas  pelo planeta e os níveis de estoque são reduzidos aojust-in-time, então, para completar o ciclo de acumulação, a aplicação da logística torna-sedeterminante. Ao mesmo tempo isso aumenta a possibilidade de luta efetiva da classe trabalhadora: quando os caminhoneiros da costa oeste dos EUA, há um ano,  fizeram greve, elesparalisaram as cadeias de fornecimento do Wal-Mart e de outras cadeias gigantes, provocando ondas de pânico em muitas salas de diretoria. A importância da logística não pode ser subestimada – tente imaginar a cadeia de fornecimento de qualquer produto sem o inputlogístico. A globalização da produção tem deixado muitos trabalhadores acreditando que elesnão podem fazer nada sobre isso, e quando as empresas transferem a produção para a China ou a Índia, eles ficam hipnotizados pelas luzes do rolo compressor capitalista que os esmaga, mas esta aparente força do capital multinacional é de fato a sua fraqueza.

Historicamente, os operários da logística eram os mensageiros do pensamento radical e transportadores de notícias das lutas dos trabalhadores. Eles próprios, é claro, se envolveram em muitas batalhas. Nos últimos vinte anos, muitas dessas batalhas foram defensivas, lutas para salvar empregos e manter condições de trabalho. A retirada do Estado na gestão direta do setor de logística foi o catalisador de um ataque global que continua até hoje. O capital privado entrouem peso no ataque aos trabalhadores em toda a indústria. Ao mesmo tempo, estas empresas têmse empenhado num frenesi de fusões e aquisições, que resultaram no surgimento de empresasverdadeiramente mundiais que empregam muitos milhares de trabalhadores.

Pode-se ter uma idéia do tamanho dessas empresas a partir de dois exemplos: a United Parcel Services (UPS) e a Deutsche Post (DP). A UPS é uma empresa de 33,5 bilhões de dólares que opera em 200 países e emprega mais de 340.000 trabalhadores. Ela fornece logística/distribuição de transporte e fretagem, comércio internacional, serviços financeiros, mecanismos de correspondência financeira e serviços de consultoria. Ela cresceu se beneficiando de processos de subcontratação, que são comuns nesse setor, e através da aquisição de outras empresas. Ela faz grandes cartadas: comprou a transportadora Fritz por 450 milhões de dólares. A DP é parcialmente do governo alemão, que detém 41,6 por cento das ações. Estas serão vendidas a investidores institucionais nos próximos anos. A DP opera o serviço postal alemão, é dona da DHL, e no ano passado comprou a Exel, britânica. A própria Exel era uma empresa aquisitiva antes de ser comprada; ela já havia comprado a Tibbett & Britten, a sétima maior empresa de logística do mundo. Isto resultou em uma empresa que emprega mais de 103.000 pessoas. Não sei quantas pessoas trabalham para a DP, mas deve ser da ordem das centenas de milhares.

A fábrica de automóveis Jaguar em Halewood, em Merseyside, talvez possa nos dar uma idéia de como uma cadeia de suprimentos funciona e de como a logística se encaixa na cadeia. Em Halewood, a Ford fabricava o Escort e foi lá que este proletário que vos fala trabalhou por setelongos anos. A fábrica era considerada pela Ford uma pedra no sapato, e a ameaça defechamento estava sempre pairando sobre ela. A Ford comprou a Jaguar e decidiu fabricar o carro Jaguar em Halewood. Ao mesmo tempo, decidiu alterar radicalmente as práticas de trabalho na fábrica. Ela trouxe uma empresa americana chamada Senn-Delaney para alterar a mentalidade da força de trabalho, e parece ter sido bem sucedida, porque Halewood é agora considerada a melhor fábrica de carros da Europa. Se tentassem isso  nos anos 70, o trabalho dessa empresa teria sido desafiado pela contra-informação da esquerda.

Quando eu trabalhava em Halewood na década de 70, havia 14 mil de nós empregados no local.Hoje a Jaguar emprega cerca de 2.800 pessoas, mas este número é enganoso, porque uma fatia considerável do trabalho foi transferida aos fornecedores que, por sua vez, repassam parte do trabalho para fornecedores menores. Numa cadeia de  suprimento, as empresas são classificadosassim: Original Equipment Manufacturer (OEM), ou seja, a Jaguar; fornecedor de primeiro nível [First Tier Supplier], ou seja, a Bosch, os pequenos fornecedores são chamados de segundo nível, terceiro nível, etc. Quem conecta tudo são as empresas de logística. Em Halewood, a UCILogística, subsidiária da empresa japonesa Nippon Yusen Kaisha (NYK), opera o conjuntologístico. Como fornecedora logística principal, a UCI é responsável pela logística de entrada[inbound logistics] em Halewood, e também pela logística interna da fábrica em si. Nos dias daFord, a logística interna era realizada pelos próprios trabalhadores da Ford. O serviço delogística de entrada envolve uma operação da cadeia de suprimento,  na coleta de peças, partes e submontagens por toda a Europa,  usando em parte sua própria frota (da UCI Logística) e em parte a de sócias da UCI. O serviço de logística interna envolve descarregamento de peças, o movimento dos componentes para as áreas de armazenamento e sua disponibilização nas linhas de produção sem incorrer em estoques laterais. Também é tarefa da UCI garantir que, nas linhas, nunca um estoque lateral exceda o volume de duas horas estipulado pela Jaguar. São ostrabalhadores da UCI que dirigem as empilhadeiras que transferem material por dentro da fábrica de Halewood.

Vejamos a logística de um determinado produto que chega em Halewood, da montagem derodas e pneus. A UCI movimenta 500.000 montagens por ano em Halewood. O contrato inclui a logística externa para o suprimento de rodas de liga, da Itália para instalações da Pirelli no Reino Unido, e a entrega de montagens completas para Halewood, três vezes por dia, juntamente com a logística interna na fábrica da Jaguar. A UCI seleciona entre 12 tipos diferentes de montagens a partir de instruções automatizadas transmitidas pela Jaguar e entrega o produto no ponto de encaixe na fábrica. O operário massa não foi destruído,  mas reconfigurado.

O capital adquire poder a partir da extração de mais-valia, e a cadeia de suprimentos é a fábricasem muros onde esse processo ocorre. No passado, os socialistas se organizavam e agitavam em torno dos centros de produção de mercadorias – pensemos na atividade realizada em torno da fábrica da Fiat Mirafiori, em Turim e os esforços de Big Flame em Dagenham e Halewood – masesse tipo de atividade pode ser feita hoje? Se uma tal agitação ocorrer hoje,  terá de ser em uma escala global, mas há tecnologia para isso. O capital, ao se tornar planetário com suas cadeias de suprimento, está criando a oportunidade para uma luta mundial dos trabalhadores. Para quetenhamos êxito, é preciso conhecer como a composição atual do capital funciona. O artesão e o operário massa sabiam como o sistema produzia mercadorias; precisamos desenvolver esse conhecimento hoje.

(Brian Ashton <t.ashton EM merseymail.com> é ex-operário da indústria automobilista na Inglaterra que desenvolveu um interesse pela indústria logística quando apoiou os estivadores de Liverpool saqueados durante meados dos anos noventa.)

Ver também:

A rede de lutas na Itália (Romano Alquati, anos 1970)

A escassez artificial em um mundo de superprodução: uma saída impossível(Sander, 2010)

Teste de realidade: estamos vivendo em um mundo imaterial? (Steve Wrigh, 2005)

Serviços: subsunção formal (Endnotes, 2010)

A escassez artificial em um mundo de superprodução: uma saída impossível

por Sander 

Extratos livremente traduzidos pela Humanaesfera de Artificial Scarcity in a World of Overproduction: An Escape that Isn’tpublicado no outono  -hemisfério norte- de 2010)

(imagem: carros encalhados na Espanha)

[…] O capitalismo nasceu em condições de escassez e é incapaz de funcionar sem elas. Parece lógico que a crise crie uma tendência para artificialmente restaurar essas condições. Mas como isso afeta as chances de a economia global encontrar uma saída da crise atual?

A maioria das análises de como essa crise  surgiu focaliza a mecânica de formação de bolhas. [..] As bolhas sempre são um fracasso do capital no cumprimento de suas promessas. O dinheiro que alimentou as bolhas foi investido com vistas aos lucros futuros, como títulos sobre eles. Quando se torna claro que esse lucro não vai se materializar, a bolha implode. Quando isso acontece num setor, a culpa costuma ser atribuída à má gestão, delírios ou corrupção. […] Mas, hoje, economias inteiras são bolhas em implosão. É certo que há razões específicas para isso acontecer primeiro num lugar e depois em outro, mas a cadeia de implosões de bolhas está ficando tão longa que razões específicas não podem mais dar conta do que está se tornando um fenômeno geral. O problema subjacente é o mesmo tanto na Grécia como na crise imobiliária norte americana: não há lucros suficientes sendo gerados para satisfazer os títulos do capital investido.[…]

Um novo paradigma de crescimento?

[…] um político ou um economista que trabalha para uma instituição [think tank] ou governo tem naturalmente de acreditar que […] os abalos podem ser amortecidos e que um novo paradigma de crescimento pode surgir deles. A partir desta esperança, três prioridades estratégicas se seguem. […]

  1. Aumentar os lucros mediante redução dos salários. […] Tirar proveito do excesso de mão de obra no mercado de trabalho global, já intensificado pela crise, para, sempre que possível,empurrar os salários para abaixo do valor da força de trabalho, isto é, abaixo do custo para o assalariado de reprodução de sua vida. Não há nenhum limite para isso, exceto a resistência da classe trabalhadora. O fato de que pagar salários abaixo do valor da força de trabalho destrói a força de trabalho não é um limite quando a força de trabalho é abundante. Como qualquer mercadoria produzida em excesso, a força de trabalho se desvaloriza. Resistir a isso não é possível dentro da lógica do capital. Assim,  na prática, resistir se torna se recusar a ser uma mercadoria, rejeitar a forma-valor.
  2. Aumentar os lucros mediante corte das despesas improdutivas [faux frais], pelo abandono tanto quanto possível do capital supérfluo constante e variável. Isso significa se livrar de fábricas, máquinas e trabalhadores desnecessários e reduzir ao máximo os custos que a administração da população supérflua implica. Não é uma tarefa fácil, evidentemente. A ajuda dos sindicatos – que, por sua função como gestores da força de trabalho, entendem que o que eles negociam é uma mercadoria que, em última análise, deve obedecer à lógica do mercado – será indispensável.
  3. Aumentar os lucros ao criar artificialmente condições de escassez. Desenvolver uma economia global paralela, centrada nos países mais avançados, protegida – por suas posições exclusivas no mercado – das tendências recessivas que inevitavelmente afundam a maior parte do mundo. Isso implica uma mudança do centro de gravidade da economia: ao invés defazer lucros a partir da produção de bens, fazê-los da produção de inovação, de novo conhecimento para produzir mercadorias; um deslocamento das economias de escala (cujo rendimento torna-se negativo com o excesso de capacidade) para a constante adaptação e recriação de escassez.

Os limites das duas primeiras metas estratégicas não são objetivos, pois eles dependem de se conseguir superar a vontade de viver dos seres humanos, de derrotar a sua capacidade de imaginar a si mesmos como algo diferente de uma mercadoria. Mas isso não está no âmbito deste artigo. É o desenvolvimento da terceira meta estratégica e o limite que ela encontra que pretendo examinar no resto deste texto.

“O Tao da Insuficiência” [“The Tao of Undersupply”]

[…] como lucrar em um mundo saturado de superprodução? Hugh MacLeod formula o problema desta maneira:

“[…] talvez a solução seja seguir ´O Tao da Insuficiência´. Se apenas 100 pessoas querem comprar tuas bugigangas, então basta fazer 90 delas. Se apenas 1000, faça 900. Se apenas 10 milhões, faça 9 milhões. Isso não é difícil, mas é preciso disciplina [1]”.

O problema com a estratégia de Hugh é que, quando existe um buraco no mercado, o capital vai preenchê-lo. Alguém vai fazer as bugigangas, a menos que haja uma maneira de impedi-lo. E há.

Há a arma tosca do protecionismo, mas seu tiro geralmente sai pela culatra. Há também o controle do mercado resultante da concentração do capital. […]. As atuais condições de crise estimulam a concentração do capital. Empresas mais fortes compram rivais em apuros a preços de banana e as amarram a outras nas chamadas “alianças estratégicas”, que estabelecem controle sobre o mercado através de redes, mais do que através de monopólios diretos ou acordos de cartel explícitos. […] Não é necessário um conluio explícito para que esses conglomerados gigantes exerçam a sua capacidade conjunta de fixar preços acima do valor de seus produtos e, unidos, reduzir a oferta com esse objetivo […].

[…] Há ainda um outro caminho para esses lucros que é ainda mais impressionante, mais típico dos nossos tempos: a mercadorização do conhecimento.

Um mundo de patentes

Uma empresa que introduz uma nova mercadoria (ou um novo método para a produção de mercadorias, o que também é uma mercadoria) no mercado, tem, por definição,  monopólio sobre ela e, desse modo, tem a oportunidade de pôr o seu preço acima do seu valor, tanto quanto o mercado possa aguentar. A este respeito, não importa se a novidade é real ou criada artificialmente (através de propaganda pesada).[…]

Sua produção é protegida por patentes. A busca por escassez artificial é simultaneamente causa e conseqüência do crescimento vertiginoso da tecnologia da informação, biotecnologia e outros desenvolvimentos baseados em conhecimento e sua aplicação generalizada em todos os ramos da indústria. Como resultado, o aumento das patentes, depois de um crescimento lento mas constante desde o final do século XIX, foi explosivo na década de 1980. Os direitos de propriedade intelectual se tornaram uma peça fundamental nos acordos comerciais internacionais celebrados desde então, e as autoridades americanas e européias repetidamente têm aumentado a duração das patentes e direitos autorais.

Há patentes de tudo. No total há mais de 32 milhões delas, e quase dois milhões são registradas a cada ano, incluindo o direito de impedir o uso, desenvolvimento e venda de tecnologias, programas, produtos, métodos de pesquisa e produção, procedimentos, e até odores e cores, por todos exceto o proprietário da patente e aqueles licenciados por ele [2]. Até mesmo grande parte de nossos genes já está patenteada e não pode ser estudada sem que se pague uma licença a seu “proprietário”.

[…]

A  Toyota obteve mais de 2.000 patentes apenas para seu carro Prius. Seu objetivo é tornar impossível que outros desenvolvam carros híbridos sem que paguem um preço elevado para a Toyota. Esse exemplo ilustra o motivo por que o ritmo de mudança tecnológica é muito menos impressionante do que o aumento acentuado de patentes poderia sugerir. Uma vez que elas cobrem tantas coisas, elas efetivamente impedem o desenvolvimento de novos produtos por concorrentes não licenciados. Muitas patentes nem mesmo são aplicadas a novos produtos. Seus proprietários simplesmente esperam até que outros  desenvolvam algo semelhante, a fim de extorquir uma taxa. Esta estrada para o superlucro requer exércitos de pesquisadores e, mais ainda, exércitos de advogados para fazer valer a escassez artificial que está constantemente sob ameaça, uma vez que o conhecimento é, por sua natureza comunicativo e derivado de outros conhecimentos. […] E como toda propriedade privada, ela também requer polícias e exércitos reais, além do poder dos Estados para manter uma ordem mundial em que a escassez artificial seja protegida.

Um beco sem saída

No centro da tendência para uma economia baseada em escassez artificial está a TI (tecnologia da informação), que tem levado ao extremo a propensão do capitalismo para diminuir o valor das mercadorias. Visto que não custa quase nada reproduzir bens digitais, seu valor, em termos marxistas, também é quase nada. Com efeito, eles são tão abundantes que só podem ser tornados lucrativos sabotando a lei do valor, limitando a concorrência para impedir que o mercado estabeleça seus preços livremente. […] Seus custos reais de produção são geralmente muito baixos, mas não os seus lucros. Mas qual é a fonte desses lucros? Visto que cada vez menos tempo de trabalho é requerido para reproduzir suas mercadorias (o custo da P&D – pesquisa e desenvolvimento – pode ser alto, mas não tem relação com os custos de reprodução), a parte do tempo de trabalho que não é paga, a mais-valia, deve cair muito e, portanto, não pode explicar o aumento de seus lucros. O lucro é mais-valia, mas ela vem de outro lugar: é paga pelos clientes.

É por isso que é uma falácia dizer que uma economia avançada global baseada em escassez artificial poderia funcionar em um nível paralelo, protegida da crise geral. Ela suga valor de outro lugar e, assim, efetivamente taxa o resto da economia. Quanto mais ela recolhe, mais pesada a taxação. Ela, portanto, é dependente da capacidade do resto da economia de pagar essa taxa e, consequentemente, da sua capacidade para criar novo valor. […]

Então, apesar do desejo dos capitais baseados em escassez artificial de se colocar fora do barco (ilustrado pela reação da Alemanha diante da crise da dívida na Grécia), não há nenhuma bóia de salvamento. Pelo contrário, ao desviar capital para a produção que cria relativamente pouco valor, isso agrava o problema geral. No entanto, é de se esperar que os capitais voltados para a escassez artificial continuarão a colher lucros superiores à média, até mesmo enquanto a taxa de lucros média continua a cair. Assim a produção dessas mercadorias vai atrair mais investimentos do que sua participação na criação do capital. Isso a torna uma excelente candidata para a formação de novas bolhas (como tem sido), anunciando novos abalos num sistema desesperadamente aferrado à escassez.

( <sander AT verizon.net> é editor da revista InternationalistPerspective)

Notas
[1] http://gapingvoid.com

[2] Todas essas estatísticas sobre patentes vem da base de dados da World Intellectual Property Organisation http://wipo.int/ipstats/en/statistics/patents/

(imagem: carros encalhados na Inglaterra)

Teste de realidade: estamos vivendo em um mundo imaterial?

Por Steve Wright, 

(Traduzido por Humanaesfera de  Mute Vol 2 Nº 1  de novembro de 2005)

Um padre certa vez encontrou um mestre zen e, para deixá-lo embaraçado, desafiou: “Sem usar som e  nem silêncio, você pode me revelar a realidade?” O mestre zen socou-lhe a cara [1].

As persistentes afirmações de que hoje vivemos numa economia ou sociedade do conhecimento levantam muitas questões para reflexão. Nas próximas linhas, quero discutir alguns aspectos dessas afirmações, principalmente no que se refere à noção de trabalho imaterial. Este termo foi desenvolvido dentro do campo de pensamento que é em geral denominado “pós-obreirista” [“postworkerist”], cujo expoente mais conhecido é certamente Antonio Negri. Enquanto suas raízes se situam no ramo do marxismo italiano do pós-guerra conhecido como operaismo(obreirismo), esse campo repensou e reelaborou muitos preceitos desenvolvidos durante o auge de 1968-78 da nova esquerda italiana. Na verdade, foi a própria derrota dos sujeitos sociais que o operaismoidentificava – primeiro e sobretudo, o assim chamado “operário massa” engajado na produção de bens de consumo duráveis através do trabalho repetitivo “semi-qualificado” – que levou Negri e outros a insistir que embarcamos numa nova era além da modernidade [2].

Para essa visão de mundo, hoje, um tipo muito diferente de trabalho ou teria se tornado hegemônico entre aqueles que não tem nada a vender exceto sua capacidade de trabalhar,  ou estaria em vias de alcançar tal hegemonia. A dependência crescente do capital por esse trabalho diferente – imaterial – teria trazido sérias implicações para o processo de auto-expansão do trabalho abstrato (valor) que define o capital como uma relação social. Enquanto Marx sustentava que o “tempo de trabalho socialmente necessário” associado com sua produção fornece os meios pelos quais o capital pode medir o valor das mercadorias (e assim a massa de mais-valor que ele espera realizar com sua venda), Negri, pelo contrário, é da opinião de que com um tempo de trabalho crescentemente complexo e qualificado, e de uma jornada de trabalho que cada vez menos se separa (e no fim coloniza) do restante de nossas horas acordados, o valor não pode mais ser calculado. Conforme ele declarou há uma década, em tais circunstâncias, a exploração do trabalho continua, mas “fora de qualquer medida econômica: sua realidade econômica é fixada exclusivamente em termos políticos” [3].

Isso é algo muito esotérico, particularmente os argumentos sobre a mensurabilidade (ou não) do valor. Devemos perder tempo com isso? O que espero mostrar é que, apesar de toda sua aparente obscuridade, esse debate é importante. Porque levanta questões sobre como entender nosso contexto imediato, inclusive como interpretar as possibilidades latentes na composição de classe contemporânea. Será que um setor da composição de classe é capaz de dar a marcação do ritmo e o tom nas lutas contra o capital, ou, ao invés, devemos olhar para a emergência de “estranhos loops… curto-circuitos e estranhas conexões entre vários setores da classe” (como Midnight Notes sugeriu uma vez) como uma condição necessária para ir além do “atual estado de coisas”?

Desembrulhando o trabalho imaterial

A discussão de Maurizio Lazzarato sobre “Trabalho imaterial” foi, talvez, o primeiro tratamento extenso do assunto a aparecer em inglês. Parte de uma antologia de importantes textos italianos publicados em meados dos anos 90, o texto de Lazzarato definia o termo trabalho imaterial como “trabalho que produz o conteúdo informacional e cultural da mercadoria” [4]. As formas “clássicas” deste trabalho são representadas em áreas como “produção audiovisual, publicidade, moda, produção de software, fotografia, atividades culturais, e assim por diante”, e aqueles que executam tal trabalho geralmente encontram-se em circunstâncias de alta casualidade, precariedade e exploração, como parte daquilo que, mais recentemente e em certos círculos radicais da Europa Ocidental, veio a ser chamado de “precariado” [5].

A abordagem taylorista da produção que confrontou o operário massa tinha decretado: “vocês não são pagos para pensar”. Lazzarato argumentou que, com o trabalho imaterial, o projeto gerencial mudou. De fato, ele se tornou ainda mais totalitário do que a rígida divisão anterior entre trabalho intelectual e trabalho manual (ideias e execução), porque o capitalismo procura envolver até mesmo a personalidade do trabalhador no âmbito da produção do valor [6].

Ao mesmo tempo, Lazzarato acreditava que essa nova abordagem administrativa traria riscos reais para o capital, uma vez que a própria existência do capital foi colocada nas mãos de uma força de trabalho posta a exercer sua criatividade através de empenhos coletivos. E, diferente de há um século atrás, quando uma camada de trabalhadores qualificados ficava igualmente no centro de indústrias-chave, mas em grande parte isolada das “massas” desorganizadas, o “trabalho imaterial” de hoje  não pode ser entendido como atributo distintivo de um estrato dentro do força de trabalho. Ao contrário, a mão de obra qualificada está presente (ainda que apenas de forma latente) em amplos setores do mercado de trabalho, começando pelo jovem.

O livro Império, de Michael Hardt e Antonio Negri – um livro considerado (com ou sem razão) como a peça central do pensamento pós-obreirista – foi construído com a obra de Lazzarato e a modificou. Aceitando a premissa de que o trabalho imaterial passou a ser central para a sobrevivência do capital (e, por extensão, para projetos que visem a sua extinção), Hardt e Negri identificaram três segmentos do trabalho imaterial:

  1. a) os exemplos transformados de produção industrial que abraçaram a comunicação como um fluido vital; b) a realização de “análise simbólica e resolução de problemas” por trabalhadores do conhecimento; c) o trabalho afetivo encontrado sobretudo no setor de serviços [7].

Essas experiências, admitia-se, podiam ser muito díspares: os trabalhadores do conhecimento, por exemplo, foram divididos entre profissionais “high-end”, com considerável controle sobre suas condições de trabalho, enquanto outros são envolvidos em “empregos de manipulação rotineira de símbolos, de baixo valor e baixa qualificação” [8]. Porém, um fio comum ligaria os três elementos. Como exemplos de trabalho em serviços, nenhum deles produz um “bem material ou durável”. Além disso, dado que o produto é fisicamente intangível enquanto objeto discreto, então o trabalho que o produziu poderia ser designado como “imaterial” [9].

Como podemos cosiderar tais argumentos? Doug Henwood elogiou Império pela verve e otimismo de visão, porém acrescentou:

“Hardt e Negri são frequentemente acríticos e crédulos em face da propaganda ortodoxa sobre a globalização e a imaterialidade… Eles afirmam que o trabalho imaterial – o trabalho nos serviços, basicamente – hoje prevalece sobre o antiquado trabalho material, mas não cita nenhuma estatística: a acreditar neles, você nunca esperaria que houvesse mais americanos que são motoristas de caminhão  do que profissionais de informática. E nem passaria pela cabeça que três bilhões de pessoas, metade da população da Terra, vive no terceiro mundo rural, onde a ocupação principal continua sendo cultivar a terra” [10].

Nick Dyer-Witheford também registrou várias críticas à abordagem de Hardt e Negri sobre a composição de classe [11]. Para ele,  Império omite as tensões entre os três fragmentos de classe que ele identifica, enquanto, em última análise, lê o trabalho imaterial só através das lentes de sua manifestações “high-end”. E tudo isso é realmente tão novo quanto Hardt e Negri insinuam? É como se o “trabalho afetivo”, por exemplo, já não fosse algo fundamental para a reprodução social no passado, mesmo que ele passasse despercebido – devido a sua ampla composição de gênero, talvez – em muitas análises sociais.

Outra questão diz respeito à insistência de Império de que “o aspecto cooperativo do trabalho imaterial não é imposto ou organizado de fora” [12]. Novamente, talvez isso seja verdade para algum trabalho no “high-end”. Mas a obrigação de perguntar: “Você quer batatas fritas com que?” realmente representa uma ruptura com os regimes de trabalho fordistas? Ou muitos dos “McJobs” [empregos como os do McDonalds] que predominam no fundo das profundezas da chamada produção imaterial  não poderiam ser melhor caracterizados como “os descendentes taylorisados, desqualificados de antigas formas trabalho de escritório” e outros trabalho nos serviços [13]?

Mais recentemente, em 2004, Hardt e Negri tentaram responder a alguns de seus críticos no livro Multidão, a sequência de Império. A primeira coisa a notar aqui é que, enquanto o trabalho imaterial continua a ser o pivô central para os argumentos do livro, ele é apresentado de uma forma um tanto mais cautelosa e qualificada do que antes. De fato, Hardt e Negri têm o cuidado de afirmar que:

  1. a) “Quando afirmamos que o trabalho imaterial tende para a posição hegemônica, não estamos dizendo que a maioria dos trabalhadores no mundo de hoje estão produzindo principalmente bens imateriais”, b) “O trabalho envolvido em toda produção imaterial, devemos enfatizar, permanece material – ele envolve nossos corpos e cérebros como qualquer trabalho. O que é imaterial é seu produto”[14].

Portanto, tal como a ascensão da Multidão, aqui a hegemonia do trabalho imaterial como ponto de referência, ou mesmo vanguarda, para “a maioria dos trabalhadores no mundo de hoje” é considerada como uma tendência, embora inexorável. No final da discussão de Multidão sobre trabalho imaterial, Hardt e Negri falam no que eles chamam de “teste de realidade” – “que evidências temos para verificar nossa afirmação de uma hegemonia do trabalho imaterial” [15]?  É o momento que todos estávamos esperando, e infelizmente a meia página da discussão que eles oferecem é decepcionante: uma alusão ao US Bureau of Statistics [Secetaria de Estatísticas Laborais dos EUA] que indica que o trabalho em serviços está em ascensão; o deslocamento da produção industrial “para partes subordinadas do mundo”, que sinalizaria o privilégio da produção imaterial no coração do Império; a importância crescente das “formas imateriais de propriedade”; e, finalmente, a disseminação de formas de organização em rede específicas ao trabalho imaterial [16]. Chame-me de velho antiquado, mas é necessário algo mais do que isso em um livro de mais de 400 páginas dedicadas a explicar suas declarações sobre a última manifestação do proletariado como sujeito revolucionário…

A referência ao aumento da atividade no setor de serviços é interessante por várias razões. Huws argumenta que o aumento implacável do trabalho em serviços no ocidente pode tomar outro significado se o emprego doméstico tão comum há 100 anos fosse levado em conta na equação [17]. Escrevendo uma década antes, Sergio Bologna sugeriu que certas formas de trabalho só passaram a aparecer como “serviços” nas estatísticas oficiais após terem sido terceirizadas; anteriormente, quando eram realizadas “em casa”, elas apareciam como “manufatura” [18]. Nenhum autor está tentando negar que mudanças importantes ocorreram na economia global, a começar por países como a Grã-Bretanha, Austrália, Canadá e Estados Unidos. No entanto, eles pedem cautela na interpretação das mudanças, e cuidado nas categorias usadas para explicá-las. Bolonha – um antigo colaborador de Negri em vários projetos políticos nos anos 60 e 70 – é particularmente cáustico sobre a noção de trabalho imaterial, chamando-a um “mito” que, mais do que qualquer outra coisa, oculta o aumento da jornada de trabalho [19].

Fim do valor enquanto medida?

Como mencionado anteriormente, uma das características distintivas do pós-obreirismo é a rejeição da assim chamada “lei do valor” de Marx. George Caffentzis nos lembra que o próprio Marx raramente falava de uma tal lei, mas que também não há dúvida sobre sua opinião de que, sob o domínio do capital, a quantidade de tempo de trabalho socialmente necessário para produzir mercadorias em última instância determina seu valor [20]. Rompendo com Marx a este respeito, os pós-obreiristas se inspiram em uma passagem dos Grundrisse conhecida como “Fragmento sobre as Máquinas”. Este prevê uma situação, alinhada com a tentativa perene do capital de se livrar da sua dependência do trabalho, onde o conhecimento se tornou o fluido vital do capital fixo, e o input direto de trabalho na produção é meramente incidental. Nestas circunstâncias, Marx argumenta, o capital efetivamente destrói a base que o sustenta, pois “Tão logo o trabalho na sua forma direta deixou de ser o grande fonte de riqueza, o tempo de trabalho deixa e deve deixar de ser sua medida e, portanto, o valor de troca [deve deixar de ser a medida] do valor de uso” [21].

Negri, entre outros, tem insistido há muitos anos, e de várias maneiras, que o capital hoje atingiu esse estágio.  Conclui que nada além da pura dominação mantém o domínio do capital: “a lógica do capital não mais funciona para o desenvolvimento, ela é simplesmente comando para sua própria reprodução” [22]. Na verdade, uma série de comentaristas sociais têm evocado o “Fragmento sobre as Máquinas” nos últimos tempos – aparte tudo o mais, tem mantido uma certa popularidade entre aqueles (como o futurólogo reacionário Jeremy Rifkin) que nos dizem que vivemos em uma sociedade cada vez mais livre do trabalho. É uma pena, então, que, destes escritores, pouquíssimos seguiram a lógica do argumento de Marx nos Grundrisse até suas conclusões. Pois enquanto ele indica que o capital, de fato, busca “reduzir o tempo de trabalho a um mínimo”, Marx também nos lembra de que o próprio capital não é nada mais do que o tempo de trabalho acumulado (trabalho abstrato enquanto valor) [23]. Em outras palavras, o capital é obrigado pela sua própria natureza, e durante o tempo que estamos presos a ele, a por o “tempo de trabalho … como única medida e fonte de riqueza”.

Em seu esforço para escapar do trabalho, o capital tenta uma série de coisas que, cada uma à sua maneira, alimenta os argumentos que fazem o tempo de trabalho parecer como irrelevante como a medida do desenvolvimento do capital. Considerada com mais cuidado, no entanto, cada uma dessas coisas pode ser vista de um modo um tanto diferente. Para começar, o capital tenta externalizar ao máximo seus custos laborais: para dar um exemplo banal (embora não tão banal se você é um ex-empregado de banco), incentivando o serviço bancário online e máquinas de autoatendimento e desativando o atendimento de balcão. Quanto ao nosso próprio cotidiano de trabalho, muitos de nós levam para casa cada vez mais trabalho (até mesmo para o trem, ou o carro). Parecemos ter que ficar numa prontidão cada vez maior, acessíveis através da internet ou telefone. Somadas, estratégias desse tipo (que, para acrescentar confusão a tudo isso, pode muito bem cruzar com nossas próprias aspirações individuais por mais flexibilidade) ajudam em grande medida a explicar esse apagamento da separação entre os componentes “trabalho” e “não trabalho” em nosso cotidiano. Por outro lado, elas mostram essa separação sob uma perspectiva diferente da do colapso do tempo de trabalho como medida do valor, uma perspectiva em que – precisamente porque a quantidade de tempo de trabalho é crucial para a existência do capital – o máximo de trabalho possível passa a ser executado na sua forma não paga.

Em segundo lugar, na tentativa de diminuir os custos laborais dentro de organizações individuais, o capital também reformula o processo pelo qual os lucros são distribuídos em uma escala setorial e global. Em uma série de ensaios nos últimos 15 anos, George Caffentzis delineou a ideia, primeiramente elaborada no terceiro volume de O Capital de Marx, de que as taxas médias de lucro sugam a mais-valia dos setores trabalho-intensivos para aqueles com um investimento maior em capital fixo:

“Para que haja uma taxa média de lucro em todo o sistema capitalista, os ramos da indústria que empregam muito pouco trabalho, mas muita maquinaria devem ser capazes de ter o direito de reivindicar a reserva de valor que os ramos com baixa tecnologia e muito trabalho criam. Se não houvesse tais ramos ou tal direito, então a taxa média de lucro seria tão baixa nas industrias de alta tecnologia e pouco trabalho que todo o investimento pararia e o sistema chegaria ao fim. Consequentemente, “novos cercamentos” no campo devem acompanhar o aumento de “processos automáticos” na indústria, o computador requer o sweat shop, e a existência do ciborgue se sustenta na do escravo” [24].

Neste exemplo, se não parece haver correlação imediata entre o valor de uma mercadoria individual e o lucro que ela retorna do mercado, a resposta pode bem ser que não há nenhuma: o quebra-cabeça só pode ser resolvido através da análise do setor como um todo, em uma extensão que vai muito além dos horizontes do trabalho imaterial. Aqui também, é uma questão de quais parâmetros escolhemos para emoldurar nossa investigação.

Em terceiro lugar, e em sequência, a divisão do trabalho em muitas organizações, indústrias e empresas atingiu um ponto em que é difícil – e provavelmente sem sentido – determinar a contribuição de um empregado individual para a massa de mercadorias que ele ajuda a produzir [25]. Novamente, isso pode favorecer a sensação de que o tempo de trabalho envolvido na produção de tais mercadorias (tangíveis ou não) é irrelevante para o valor que elas contém. Marx, por sua vez, argumentou que para tratar tudo isso, a questão central é de perspectiva:

“Se considerarmos o trabalhador agregado, ou seja, se tomarmos em conjunto todos os membros que compõem a oficina, então vemos que a atividade combinada deles resulta materialmente num produto agregado que é ao mesmo tempo uma quantidade de bens. E aqui é totalmente indiferente se o trabalho de um operário em especial, que é meramente um membro desse trabalhador agregado, está a uma distância maior ou menor do trabalhador manual real” [26].

Sobre isso, a crítica de Ursula Huws da noção de “economia sem peso” [“weightless economy”] merece cuidadosa atenção. Como Doug Henwood em sua desconstrução impetuosa da “nova economia” [27], Huws traz a nossa atenção de volta não só para a enorme infra-estrutura que sustenta a “economia do conhecimento”, mas também para “o fato de que pessoas reais, com corpos reais, contribuíram com tempo real para o desenvolvimento dessas mercadorias ‘sem peso'” [28]. Com relação a determinar a contribuição do trabalho humano no âmbito da produção de mercadorias imateriais, Huws argumenta que, enquanto pode “ser difícil fazer um modelo”, isso “não torna a tarefa impossível”. Ou, nas palavras de David Harvie, “todos dia, as personificações do capital – privadas ou estatais – fazem julgamentos sobre o valor e sua medida” em seu esforço “para reforçar a conexão entre valor e trabalho “, Ele acrescenta:

“Hardt e Negri podem acreditar na ‘impossibilidade de o poder conseguir calcular e ordenar a produção em nível global’, mas ‘o poder’ nunca parou de tentar, e a ‘impossibilidade’ de seu projeto deriva diretamente de nossas próprias lutas contra a redução da vida à medida [29].”

Outros rumos?

Há não muito tempo atrás, Dr. Woo me indicou uma apresentação de Brian Holmes, intitulada “Deriva continental ou o outro lado da globalização neoliberal” [30]. Em grande parte, seu discurso é uma reflexão sobre os argumentos de Império de Hardt e Negri , aproveitando o retrospecto fornecido por cinco anos de eventos desde a publicação do livro. Para Holmes, muitos dos argumentos apresentados em Império foram importantes para desafiar os lugares comuns sobre como elaborar a “visada ampla” das relações de poder global, forçando uma reconsideração de termos tais como globalização e imperialismo. Mas se o livro ajudou a desfazer alguns equívocos, ele praticamente não teve êxito em suplantá-los com pontos de vistas mais adequados.

“Deriva Continental” aborda uma série de questões, mas Holmes levanta três pontos que têm grande relevância para a nossa discussão atual. Primeiramente, um foco privilegiado no “trabalho imaterial” é cada vez mais insatisfatório para os esforços de entender o que está acontecendo na composição de classe contemporânea. Em segundo lugar, os eventos globais, desde a publicação do Império, lançam dúvidas sobre a utilidade de ver a dominação do capital como um espaço liso que não tem centro(s). E em terceiro lugar, é preciso dar mais atenção para as razões pelas quais o mundo das finanças tornou-se um aspecto crucial do domínio do capital em nosso tempo. Quanto ao primeiro ponto, Holmes oferece algumas críticas semelhantes àquelas feitas por Dyer-Witheford. Se o conceito de trabalho imaterial é importante para analisar certos tipos de trabalho “nos chamados setores terciários ou de serviço das economias desenvolvidas”, falar de sua hegemonia pode obscurecer não apenas “a divisão global do trabalho” e, assim, “a precisa condição em que as pessoas trabalham e se reproduzem “, mas também como “elas concebem sua subordinação e sua ação possível, ou seus desejos de mudança”. Quanto ao segundo ponto, Holmes argumenta que o capitalismo global é melhor compreendido através da análise de “blocos regionais”, como a União Européia ou o envolvimento cada vez maior entre a China, o Japão e o Sudeste Asiático. Finalmente, ele acredita que é necessário uma compreensão muito melhor do papel do dinheiro – e das finanças, acima de tudo – no esforço do capital para manter o controle nos níveis internacional e individual (a esse respeito, ver também os escritos de Loren Goldner sobre capital fictício ) [31].

As explorações mais ricas dos blocos regionais que encontrei são aquelas desenvolvidas pelos analistas de “sistemas mundiais, como Immanuel Wallerstein, Giovanni Arrighi e Silver Beverly. Curiosamente, seus esforços para explicar o surgimento de um novo ciclo de acumulação global com epicentro na Ásia estão intimamente ligados com uma tentativa de entender por que a expansão do capital-dinheiro tomou o primeiro plano ao longo dos últimos 30 anos. Para eles, a predominância da expansão financeira é sintomática de uma fase necessária no ciclo de acumulação, quando, a medida que incertezas vão se acumulando sobre a lucratividade da produção, indústrias são realocadas, o capital fica ocioso e os trabalhadores são pilhados, e “uma acentuada aceleração da polarização econômica [ocorre] a nível mundial e dentro dos estados” [32]. Nos últimos tempos, Arrighi (que também escreveu um dos comentários mais considerados de Império) dedicou grande parte de seus esforços para compreender as fortunas minguantes do estado e do capital nos EUA nesse processo [33], enquanto  Silver tem se concentrado nas perspectivas que  os trabalhadores  contemporâneos enfrentam em uma época de fuga de capitais [34]. A obra desses autores (muitas estão na internet) vale uma olhada: em parte pelos desafios que oferecem a várias ortodoxias radicais, mas também pela profundidade de análise que eles realizam dos conflitos entre e dentro das forças do trabalho e do capital hoje.

Há ainda muito por desemaranhar nas questões abordadas aqui. Ao mesmo tempo, existem algumas pistas úteis sobre aonde ir. Por exemplo, a centralidade atual do dinheiro como capital, com todas as peculiaridades que ela implica, pode oferecer uma outra razão pela qual pode parecer que o tempo de trabalho socialmente necessário já não tem qualquer influência sobre a existência do capital como valor em busca de maior valor. Aventuras especulativas – abundantes na última década – parecem fazer dinheiro do nada. Mas, na verdade, eles não fazem nada para aumentar a reserva total de valor gerado pelo capital. Na melhor das hipóteses, eles redistribuem o que já existe. De modo duvidoso, eles procuram contornar a esfera da produção para, ao invés, fazer dinheiro “da aposta na futura exploração do trabalho” [35]. Enquanto isso, o débito continua a inchar, desde a micro escala do indivíduo e do cartão de crédito familiar, até o macro nível dos orçamentos públicos e dos déficits em conta corrente. Quaisquer que sejam as formas engenhosas pelas quais o fardo dessa dívida será redistribuído, os termos da aposta não podem ser antecipados para sempre. Quando forem finalmente cobradas, as coisas vão se realmente tornar muito interessantes. No mínimo, podemos então descobrir finalmente se, como Madonna cantou:

The boy with the cold hard cash Is always Mister Right, ’cause we are Living in a material world.

Steve Wright <pmargin@optusnet.com.au> trabalha na Monash University e é o autor deStorming Heaven: Class Composition and Struggle in Italian Autonomist Marxism, London: Pluto Press

Veja também:

A logística e a fábrica sem muros (Brian Ashton, 2006)

A escassez artificial em um mundo de superprodução: uma saída impossível(Sander, 2010)

Serviços: subsunção formal (Endnotes, 2010)

A rede de lutas na Itália (Romano Alquati, anos 1970)

Notas

1 Agradeço a Hobo por me contar esta história. Agradeço também a Angela Mitropoulos e Nate Holdren pelas úteis sugestões a este texto. Todos os erros são meus, etc.

2 Para a melhor introdução sobre o pós-obreirismo, ver Generation Online website http://www.generation-online.org

3 Negri, A. (1994) ‘Oltre la legge di valore’, DeriveApprodi 5-6, Winter

4 Lazzarato, M. (1996) ‘Immaterial Labour’, in P. Virno & M. Hardt (eds.) Radical Thought in Italy: A Potential Politics. Minneapolis: University of Minnesota Press, p.133

5 Ibid, p.137

6 Ibid, p.136

7 Hardt, M. & Negri, A. (2000) Empire. Cambridge: Harvard University Press, p.30

8 Ibid, p.292

9 Ibid, p.290

10 Henwood, D. (2003) After the New Economy. New York: New Press, pp.184-5

11 Dyer-Witheford, N. (2005) ‘Cyber-Negri: General Intellect and Immaterial Labour’, in Murphy, T. & Mustapha, A. (eds.) Resistance in Practice: The Philosophy of Antonio Negri. London: Pluto Press, pp.151-55

12 Hardt & Negri (2000), op. cit., p294

13 Huws, U. (2003) The Making of a Cybertariat. New York: Monthly Review Press, p.138

14 Hardt, M. & Negri, A. (2004) Multitude: War and Democracy in the Age of Empire. New York: Penguin, p.109

15 Ibid, p.114

16 Ibid, p.115

17 Huws, op. cit, p.130

18 Bologna, S. (1992) ‘Problematiche del lavoro autonomo in Italia (I)’, Altreragioni 1, June, pp.20-1

19 Ibid, pp.22-4

20 Caffentzis, G. (2005) ‘Immeasurable Value?: An Essay on Marx’s Legacy’, The Commoner 10, Spring/Summer

21 Marx, K. (1973) Grundrisse. Hardmondsworth: Penguin, p.705

22 Negri, (1994), op. cit., 28

23 Marx, op. cit., 706

24 Caffentzis, G. (1997) ‘Why Machines Cannot Create Value or, Marx’s Theory of Machines’, in J. Davis, T. Hirschl & M. Stack (eds.) Cutting Edge: Technology, Information, Capitalism and Social Revolution. London: Verso

25 Harvie, D. (2005) ‘All Labour is Productive and Unproductive’, The Commoner 10, Spring/Summer

26 Marx, K. (1976) ‘Results of the Immediate Process of Production’, now in Capital Vol. I. Hardmondsworth: Penguin, quoted in H. Cleaver, H. Cleaver (2001) Reading Capital Politically. Second Edition. Antithesis

27 Henwood, op. cit.

28 Huws, op. cit., pp.142-3

29 Harvie, op. cit., pp.151-154

30 Holmes, B. (2005) ‘Continental Drift Or, The Other Side of Neoliberal Globalization’, http://info.interactivist.net/article.pl?sid=05/09/27/131214&mode=nocomment&tid=90

31 Goldner, L. (2005) ‘China In the Contemporary World Dynamic of Accumulation and Class Struggle’, http://home.earthlink.net/~lrgoldner/china.html, and L. Goldner (2005) ‘Fictitious Capital and the Transition out of Capitalism’, http://home.earthlink.net/%7Elrgoldner/program.html

32 Wallerstein, I. (2003) The Decline of American Power. New York: The New Press, p.275

33 Arrighi, G. (2005a) ‘Hegemony Unravelling – 1’, New Left Review 32, March-April, and, Arrighi, G. (2005b) ‘Hegemony Unravelling – 2’, New Left Review 33, May-June

34 Silver, B. (2002) Forces of Labour. Cambridge: Cambridge University Press

35 Bonefeld, W. & Holloway, J. (1995) ‘Conclusion: Money and Class Struggle’, in Bonefeld, W. & Holloway, J. (eds.) Global Capital, National State, and the Politics of Money. New York: St. Martin’s Press, pp.213-4 

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